Como Irritar Um Capitão Pirata
32 Capítulo 28 - Quem planta o mal, colhe o mal
Notas iniciais
Capítulo 28 – Quem planta o mal, colhe o mal
– Que pena! Eu não contaria com isso! – debochou uma voz alta e estridente.
Foi um grande choque para Killian. Ele só teve tempo de vislumbrar uma guerra acontecendo na praia: piratas contra corsários. E no momento seguinte, viu-se puxando sua espada e investindo contra quem quer que estivesse no seu caminho. Ruby, Jack, Will e Beto fizeram o mesmo.
Havia um enorme navio de velas brancas atracado na praia. Era duas vezes maior que o Jolly Roger e suas velas tremulavam ao vento. Gritos tomaram conta do lugar enquanto o som das lâminas era ouvido, cada vez que uma espada batia contra a outra. Areia voava para todo lado, assim como o sangue que espirrava toda vez que alguém era atingido.
– Malditos! – o Capitão lutava com o homem da voz estridente e Ruby mostrou destreza ao bloquear os golpes de um dos corsários.
– Imbecil, o que está fazendo? – o homem da voz estridente gritou para o corsário que lutava com Ruby – Essa é a Princesa Ruby!
O corsário parou por uns segundos, olhou para Ruby e ela teve tempo de derrubá-lo com um soco.
– Belo soco! – o Capitão riu sem tirar os olhos de seu oponente.
– Obrigada! – ela avançou contra outros corsários que vieram em sua direção. Eles não queriam machucá-la, mas desde que Ruby os atacava, eles a atacavam de volta tentando arrancar a espada de suas mãos.
Will lutava com dois ao mesmo tempo. Os marujos de Killian Jones estavam bem treinados e por enquanto, nenhum deles morrera ou se machucara. Ruby avistou Ariel e Mabel encolhidas a um canto, ameaçadas por dois corsários que conseguiram rendê-las. Ellanor estava caída no chão, enrolada a uma corrente de aço. O aço deteve os poderes da bruxa, de forma que ela assistia a tudo sem poder fazer nada. Smee lutava com dificuldade, ainda adoentado, mas estava indo bem. John ria estrondosamente cada vez que conseguia machucar um corsário. Ele enfiou sua perna de pau no pé de um deles e o corsário desabou com a dor.
– Ruby! – o Capitão gritou pra ela – Você tem que ir. Se esconda na floresta.
– Acha mesmo que isso vai adiantar? – o homem da voz estridente, que parecia ser o líder dos outros, riu – Estamos em maior número, meus homens logo a encontrariam.
Ruby continuou lutando. Seus braços doíam e ela estava preocupada tanto com Killian quanto com os outros. Dois corsários se juntaram ao líder do bando e ficou mais difícil para o Capitão. Ele estava hábil a lutar contra dois homens ao mesmo tempo, mas não com três. Ele agüentou como pôde, mas logo estava tão cansado que um dos homens conseguiu derrubá-lo, socando-o no estômago. O Capitão gemeu de dor e desabou na areia da praia.
– Killian! – Ruby se virou para olhar, o que deu vantagem ao corsário com a qual ela lutava. Ele conseguiu tirar a espada da moça e a agarrou por trás – Me larga!
– Ruby... – Gancho fez menção de levantar-se, mas o homem da voz estridente botou um dos pés no peito do Capitão, impedindo-o de ir salvar a noiva.
– Me solta! – Ruby ainda esperneava e o homem tentava arrastá-la para um dos botes. John veio por trás do corsário e o derrubou, batendo uma garrafa de rum em sua cabeça.
– Venha, Princesa, você tem que ir – John a puxava pela mão, mas Ruby se recusava.
– Eu não vou sem vocês. Não sem o Killian.
– Você precisa ir. Daremos um jeito de encontrá-la depois. Corra para a floresta!
– Eles logo me alcançariam...
Não tiveram mais tempo de dizer nada, porque uma mulher veio com tudo na direção de John e o derrubou na areia.
– Você? – ele a encarou assustado.
– Eu! – ela bradou vitoriosa, esmurrando-o no rosto. John apenas gemeu e um filete de sangue agora escorria por seu rosto. A mulher se levantou rindo – Você se rende fácil, John.
– Eu não bato em mulher – ele murmurou.
– John... – Ruby correu a ajudar o cozinheiro, mas a mulher puxou a própria espada e a apontou para a Princesa.
– Não. Você não vai a lugar algum...
Era uma mulher deslumbrante. Devia estar na faixa dos trinta anos e se vestia como uma verdadeira pirata, mas servia ao Rei, de modo que agora se intitulava “corsária”. Ela usava um corset dourado por cima da blusa, tão apertado que seus seios quase pulavam do decote; calças pretas e botas também pretas com um laço vermelho como detalhe; e um chapéu tricórnio com detalhes em renda e penas pretas que caíam para um lado.
– Você irá voltar conosco – ela disse à Ruby – Seu pai a espera.
Ruby ia dizer que não ia a lugar algum quando Gancho gemeu de dor mais uma vez e a Princesa se desesperou ao ver que ele apanhava dos três homens.
– Não! Parem! – ela gritava, mas ninguém lhe dava atenção. Ela se voltou para a mulher – Diga a eles pra parar, vão matá-lo...
– Já chega, Morgan! – ela ordenou e o homem da voz estridente parou de bater no Capitão, voltando-se para olhá-la.
– Você pediu por isso – ele disse simplesmente.
– Sim, mas não é para matá-lo. Ele vai ter um destino pior...
– Do que está falando? O que vão fazer com ele? – Ruby guinchou.
– Seu pai vai mandá-lo para a forca depois que todos souberem que ele a seqüestrou – a mulher sorriu – E todos os outros marujos terão o mesmo destino...
– Não podem fazer isso! Ele não me seqüestrou! Está vendo isso? – Ruby mostrou o anel de noivado – Estamos noivos!
A mulher arregalou os olhos, confusa. Morgan veio arrastando o Capitão. Killian estava bem machucado, seu nariz e boca sangravam e ele provavelmente ia ficar com um olho roxo. O Capitão mancava e foi com grande desespero que ele percebeu: haviam sido vencidos pelos corsários.
Ninguém mais lutava. Havia uns poucos corsários mortos e outros feridos. Os marujos de Killian eram ótimos espadachins, mas os corsários estavam em maior número. Os marujos acabaram se rendendo e agora estavam sendo amarrados. Killian olhou em volta e não conseguiu conter sua fúria.
– Malditos! – ele gritou e puxou a espada de Morgan, que ele embainhara, e investiu contra os dois corsários que o ameaçavam com suas espadas. Morgan estava desarmado, de modo que se afastou assustado com a recuperação de Killian. O corsário observou o Capitão derrubar os dois homens e em seguida Killian foi na direção de Ruby.
– Não pense que eu vou tornar as coisas fáceis para você – a mulher cuspiu e ergueu sua espada.
– E nem precisa...
Os dois começaram a lutar e por pouco ela não conseguiu tirar a espada do Capitão. Lutava bem, mas Killian era melhor e a jogou no chão ao agarrar sua perna com o gancho. Ela foi pega de surpresa e deixou a espada cair. O capitão foi mais rápido e tomou a espada, em seguida ficando na frente de Ruby, para impedir que levassem a Princesa.
– Não precisa ser assim, Capitão – disse Morgan – Não queremos mais sangue derramado. Tudo o que tem que fazer é nos entregar a garota – ele olhou para Ruby, que se encolhia atrás do Capitão.
– Nunca! – O Capitão bradou.
O homem estreitou os olhos e encarou o Capitão.
– Você seqüestrou a filha do Rei Anthony II, só isso já é suficiente para mandá-lo para a forca.
– Seqüestro? Foi isso o que ele disse a vocês? – Killian enfureceu-se – Por que não perguntam a ele o que fez com a Ruby? Aliás, ela mesma pode contar a história.
– Já disse que ele não me seqüestrou – Ruby se pronunciou – Tudo não passou de uma história que meu pai inventou. Vocês não sabem que ele me vendeu?
– Vendeu? – Morgan arregalou os olhos – Para esse pirata?
– Sim, um pirata que eu amo.
– Ora, essa é boa – a mulher resmungou enquanto espanava a areia da roupa – Seqüestro ou não, o Rei nos prometeu uma recompensa pela Princesa, de forma que ela irá conosco.
– Eu ofereço o dobro do que o Rei lhes ofereceu – disse o Capitão.
Morgan e a mulher se entreolharam.
– O dobro? – perguntou Morgan para se certificar de que ouvira direito.
– É claro, eu precisaria de um tempo para conseguir o dinheiro... — ia dizendo o Capitão.
– Não. Não deixe ele te comprar, Morgan – disse a mulher – Eu ainda quero ver esse Capitão na forca. – ela deu as costas ao Capitão.
– Perdão, mas o que você tem contra mim? – Killian ergueu as sobrancelhas e sorriu.
Talvez ela fosse uma das muitas mulheres que o Capitão rejeitou. Mas ele se lembraria dela... A mulher se virou para encará-lo.
– Não se lembra de mim, Capitão? – ela sorriu maldosamente e aproximou seu rosto do dele – Era de se esperar que lembrasse.
– Charlotte(1)? – foi com susto que ele lembrou.
Ela riu:
– Sim, Charlotte. Mas agora eu também sou Capitã... – ela tomou a espada que o Capitão ainda segurava e riu-se da cara de Killian – Surpreso, Killian? Não achou que eu ia continuar na merda depois do que você me fez, não é?
O Capitão ficou mudo e Ruby supôs que Charlotte fosse uma das muitas mulheres que Killian já tivera. Eles nunca haviam falado dos antigos amores de Killian, mas Ruby se atreveu a perguntar:
– Quem é ela?
– Apenas alguém do meu passado... – ele respondeu, ainda confuso.
– Uma das mulheres que você já teve?
– O quê? Não...
– Ah você não contou a ela, não é? – Charlotte sorriu maliciosa
– Contou o quê? – Ruby encarava o Capitão, esperando por uma explicação.
– CINCO MESES! – Charlotte explodiu em fúria – CINCO LONGOS MESES QUE EU PASSEI NAQUELE MALDITO PORÃO. – ela estava vermelha. Depois abaixou a voz – Você tem ideia do que eu passei? Sendo alimentada apenas com pão e sopa... Fui jogada em meio à podridão e imundície. Os ratos e baratas eram meus únicos companheiros... E tudo isso porque eu roubei um maldito colar! – ela cuspiu nos pés do Capitão – EU TENHO NOJO DE VOCÊ! NOJO!
– Killian? Isso é verdade? – Ruby estava chocada.
– Sim... mas não era um simples colar e você sabe disso.
– Não importa! – Charlotte embainhou a espada – Prendam todos! Vamos levá-los ao navio!
– Ninguém vai tirar a Ruby de mim – o Capitão voltou a erguer sua espada.
– Isso é o que vamos ver! – Charlotte desembainhou a espada e imediatamente, mais outros cinco homens fizeram o mesmo.
Killian não teria chance contra eles e sabia disso. Mas ele não queria parecer fraco. Para o Capitão, render-se seria o mesmo que mostrar o quão fraco ele era. Ruby percebeu o que ele estava fazendo e se colocou na frente dele.
– Parem! – ordenou – Eu vou com vocês!
– Não!
– Mas quero que deixem o Capitão e os marujos partirem...
– Oh, isso não é uma opção... – disse Charlotte.
– Você não vai sozinha – disse Killian – Pode me levar junto – ele largou a espada, rendendo-se.
Charlotte riu satisfeita:
– Oh, já não era sem tempo. – ela apanhou a espada, devolvendo-a a Morgan – E o que é essa expressão no seu rosto? Vergonha? Oh, parece que pela primeira vez o Capitão Killian Jones perdeu uma batalha... Levem-nos!
O Capitão só teve tempo de segurar a mão de Ruby. Murmurou um “desculpe”, e em resposta, ela apenas apertou a mão dele com mais força. Ele foi amarrado, mas Charlotte não quis que a Princesa passasse por aquilo. Ruby apenas concordou em subir no bote e ser levada até o navio dos corsários.
Eles subiram por uma escada feita de cordas, na lateral do barco. Foi uma confusão porque os marujos não conseguiam subir com as mãos amarradas e Charlotte se recusava a soltá-los. Por fim, ela se convenceu de que ninguém tentaria fugir e eles foram desamarrados. A subida era longa, mas para quem já escalara um pé de feijão, aquilo era bem fácil.
Ruby subiu e acabou no enorme convés do navio. Realmente era bem maior que o Jolly Roger e ela reconheceu como sendo um dos navios de seu pai. Os marujos foram direcionados ao porão e Ruby se assustou ao entender que seriam trancafiados lá embaixo. Ela chegou a implorar que não fizessem isso, mas tudo o que Charlotte fez foi rir da cara dela.
– Não se preocupem, o porão é bastante confortável – ela disse irônica e o Capitão olhou feio para ela.
– Andem logo! – alguns corsários empurravam os marujos de Killian, para que andassem mais rápido.
Ellanor foi atirada a um canto, ainda acorrentada. E foi com grande espanto que Ruby viu Liza tranquilamente recostada ao mastro principal. Ela não estava amarrada e observava enquanto os marujos eram empurrados pelo convés.
– Aqui está sua parte do pagamento – Charlotte entregou um saco cheio de ouro a Liza. Imediatamente todos os marujos pararam para olhá-la.
– Mas o que é isso? – perguntou o Capitão. Havia sangue solidificado em seu rosto.
Elizabeth ficou onde estava, olhando-os com certo ar de superioridade.
– Apenas o pagamento por um bom trabalho – respondeu Charlotte. Ela riu ao notar a expressão confusa no rosto dos piratas, de Killian e de Ruby – Como vocês são tolos! Você realmente mudou, Capitão. Não devia confiar tanto nas pessoas.
– Ah sua maldita! – ele praguejou, já entendendo o que acontecia ali – Como pôde fazer isso?
Elizabeth apenas sorriu e o ignorou.
– Você nos enganou – Ruby estava chocada – Nos entregou a eles... Eu confiei em você...
– Bem, bem, olhe o que confiança demais é capaz de fazer – Charlotte soltou uma risadinha.
– Eu fiz o que tinha que fazer – Liza deu de ombros – Achou que eu fosse sua amiga? – ela riu – Você é tão ingênua às vezes...
Os olhos de Will estavam marejados. Como ela pôde? Como ela se atreveu a fazer isso com ele? Enganá-lo dessa forma, destruir o coração da pobre Tinker Bell e ainda mandá-la para a morte.
– Você nunca me amou, não é? – ele perguntou. Seu rosto transformado em uma expressão de dor e raiva.
– Você não passa de um rostinho bonito – ela disse – Eu poderia ter amado você, Will. Poderia sim. Mas você terminou comigo... Eu poderia ter livrado você disso.
– Vadia!
Elizabeth cerrou os pulsos e foi até onde Will estava, esbofeteando-lhe o rosto.
– Nunca mais fale assim comigo! – ela cuspiu no rosto dele – Imundo!
– Eu salvei sua vida – ele murmurou – Devia tê-la deixado lá.
Liza gargalhou:
– Você acha que aquilo não foi planejado? Há semanas estamos observando vocês. Foi questão de tempo até eu me juntar à sua tripulação.
– Esse tempo todo ela estava espiando a gente... – Ariel não conseguia acreditar – Só esperava até o momento certo de nos entregar, não é?
– Não achou que eu fosse realmente uma pirata, achou? Vocês se intitulam piratas, mas eu sou uma corsária... Prefiro viver do lado da lei. O ataque àquele navio foi só o começo de tudo. Eu sabia que não me negariam ajuda se achassem que eu realmente fazia parte daquela tripulação. Bando de tolos!
– Oh, você fez um bom trabalho, eu tenho que admitir – elogiou Charlotte – O Rei irá ficar muito satisfeito quando souber.
O Capitão já entendia o que acontecera, embora Liza não tivesse explicado tudo. Os corsários estiveram à procura do Jolly Roger e quando não o encontraram, resolveram partir para um plano mais elaborado. Destruíram um navio pirata, matando todos os tripulantes, e Liza se fez passar por uma pobre moça desamparada. Como ele fora burro! Killian costumava ser esperto, mas ele não conseguiu enxergar o mal em forma de mulher que era Liza. Apenas bastou que ela se cortasse com uma faca – para fingir que fora atacada – e então, depois que foi “resgatada”, fingiu uma falsa gratidão e até seduziu Will. Quem sabe o que ela andara escutando, nesses dias em que passara no navio?
– Parece decepcionado, Will – Elizabeth debochou e Will explodiu.
– MALDITA! VADIA! CADELA! EU CONFIEI EM VOCÊ! EU AMEI VOCÊ!
Ela gargalhou:
– Que pena! O marinheiro apaixonado...
– TINKER BELL FOI ATRÁS DA RAINHA POR SUA CULPA! SE ALGO ACONTECER A ELA, EU NÃO QUERO SER VOCÊ...
– Isso é uma ameaça? Oh, estou morrendo de medo...
– EU JURO QUE EU MATO VOCÊ! ISSO EU JURO!
Ela ria e ria, sem se importar com as palavras do marujo:
– Acha que eu tenho medo de você? Você, um simples ferreiro pobretão... O que vai fazer, Will?... – provocou
Will, num momento de ódio e loucura, estendeu as mãos e agarrou Liza pelo pescoço, sufocando-a. Ela tentava se soltar, mas Will era forte mesmo com as mãos amarradas. Os corsários correram a acudir e um deles esmurrou o estômago de Will, que se contorceu de dor. Liza ofegou, engasgando e acariciando o pescoço. As marcas dos dedos de Will eram visíveis na pele clara da moça.
– Seu imundo! Nojento! Eu te odeio... – ele gritou com a voz meio rouca.
– Não mais do que eu te odeio, traidora. Espero que você queime no fogo do inferno quando morrer. E espero ainda mais que seja uma morte incrivelmente dolorosa...
– Eu odeio vocês! Odeio! Nojentos! Vigaristas! Como eu odiava aquele navio nojento e malcheiroso! E esse Capitão rídi...
Liza foi surpreendida por um tabefe, vindo das mãos de alguém que ela jamais esperara que fizesse isso. Ruby. A princesa tinha sido tomada por tal raiva que não conseguiu se controlar. Ela e Liza se atracaram, rolando no chão e puxando os cabelos uma da outra. Ruby arranhou a cara de Liza, que tentava se levantar, mas a princesa ficara mais forte desde que se tornara uma pirata. Quando por fim conseguiram separá-las, Ruby estava toda descabelada e segurava um tufo de cabelo que arrancara de Liza. A outra, além de estar com o pescoço marcado, agora também tinha arranhões no rosto e uma marca de mão num dos lados da face.
Com a confusão, todos se esqueceram dos marujos de Killian, que assistiam a cena e riam. Smee comentou que Ruby era durona e o Capitão riu dizendo que ela era boa de briga. O ouro de Liza caíra no chão e ela agora recolhia as moedas, envergonhada por ter sido agredida duas vezes por aqueles piratas. Charlotte ia ordenar que os piratas fossem logo para o porão, mas foi quando Liza achou de criar caso.
– Mas que miséria é essa? Você me prometeu muito mais do que isso – ela segurava a bolsa de dinheiro.
– Ora, isso é tudo o que você vai ganhar. Eu lhe prometi uma boa quantia, em troca de que me comunicasse a localização exata em que estavam.
– Mas isso não corresponde ao esperado – Liza retrucou – Eu preciso de mais...
– Quer mais do que isso? — Charlotte debochou – Pois então trabalhe como prostituta... – e saiu andando pelo convés.
Liza puxou a mulher pelos cabelos e foi a vez de Charlotte se enfurecer.
– Quem você pensa que é? – ela puxou a espada rapidamente e a apontou para Elizabeth, que se encolheu – Eu sou a Capitã deste navio e trabalho para o Rei, então não pense que pode me desafiar desse jeito...
– Pouco me importa. Para mim você não passa de uma puta barata...
Realmente aquela foi a última vez que Elizabeth viu o nascer do sol. Charlotte enfiou sua espada bem no estômago da outra e riu quando o sangue começou a jorrar. Liza caiu de joelhos, tentando comprimir o ferimento e a Capitã gritou por Morgan, pedindo um punhal.
– Mas, Capitã...
– Não discuta, Morgan. Me dê o punhal!
Liza se contorcia no chão e foi com um sorriso mau no rosto que Charlotte começou a rasgar a barriga da moça, fazendo o sangue jorrar. Elizabeth berrava, implorando misericórdia, mas não havia mais o que fazer.
– Diga-me, qual é a sensação de pode ver suas próprias tripas? – Charlotte perguntou sorrindo e Elizabeth cuspiu sangue, tentando balbuciar algo – Fale mais alto, querida. Não consigo ouvir...
– Mal...dita... – ela murmurou e sua cabeça pendeu para o lado quando ela finalmente morreu. Seus olhos se fecharam e uma última lágrima escorreu por seu belo rosto.
Charlotte continuou com a tarefa de dissecar Elizabeth e muitos homens agora exibiam expressões de repugnância no rosto. Os marujos de Killian, no entanto, se sentiram justiçados.
– Bem dizem – disse Will – Quem planta o mal, colhe o mal...
– Ela teve o que mereceu – murmurou Killian
– Com certeza irá queimar no inferno – falou Beto.
Os intestinos de Elizabeth pendiam para fora de seu corpo, uma cena nada bonita de se ver. O sangue havia se empoçado naquele pedaço do convés e a mancha provavelmente ficaria ali para sempre, lembrando a todos o que rebeldia e desobediência eram capazes de fazer.
– Era um belo rosto! – Charlotte sussurrou – Mas não irá precisar mais dele, não é?
Ela rasgou a garganta da moça e fez profundos cortes verticais em seu rosto já pálido. Em questão de segundos, o corpo de Elizabeth tornara-se quase irreconhecível. Charlotte levantou-se, entregou o punhal à Morgan e revirou os olhos quando ele ficou com nojo de encostar-se no sangue. Depois mandou que levassem os piratas para o porão e ordenou que largassem o corpo de Elizabeth ali no convés.
– Mas, Capitã – disse o Mestre do navio – Logo o corpo ficará mal cheiroso.
– Tenho planos para ele. Imediato, trace uma rota rápida até o reino do Rei Anthony. – ela ordenou e foi em direção à sua cabine, para trocar de roupa e se livrar de todo aquele sangue.
Os marujos foram atirados a celas no porão. O Capitão se recostou na grade, desanimado.
– E quanto ao meu navio? – perguntou a um dos corsários.
– A Capitã irá decidir o que fazer.
Charlotte tomava banho numa enorme tina de madeira. Sua cabine era duas vezes maior que a de Killian. Ruby fora levada para lá e desanimada, se recostara a um canto onde pensava no que poderia vir a acontecer. Se ela falasse com seu pai, talvez ele não condenasse os piratas à forca. Ela jamais o perdoaria se ele fizesse isso.
– Não acredito que se importa com aquele pirata – Charlotte disse, desfrutando de seu banho quente – Ele é tão ignóbil! Como pode amá-lo?
– Eu simplesmente amo – Ruby respondeu deprimida – Sei que ele te fez sofrer, mas ele está diferente agora...
– Bobagem! Aposto que ele só quer levá-la para cama...
– Não diga isso! Killian não é assim... Ele realmente me ama.
– Que seja...
Alguém bateu a porta e Charlotte mandou que entrasse.
– Capitã, o que faremos com o navio de Jones? – perguntou Morgan, que também era Imediato.
– Queimem!
– Não! – Ruby se levantou para encará-la – Não podem fazer isso!
– Quem disse que não? – Charlotte sorriu – Não tente impedir. Há 76 homens lá fora e você não tem chance contra eles.
– Ele ama esse navio. Era do pai dele... – os olhos de Ruby estavam marejados.
– Não me importo... Faça o que eu disse, Morgan.
Ruby ficou encarando Charlotte, que apenas saiu da banheira e foi se vestir. A princesa correu para fora, tentando impedir o pior. Mas os corsários já ateavam fogo ao Jolly Roger...
Lá embaixo no porão, os prisioneiros sentiram um calor próximo ao navio.
– O que é isso? – perguntou Jack.
– NÃO! MEU NAVIO! – o Capitão espiou pela pequena janela que havia em sua cela. O fogo ia se alastrando pelo navio, transformando-o em cinzas. – NÃO! NÃO!
No convés, Ruby assistia a cena e não conseguiu segurar as lágrimas. Fora naquele navio que ela passara os melhores dias de sua vida. Fora lá que ela descobrira o amor. Fora lá que ela criara laços de amizade. Fora lá que ela encontrara uma família...
– Era um belo navio! – ela ouviu a voz de Charlotte atrás dela.
– Por que você é tão cruel? – Ruby perguntou entre as lágrimas.
– Eu simplesmente nasci assim...
Ruby a olhou com raiva e então correu para o porão. Ninguém a impediu, estavam mais interessados em admirar o incêndio do navio. Ela desceu pelas escadas de madeira, até dar num pequeno corredor que levava ao porão. Ela viu os marujos presos em celas e Killian, que chorava como uma criança.
– Meu navio... meu navio... – ele murmurava, sentado ao chão.
– Eu sinto muito – disse Ruby, ainda chorando.
Killian se aproximou da grade e ela segurou na mão dele, confortando-o.
– Acabou tudo – ele disse – Eu perdi tudo. Você, minha tripulação, minha dignidade, meu navio... Perdi tudo...
(1) Créditos a princess-horan, leitora do AnimeSpirit, que me pediu para entrar na história e matar a Liza. Ela merece os créditos por ter sugerido que a personagem se chamasse Charlotte.
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