Como Irritar Um Capitão Pirata
44 Capítulo 40 - Bem vindo a Storybrooke
Notas iniciais
Capítulo 40 – Bem vindo a Storybrooke
Storybrooke, Maine. 28 anos depois.
Storybrooke amanheceu ensolarada como sempre naquela manhã de 24 de outubro. Eram pouco mais de seis da manhã e os raios de sol já adentravam pelas janelas das casas, convidando as pessoas a despertarem para mais um dia.
O despertador de Killian Jones tocou às sete e quinze. Ele abriu os olhos, praguejando, e desligou o maldito barulho que reverberava pelo quarto. Piscou, suspirou e se livrou das cobertas, levantando-se. Fez seu caminho até o banheiro e tomou um rápido banho frio, reclamando por ter que ir trabalhar.
“Um dia eu ainda vou arrumar coisa melhor”, ele disse a si mesmo enquanto se enrolava em uma toalha “Vou ter meu barco e vou sair por aí em busca de aventuras”.
Caminhou até a cozinha e fez menção de ligar a cafeteira, para que o café fosse preparado enquanto ele se vestia. Todas as manhãs, Killian preparava seu café e ovos mexidos – o que era uma tarefa difícil, já que ele era desprovido de uma das mãos. Ele não podia se dar ao luxo de comer bem todos os dias, mas às vezes também fazia torradas. Mas dessa vez, algo o fez mudar de ideia. Ele simplesmente parou no meio da cozinha e ficou olhando para a cafeteira. Por que ele fazia isso todas as manhãs? Por que ele sempre seguia aquela rotina?
Todos os dias, com exceção dos domingos, o rapaz fazia tudo igual. Ele acordava às sete e quinze, ia até o banheiro, fazia suas necessidades e tomava banho. Depois saía enrolado na toalha e ligava a cafeteira. Então se vestia para o trabalho, penteava os cabelos e preparava seus ovos mexidos. Comia rapidamente, depois escovava os dentes e caminhava até a peixaria. Ao meio-dia ele fazia uma pausa para o almoço, quando comia junto dos colegas. Trabalhava até as cinco da tarde. Então ia para casa e se trancava naquele seu mundo. Tomava um banho, comia qualquer coisa e se sentava de frente para a TV. Ele dormia todos os dias às dez horas, pontualmente.
Nos domingos, Killian não fazia nada de especial. Ele só acordava mais tarde e às vezes caminhava pelas docas, admirando os barcos que ficavam por ali. Mas sua vida se resumia nisso e só agora ele percebia. Por que ele sempre fazia tudo do mesmo jeito? Ele era sempre pontual em tudo. Era como se seu corpo fosse um relógio programado a fazer as tarefas sempre no mesmo horário...
Ele ainda encarava a cafeteira. “Talvez eu devesse fazer algo de diferente”, pensou. “Eu deveria tomar café fora de casa. É... por que não? Pelo menos uma vez na vida...”
E foi com esse pensamento que ele foi até o quarto e trocou de roupa. Havia uma lanchonete muito famosa na cidade, o Granny’s. Killian sempre passava em frente, mas nunca chegara a entrar lá. Mas dessa vez era diferente, era como se algo estivesse dizendo que ele devia estar lá.
Ele vestiu seu horrível uniforme branco de peixeiro. Uma calça, uma blusa e uma bota brancos. Também havia uma touca branca que a dona da peixaria obrigava os funcionários a usar. Sem mencionar o avental branco... Ele se olhou no espelho e quase desistiu de tomar café publicamente. Se envergonhava por ser um simples peixeiro. Como poderia sentir-se orgulhoso de si mesmo, quando usava um uniforme feio como aquele? Então ele decidiu vestir uma outra roupa por cima do uniforme: calça jeans, blusa xadrez e trocou as botas por um par de tênis surrados. Enfiou a touca num dos bolsos e torceu para que a patroa não notasse que ele usava tênis.
Ele se olhou no espelho e gostou de sua aparência. Penteou os cabelos — mesmo sabendo que os fios nunca ficavam no lugar -, escovou os dentes, apanhou a carteira, e caminhou até o Granny’s.
Killian era do tipo de pessoa que caminhava encarando o chão. Ele se envergonhava de si mesmo. Tinha altos e baixos, mas com uma freqüência maior do que as outras pessoas. Seu amigo Orlando dizia que isso era baixa autoestima e Killian vivia menosprezando a si mesmo, sem conseguir enxergar seu valor no mundo. Ele caminhou distraído até descobrir que já estava bem em frente ao Granny’s. Nervoso, ele atravessou a rua e passou pela porta.
A lanchonete era bem movimentada àquela hora. Killian não costumava ser uma pessoa muito sociável, mas se viu sendo cumprimentado por cinco ou seis pessoas e balbuciou um simples “bom-dia” como resposta. Quase todas as mesas já estavam ocupadas. Algumas pessoas estavam sentadas no balcão e outras se sentavam nos típicos sofás estofados que toda lanchonete americana costumava ter. Ele encontrou uma mesa nos fundos da lanchonete e se encaminhava para lá – distraído como sempre – quando alguém veio na mesma direção que ele e quase o derrubou.
– Opa!
Ele só teve tempo de entender que esbarrara numa das garçonetes e segurou a bandeja que a moça carregava antes que a comida caísse no chão. Mas como ele era muito azarado, uma xícara de café entornou e molhou sua roupa.
– Ah meu Deus! Me desculpe! – a moça exclamou – Como sou distraída...
Ele ergueu os olhos para olhá-la e foi como se uma corrente elétrica passasse por seu corpo quando os olhares se encontraram. Ficaram se olhando por uns segundos, até que uma voz de idosa guinchou:
– Menina estúpida, olha o que você fez!
Era a Vovó, a dona da lanchonete. Furiosa, ela empurrou a garçonete para o lado e pegou a bandeja que Killian ainda segurava com uma mão só.
– Limpe essa bagunça imediatamente – ela ordenou e a moça obedeceu, muito envergonhada. A senhora se voltou para Killian – Mil desculpas! Ruby é tão distraída...
Ruby... então esse era o nome dela...
– Tudo bem...
– Vá se limpar lá nos fundos. Eu posso lavar a camisa se quiser, mas vai ter que esperar secar.
– Está tudo bem – Killian disse olhando para Ruby pelo canto dos olhos – Não precisa se preocupar.
Ele encontrou uma porta nos fundos, que dava numa pequena lavanderia. Ele poderia lavar a roupa, mas não tinha tempo para esperar que secasse. Merda! Por que tudo acontecia a ele? Mas ainda assim, fora melhor do que ele esperara. Provavelmente Ruby viria pedir desculpas depois e então ele poderia conversar com ela. Não conseguia esquecer o que sentira quando seu olhar encontrou o dela. Foi como amor à primeira vista, se é que isso existia...
Ele limpou a blusa como pôde, mas de todo jeito uma enorme mancha escura ainda era visível. Killian suspirou e voltou à lanchonete, onde Ruby estava fora de vista e a avó dava ordens o tempo todo e reclamava da lerdeza dos funcionários. Ele se sentou à mesa que vira antes e ignorando os olhares das pessoas, se concentrou no cardápio. Estava indeciso entre pedir panquecas com mel ou ovos com bacon, quando um belo par de pernas veio caminhando em sua direção. Killian sorriu, já sabendo de quem se tratava, e ergueu os olhos se deparando com uma Ruby envergonhada.
– Desculpe por isso – ela disse e apontou para sua camisa manchada – Eu não tinha a intenção de...
– Está tudo bem – ele a interrompeu.
Ela usava roupas extremamente curtas: uma minissaia vermelha, uma blusa branca amarrada acima do umbigo e sapatos de salto alto. Seus cabelos lisos e negros caíam por cima dos ombros e ela tinha algumas mechas vermelhas. Usava batom vermelho e maquiagem preta nos olhos. Ela sorriu:
– E então, o que vai querer? Pode pedir o que quiser, é por conta da casa.
Killian levou um segundo para responder, ainda impressionado com a beleza da moça:
– Hum... ahn... eu estou meio indeciso sabe...
– Sugiro que prove nossas deliciosas panquecas. É receita de família – ela respondeu toda simpática.
– Certo. Vou seguir seu conselho – ele sorriu e ela puxou um bloquinho de anotações, onde anotou o pedido.
– Que molho vai querer? Framboesa, amora ou mel?
– Amora está bom...
– Boa escolha! – ela fez mais umas anotações e em seguida o olhou – Você é novo na cidade?
– Não, eu moro em Storybrooke há anos, mas é a primeira vez que venho aqui.
– Ah isso explica por que eu nunca te vi por aqui...
– Ruby! – a avó chamou – Os clientes estão esperando...
–Tá bem, já estou indo... – Ruby resmungou.
Ela se afastou e Killian teve a ligeira sensação de que a Vovó provavelmente não ia gostar se ele conversasse com Ruby. Era estranho, mas era como se ele já tivesse passado por aquilo antes. Ignorou o fato de a Vovó estar o encarando por cima dos óculos e voltou sua atenção para a decoração do lugar. Era uma lanchonete confortável e ele podia afirmar para si mesmo que iria lá mais vezes. Minutos depois, Ruby trouxe uma enorme pilha de panquecas com molho de amora escorrendo pelos lados.
– Parece bom! – Killian comentou.
– Bom apetite! – ela disse e foi servir outros clientes.
Ele ficou observando Ruby ir pra lá e pra cá servindo os clientes. Entre uma garfada e outra, Killian pensava que ela era mesmo muito bonita. Ruby parecia meio periguete com aquela saia tão curta, mas era bem simpática e carismática com as pessoas. Killian estava realmente encantado por ela.
Quando Killian se levantou para ir embora, Ruby veio até ele e perguntou o que achara das panquecas.
– Estavam ótimas. Obrigado! Quanto é?
– Não, não, é por conta da casa. Para compensar essa mancha na sua camisa.
– Mas eu deveria pagar por isso... – não parecia certo comer ali de graça.
– Não se preocupe com isso. Espero que volte mais vezes...
Isso significava que ela queria vê-lo novamente? Killian sorriu e se despediu agradecendo. Estava feliz da vida e seus olhos brilhavam como diamantes. Ele não sabia por que, mas estava tão contente que até se esqueceu de encarar o chão, no caminho até a peixaria...
***
– Está atrasado! – sua patroa disse irritada, quando ele chegou atrasado para o trabalho. Já passava das oito e quinze e ele deveria ter chegado às oito horas.
– Eu sei, é que...
– Não quero saber! – ela retrucou e o olhou de cima a baixo – Onde está seu uniforme? E por que está usando tênis?
– Eu já vou me trocar – ele fez seu caminho até o banheiro e ouviu a voz da mulher atrás dele.
– Eu não vou tolerar isso mais uma vez. Seja pontual!
Ele bufou. Sempre fora pontual. A peixaria sempre abria às 08h00min, mas ele chegava sempre cinco minutos antes. Ela nunca o elogiara pela pontualidade, mas era só ele se atrasar que ela vinha com sermão. Mas ele não devia reclamar, pois era aquele emprego que pagava suas contas.
– E aí irmão? Tendo um dia difícil? – seu amigo Orlando, que também trabalhava na peixaria, perguntou quando Killian tomou seu lugar no balcão. Pelo visto o rapaz não estava com uma cara muito boa e Orlando tinha o dom de perceber quando Killian não estava bem.
– A bruaca me chamou a atenção por que eu cheguei quinze minutos atrasado – Killian resmungou, tentando amarrar o avental branco por cima do uniforme – Mas ela nunca me elogia quando eu chego tipo meia hora mais cedo.
Orlando riu e se apressou a amarrar o avental para Killian.
– Você nunca se atrasa, o que aconteceu?
– Fui tomar café no Granny’s e esqueci da hora.
– É mesmo? Pensei que tivesse dito que seu salário não permitia que tomasse café fora. O que está acontecendo com você? Chegando atrasado, tomando café da manhã no meio de outras pessoas... Não sei não, Killian, mas acho que algo aconteceu para mudar você...
E acontecera mesmo, mas eles não sabiam. Todos ali eram amaldiçoados. Killian não se lembrava, mas ele um dia fora Capitão Gancho e enfrentara dezenas de perigos a bordo de seu navio. É claro, isso acontecera há 28 anos. O tempo ali era congelado. Quero dizer, era...
Há dois dias uma loira bonita chegara à cidade. Seu nome era Emma Swan e foi uma surpresa e tanto quando as pessoas descobriram que ela era mãe biológica de Henry, o filho da prefeita. Que Henry era adotado todo mundo sabia, mas ninguém esperava que sua verdadeira mãe fosse aparecer assim de uma hora para outra. O próprio Henry a encontrara. A verdade é que as coisas começaram a mudar no minuto em que Emma decidira ficar na cidade. E quando ela fez isso, a vida daquelas pessoas também começara a mudar. Foi por isso que Killian fizera coisas diferentes naquela manhã.
– Já estou cansado dessa vida – Killian reclamou pela milésima vez – Não vejo a hora de me livrar desse uniforme ridículo e cair no mundo.
– Você diz isso há anos, mas nunca faz nada para mudar sua vida – disse Orlando, recostado ao balcão. – Se não fizer nada, vai ser peixeiro até o fim de seus dias...
– E o que quer que eu faça hein? Se eu pelo menos tivesse duas mãos ao invés de uma... Olhe só pra mim, não passo de um pobretão. É por isso que nenhuma garota quer nada sério comigo...
– Eu já disse o que tem que fazer. Duas palavras: Archie Hopper. Consulte-se com ele, talvez ele possa ajudá-lo. Sua autoestima deve estar se arrastando no chão.
– Eu não vou a um médico de loucos. Felizmente, ainda não cheguei ao ponto de precisar de remédios para me manter são.
Orlando ia responder que psicólogos não eram médicos de loucos, mas nesse momento a patroa interrompeu a conversa.
– Vamos! Ao trabalho! Ou será que querem um desconto no salário? Menos papo e mais ação.
– Não sei como ainda agüento essa mulher – Orlando resmungou baixinho depois que a patroa se afastou.
Um carregamento de peixes chegou e eles foram ajudar a esvaziar o caminhão. Killian detestava aquilo, ele estava sempre cheirando a peixe e tinha certeza de que aquilo espantava as mulheres. O coitado nunca tivera um namoro sério e sempre se apaixonava pela pessoa errada. Orlando dizia que ele ainda ia encontrar alguém e Killian agora tinha quase certeza de que encontrara essa pessoa. Ruby!
Killian ainda estava abobado. Como ele nunca vira Ruby antes? Storybrooke não era exatamente uma mega cidade e bem, ele já passara em frente ao Granny’s várias vezes. Também, distraído como andava, era de se esperar que não notasse as coisas. A verdade é que Killian sempre andava encarando o chão. Envergonhado demais de si mesmo, ele se considerava tão inútil que achava que as pessoas não mereciam passar por ele e encarar seu rosto de perdedor e pobre coitado. Também, pobretão como era, nunca se dera ao luxo de fazer suas refeições numa lanchonete tão bem freqüentada como o Granny’s. Ele simplesmente nunca entrara lá, e era por isso que não conhecia a Ruby.
– Você está no mundo da lua – Orlando riu ao notar que Killian estava distraído – Que aconteceu? Quando você fica assim só pode ser uma coisa...
– Acho que to apaixonado... – ele disse sonhador e pensando em Ruby.
– Eu sabia! – Orlando riu de novo – Eu te conheço, Killian, sabia que tinha algo de errado. Quem é dessa vez?
– Não vou dizer, você vai rir de mim.
E Killian manteve aquela nova paixão apenas para ele. Orlando não precisava saber de tudo. E além do mais, Ruby não era para o bico de Killian. Provavelmente ela só ia ser mais um amor platônico.
***
Killian Jones se sentou de frente para a TV, cansado e desanimado demais para qualquer outra coisa. Ele mudava de canal insistentemente, à procura de algo que o entretivesse. Parou num canal de filmes e o Titanic afundava nas águas geladas do Atlântico, enquanto Jack e Rose tentavam salvar suas vidas.
Killian nunca gostara muito de romances dramáticos, mas aquele filme era sobre um navio e ele era simplesmente apaixonado por navios e embarcações a vela. Nunca tivera um navio, no entanto, e nem mesmo um barco a motor ou a vela. Ele assistiu ao filme, até que as coisas se tornaram realmente dramáticas. Era a clássica cena em que Rose tentava sobreviver, deitada sobre um pedaço flutuante de madeira, e Jack se mantinha a seu lado, já congelando, mas também tentando viver.
– Eu te amo, Jack – diz Rose
– Não faça isso – Jack adverte – Não se despeça. Ainda não. Você está me entendendo?
– Mas eu estou com tanto frio – responde Rose.
– Ouça, Rose, você vai sair daqui, você vai prosseguir...
Killian sentiu seus olhos umedecendo e mudou de canal antes que começasse a chorar como um condenado. Filmes de amor constantemente o lembravam de que ele estava sozinho, e por este motivo, ele tinha uma tendência a evitar romances. Acabou caindo no canal local de Storybrooke. Ele não gostava da programação e tentou mudar novamente, mas o controle remoto não funcionava. “Malditas pilhas”, ele pensou irritado. E resolveu deixar naquele canal mesmo.
No intervalo comercial, Sr. Gold convidava os telespectadores a visitar sua loja de penhores. Imediatamente, Killian se lembrou que estava devendo o aluguel. Droga! Com certeza Gold viria cobrá-lo mais tarde e ele ainda não tinha todo o dinheiro. A única solução seria recorrer ao seu amigo Orlando e pedir dinheiro emprestado. Mas ele não queria pensar nisso agora. A imagem daquela garota não lhe saía da cabeça...
Em seguida passou outra propaganda e Killian literalmente babou. Ruby apareceu na tela usando seu uniforme de garçonete, que consistia em uma minúscula saia vermelha e uma blusa branca amarrada acima do umbigo. Ela sorria para a câmera:
– Venha comer no Granny’s, servimos café da manhã, almoço e jantar. Aqui você é bem recebido e os preços são camaradas. – imagens da lanchonete mostravam clientes satisfeitos sorrindo para a câmera ou se deliciando com a comida, enquanto a voz de Ruby continuava narrando – Servimos panquecas, salsichas e a deliciosa lasanha especial da Vovó. – imagens de comida passaram pela tela – Quer hospedagem por uma noite? Nossa pensão é o lugar certo para você. – imagens de quartos bem arrumados passaram pela tela e depois uma janela com vista para a floresta – Quartos confortáveis com vista para a floresta ou para a praça, banheiro privativo e café incluso. Não perca tempo e nos faça uma visita. Ligue: 868630011.
Killian se esqueceu de fechar a boca, de modo que continuou a babar mesmo depois que a propaganda acabou. Estaria apaixonado? Bobagem, ele mal conhecia aquela garota... E, no entanto, tinha a ligeira impressão de já tê-la visto em algum lugar, mas era uma sensação estranha como... como se tivesse sido em outra vida. Ele balançou a cabeça e piscou os olhos.
“Estarei louco?”, pensou. Talvez estivesse, mas talvez... talvez Ruby fosse diferente das outras mulheres. Talvez fosse ela a mulher perfeita para Killian. “Que é que estou pensando? Ela mal me conhece...”
Uma vinheta em azul e branco anunciou o jornal Storybrooke News, em seguida a imagem mudou para dois apresentadores no estúdio.
– Boa noite! Eu sou Roberto Gaivota. – cumprimentou o apresentador, um rapaz bonito de uns vinte e poucos anos.
– E eu sou Sirena Harbor – disse a outra apresentadora, que também era muito bonita e devia ter uns vinte e cinco anos – e está começando mais um Storybrooke News.
Killian não gostava muito desse jornal, porque ele considerava Storybrooke um lugar desinteressante demais. No entanto, ele não tinha nada melhor para fazer e estava com preguiça de se levantar para mudar de canal.
– A prefeita Mills anunciou hoje que se recandidatará na próxima eleição. – Roberto tomou a palavra – Ela afirma que quer continuar fazendo melhorias pela cidade e espera que a população de Storybrooke a reeleja para mais um mandato.
– Nossa repórter Rose Bells esteve no gabinete da prefeita. – falou Sirena.
A imagem mudou para uma mulher bonita e imponente sentada à mesa, enquanto uma loirinha bonitinha segurava o microfone.
– Depois de tantos anos regendo essa cidade, era natural que eu me candidatasse novamente. Storybrooke é uma cidade que cresce em ritmo acelerado e com certeza ainda há muitas melhorias a serem feitas – disse a mulher e o nome Regina Mills apareceu na tela.
– A senhora acredita que será reeleita? – perguntou a repórter.
– Com certeza! Se o povo está satisfeito com o que eu venho fazendo, a expectativa é que escolham o que é melhor para a cidade.
– E quanto aos novos projetos que a prefeitura anunciou?
– Ah sim, estamos com um novo projeto de reabertura da Biblioteca Municipal. Nosso objetivo é trazer nossas crianças e jovens para o mundo mágico da leitura e para isso, uma reforma vai ser realizada na Biblioteca a partir do mês que vem.
A prefeita continuou falando dos projetos da prefeitura e a mente de Killian começou a vagar. Ele só pensava em Ruby e com certeza devia estar enlouquecendo. Talvez devesse seguir os conselhos de Orlando e procurar um psicólogo.
A reportagem com a prefeita terminou e Killian se perguntou por que sempre votava nela. Ela estava há tanto tempo no cargo que ele mal se lembrava do prefeito anterior.
– E falando na Biblioteca Municipal, um fato surpreendeu os moradores de Storybrooke esta manhã – a câmera focou em Roberto – O relógio da torre voltou a funcionar. Pelo visto a Prefeita Mills já começou a obra de recuperação da biblioteca.
E pensando bem, Killian nunca vira aquele relógio funcionar. Ele morava em Storybrooke há tantos anos... Talvez andasse tão distraído que nem reparava nas coisas.
– Esperamos que todos sejam pontuais – Sirena brincou.
– Vamos agora para um rápido intervalo e no segundo bloco Dr. Whale fala sobre uma vida saudável e os riscos de um infarto...
– E a previsão do tempo com Ariela Mermaid.
Killian não estava com paciência de ouvir um médico metido falando de problemas de saúde e outras coisas mais. Vez ou outra o Dr. Whale era convidado pelo jornal e tentava convencer as pessoas a levarem uma vida mais saudável. O rapaz resolveu fazer outra coisa e desligou a TV. Orlando ainda devia estar acordado e já que ele morava no apartamento ao lado, Killian foi bater à sua porta. Ele praticamente esmurrou a porta e Orlando fez cara feia ao atender:
– Que é? – balbuciou meio sonolento – São quase onze horas, cara, eu to com sono.
– Desculpa, é que eu precisava falar com alguém.
– Entra! – o outro suspirou – Quer alguma coisa?
– Não, obrigado.
Os dois se sentaram no sofá. Orlando era o mais próximo de um psicólogo para Killian e mais uma vez, o rapaz se viu na tarefa de ouvir o amigo.
– Acho que estou enlouquecendo – Killian começou – Eu conheci uma pessoa e estou completamente encantado por ela. Mas é tão estranho... eu realmente não sei o que pensar...
– Vai com calma, tá? – Orlando foi até a geladeira e pegou duas cervejas, mesmo sabendo que Killian não iria beber – Me explica isso direito.
– Não vai me achar um louco, ok? Bem, o caso é que eu conheci essa garota. Ela trabalha no Granny’s e...
– Não vai dizer que é a Ruby. – Orlando voltou a se sentar e ofereceu uma cerveja a Killian, que recusou.
– Você a conhece?
– É claro, e quem não conhece aquela maluca? Mas cara, está mesmo interessado nela? Nem acredito...
– Por quê? O que tem de errado nisso?
– Nada, é que a Ruby não parece ser seu tipo. – Orlando tomou um gole de sua cerveja e arrotou – Quero dizer, você sempre gostou das certinhas.
– É, eu sei. Ela é meio periguete, mas eu sei que ela é a mulher da minha vida. No momento em que nossos olhares se encontraram, foi como amor à primeira vista.
Orlando olhou pra ele muito sério e depois caiu na gargalhada. Killian ficou indignado com a falta de consideração do amigo.
– Imbecil! Eu aqui abrindo meu coração e você rindo da minha cara... — Killian ficou muito sério e ficou observando o amigo enquanto ele se acabava de rir.
– Cara, você bebeu de novo né? – Orlando tomou fôlego – Eu sabia! Pra estar falando assim...
– Eu não bebi! E eu lá tenho dinheiro pra bebida? Eu mal tenho grana pra pagar o aluguel...
– Desculpa, cara. – o outro enxugou as lágrimas que se formaram pelo riso – Eu não me agüentei. É sério isso que está me falando? Essa conversa de amor à primeira vista?
– É sério, muito sério. A Ruby é a mulher da minha vida!
Orlando voltou a cair na gargalhada e riu tanto que fez xixi nas calças.
– Você é muito engraçado, cara, muito mesmo. Eu quase caí na brincadeira... – o outro ainda ria, mas ficou sério ao ver a cara de Killian – Espera, não é brincadeira?
– Obrigado por me ajudar! – Killian saiu batendo a porta e voltou para seu apartamento. Orlando foi atrás.
– Desculpa, cara, mas é que essa história é tão engraçada – ele fez menção de se sentar no sofá. Suas calças estavam realmente bem molhadas de urina.
– Não senta aí! – Killian protestou, sentado à sua poltrona.
– Calma! – Orlando continuou de pé – Mas como é que você se apaixonou assim, de uma hora para outra?
– Eu não sei, simplesmente aconteceu.
– Isso é amor platônico, já aconteceu comigo...
– Não, é de verdade. Eu sei... eu sinto isso. Parece que eu a conheço de algum lugar, mas...
– Ah tipo um déja vu?
– Não... o quê? Nada a ver... Eu a conheço de algum lugar, entende? Mas é como se fosse um lugar muito distante, tipo outra vida.
– Killian, você não bebeu mesmo, né? – Orlando perguntou desconfiado.
– Já disse que não! – Killian irritou-se.
– É que essa sua conversa ta muito estranha. Sabe de uma coisa? Você devia procurar um psicólogo...
– Tá me achando maluco, né?
– Não, não é isso. Por que você é muito inseguro, eu vivo falando isso pra você. Eu conheço um ótimo psicólogo, o doutor Hopper.
– Eu não tenho dinheiro nem pra psicólogo... – Killian falou deprimido.
– Olha, eu posso te emprestar.
– Obrigado. Eu vou te pagar tudo quando puder.
– Não precisa, você é como um irmão pra mim, sabe disso não sabe? – Orlando deu um tapinha no ombro do amigo.
– É claro... – o outro sorriu – Agora é melhor trocar essa roupa molhada...
Orlando riu, desejou boa noite e foi para casa. Killian demorou a pegar no sono, ficou pensando em Ruby e achou que estava mesmo louco. Dormiu e teve um sonho estranho. Ele era capitão de um navio pirata e tinha seqüestrado Ruby, que era uma princesa. Ele não se lembrou do sonho quando acordou na manhã seguinte, animado para tomar o café.
***
Killian não costumava ser vaidoso, mas dessa vez precisava caprichar. Queria causar uma boa impressão em Ruby, assim talvez pudessem virar amigos e ele iria chamá-la para sair. O homem tomou um rápido banho frio e se vestiu da maneira mais casual que conseguiu: blusa xadrez, jeans e tênis. Não queria que sua mão defeituosa ficasse em evidência, de forma que colocou um sobretudo por cima da roupa. Tinha feito a barba dois dias atrás e ela já crescia novamente, mas Killian resolveu deixar assim porque daria um charme a mais. Por fim passou um perfume e se admirou no espelho, pela primeira vez se sentindo bonito e atraente.
Foi bater à porta de Orlando e o rapaz atendeu rapidamente, já sabendo que se tratava de Killian.
– E então, como estou? – perguntou Killian abrindo os braços. Orlando ergueu uma sobrancelha.
– Arrumado demais. Tire o sobretudo.
– Não! Não quero que as pessoas fiquem olhando pra isso – ele ergueu o braço defeituoso. Tinha perdido a mão esquerda num acidente e isso sempre chamava a atenção das pessoas.
– Que bobagem! Ninguém vai reparar nisso.
A opinião de Orlando, que era bem cobiçado pelas mulheres, era muito importante para Killian, de forma que ele concordou em tirar o casaco. Orlando sorriu e disse que ele estava ótimo. Depois os dois caminharam até o Granny’s para o café da manhã. Eram pouco mais de sete horas e eles tinham tempo suficiente para tomar café e conversar antes do trabalho.
Eles moravam num prédio de apartamentos, próximo às docas. Àquela hora a maioria das pessoas saía para o trabalho e outras faziam seu caminho até o Granny’s. Killian mal podia esperar para ver Ruby. Ele não sabia nada sobre ela e precisava que Orlando o ajudasse com isso. Os dois se sentaram numa das mesas no canto e Killian avistou Ruby atendendo a senhorita Swan, a forasteira que chegara à cidade dois dias atrás.
– Aquela não é a mulher que bateu na placa e acabou presa? – Orlando perguntou se referindo à senhorita Swan. A foto dela tinha saído no jornal da manhã anterior depois que ela aparentemente bebera demais e acabara batendo o carro na placa de Bem vindo a Storybrooke.
– É ela sim. E sabe o que estão dizendo? Ela é a mãe biológica do filho da prefeita.
– Ah deve ser por isso que a prefeita estava com uma cara de quem comeu e não gostou.
Eles riram e Ruby se aproximou.
– Olá rapazes! O que irão querer? – perguntou simpática como sempre.
– Quero um café e uma porção de panquecas com mel – Orlando pediu.
– Eu quero o mesmo. – disse Killian sem conseguir desgrudar os olhos de Ruby. Ele a observou enquanto ela se afastava e Orlando estalou os dedos na frente de Killian.
– Quer um babador? – o outro riu – Entendo que a ache bonita, mas não acha que ela é meio... vulgar?
– Vulgar? – Killian ergueu as sobrancelhas – Por que diz isso?
– Ah fala sério, Killian! – Orlando abaixou a voz – Olha como ela se veste. Sempre de minissaia e exibindo a barriga. E vive dando problemas pra avó. Agora repare nas outras garçonetes. As outras se vestem de forma mais comportada. Ela pode ser educada, mas também vive dando em cima de todo mundo. Apenas a observe e vai entender o que estou falando.
Orlando estava certo. Killian observou enquanto Ruby ia servir o Dr. Whale. Ela ria de algo que o médico falava e estava claro que ele também dava em cima dela. Killian suspirou desanimado.
– Olha, cara, não quero te desanimar nem nada – Orlando falou – Mas ela não é a mulher certa pra você. É melhor arrumar outra.
– Está dizendo isso só porque ela se veste dessa maneira?
– Você não tem olhos na cara? Não é só a forma de se vestir, Killian, é a forma como ela se comporta. Mas é claro que você mal a conhece.
– Sabia que não devíamos julgar as pessoas?
– É, mas todo mundo faz isso.
Eles pararam de falar de Ruby porque nesse momento ela vinha trazendo o pedido deles numa bandeja. Killian comia calado e Orlando observava as mulheres que vinham para comer na lanchonete.
– Nossa, até que essa Emma Swan é bem gata hein? Será que ela é casada? Se bem que parece ser solteira. Por que será que ela deu o menino pra adoção?
– Vai ver não tinha condições de criá-lo.
– Hum, olhe só quem chegou... a senhorita Blanchard – Orlando riu malicioso.
Killian já tivera uma queda pela senhorita Blanchard, que era professora. Ele sempre ficava envergonhado quando a via, mas tudo não passara de um amor platônico. Killian tinha uma tendência a gostar de toda mulher que o tratava bem e uma vez a senhorita Blanchard puxara papo com ele quando o encontrou em uma de suas caminhadas pela praia. Ele não sentia mais nada por ela, mas a considerava uma pessoa simpática.
– Olhe só quem está enrubescendo – Orlando riu.
– Ah para com isso, eu nem gosto dela.
– Devia gostar. Pelo menos ela é uma moça culta e tem um emprego que não exige que ela use minissaias. Mas acho que você está na onda das garçonetes. Em todo caso, considero a Kate bem mais bonita do que a Ruby.
– Quem é Kate?
Orlando olhou na direção de uma outra garçonete. Ela era ruiva e tinha uns olhos verdes muito bonitos. Ao contrário de Ruby, ela não usava uma saia curta e nem exibia metade da barriga.
– Nada do que fizer vai me fazer esquecer a Ruby.
Orlando riu e balançou a cabeça, provavelmente pensando que Ruby ia ser mais um dos amores platônicos de Killian. Era sempre assim, ele sempre se amarrava em uma garota e meses depois se dava conta de que não gostava dela tanto assim.
– Ah já ia me esquecendo, marquei uma hora com o Dr. Hopper pra você.
– Você o quê?
– Hoje, às sete horas. – Orlando continuou ignorando a pergunta de Killian – Não se preocupe, cada sessão custa apenas 40 dólares.
– Eu não vou!
– Mas é claro que vai. Sabia que até o filho da prefeita faz terapia?
– Também, com uma mãe daquelas...
Eles riram e Killian concordou em falar com Hopper.
***
Ele caminhou até o consultório do Dr. Hopper, que ficava no número 3508. Archie Hopper era um homem alto, de olhos azuis e cabelos ruivos. Ele ajeitou os óculos redondos em cima do nariz e sorriu para Killian, fazendo sinal para que o rapaz entrasse.
– Você deve ser o Killian – disse Archie – Seu amigo disse que você precisa muito de minha ajuda.
– Pois é... – Killian estava nervoso. Sempre tivera certo preconceito com essas coisas de psicólogo e terapia e tentou quebrar o nervosismo – Mas acho que sou um caso irrecuperável...
– Por que diz isso, meu rapaz? — Archie se sentou de frente para Killian.
– Bom, é que eu sou muito inseguro. Não acredito em mim mesmo.
– Ah entendo... – Archie fez algumas anotações e Killian olhou em volta.
O consultório parecia mais uma sala de estar do que um consultório. Talvez isso fizesse as pessoas se sentirem mais confortáveis. Havia uma lareira e um espelho pendurado acima dela. O papel de parede era bege com listras e vários quadros enfeitavam as paredes. Havia um cabide para chapéus e uma escrivaninha a um canto. Um conjunto de sofás de couro e pequenos abajures. Também havia um arquivo, onde provavelmente o Doutor guardava as fichas dos pacientes.
– Se importa se eu lhe fizer umas perguntas? É para sua ficha.
– Tudo bem.
Nos trinta minutos seguintes, Killian se viu respondendo a todo tipo de pergunta. Foi o suficiente para que Archie soubesse metade de sua vida. Killian tinha trinta e um anos e morava em Storybrooke há pelo menos doze anos. Fora morar ali depois que seus pais morreram num acidente de carro. Ele era filho único e não tinha mais nenhum parente. Perdera a mão no acidente e ficara um tempão internado no hospital. Tinha alguns poucos colegas de trabalho, mas só um amigo verdadeiro. Fazia aniversário em vinte e seis de janeiro. Não tinha uma namorada e nunca namorara sério. Ele era irlandês e nunca se livrara do sotaque. Trabalhava numa peixaria e detestava o trabalho e a patroa. Ele gostava de barcos e seu maior sonho era ter um barco à vela. Ele também gostava de viajar, mas há muito tempo que não saía de Storybrooke. Ele vivia uma vidinha chata e entediante. Não tinha muitos objetivos na vida. Tudo o que ele queria era ser feliz e ter uma mulher que o amasse.
– Bem, então você se considera uma pessoa insegura? – Archie perguntou e Killian assentiu – E você sempre foi assim? Ou você se tornou inseguro por algum motivo?
– Acho que perder meus pais de certa forma me afetou muito. Eles eram tudo o que eu tinha. Eu não sou uma pessoa muito inteligente, nunca tive conquistas na vida. Acho que fiquei inseguro depois do acidente, quando perdi a mão. Eu não sei... não me considero uma pessoa interessante ou carismática. Orlando vive dizendo que tenho baixa autoestima e acho que ele está certo quanto a isso.
– Pelo o que estou vendo, você tem um conceito muito ruim de si mesmo. Você se considera fracassado, desinteressante... Como pode pensar isso de si mesmo, Killian? Acha que as pessoas vão rir de você por causa do aconteceu à sua mão?
– É o que eu sempre penso.
– E isso já aconteceu? Já te humilharam de alguma forma?
– Bem, não exatamente...
– E, no entanto, você evita contato com as pessoas com medo do que possa acontecer. Não tem que se envergonhar de você mesmo. É quem você é. As pessoas têm que aceitá-lo do jeito que você é. Quero ajudá-lo com sua insegurança, Killian, mas para isso você precisa se comprometer a vir aqui toda semana.
– Tudo bem, doutor.
Quando a sessão terminou, Killian estava se sentindo melhor. Alguém acreditava nele, achava que ele ainda seria capaz de vencer na vida. Bem, agora o rapaz sabia que não adiantava ficar parado. Archie o aconselhara a mudar o que o incomodava, se Killian continuasse acomodado com a vida que tinha, nunca poderia dizer que tentou. Mas admitir que precisava de ajuda era o primeiro passo para a mudança. Killian prometeu voltar para mais uma sessão e foi caminhando calmamente até o Granny’s.
No caminho, as pessoas o cumprimentavam alegremente. Ele nunca tivera muitos amigos e nunca fora uma pessoa muito social. Estava estranhando o fato de que todos o cumprimentassem como se o conhecessem, mas isso só aconteceu, ele finalmente notou, porque pela primeira vez estava andando de cabeça erguida. Ele sorriu feliz por sua vida estar mudando e a Prefeita Mills passou por ele dizendo “boa noite”. Ela não era o tipo de mulher que todo mundo parecia amar, mas ele foi educado ao dizer:
– Boa noite, Prefeita.
Cada um seguiu seu caminho e logo depois Killian passou pela senhorita Blanchard, que também o cumprimentou. Por fim ele chegou ao Granny’s, agora não tão movimentado quanto mais cedo. Procurou por um lugar ao canto e correu os olhos pela lanchonete, procurando por Ruby. A moça não demorou a aparecer, mais uma vez sorrindo e perguntando o que ele iria querer. Killian pediu uma porção de batatas fritas, um hambúrguer e uma Coca de 300 ml. Ele estava se deliciando com seu lanche quando Henry, o filho da prefeita, apareceu e bateu um papo com Ruby.
– O que vai querer desta vez, Henry? – ela perguntou.
– Um chocolate quente. Com canela, por favor.
O garoto carregava uma mochila e ainda usava o uniforme de escola. Ele realmente se parecia com a senhorita Swan e a prefeita devia estar odiando isso. O garoto parecia simpático, ao contrário da mãe.
– Oi! – ele cumprimentou Killian – Posso me sentar com você?
– Claro! – Killian surpreendeu-se. Por que alguém iria querer sentar-se com ele? Ele ofereceu batata fritas a Henry e o garoto recusou educadamente.
– Deve ter sido horrível perder sua mão – o garoto comentou enquanto bebericava o chocolate quente.
– Ah foi mesmo... muito horrível... – Killian respondeu distraído. Neste momento o homem observava Ruby, que se recostara ao balcão e estava exibindo metade de sua barriga enquanto mascava um chiclete. Ela parecia louca para ir embora. Henry notou o interesse de Killian na garçonete.
– Então você gosta dela?
– O quê?
– A Ruby. – o menino abaixou a voz – Gosta dela, não é?
– Eu... ahn... meio que gosto dela, mas você sabe... ela não parece muito interessada em caras como eu – e ele nem sabia por que estava contando aquilo a Henry.
Henry o examinou por uns minutos. Depois sorriu e tirou um livro da mochila. Era um livro de contos de fadas, pelo o que Killian percebeu. Na capa, em letras grandes e douradas, estava escrito Once Upon A Time.
– Que livro é esse? – o homem perguntou curioso.
– Um livro muito especial. Você está nele, sabia?
– Quê? Como assim?
Em resposta, Henry folheou as páginas.
– Viu? Este é você. – ele virou o livro para que Killian pudesse ver. Havia a ilustração de um homem segurando um gancho e um navio ao fundo. Não era possível ver o rosto do homem, no entanto.
– O que te faz pensar que este sou eu? – Killian estava achando graça.
– Todos que vivem em Storybrooke são amaldiçoados. – Henry explicou – A Rainha Má trouxe todos para cá para se vingar da Branca de Neve. E todas as histórias deste livro são reais.
– Ah é? Interessante! Quer dizer que também sou um personagem de conto de fadas?
– Você é o Capitão Gancho!
– O cara da história de Peter Pan? Ah sei... diz isso por causa da minha mão, não é?
Henry assentiu. Pobre garoto! Devia ser por isso que fazia terapia. Vai ver tinha um parafuso a menos.
– Eu não sou louco! – Henry disse ao perceber que Killian não acreditara em uma palavra do que ele dissera.
– Eu não disse isso.
– Mas pensou.
– Não acha que está fantasiando demais, garoto? Na sua idade, já era de se esperar que parasse de acreditar nessas coisas.
– Não é fantasia, é verdade! Se não acredita, então procure por seu gancho na loja do Sr. Gold.
Killian ia dizer alguma coisa, mas nesse momento a prefeita chegou e chamou por Henry. O garoto se despediu e foi embora. “Será que ele estava debochando de mim?”, Killian pensou. Aquela história de Henry era tão absurda que o homem achou que talvez o menino estivesse brincando com o defeito dele.
– Então, quem ele acha que você é? – Ruby perguntou e Killian levou uns segundos para entender que ela falava com ele.
– O quê?
– O livro. Que personagem ele acha que você é?
Killian levantou a mão mutilada:
– O Capitão Gancho – ele riu – E você?
– Chapeuzinho Vermelho. – ela sorriu.
É, Henry devia ser mesmo imaginativo, Killian acabou por pensar. Ruby parecia gostar de coisas vermelhas, por isso o garoto brincava que ela era a Chapeuzinho. E Killian era Capitão Gancho por causa da falta de uma mão.
– Não acho que ele seja louco, sabe – Ruby comentou – Acho que pensa essas coisas pra fugir da realidade.
– Também, com uma mãe daquelas...
Eles riram e Killian fez seu caminho pra casa feliz da vida. Ele tivera uma pequena conversa com Ruby e já se considerava sortudo por isso...
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