Como Irritar Um Capitão Pirata
18 Capítulo 14 - Toda magia tem um preço
Notas iniciais
Capítulo 14 – Toda magia tem um preço
Eles continuaram a explorar a ilha, e Ruby já reclamava estar com fome, quando eles foram dar numa floresta. Tinham deixado uma grande fogueira acesa na praia, assim, se os marujos de Killian passassem por ali notariam que havia presença de humanos e logo iriam procurar por eles.
– Você não vai entrar aí, vai? – a princesa perguntou quando o Capitão fez menção de ir explorar a floresta.
– É claro que sim.
– Quem sabe o que pode haver aí? Não acho que seja uma boa ideia...
– Precisamos encontrar comida e abrigo – o Capitão falou e deu uma olhada para o céu – Logo irá escurecer e não sabemos quanto tempo vamos ficar por aqui.
– Você vai e eu espero aqui.
– Tem certeza? Logo as sereias irão aparecer e acho que não gostaram muito de você.
– Ah... ta bem – ela suspirou fazendo Gancho rir e eles entraram na floresta. Não era uma floresta tão sinistra como aquela das aranhas, mas Ruby tinha passado por coisas ruins demais para temer qualquer lugar que fosse fechado e escuro.
– O que foi? Está com medo?
– É claro que não. Posso parecer uma garota indefesa, mas eu sei me defen... AHHH! – Ruby deu um pulo e foi parar agarrada ao braço do Capitão. Ele riu e ela tentou se justificar – Alguma coisa encostou no meu braço...
O Capitão afastou algumas folhas ali perto e riu ao ver o que assustara a princesa.
– Está com medo disso? É só um esquilo...
– O que foi? Eu achei que fosse uma cobra ou algo do tipo. Pare de rir – ela deu um tapa no braço do Capitão e saiu andando na frente. A floresta era fechada e eles tinham que prestar atenção para não tropeçar nas raízes das árvores ou bater a cabeça em galhos muito baixos.
– Devíamos procurar por uma caverna ou algo do tipo... – Killian sugeriu.
– Não... cavernas tem morcegos e não quero dormir com esses bichos voando na minha cara.
– Prefere dormir na praia e ser atacada pelas sereias? Ou podemos dormir ao relento... é você quem sabe...
– Podemos pensar nisso depois? Eu estou faminta.
– Você está sempre faminta – ele riu – Veja, tem algumas frutas ali – o Capitão apontou pra uma árvore ali perto e Ruby não pensou duas vezes. Ela escalou a árvore com facilidade, e logo estava sentada num galho grande e forte o bastante para sustentar seu peso.
– Ei, como foi que subiu aí tão rápido? – Gancho se distraíra com umas pegadas no caminho e não vira quando ela subira na árvore. Ruby agora comia as frutas redondinhas e avermelhadas que cresciam na árvore, e riu ao ver a confusão de Gancho.
– Quê? Estou mesmo com fome – ela disse de boca cheia – E, além disso, eu fiquei mais esperta e ágil desde que cheguei ao seu navio.
– Parece que está perdendo as boas maneiras também – Gancho gracejou.
– Boas maneiras não salvam sua vida quando você está em perigo – ela contrapôs – Suba aqui.
Killian escalou a árvore e logo os dois estavam sentados em galhos diferentes, conversando, comendo e rindo, como duas crianças que se divertiam numa tarde de verão.
– Eu nunca tinha experimentado essas frutas antes – Ruby comentou depois que eles quase acabaram com todas as frutas da árvore.
– Eu também não. Talvez não seja uma espécie muito comum...
– Sabe, acho que vou subir mais um pouco. Talvez a gente consiga ver alguma coisa. O Capitão observou enquanto ela ficava de pé no galho que estava e subia até o galho mais alto com certo esforço. Ele sorriu quando ela chegou lá em cima, pensando no quanto ela ficara esperta depois que se livrara de sua vida de princesa.
– O que está vendo? – ele indagou e a voz dela veio meio abafada por causa da distância em que se encontravam um do outro.
– Fumaça. Não muito longe daqui.
Aquilo significava que havia outras pessoas na ilha e eles deviam ser cautelosos. O Capitão resolveu subir também para ver de onde vinha a fumaça, e Ruby se assustou quando ele apareceu ao lado dela, colocando a mão em seu ombro para se apoiar.
– Isso não é bom – ele disse.
– Devíamos ir até lá para pedir ajuda.
– Você ficou louca? Pode ser qualquer um, até outros piratas. Nos matariam se fossemos até lá.
– Eu não estou vendo nenhum navio. Você está? – era possível ver uma parte da praia e do mar sem fim que se agitava ao longe. Ruby parecia ter sido tomada por uma onda de coragem, pois disse ao Capitão que deviam ir até a fumaça para encontrar seja lá quem estivesse por ali.
– Não acho que seja uma boa ideia, mas se seu instinto feminino diz que é o certo...
Ruby riu e de repente o galho em que eles estavam começou a se partir, não agüentando o peso dos dois. Ruby gritou e Killian caiu primeiro, produzindo um baque surdo ao bater no chão. A princesa até tentou se segurar, mas acabou caindo bem em cima do Capitão.
– Ai! – Killian gemeu quando ela aterrissou em cima dele.
– Ainda bem que eu caí no macio – ela comentou e o Capitão não deixou de sorrir com malícia.
– Parece que você gosta de ficar deitada em cima de mim.
Ela ficou vermelha e tratou de se levantar depressa, batendo as mãos na roupa para tirar a poeira.
– Vamos logo.
***
Eles caminharam por mais alguns minutos na direção onde tinham avistado a fumaça. Logo descobriram uma cabana no meio da floresta e o Capitão não pareceu certo de que eles deviam bater na porta para pedir ajuda.
– Vamos – Ruby foi se aproximando da cabana, antes que Killian pudesse contê-la. Ele ficou petrificado no lugar e ela se virou para olhá-lo ao ver que ele não estava vindo – Anda! Que foi?
– Volta pra cá – ele falou sussurrando e gesticulando pra que ela viesse até onde ele estava. Ruby ficou preocupada ao ver a cara do Capitão e foi até ele.
– Por que está sussurrando?
– Olha, são ossos humanos – ele falou de voz baixa – Temos que sair daí. É uma cabana de bruxa.
– Uma bruxa? – Ruby arregalou os olhos.
– Bruxas não são confiáveis. Vamos embora.
– Aproximem-se! – uma voz alta e sinistra falou e Ruby se escondeu atrás do Capitão com medo. Eles olharam na direção de onde tinha vindo a voz e viram quando uma mulher saiu das sombras. Sem dúvida, era uma bruxa. Estava inteiramente vestida de preto, e seus cabelos negros e desgrenhados caíam sobre os ombros. Os olhos dela eram de um azul escuro e profundo, e davam a impressão de estar analisando tudo. Ela tinha uma pele muito branca, mas tinha a aparência de quem não tomava banho há dias. A bruxa veio caminhando na direção deles e parou bem em frente à cabana. Quando ela sorriu pra eles, Ruby se arrepiou toda ao ver que a mulher tinha vários dentes podres.
– Capitão Killian Jones – a bruxa falou de forma teatral – também conhecido como Capitão Gancho. Filho do indomável James Mata-Piratas – ela riu exageradamente e Killian se perguntou como ela sabia quem ele era e quem era seu pai.
– Como sabe meu nome? E o nome do meu pai? – o pirata perguntou. A mulher se aproximou dele e Ruby se encolheu de medo.
– Ora, eu sei muitas coisas – ela arregalou os olhos e sorriu — E você – a bruxa ergueu a mão até tocar em Ruby e puxou a moça para frente. A princesa não conteve um gritinho – Ruby Blanchard. Eu tenho as respostas que precisam. Venham... – a bruxa se afastou e saiu andando até entrar na casa. Ruby e o Capitão se entreolharam.
– Ela pode ajudar a gente – Ruby falou e foi atrás da mulher, sem esperar que Gancho dissesse algo.
– Ruby! Não! Volta aqui... – mas ela simplesmente entrou na cabana e o Capitão não teve escolha, a não ser ir atrás das duas mulheres.
O lugar não era dos mais agradáveis, havia uma pequena mesa de madeira no centro da cabana e todo o resto estava ocupado por livros de bruxaria, poções e coisas estranhas penduradas no teto. Havia vassouras encostadas a um canto e Gancho ficou imaginando como devia ser estranho ver aquela mulher voando de vassoura por aí. A cabana parecia maior vista do lado de fora. Eles não deixaram de notar que a lareira estava acesa e algo fervia numa chaleira posta dependurada sobre o fogo.
– Fiquem à vontade – a bruxa falou e foi examinar a chaleira – Sente-se, querida – disse sem olhar para Ruby, e a princesa trocou um olhar rápido com o Capitão. Os dois se sentaram à mesa, meio desconfortáveis e desconfiados.
– Então estão indo à Terra do Nunca, não? Mas parece que passaram por maus bocados na noite passada... realmente tiveram sorte ao sobreviver ao Kraken... Ruby arregalou os olhos e Killian também estava impressionado. Ambos se perguntavam como ela sabia tudo aquilo, já que nenhum dos dois dissera nada.
– Como... como sabe essas coisas? – a princesa se arriscou a perguntar e a bruxa riu, retirando a chaleira do fogo.
– Sou tão bruxa quanto vidente. Não há como esconder nada de mim, a não ser, talvez, aqueles segredos profundos, guardados no fundo de seus corações...
Ruby ficou arrepiada. A bruxa serviu o conteúdo da chaleira em três xícaras. Parecia algum tipo de chá, mas nem a princesa, nem o Capitão acharam que era confiável tomar uma bebida feita por alguém que eles sequer conheciam.
– Ah, me perdoe, mas qual é mesmo seu nome? – Ruby perguntou, já que o Capitão parecia desconfiado demais e não dava sinal de que ia falar alguma coisa.
– Não espere que eu vá lhe dizer meu nome, minha querida. Nomes são poderosos, e nesse caso, não creio que seria bom dizer o meu... não posso me arriscar, se é que vocês me entendem... no entanto, eu vejo que procuram algo... você e Gancho se perderam do resto da tripulação e não acho que eles vão aparecer logo...
– O que quer dizer? Estão mortos? – Killian começou a se desesperar.
– Não, mortos não. Mas seu navio ficou quase em frangalhos. Vai demorar dias até que consigam chegar aqui.
– Droga! Mas isso é certo? Quero dizer, o futuro pode mudar, não pode?
– É claro que pode, meu querido Capitão. Mas nesse caso, o destino já foi traçado. Vocês devem seguir sem eles...
– Mas... como vamos chegar à Terra do Nunca sem um navio?
– Há outros métodos, meu caro. – ela sorriu misteriosa – No entanto, deveria se preocupar mais com os perigos da Terra do Nunca. Chegar lá é a parte mais fácil.
– Eu sei disso, já estive lá...
A bruxa balançou a cabeça. Dessa vez era diferente.
– As coisas mudaram. Agora você não só está sem seu navio, como também tem uma princesa para cuidar... – a mulher encarou Ruby – Não vai ser fácil para você, minha querida. – Ruby ficou assustada e a bruxa olhou para o Capitão – Ela é fraca. Precisa aprender muita coisa...
– Ela tem ido bem até aqui – Killian começou a dizer, mas a bruxa interrompeu.
– Você não entende. Há coisas com as quais ela precisa lidar... – o Capitão entendeu sobre o que ela estava falando e eles trocaram um olhar significativo — ...e de qualquer modo, vai estar desprotegida, mesmo com você por perto...
– E o que você sugere? Deve haver algo que a gente possa fazer.
– Na verdade, há uma coisa – e ela sumiu atrás de uma cortina, que até então eles não haviam notado, e voltou depois de uns segundos. Trazia uma capa vermelha consigo e Ruby e o Capitão ficaram se perguntando em que uma capa ajudaria. A princesa estava preocupada. Até mesmo a bruxa sabia coisas que Killian não queria contar a ela e Ruby estava começando a se preocupar com os segredos que ele escondia. Ainda havia o fato de a bruxa achar que ela era fraca.
– Uma capa? – Killian parecia duvidar que uma capa pudesse ajudar Ruby.
– Não é só uma capa, meu caro. Esta capa é poderosa e está impregnada com uma magia forte o bastante para proteger quem a usar. Usando isto, você não estará protegida apenas do frio, mas também de feitiços e outros perigos. – ela estendeu a capa para Ruby e a moça ia pegá-la, quando o Capitão a impediu.
– Espere. Suponho que há um certo preço a se pagar...
– É claro – a bruxa sorriu de um jeito sinistro.
– Bom, eu não tenho dinheiro – Ruby ia dizendo e a mulher balançou a cabeça.
– Eu não preciso de dinheiro.
– E então o que quer? A bruxa pensou um pouco, tentando se decidir.
– Bem, eu não sei... talvez um pouco de sua beleza – ela passou a mão no rosto de Ruby, fazendo com que a mesma se arrepiasse – Há muito a minha se foi... mas se bem que eu não faria muito bom uso disso... Estou vendo que é muito corajosa e tem uma alma pura... Já sei o que quero. Venha comigo.
A bruxa levou Ruby para trás da cortina e minutos depois, quando a princesa voltou, Gancho ficou preocupado porque ela não estava com uma cara boa.
– Está tudo bem? – ele perguntou sussurrando e ela assentiu. A bruxa voltou sorrindo confiante e dirigiu-se a Gancho.
– Sei que há algo que você quer saber. É sobre o seu pai...
– Ele está vivo? Onde ele está?
– Você vai ter que pagar por essa informação. Gancho suspirou. E agora, o que ela ia querer dele? — Este anel que está usando, eu o quero.
– Mas é o meu favorito – ele se queixou e a bruxa riu. Killian deu o anel a ela, e a bruxa logo o colocou no dedo, admirando como ficara bonito em sua mão. – Agora me diga se ele está vivo ou não.
– Sim, ele está vivo! Gancho foi tomado por tal emoção que teria dançado ali mesmo, em comemoração. Mas ele se conteve e a bruxa continuou. — Só não sei exatamente onde ele está, e receio que você só estará apto a encontrá-lo usando a magia das fadas. No entanto, devo alarmá-lo: encontrá-lo não vai ser fácil, tampouco rápido.
– Certo. Hum, obrigado... só mais uma coisa: como vamos chegar à Terra do Nunca?
– Há um portal, não muito longe daqui. É claro, vai ser difícil chegar a ele. Ofereço meus serviços para levá-los até lá.
– Não, obrigado. Não acho que tenho mais nada que interesse a você. Não é, Ruby? Não podemos pagar por tanto...
Ela riu.
– É uma pena. Seria bem mais fácil...
– Vamos indo então. Obrigado por seus serviços. Eles foram embora sem tocar na bebida que a bruxa oferecera. Já anoitecia e Gancho ficou aliviado ao sair daquele lugar sinistro. Ruby não falara mais nada desde que a bruxa a levara para trás da tal cortina. Killian começou a falar pelos cotovelos e não percebeu que a princesa estava toda encolhida e abraçada à capa. Quando eles chegaram a uma parte escura da floresta, ela parou enquanto o Capitão seguiu o caminho.
– Capitão... – ela chamou baixinho e parecendo uma criança assustada. Ele se virou para olhá-la e só então percebeu que algo acontecera.
– O que foi? O que ela fez com você? – perguntou preocupado. Ao invés de responder, a princesa o abraçou e Killian gostou tanto disso que não queria largá-la mais – O que aconteceu? – perguntou de um jeito carinhoso.
– Estou com medo...
– Não se preocupe, estou aqui com você. – ele pegou na mão dela e recomeçou a andar, mas a princesa parou de novo. – Ruby, o que aconteceu? Ela te machucou?
– Ela... pegou um pouco da minha coragem...
– Coragem? Era isso que ela queria de você?
Ruby assentiu.
– Ela disse que ia usar pra uma poção. Foi... ruim... e agora estou com medo...
– Está tudo bem. Vamos, temos que encontrar um lugar para passar a noite – ele a abraçou de lado e os dois recomeçaram a andar. Ela ainda estava com medo, só que se sentia segura com o Capitão. Killian ficou tão protetor que parecia que estava cuidando de uma criança.
Eles acabaram encontrando uma pequena caverna, meio escondia pelo mato, na entrada da floresta, e foi ali que Killian acendeu uma fogueira. Ruby acabou dormindo toda encolhida e o Capitão sorriu feito bobo, ao cobri-la com a capa.
– Durma bem, meu anjo – sussurrou beijando-a na testa. Se Ruby ouvira isso ele não sabia. Ele também se deitou como pode e logo também estava dormindo.
Na manhã seguinte, Ruby acordou e o Capitão não estava lá. Ela já estava começando a ficar preocupada e amedrontada, quando ele voltou trazendo pequenos ovos.
– Onde foi que arranjou isso? Você roubou de um ninho? – ela estava indignada e o Capitão deu de ombros:
– É claro que eu roubei...
– É uma maldade! Não vou comer isso.
– Ah, vai sim. Sabe o trabalho que eu tive para conseguir isso? Precisei esperar até que os donos do ninho saíssem e eles acabaram me atacando quando voltaram e me encontraram lá. Eu caí da árvore e podia ter morrido. Tudo isso apenas para que você tivesse um café da manhã decente...
Ruby riu até não poder mais, notando que havia folhas grudadas nos cabelos do Capitão e imaginando o pirata ao ser atacado por pássaros.
– Ei, não é legal rir da desgraçada alheia – ele pareceu indignado, mas também estava rindo.
– Seu cabelo está cheio de folhas – ela disse em meio aos risos. Ruby chorava de rir. Há muito tempo ela não se divertia assim, e talvez, só talvez, tivesse descoberto o quanto o Capitão podia ser engraçado, mesmo que ele não tivesse essa intenção.
– Você quer motivo para rir? – ele colocou os ovos no chão e foi se aproximando da princesa, que se assustou e começou a se afastar.
– Para! O que vai fazer? O que vai fazer? Killian começou a fazer cócegas nela e Ruby se dobrava ao meio de tanto rir, implorando para que ele parasse. O Capitão a largou e depois foi procurar por pequenos gravetos, para que eles pudessem espetar os ovos e assá-los na fogueira.
– Seu idiota, eu podia ter morrido – Ruby xingou, limpando as lágrimas e se sentando perto da fogueira. Killian riu:
– Você ficou mais boba, ou o quê? Não me lembro de ver você rindo assim antes.
– A culpa é sua. Talvez eu me divertisse mais se não ficasse sempre me repreendendo e assustando.
– Eu assusto você? Essa é boa...
– Ainda acho que é uma maldade – ela comentou quando o Capitão enfiou os ovos no palito, com cuidado para não quebrá-los, e os colocou sobre a fogueira para assar.
– É isso ou vamos ficar com fome.
– E então, como vamos para a Terra do Nunca? – ela subitamente mudou de assunto.
– Hum, isso eu não sei... mas não quero me arriscar a fazer acordos com bruxas. Eu vou dar um jeito... e enquanto isso é melhor usar sua capa... – ele também se sentou perto da fogueira e cutucou o fogo com um pedaço de pau.
– Por quê? Acha que eu corro perigo aqui? — Vai saber. Não gosto dessas sereias e também não gostei daquela bruxa. O melhor é prevenir...
– Será que essa coisa funciona mesmo? – Ruby pegou a capa vermelha, que tinha um capuz e era exatamente do tamanho dela.
– Espero que sim, ou vou matar aquela bruxa.
A moça ficou de pé e colocou a capa em volta de si, colocando o capuz na cabeça logo depois. O Capitão sorriu e ela perguntou:
– Então, como fiquei?
– Combina com você... Chapeuzinho Vermelho... – o Capitão sorria bobo e ela achou o apelido engraçado.
– Chapeuzinho Vermelho? – ela levantou uma sobrancelha e Killian deu de ombros.
– Eu disse que ia arrumar um apelido para você.
– Certo, estamos quites.
Os ovos cozinharam e depois que eles comeram, Killian começou a pensar numa forma de eles chegarem ao tal portal que levava à Terra do Nunca. Ruby foi dar uma volta na praia e, mesmo com pouca coragem, ela se aventurou a subir em uma pedra bem grande e alta, que ficava parcialmente dentro da água. Ela achou que dali conseguiria ver toda a ilha, e, de fato, ela viu Gancho lá embaixo perto da floresta.
– MAS O QUE ESTÁ FAZENDO AÍ? — ele gritou ao vê-la de pé lá no alto.
– Que foi? Só estou olhando a paisagem – ela botou as mãos na cintura. Ainda usava a capa e isso a deixava com uma aparência de garota fofa da floresta.
– DESÇA DAÍ AGORA!
– E se eu não quiser? – ela provocou.
– Ruby, estou lhe avisando... Não me faça subir até aí. – Killian estava bravo, mas ela sabia que tudo isso era preocupação. O Capitão já provara o quanto se importava com ela.
– Eu já vou descer, não se... – mas ela deu um passo em falso e escorregou com um grito. Sorte que ela caiu na água, mas não sabia nadar e aquela parte era muito funda.
Ruby afundou e começou a se desesperar quando viu que não conseguia voltar à superfície. Ela se debatia, implorando em pensamento para que o Capitão fosse salvá-la. De fato, ela logo sentiu duas mãos a segurando e puxando-a para cima. Mas não era o Capitão... Na verdade era uma sereia. E uma das mais bonitas, ela reparou. Ela era ruiva, tinha olhos cor-de-avelã e pele bem clara. Killian entrava no mar, correndo para salvar Ruby, mas quando viu que ela já tinha sido salva, suspirou aliviado.
– Sua louca! Quer me matar do coração? – ele falou indo até ela e a sereia. Killian carregou a princesa no colo, levando-a até a praia.
– Eu estou bem...
– E encharcada. – ele a colocou no chão – Precisa se aquecer. Vou buscar meu casaco. – ele foi em direção à caverna em que passaram a noite, onde deixara seu casaco, e Ruby sentou-se na areia.
– Você me salvou... obrigada! – ela agradeceu à sereia, que ainda estava por ali, observando a princesa e o pirata. Ruby tossia e se recuperava do susto, enquanto a outra apenas a olhava. Ruby estranhou o fato de ter sido salva, as sereias não lhe pareceram criaturas muito cordiais, mas talvez aquela fosse diferente das outras. – Eu nem sei como lhe agradecer...
A sereia fez movimentos com a boca, tentando dizer algo, mas sua voz não saía. Ela pareceu frustrada por se lembrar que era muda.
– Ah você... não pode falar... – Ruby ficou com pena. A sereia tinha um olhar triste, mas então veio até a praia e se acomodou ali perto de Ruby, sorrindo para ela. — Meu nome é Ruby, e aquele resmungão ali atrás é o Killian. – ela se livrou da capa encharcada.
– Ei, eu ouvi isso! – o Capitão apareceu trazendo seu casaco de couro e o colocou nas costas de Ruby, abraçando-a para que ela ficasse aquecida. A sereia sorriu e começou a escrever alguma coisa na areia. Quando ela terminou, Ruby viu que era seu nome:
– Ariel. Bonito nome.
– Ela é muda? – o Capitão perguntou e Ruby deu um tapa no braço dele, como que o repreendendo. – Ai. Que foi? Eu só perguntei.
– Ela me salvou – Ruby disse sorrindo agradecida – Talvez ela possa nos ajudar...
– Ajudar como?
– Talvez ela saiba como chegar ao portal que leva à Terra do Nunca. Ariel sorriu e balançou a cabeça, confirmando que ela sabia chegar à Terra do Nunca.
– Hum... não devíamos confiar nela...
Ruby fez cara feia para o Capitão, assim como Ariel.
– Olha só pra ela... é uma sereia – ele justificou, como se ninguém tivesse percebido isso ainda – E não se pode confiar em sereias.
– Ela salvou minha vida.
– Não seja ingênua. Ela certamente vai querer algo em troca por isso, não vai? – ele olhou para Ariel e ela balançou a cabeça discordando. – Hum, certo. Você sabe mesmo onde fica esse portal? Ela assentiu. — E vai nos levar até ele? Ela assentiu novamente, mas logo ficou pensativa. Parecia querer dizer algo, mas já que não podia falar, não sabia como dizer isso a eles. — Ela não consegue nem falar, como vai nos levar ao por... Ai! Quer parar de me bater? – Gancho se queixou e Ruby falou:
– Nós vamos dar um jeito.
– Ariel! – uma voz veio de trás das rochas e Ariel se assustou. – Ariel!
Gancho e Ruby se entreolharam, e depois uma outra sereia apareceu.
– Ah, você está aí – disse olhando para Ariel, sem perceber que Killian e Ruby estavam ali – Eu procurei você em toda... Ei! Afastem-se dela! – ela percebeu a presença dos outros dois e os olhou ameaçadoramente. -
Está tudo bem, não vamos machucá-la. – Ruby tentava acalmá-la.
– O que querem com ela? – a sereia perguntou desconfiada.
– Ela acabou de salvar minha vida, eu só estava agradecendo.
– Na verdade, – o Capitão se intrometeu – nós queríamos saber como chegar à Terra do Nunca. Mas já que ela não pode falar...
– Terra do Nunca? Estão loucos? É melhor passarem bem longe daquele lugar – aconselhou a sereia.
– Mas o que de tão ruim há nesse lugar para todos o temerem? – Ruby perguntou curiosa e o Capitão, mais uma vez começou a falar de Peter Pan.
– Eu já lhe disse o que tem lá. Peter Pan – ele falou o nome do garoto com certo desprezo.
– Certo. E você quer mesmo ir até lá? Quero dizer, pode haver outra maneira de encontrar seu pai...
– Depois falamos sobre isso. Agora eu gostaria de saber se essas duas senhoritas poderiam nos levar até o portal...
– Eu poderia – disse a sereia, cruzando os braços e ainda se mantendo longe deles – Mas obviamente isso teria um preço.
O Capitão suspirou.
– O que você quer?
Ela olhou para ele com um sorrisinho no rosto, como que achando que aquela era uma boa oportunidade de conseguir o que queria.
– Vai custar caro. Tem certeza de que quer arriscar?
– Diga logo o que quer.
– Pernas. Para mim e para Ariel. E ela também quer ter sua voz de volta. Então, nada mais justo, não acha? Vocês nós dão o que queremos e em troca, os levaremos até a Terra do Nunca. Você pode procurar a bruxa que mora nessa ilha, ela está sempre aberta a acordos...
Gancho pensou por uns minutos, então disse que precisava conversar com Ruby e a puxou para um canto afastado.
– Bem, vamos ter que arranjar outro jeito. Não podemos fazer mais acordos com a bruxa... – ele disse e a princesa balançou a cabeça.
– Não me parece uma boa ideia, mas é a única coisa que temos. Você quer encontrar seu pai, e agora sabemos que ele está vivo... talvez seja melhor pagar a elas, ou ficaremos aqui até que venham nos resgatar.
– Sim, mas a bruxa vai querer algo em troca. Não acha que elas mesmas já teriam pedido essas coisas a ela se pudessem? Está na cara que é algo pelo qual não podemos pagar... a não ser que queira dar sua beleza a ela.
Ruby estremeceu e o Capitão riu. Ela pensou um pouco e disse:
– Talvez ela peça outra coisa. Sabe, a gente não devia deixar ela escolher o pagamento...
– O que está dizendo? – o Capitão perguntou sem entender.
– Faremos um acordo! Oferecemos algo a ela, e em troca ela nos dá o que precisamos.
– É uma boa ideia, mas o que uma bruxa iria querer? Eles pensaram um pouco e Ruby sorriu:
– Amor... O Capitão ergueu uma sobrancelha.
– Quê?
– Amor. Todo mundo quer ser amado, e ela me pareceu do tipo solitária. Devíamos arrumar um namorado pra ela.
Killian riu como se Ruby estivesse louca. Ela, porém, o olhou com tanta seriedade que ele logo parou de rir.
– É sério? Está mesmo pensando nisso? Onde raios vamos arrumar alguém que queira namorar uma bruxa?
– Eu não sei... talvez... talvez um dos seus marujos. Parecem tão solitários naquele navio...
– Ah, nem vem. Eu não vou perder nenhum dos meus homens. – o Capitão cruzou os braços.
– Quem falou em perder? Ela pode muito bem se juntar a tripulação.
– Você ficou louca. Eu sei o que ela fez, ela não tirou só sua coragem, também fez você perder o juízo.
– Não seja tolo. Olha, pode dar certo. E, além disso, você quer encontrar seu pai ou não? Killian coçou a cabeça e suspirou:
– Ah droga, o que eu não faço por ele... Está bem, vamos falar com aquela aproveitadora.
Eles voltaram à praia, e as duas sereias tomavam sol deitadas na areia. Killian não gostara muito da ideia de precisar de sereias para chegar ao seu destino, mas era isso ou ele não encontraria seu pai. Elas olharam para os dois, quando eles voltaram.
– E então? O que decidiram? – perguntou a amiga de Ariel. Ela era loira, tinha olhos azuis e pele tão clara que chegava a refletir a luz do sol.
– Vamos pagar o preço exigido por vocês – Killian respondeu – E só espero que não quebrem o acordo, ou encontro vocês e as mato. Ariel estremeceu e a outra apenas sorriu.
– Não se preocupe. Sereias não quebram acordos. E não se esqueça: pernas para mim e para Ariel e a voz dela de volta.
– Certo, certo. Eu já sei.
– Hum, vocês não nos disse seu nome... – lembrou Ruby – Eu sou Ruby e esse é Killian.
– Sou Mabel. Muito prazer!
– O prazer é todo... – Ruby ia dizendo, mas Killian a puxou em direção à floresta.
– Vamos logo. Vista sua capa.
– Ele é encantador – Mabel comentou e Ariel apenas riu.
***
A bruxa não estava em casa e Gancho presumiu que isso fosse um sinal para que não fizessem nenhum acordo com ela.
– Eu não posso fazer isso com meus homens, nenhum deles vai querer uma bruxa e não poderemos cumprir com o acordo – ele disse a Ruby. Os dois estavam parados na varanda da bruxa e Ruby achava que ela logo voltaria.
– Sim, mas que escolha temos? – ela se encolheu quando uma rajada de vento passou por ali.
– Ora, ora, vocês por aqui? – ouviram aquela voz já conhecida. A bruxa novamente surgiu das sombras e caminhou tranquilamente pelo caminho que levava à porta da casa. Quando ela se aproximou, a porta da cabana se abriu sozinha
– Vamos, entrem. Eu adoro visitas...
Ruby e o Capitão entraram devagar, novamente perturbados por estarem naquele lugar horripilante. Um cheiro estranho pairava no ar, podridão, era o que era. A princesa fez cara de nojo ao ver uns bichos mortos pendurados no teto. Havia até um gato preto, pendurado pelo rabo, e seus olhos estavam abertos. Eles estremeceram de pavor, mas a bruxa não percebeu.
– E então, o que os traz aqui? – a mulher perguntou animada e sorridente. Ela foi em direção a lareira, colocando alguma coisa para ferver na chaleira.
– Hum... nós queremos fazer um acordo – o Capitão hesitou um pouco, mas Ruby olhou para ele tentando dizer que deviam parecer confiantes.
– Oh, um acordo? – a bruxa se virou para olhá-los e exibia uma expressão de satisfação no rosto. Bruxas adoravam acordos. – Resolveram que precisam de mim para chegar à Terra do Nunca?
– Não exatamente. Fizemos um acordo com as sereias e elas irão nos levar até lá. No entanto...
– ... querem algo em troca. – a bruxa completou. Ruby notou que hoje ela parecia menos assustadora e menos imunda. Killian assentiu e a bruxa riu – Eu imagino bem o que elas devem estar querendo...
– Pernas – disse o Capitão – e uma delas quer a voz de volta, já que é muda... Então, pensamos em vir falar com você. Eu estava fugindo de acordos, mas vou precisar deles para chegar à Terra do Nunca...
– Entendo. Por que fazer acordos com sereias se vocês poderiam ter vindo diretamente a mim? Veja, agora vocês tem dois acordos: um com elas e outro comigo...
– Acha que eu sou idiota? Sei o quanto vocês, bruxas, podem ser exigentes com esses acordos. Não queremos nos arriscar a pagar mais do que podemos.
Ruby ficou apreensiva, temendo que a bruxa se irritasse com o Capitão e não quisesse saber de acordo nenhum. Mas a expressão da mulher não mudou, ela continuou sorrindo de um jeito cínico.
– Sim, nós somos um tanto exigentes quanto a isso. – disse a bruxa – Mas eu não entendo... sabe o quanto esses acordos podem custar caro, no entanto, vieram falar comigo...
– Nós temos algo a oferecer. – o Capitão falou. Ele e Ruby tinham combinado que só Killian iria falar, já que estava mais acostumado a esse tipo de coisa. – Meus marujos são homens um tanto quanto... solitários – o Capitão tentou parecer o mais consternado possível, ele não costumava se importar muito com os sentimentos de seus marujos, mas tentou fingir que realmente se preocupava com isso. – E eu estive pensando que talvez, bem, talvez você se interessasse por um deles...
A bruxa gargalhou e Ruby se encolheu de medo.
– Então é este o acordo? Um de seus homens em troca do que as sereias querem?
Killian assentiu e Ruby ficou preocupada, achando que a bruxa não ia aceitar.
– Está bem, eu aceito! – a bruxa disse e os outros dois respiraram aliviados – No entanto, devo deixar bem claro: sou eu quem vai escolher. Depois que voltarem da Terra do Nunca, e vocês irão voltar, quero que venha aqui e traga seus marujos. Aquele que me agradar ficará aqui comigo...
– Hum, então vamos voltar vivos da Terra do Nunca? – Ruby perguntou.
– Mas é claro, minha querida. Eu vi. Porém devo adverti-los: a Terra do Nunca vai ser palco de intrigas e revelações. Podem sair vivos, mas quem garante que serão os mesmos?
A moça ficou arrepiada e se encolheu mais dentro de sua capa.
– Agora, vamos ver – a bruxa foi até um grande espelho colocado sobre a lareira e se postou de frente para ele, como se estivesse admirando a aparência. Era um espelho meio imundo, como tudo por ali, mas sem dúvida, era um objeto mágico, já que a bruxa aparentemente conseguia ver coisas ali – Hum, Ariel e Mabel. Então elas querem pernas e Ariel quer sua voz de volta...
– Isso. – o Capitão confirmou.
– Certo. – ela se aproximou, encarando-o com aqueles olhos extremamente assustadores – Eu darei a estas sereias o que elas querem, e em troca, você vai me trazer seus marujos, para que eu possa escolher um deles. Estamos de acordo, não estamos Capitão? – ela estendeu a mão para ele e Killian apenas a encarou por um tempo, até trocarem um aperto de mãos.
– Você tem a minha palavra.
– Ótimo. É melhor que cumpra com sua promessa, ou vou ficar muito feliz em tirar algo de você... a coisa que você mais ama... – ela riu e Ruby e o Capitão trocaram um breve olhar.
A bruxa foi procurar por algo atrás de sua cortina e voltou trazendo o que pareciam ser duas pulseiras e um pequeno frasco contendo um líquido transparente.
– Essas pulseiras vão permitir que elas tenham pernas quando estiverem usando-as. E esta pequena poção, vai devolver a Ariel sua bela voz. – ela entregou tudo a Ruby, que olhava os objetos com curiosidade. – Estou feliz por terem me procurado. Estou sempre aberta a acordos.
– Obrigado. Nos vemos quando eu voltar da Terra do Nunca – disse o Capitão e ele e Ruby foram embora.
Eles não conversaram no caminho até a praia. Killian estava pensativo e Ruby achou melhor não falar nada; quando o Capitão estava assim, o mínimo que se podia fazer é deixá-lo em paz. Quando eles voltaram à praia, as sereias se divertiam brincando no mar.
– E então? Conseguiram? – Mabel perguntou e Ruby assentiu sorrindo. Ela disse às sereias o que elas deveriam fazer e então ela e Gancho observaram enquanto as sereias colocavam as pulseiras. Uma fumaça azulada as envolveu e então elas surgiram com pernas e usando saia ao invés de calda. Elas riram felizes e então Ruby entregou o frasco a Ariel
– Ela disse que isso vai trazer sua voz de volta. Ariel ficou olhando o frasco, até tomar coragem e engolir toda a poção de uma só vez. Os outros três ficaram a observando, esperando que aquilo desse certo.
– E então? – perguntou Mabel e Ariel sorriu.
– Deu certo! Obrigada! – ela agradeceu tanto a Killian quanto a Ruby.
– Hum, certo, garotas. Vamos logo, temos um portal para encontrar – Killian estava impaciente.
– Esse portal, como vamos chegar a ele? Não temos um navio. – falou Ruby.
– Não precisamos de um navio – Ariel falou, ainda se acostumando à sua voz. – Só precisamos acreditar um nos outros...
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