Como Em Um Sonho
12 Tristeza e Alegria
Notas iniciais
I ♥ you so so so so much.
Encaro Ludmila por mais alguns segundos. Estou sem palavras, com esse vídeo. Rapidamente, ela toma a câmera da minha mão, antes que eu possa fazer algo.
– O que você quer, Ludmila?
– Como assim, Vilu?
– Você tem esse vídeo. Deve querer algo em troca para não mostrá-lo para ninguém. O que quer?
– Bem... Não quero nada. Por enquanto. Digamos que você fique me devendo um favor. Quando eu precisar de algo, você deverá fazer, ou isso vai para a internet.
– Incrível. Incrível com uma pessoa como você não tem limites, que ameaça a vida de uma pessoa para conseguir o que quer. É mais fácil do que parece, é só você apertar um botão, e está tudo bem para todos.
– E se eu não quiser?
– Engraçado. Você não sabe como poderia tornar a vida de uma pessoa um inferno. Bem pior do que o que você já faz todos os dias. Imagine, Ludmila. Imagine você em um laboratório, luzes em cima de você, todos estudando cada parte sua, te tratando como uma aberração. Como se sentiria?
Ela continua séria, mas não parece concentrada em mim. Então, volto a falar.
– O que vocês pensam? Pensam assim: "Nossa, ele foi criado pela cabeça de uma menina, que estranho. Ele é uma aberração, ele pode desaparecer, não é esquisito?".
A boca de Ludmila se contorce em um sorriso. Ela não parece mesmo concentrada em mim, mas em algo atrás de mim.
– Garota, o que é que você está olhando? – digo, antes de me virar para trás, e ver que não tem nada. Após esse ato, concluo o que estava dizendo. – Mas, enfim, como estou dizendo, pessoas que pensam assim só acham estranho porque não estão acostumadas. E pensam errado. Vocês podem achar que ele é uma aberração. Mas ele tem sentimentos, como todos nós. Como eu. E talvez como você. Demonstre que tem sentimentos e pare com isso agora. Só vai causar sofrimento, Ludmila.
Ela encara o chão, e depois me encara novamente. Está novamente séria e pensativa, até dizer:
– Como eu disse, você me deve um favor. Não vou apagar esse vídeo, de garantia. Mais uma vez, quando eu precisar de algo, você deverá fazer, ou isso vai para a internet.
Balanço a cabeça, e me retiro. Não sei como uma pessoa consegue ser tão cruel assim.
* * *
Agora estou esperando Leon. Ás vezes, ele sai durante a tarde, e volta, entrando pela janela. Fico olhando para a janela, e ele não chega, e começo a ficar preocupada. Quando já é quase meia-noite, inevitavelmente, pego no sono.
* * *
Estou em um lugar confortavelmente estranho. É todo rosado, com nuvens rosa-shock, e o chão também é rosa, liso e lustroso.
Não muito longe, vejo Leon, pegando algumas pequenas caixas brancas espalhadas por aqui, que ficam flutuando.
– Leon! – digo, correndo em sua direção. Tento abraçá-lo, mas ele não me abraça de volta. – Estava te esperando, por quê não veio dormir hoje?
Ele simplesmente balança a cabeça, e diz:
– Pensei que você gostasse de mim.
O encaro, confusa, e digo:
– Mas eu gosto. Ei, o que são essas caixas?
– Lembranças. Suas lembranças.
Minhas lembranças. Devemos estar na minha mente.
– Por quê está segurando?
– Assim que sair daqui, vou queimar todas. Para que você não se lembre de mim.
– Qual o problema? O que é que você tem?
– Te ouvi falando com aquela sua amiga Ludmila. Ouvi você dizendo que eu sou estranho, que eu sou esquisito, que sou uma aberração. Você é minha namorada, achei que estivesse apaixonada por mim.
– Mas eu estou!
– Então por quê disse aquilo?!
– Você ouviu o que eu disse depois?
– Eu não aguentaria mais te ouvir falando nada.
O ambiente rosado em que nos encontramos começa a desmanchar, caindo aos nossos pés. Agora nos encontramos em um ambiente cinzento. O chão está rachado, e a única luz vem da lua. Uma névoa estranha cobre todo o ambiente, mas posso ver árvores secas e estruturas estranhas, com um líquido com aparência gosmenta escorrendo, até cair e ser absorvido pelas rachaduras do chão. Tristeza.
Acabo de me dar conta de que se Leon queimar a primeira lembrança que tenho dele, quando o criei, ele deixaria de existir na minha mente, consequentemente, deixaria de existir em qualquer lugar.
– Leon. – digo, começando a tremer, me segurando para não chorar. – Eu te amo, por favor não vai.
Eu te amo. Essas palavras pela primeira vez estão me causando mil calafrios. Não imaginava que diria isso pela primeira vez para Leon nessa situação.
– Se me ama tanto, por quê...
– Deixe-me explicar direito. Por favor.
Pego algumas lembranças da mão dele, e começo a procurar a que eu quero. Quando encontro, seguro, a com as duas mãos, e jogo a pequena caixinha no chão, quebrando-a em pedaços. Então, o ambiente em que estamos muda completamente. Estamos novamente na praça em frente ao Studio. Posso ver outra Violetta, conversando com Ludmila com uma câmera na mão. Posso ver ao longe um Leon se aproximando.
– ... "Nossa, ele foi criado pela cabeça de uma menina, que estranho. Ele é uma aberração, ele pode desaparecer, não é esquisito?". – diz a outra Violetta.
Então, o outro Leon faz uma expressão de dor, e desaparece imediatamente, bem na hora que a outra Violetta se vira para trás.
– Pronto. – diz o verdadeiro Leon, para mim. – Foi isso que eu vi.
– Espere dessa vez. Veja o resto da conversa.
O seguro ali, enquanto vemos Violetta e Ludmila discutirem. Quando a lembrança acaba e começa a se desmanchar novamente, e estamos de volta ao cenário da tristeza, então ele diz:
– Então... Você estava tentando me defender dela. De ela me expor. Agora você deve algo a ela?
Balanço a cabeça, com um nó na garganta. Ele parece estar sem saber o que dizer, então eu digo:
– Eu te amo. Por favor, nunca duvide disso, é verdadeiro.
– Com você consegue me amar depois do jeito que eu te tratei, e duvidar de você por causa de uma conversa pela metade?
Balanço a cabeça.
– Eu simplesmente amo.
– Também amo você.
Então sorrio. Leon segura minha cintura firmemente, e eu coloco minhas mãos em seus ombros. Até que ele leva os lábios de encontro com os meus, e me beija, parecendo disposto a não parar mais.
Quando o ar começa a fazer falta, e nos separamos, estamos em um lugar, onde há nuvens cobrindo o chão, e o que deveria ser o céu azul, é um céu de todas as cores.
– É aqui. O lugar da nossa primeira aparição. – diz Leon.
– Alegria. – sussurro para um ninguém específico.
É tão surreal e ao mesmo tempo tão real, que nem consigo saber o que pensar.
Leon imediatamente se deita no chão de nuvens, e eu ao seu lado. Passamos o resto do tempo de mãos dadas, relembrando momentos, e paisagens de aparições, e ás vezes roubando mais um beijo, ou dois, que se transforma em dez, e depois em vinte.
Mesmo tendo tudo do bom e do melhor no momento (Leon, um céu multicolor, nossas lembranças e os beijos), o que não sai da minha cabeça é a Ludmila. Não posso imaginar o que ela me obrigaria a fazer. Mas sei que para salvar Leon, eu faço tudo.
Notas finais
Conversa pela metade... Muito lindo, né Leon, ouve metade da conversa, nem ouve o resto, aí vai, e fica querendo se apagar da mente da menina, eu, heim? Ashashash
/Mari ♥
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