Como Capitão James Tornou-se Capitão James Gancho
1 Como Capitão James Tornou-se o Capitão Gancho
Notas iniciais
Existiam dois motivos para querer estar ali, naquele exato momento, ferroando com a estoque nos punhos e fazendo o adversário recuar. Galantemente, a puxei de volta no ar e formei um arco antes guardá-la junto ao corpo e observar mais um caindo nos mares rebeldes. Arquejei pela última vez antes de me virar e observar periodicamente a situação, rumando o olhar dos céus escuros e trovejantes para meu bando que combatia os intrusos-saqueadores-piratas, e para o mar que sacudia de bombordo Jolly Roger cabeceando o navio invasor. Não roubariam meu ouro – pois, comigo no comando daquela tripulação, não ousariam perder nosso tesouro. E você já deveria ter adivinhado o primeiro e até o segundo motivo, se não for um mexilhão.
1. Ser pirata. Esse é o primeiro e principal motivo. Você sabe o que é ser um pirata? Se é um fracote covarde que está lendo isso, nunca irá entender! Sentado em frente a um livro imaginando aventuras que sequer teria coragem de participar. Agora, se no mínimo você é um bandido, você deve ter ouvido falar sobre mim. O famoso Capitão James. E você deve, às vezes, sentir uma parcela do que é ser um pirata — roubar, beber, grunhir e cantar! Esperando até pelo pior. E isso deriva o motivo número dois, o que vou deixar você pensar, para ver sua mente funcionar, caso nunca tenha feito isso antes. É um favor que lhe faço.
Foi com um dos meus tripulantes caindo da popa do navio que me chamou a atenção. Aquilo remaria minha vida pelas ondas da Terra do Nunca – e era apenas mais um dia feliz para mim, Capitão James, com todo meu tesouro de diversas terras qual plantei o temor. Quando o pirata caiu da amurada, chamando minha atenção, eu resolvi enfrentar aquele que lhe fez isso. Derrubar meu combatente? Ou meu pirata era um tolo, ou o cara que lhe fizera isso era. Subi pesadamente as escadas de madeira encharcadas, onde a água que lhe desciam velozmente molhavam minhas botas. Foi um dia ruim para eu escolher vermelho – hoje, não estava preparado para esfaquear meus inimigos. Eles mesmo se cegavam com a chuva e caíam do navio.
Os dois que lutavam em cima das escadas atrapalhava minha passagem. Saia da frente, combatente idiota!, eu poderia dizer. Mas pomposamente me virei de lado, tomando cuidado para não tocar naquele espadachim imundo, e continuei a subir. E aí eu poderia ter me surpreendido – não me surpreendo facilmente, quem me enfrentou, sabe; nem Barba Negra me pegou desprevenido. Fiquei levemente espantado com o rapaz que submergia na minha frente, brincando com timão. Trombas d’água! O que ele estava fazendo?
— Ei, garoto! – Chamei, apontando-lhe a estoque. – O que pensa que está fazendo?
Isso não era o mais intrigante, é claro, não que eu estive exatamente intrigado. Ele obviamente, como qualquer um de mente sã perceberia, não era da minha tripulação nem da outra. Aliás, não estava aqui quando a outra invadiu. E, veja bem, ele não era um pirata. Suas vestes verdes, como um vestido e calção, sapatos enrolados e pontudos... Ele parecia uma fada, ainda mais com aquele chapéu ridículo! E não apenas isso – seus pés emergiam acima do chão do navio, voando solenemente, como algo natural. Com minha desconfiança e dúvida espantada no rosto, mas não se sentindo subestimado, é claro, ainda assim com as espessas sobrancelhas franzidas, observei aquele brilho amarelo dando voltas em sua cabeça. Uma fada!
Com meu chamado que exerceu sobre o barulho da chuva, ele olhou:
— Oh, quem é você? Eu sou o capitão desse navio! Há, há!
— Eu sou o capitão desse navio! – Rugi antes dele bruscamente virar o navio. Cambaleei para o lado. Me equilibrei logo em seguida, balançando os braços e mantendo a postura. Tirei o cabelo grudado do nariz e sobrepus: — Capitão James! Quem é você? Quem é você? – Gritei sobre o trovão. – Saia do meu navio!
— Eu sou Peter Pan, e essa é Sininho – a fada parou no ar; a vi através de seu brilho amarelo o seus cabelos loiros e vestes verdes. Pareciam um casal de duendes, ou marmanjões doentes – E como eu disse, eu sou o capitão desse navio. Você é o invasor – sínico, sempre rindo. Que presa irritante.
Saquei a arma do cinto em fração de segundos e disparei em sua barriga. Mas se aquele duende não fosse um maldito voador, eu o teria pegado. E eu não teria um futuro desgosto. Pousou no mesmo local, as mãos na cintura, as pernas abertas. Suas roupas estavam encharcadas, grudadas ao corpo, e seu chapéu escorregava pela lateral da sua cabeça. Um raio lançou-se a distante. Estávamos afastando-se do navio adversário.
— Certo, James! À Oeste navegaremos! Izar velas!
— Capitão! Capitão James! — E Pan pulou na corda mais próxima e a puxou, virando as velas. Cambaleei pela segunda vez, e foi cerrando os dentes que me virei para o garoto que voava entre o encontro das colunas, no topo. Seu sorriso de deboche me fez cerrar os punhos em um movimento repentino puxei o gatilho da arma.
— Mexilhões! – Gritei quando errei. A pólvora foi dissipando no ar pela chuva e o vento que cortava como navalha. Onde ele estava levando o meu navio?
Pulei pela ponta dos meus sapatos e cortei uma corda da vela; trocando de mão, a segurei e fui puxado enquanto contornava a coluna. A chuva respingou e o vento cortou minhas vestes no gélido ar; a sensação fria da morte e da gripe que me viria depois de outra vitória era constante. Um desafio. Um desafio a enfrentar! Pisei firme na madeira e subi sem temor do que encontraria. Quando fiquei frente a frente do impostor, ganhei equilíbrio ficando em posição lateral qual permaneci enquanto marchava e cutuca meu adversário, que só desviava. Covarde! Mal sabia se defender!
Até que outra corta estourou ao navio atear numa pedra, perto de uma caverna em formato de caveira. Boca escancarada. Olhos arregalados e ocos. Não me ateei a esses detalhes, agora havia outra coisa a se concentrar. Giramos juntos naquela batalha, e essa distração foi suficiente para ele voar como um raio ao meu lado e roubar minha faca. Olhou para sua fada, aquela Sininho, e sorriram. Cutucou de todas as direções, por pouco não fazendo grandes estragos à minha vestimenta vermelha – não seria hoje que eu as sujaria com meu sangue!
— Você não consegue me pegar – ria ele, enquanto voava de um lado para o outro, esquerda, direita, cima!
— Raios! – gritei.
Peter Pan riu frouxo com minha indignação e desceu no ar de costas, pairando em frente ao timão. Algo fez meus lábios forçarem um sorriso, e pulei cortando a bandeira. Era meu navio, e eu fazia o que quiser com ele.
Aterrissei em frente ao meu novo arqui-inimigo. Olhei para a fada que sempre estava ao seu lado. O que trombas d’água ela era? Lhe dava poderes para voar? Se, então, ele não a tivesse... foi com espanto que a vi vindo como raios que davam a distante que ela mergulhou em minha face. Me debati ferozmente, chegando a abaixar. A risada de Peter me fez recobrar a sanidade: dei um tapa na fada, que foi parar aos seus pés.
— Ei! – Ele voou mais alto. Avancei em sua direção, na intenção de pegar a fada que jazia sobre a madeira. Ela não conseguiria voar mais com as asas molhadas!
Algo ganhou peso sobre minhas costas, e percebi que havia levados dois chutes na coluna. Virei rápido, tomando equilíbrio, e percebendo que Peter avançava sobre mim, fiz um arco com meu estoque. Quando pomposamente tomei a calma, o apontei e olhei para a fada. Um erro tolo! O garoto já deve ter percebido, ou deduzido; talvez não entendesse meu plano, ou foi instinto dele, ou foi sem querer, percebes; foi uma situação muito estranha quando meu camarada me contou o que viu. Disse que foi sem querer. “Peter é um garoto nem tão violento, é só um garoto! Não conseguiria te acertar, nem se quisesse”. Quero dizer, nem se quisesse iria. Mas quando eu o vi sobre mim, minha mão já não era sentida. Larguei a estoque. Segurei meu pulso e gritei, o ar dos meus pulmões extravagando sobre a chuva, e olhei para o lado, a ver Peter sobre a amurada. Estava eu de joelhos e urrando, meus olhos ganhando a cor do ferro com o olhar duro que emergia sob a chuva que despencava em meus cílios. Vendo Peter Pan sobre a amurada com minha mão. Ele abriu seus dedos finos e longos e ela mergulhou no ar. Consegui recuperar o equilíbrio das pernas que eram puxadas com pesar e correr a tempo de ver ela caindo em direção a água. Arregalei os olhos quando vi o crocodilo abocanhando minha mão decepada e a enterrando sobre suas presas. Foi como se seus olhos me marcassem, pois agora eu havia um novo inimigo que me perseguiria por toda Terra do Nunca.
2. A sensação de que isso nunca acabaria. Haveria vingança. Haveria saques. Haveria pirataria. Haveria rum. Haveria vingança – isso nunca iria acabar.
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