Estávamos bêbados; inconscientes e risonhos, carregando uma garrafa vazia de vinho, enquanto dançávamos nas ruas vazias e escuras. E talvez fosse uma tentativa de livrarmos da responsabilidade e do medo, assim como os cigarros em nossos dedos provavelmente fosse uma tentativa de atenuar a ansiedade que corria por nossos punhos, assim como porventura, as pessoas vocabulizavam que nosso fim seria doloroso e incompleto: Incompleto porque carregávamos a parte de cada um. E enquanto ela carregava minha alegria e meu vigor, eu me destruía com sua dor e angústia, no entanto, caso eu não a tivesse – como fora antes de a conhecer – voltaria para minha vida aborrecida.

A noite estava muito escura, por isso os céus eram negros e sem estrelas; porém, não era necessário nenhum brilho tão natural quanto o fulgor das pérolas que minha amada carregava em seu pescoço, e jamais contaria as estrelas enquanto ela aparecia tão bela em seu vestido vermelho e cabelos cacheados em minha frente. E fora nessa noite fria, onde estávamos mais arrumados que o preciso, que dançamos em outra tentativa imperfeita de aliviar a sensação de vazio e que nos perdemos no álcool e tabaco.

Segurei seus pulsos finos e lhe osculei a boca vermelha, tomando-a o ar e a calma. Ela esfregou sua pele de ouro em meu corpo, entregando-se para o prazer e preenchendo meu coração com desespero e desgosto – todavia – eram momentos em sua companhia que a dor me consolava de um jeito confortável, e eu ficava estranhamente contente por ter vontade de me devastar.

Nossos encontros intensos, porém vazios, sempre terminavam do mesmo jeito, e era por isso que nosso amor era tão questionado e julgado por terceiros, porque incessantemente eu estava frustrado e aflito, e ela estava chorosa e suicida. Então, repentinamente, a bebida, os cigarros ou até mesmo o dinheiro que gastávamos com nossas bobagens, não conseguiam mais comprar nossa felicidade, e tivemos um longo período tortuoso para aturarmos um ao outro.

É estranho dizer atualmente que o que sentíamos um pelo o outro era amor, entretanto, é verdade; pois não há outro sentimento para descrever todo o tormento para estar com alguém, para ouvir a voz de alguém e para sentir alguém. Era excessivo e defeituoso, e tão defeituoso, que por algum segredo da natureza, era perfeito. E a angústia que trocávamos como cartas, era aconchegante por estarmos juntos.

Então não tínhamos muito o que preocupar quando as pessoas falavam que éramos uma bagunça, ou que nosso fim seria doloroso e incompleto, porque apesar de tudo, o nosso amor era tristemente infinito e eterno. E era somente disso que precisávamos.