Como Assim Eu Sou Uma Meio Sangue?

2 Capítulo 2 - Não acredito no que está acontecendo...


– Bom dia Susan! – Joana disse quando entrei na Cafeteria, fazendo com que o sino da porta soasse – Mais livros?

Eu sorri e ajeitei os livros nos meus braços enquanto caminhava até o balcão.

Joana era uma brasileira de 22 anos que trabalhava na Cafeteria conosco. Ela tinha ido para os EUA em busca de uma vida melhor do que a que levava em seu país de origem, pois seus pais moravam em uma cidade no interior do país e portanto não tinham uma vida financeira das melhores. Ela era morena, com os cabelos cacheados e castanho-escuros como seus olhos. Hoje, seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo para o lado, enfeitado com uma flor tropical e um medalhão dourado brilhava em seu pescoço. Ela usava uma camisa de um ombro só e uma calça jeans acinzentada por baixo de seu avental branco da Cafeteria, o qual tinha o seu nome e a logomarca da loja bordados em marrom-café na altura do peito.

Joana abriu a portinhola do balcão para mim e disse no meu ouvido:

– Sabe aquele garoto lindo e loiro que anda te paquerando há algum tempo? Pois é. Ele perguntou sobre você a mim e pediu para eu te entregar isso aqui.

Ela balançou um pedaço de papel azulado na minha frente e eu tive que resistir a tentação de largar os livros no balcão e pegar o papel da mão dela.

– Ah, legal. – eu disse tentando conter minha animação e fingir que não me importava como o fato de que um garoto gato tinha me deixado um bilhete. – Eu vou pegar meu avental e deixar os livros lá dentro, ok?

– E o bilhete? Tem certeza que não quer dar nem uma olhadinha nele?

– Minha mãe sabe sobre ele?

Joana negou com um movimento de cabeça e eu rapidamente larguei meus livros no balcão e avancei nela, tentando pegar o bilhete de suas mãos. Por ela ser mais alta que eu, tive certa dificuldade para tomar-lhe o bilhete (eu tive que meio que escalar a Joana), mas finalmente consegui. Com um sorriso travesso, eu corri para a sala dos funcionários e fechei a porta.

– Não demore aí dentro Susan! – ouvi Joana gritar do outro lado da porta – Os clientes estão começando a chegar!

Eu acendi a luz da sala e sentei em uma poltrona que havia lá, ao lado de um bebedouro e um mini-banheiro. Impacientemente, eu abri o bilhete do garoto e o analisei antes de ler, só para ter certeza de que aquilo não era mais uma pegadinha de Joana. Mas não era. O pedaço de papel azulado era na verdade uma folha de agenda datada do dia de hoje onde uma breve mensagem estava escrita com uma caligrafia um tanto quanto caprichada para um menino. A mensagem era mais ou menos essa aqui:

Querida “filha da dona da Cafeteria”,

Pois é, eu não sei seu nome. Mas adoraria saber. Venho te observando há alguns dias e percebi que você é muito bonita e que ama ler. Por isso lhe mandei esse bilhete, ao invés de falar diretamente com você. Isso e o fato de que você não havia chegado quando eu cheguei aqui na loja. Mas enfim... Que tal se almoçássemos juntos, lá no Jack’s (o restaurante do outro lado da rua)? Senão quiser, tudo bem, mas se quiser, eu estarei te esperando lá ao meio dia.

Espero ansiosamente para lhe conhecer melhor,

Seu paquera secreto

Eu não pude conter uma risada ao terminar de ler. “Paquera secreto”? De onde ele tinha tirado aquele codinome idiota? Ninguém mais usava o termo “paquera” para se referir a alguém hoje em dia! Assim como não se corteja mais alguém, você chega na pessoa e flerta ou dá em cima dela! Ia ser legal conhecer um garoto que adotava os costumes antigos.

E eu fiquei ali, viajando na maionese com dezenas de pensamentos bobos, até que ouvi o sino da porta da frente tocando.

– Susan! Vem logo! Eu não posso atender dois clientes ao mesmo tempo! – Joana gritou do balcão

– Já to indo! – gritei de volta

Rapidamente levantei da poltrona, dobrei o bilhete e o guardei no bolso traseiro da minha calça jeans, vesti meu avental branco da Cafeteria e corri para onde Joana estava, com um sorriso enorme no rosto.

– Você está sorrindo demais. – ela disse sem tirar os olhos da chapa onde estava fritando bacon com ovos – Ele te chamou para sair?

– Ele me chamou para almoçar no Jack’s ao meio dia! – meu sorriso animado se desfez – Será que minha mãe deixará eu ir?

– Só se você trabalhar direito. Tem um bloquinho de anotações com uma caneta na bancada e um cliente esperando no balcão. Por que você não vai lá e espirra um pouco da sua alegria nele?

Eu revirei os olhos, peguei o bloco de anotações, prendi a caneta atrás da orelha e fui para o balcão, toda alegre, onde um garoto de cabelos cacheados estava de cabeça baixa.

– Bom dia! – eu disse com um sorriso bobo no rosto – Bem vindo ao Brazilian’s Coffee. Em que posso ajudá-lo?

O garoto levantou a cabeça e me encarou com um tímido sorriso nos lábios. E foi nesse momento que eu tive um mini-infarto.

O susto de vê-lo ali foi tão grande que eu recuei, tropeçando no meu próprio pé e quase caindo por cima da bancada onde ficava a cafeteira. Os copos de plástico que estavam empilhados de forma tão organizada na bancada foram todos ao chão, se espalhando para tudo quanto era canto. Meu coração estava a mil por hora e eu tentava desesperadamente me convencer de que o que estava acontecendo não era real.

– Ah meus deuses! – sussurrei – Isso não pode estar acontecendo. Isso só pode ser mais um dos meus sonhos loucos!

– Ei garota! – ele chamou, fazendo com que eu olhasse para ele novamente – Está tudo bem? Você está bem?

Eu respirei fundo e analisei novamente suas características físicas, comparando com a imagem que eu tinha em mente. Cabelos negros e encaracolados? Ok. Olhos cor de avelã? Ok. Pele morena? Confirma. Orelhas pontudas de elfo do Papai Noel? Yes. Inquietação e falta de atenção? Aham. Mãos ativas e sujas de graxa? Confirma. Eu estava certa. Era ele. Era Leo Valdez atrás do balcão da Cafeteria.