Como Escapar do Paraíso

1 Capítulo 1 - A Viagem


Notas iniciais
Sejam bem vindos, peguem um lanche e aproveitem a leitura ♥

Eu estava sentada na janela do avião, observando a colcha de retalhos formada pela vegetação lá embaixo. Mikkel roncava ao meu lado, seus cachos loiros espalhados no meu ombro onde sua cabeça repousava. Um bloco de desenho jazia no seu colo com mais uma arte inacabada. Antes de adormecer, ele estava fazendo caricaturas dos outros passageiros (que não eram muitos).

Quase não acreditei quando ele disse que havia ganhado uma viagem de férias, com direito a dois acompanhantes, para uma ilha paradisíaca no litoral do Nordeste. E tudo isso graças a um concurso de desenho. Porém, devo admitir que meu amigo era bem talentoso.

O mais inacreditável foi ele ter me chamado para ser uma dos acompanhantes. "Vocês são meus melhores amigos, as únicas pessoas que eu levaria para uma ilha deserta", ele falou para Andy e eu, quando anunciaram o resultado do concurso. E depois, eu falei que não era uma ilha deserta de verdade, já que era um destino turístico, e Mikkel disse que eu era uma estraga metáforas.

O outro acompanhante escolhido estava no assento do corredor, com a atenção focada no celular. Com um gesto típico, afastou para o lado os cabelos escuros que caiam-lhe sobre os olhos, um pouco apertados, que encaravam a tela luminosa.

— Você sabia que não tem absolutamente nada sobre essa "ilha Korassaum" na internet? — Anderson comentou para mim, baixo o suficiente para não acordar o outro.

— Estranho — respondi, voltando a olhar para a janela.

Confesso que nunca tinha ouvido falar dessa tal ilha em toda a minha vida. Quando Mikkel disse que a viagem seria para lá, eu ri bastante com o nome tosco, até achei que fosse piada. O que viria totalmente a calhar, já que o concurso que ele participara referia-se ao Dia dos Namorados.

— Finalmente! — exclamou Andy, depois de um tempo em silêncio. — Achei um pequeno artigo num blog, quase na última camada da Deep Web.

A empolgação adicionou alguns decibéis à sua voz, acordando o amigo.

— Sind wir angekommen? — Mikkel murmurou em alemão, meio desorientado.

Apesar de falar português fluentemente, após 4 anos de estadia no Brasil, o garoto ainda se confundia em alguns momentos e acabava trocando os idiomas. Em parte, isso era culpa do seu pai (um homem que eu particularmente detestava), que o obrigava a conversar com ele somente na sua língua nativa.

— Traduz — pedi, já acostumada com aquelas situações.

— A gente já chegou? — Se esticou para olhar a janela, conseguindo a resposta sozinho.

— Ouçam: — Anderson pediu e começou a ler o artigo. — “A Ilha Korassaum faz parte de um pequeno arquipélago localizado a cerca de 500 km de Natal, no Rio Grande do Norte. O Vulcão Hime, aparentemente inativo nos dias atuais, recebeu seu nome em homenagem à brava exploradora Kori Hime, a primeira a desvendar os segredos da ilha. Apesar de ter sido descoberta em 1514, começou a ser colonizada somente a partir do século XVII. Alguns nativos da ilha preservam sua cultura até hoje, vivendo em harmonia com aqueles que escolheram o estilo de vida mais civilizado”.

— Odeio essa expressão: “descoberta” — resmunguei, enquanto ajeitava as trancinhas afro que insistiam em desmanchar do penteado enrolado. — Haviam pessoas morando lá antes disso, a ilha não passou a existir só depois da chegada dessa tal de Kori. Ela só a “encontrou”.

Andy revirou os olhos.

— A gente problematiza a linguagem do blog depois, Malu. Olha, tem uma foto.

Ergueu a tela do celular, mostrando uma imagem que parecia ter saído de um wallpaper do Windows. Exibia uma majestosa ilha coberta de vegetação, com uma grande elevação no centro, a qual presumi ser o vulcão.

— Não tem nenhum anúncio de hotel, avaliações de turistas ou algo do tipo? — Mikkel falou sobre o assunto pela primeira vez, já desperto.

O outro balançou a cabeça negativamente.

— Nada. Nem no Google Maps ela consta, quando digitei o nome na barra de “pesquisar”.

— Ótimo descobrir isso depois de 3 horas de voo — Soltei o comentário carregado de sarcasmo.

A voz do piloto ecoou pelo sistema de som, informando que estávamos prestes a aterrissar. Os poucos passageiros colocaram os cintos e o avião deu um pequeno solavanco.

— Até que foi rápido — suspirou o artista.

Pela janela, vi uma pequena ilha se aproximando, diferente da vista na fotografia.

— Hã... Não quero assustar vocês, mas... — Comecei, um pouco receosa. — Ou a imagem era falsa, ou estamos na ilha errada.

Os meninos se esticaram para olhar.

Era um pedaço de terra minúsculo coberto por mato e rochas. O único sinal de civilização consistia num pequeno aeroporto e alguns barcos atracados na baía. Não havia nenhum sinal de vulcão.

— Com licença — Andy se dirigiu a aeromoça sentada do outro lado do corredor. — Acho que ocorreu um engano. Nós vamos para Korassaum.

Ela demorou alguns segundos para responder, parecendo que algo havia lhe roubado a fala. O rapaz causava esse efeito nas pessoas que o viam pela primeira vez. Nós dizíamos que ele deveria ganhar dinheiro atuando em propagandas comerciais na TV e na internet. Com certeza iria convencer as pessoas a comprarem qualquer coisa.

— Ah! — A moça se recompôs, exibindo um amplo sorriso. — Esta é a Ilha Misaki. Os aviões de fora só vêm até aqui. Vocês terão que fazer check-in e pegar o próximo transporte até a Ilha Korassaum.

— Obrigado — Ele sorriu de volta, claramente tirando proveito da situação.

Assim que desembarcamos, senti o clima quente e o vento trazendo o cheiro de mar. No aeroporto, havia cerca de 50 pessoas, algumas resolvendo as burocracias da viagem, outras comendo na lanchonete e a maioria aguardando em cadeiras de madeira. Fiquei surpresa com a quantidade de pessoas, visto que não havia nenhum anúncio de viagens na internet. A decoração do local era rústica, feita de troncos e tábuas de madeira, em sua maioria. Nos dirigimos até o balcão, onde um homem atendia.

— Olá, sou Mikkel Edelman — Meu amigo debruçou-se sobre o tampo de carvalho. — Do concurso de desenho.

— Claro! — O homem pareceu reconhece-lo sem ao menos digitar o nome no computador. — Seja bem-vindo, senhor Edelman. E vocês, são..?

— Meus acompanhantes — Mikkel respondeu. — Maria de Lourdes Pereira e Anderson Varela.

Torci o nariz ao ouvir meu nome completo. Por algum motivo que desconheço, meus pais acharam que era uma boa de ideia dar esse nome a um bebê, fazendo sua filha nascer com 80 anos. Obrigada, pessoas que inventaram os apelidos, para ao menos reduzir o meu sofrimento.

Os dedos do atendente dedilharam o teclado com uma velocidade surpreendente, após anos de prática.

— O destino é Korassaum, certo? — indagou, sem tirar os olhos da tela. Nós três acenamos com a cabeça em resposta. — Preciso das suas identidades. Só burocracia, esta ilha só aceita maiores de 18.

Tirei a identidade da mochila marrom que eu carregava sempre comigo. Sorte que havia completado 18 anos em setembro.

A máquina imprimiu três passagens e o homem entregou-as a nós.

— Tudo certo. O próximo avião parte daqui a 10 minutos. Aproveitem a estadia!

Enquanto esperávamos, observei grandes quadros na parede que exibiam imagens de ilhas paradisíacas. Além da Korassaum, que eu já conhecia, descobri também Escuridown e Sunshine Island, outros nomes peculiares. Imaginei os exploradores do século XVI dando esses nomes para as ilhas e meu cérebro quase travou. Era tudo muito estranho.

Eu sentia um mal pressentimento, uma sensação esquisita na boca do estômago. Tentei ignorar. Deveria ser só a ansiedade de passar tanto tempo longe de casa pela primeira vez.

— Hey, relaxa — Andy deve ter percebido a minha inquietação, pois entrelaçou os dedos nos meus e me transmitiu um olhar reconfortante. — O ensino médio acabou, o ENEM já passou, isso é um descanso merecido. Vamos aproveitar essas férias e fazê-las serem incríveis.

Forcei um sorriso cansado para o meu amigo e desviei o olhar para o mar lá fora, calmo, quebrando ondas preguiçosas na areia da praia. Eu esperava do fundo do meu coração que a vontade de Andy se concretizasse.

Notas finais
Hey, obrigada por ter lido até aqui ♥

Este capítulo foi apenas uma pequena introdução para apresentar os personagens e ambientar a história.

O que estão achando dos meus bebês até agora? Já tem algum preferido?

Podem deixar aqui embaixo seus comentários, palpites, críticas, sugestões e teorias e não esqueçam de marcar a opção de acompanhar a história para receber a notificação dos próximos capítulos.

Ah, eu posso ter deixado passar algum errinho, então se encontrarem algum, me avisem, por favor.

Bjbj e até o próximo o/