Coming Home
2 Capítulo 2- Victor
No dia seguinte, acordou cedo, fez o café da manhã e acordou o pai. Passou toda manhã fazendo todos os deveres que faria ao longo do dia, não conseguindo se concentrar muito em nada.
Não sabia por onde começar, e essa ideia assustou-o. Talvez nunca descobrisse a verdade, se não procurasse nos lugares certos... Sua primeira decisão foi tentar falar com os familiares de sua mãe, mas o pai negava-se a dizer onde moravam. Frustrado, Victor saiu pela porta de frente, desceu os degraus e se sentou no meio-fio, pegando o maço de cigarros no bolso (aquela estória de que cigarro atrai os problemáticos? maior verdade existente). “Nossa, mãe, por que a senhora não deixou um bilhete? Um endereço? Ia facilitar tanto!” Como se sua mãe tivesse o escutado, uma ideia surgiu em sua cabeça. Levantou-se rápido, jogando o cigarro inteiro em uma poça e correndo para dentro:
–PAI! — gritou, olhando pela sala e pela cozinha.
–Escritório- ele respondeu, com a voz um pouco mais grossa que o normal.
Chegando ao escritório, Victor achou que um furacão tinha entrado em sua casa. O local tinha livros jogados, meio abertos no chão e papéis amassados por toda parte. Todavia, o pai parecia calmo, encostado de olhos fechados na sua poltrona, bebendo uísque. Ele está sempre bebendo uísque.
–Pai, eu preciso de um favor.
–Depende do que precisa.
–Preciso que o senhor faça uma lista para mim dos lugares favoritos da mamãe. Pode fazer isso?
O pai respirou fundo, abriu os olhos e colocou os cotovelos na mesa a sua frente (que parecia mais um depósito de lixo e garrafas). -E o que eu ganho com isso?
"Um filho a menos pra se preocupar em alimentar", pensou, mas não era assim que se lidava com seu pai:
–50 pratas. Fica como meu presente de natal.
"Que o senhor não deu" decidiu não completar. O pai fechou os olhos de novo. Sempre ficava assim quando falava se sua (ex) esposa.
–Tudo bem. Me de um papel e uma caneta.
Victor pensou somente em pegar qualquer um dos papéis amassados no chão e desamassar, mas queria que o pai cooperasse, então foi até seu quarto, pegou um caderno qualquer e uma caneta e andou até a mesa do pai. Ele escreveu calmamente, numerando cada lugar, riscando algumas palavras, depois escreveu mais. Quando acabou, tirou o papel do caderno e, dobrando-o, colocou dentro de um envelope. Encostou-se na cadeira e bebeu todo o resto de seu uísque em uma só golada.
–Obrigado- disse, saindo e indo direto para seu quarto.
Em uma mochila, enfiou algumas trocas de roupa, um casaco, seu envelope, junto com o caderno e a caneta, sua câmera fotográfica nova que seu irmão acabara de lhe dar de natal (daquelas antigas, que a foto sai na hora), seu celular com o carregador e todas as suas economias, que estavam sendo guardadas para um apartamento (por volta de 2000). Depois de empacotar tudo, sentou-se na cama e olhou através da janela. Será que devia mesmo? Largar seu pai e seu irmão, os únicos que algum dia lhe trouxeram alguma paz, para explorar o desconhecido atrás de uma mulher que o deixou sem nenhuma explicação? Ela nem participou de sua vida, não sabe nem quem ele se tornou, por que devia se preocupar? Por quê?
Porque era sua mãe. E ele não conseguirá seguir sua vida até encontrá-la, e saber por que se foi. Se o pai não cooperava, talvez ela explicasse. Talvez. Talvez nem chegasse a encontrá-la. Não se sabe a resposta. E ele iria descobrir.
Passou pelo escritório e viu que o pai adormecera. Dessa vez, abriu uma das bolinhas de papel e escreveu "Eu volto logo. Fui atrás de respostas. Amo você." foi difícil escrever essas últimas palavras, o pai nunca disse nada sobre os amar, nem eles sobre amar o pai, mas pareceu um bom momento para usá-las. Era mentira: não sabia se voltaria. Pegou algumas coisinhas na cozinha, no caso de ter fome mais tarde, e foi até a porta. Porém, quando foi pegar na maçaneta, viu-a girar e afastou-se. Seu irmão entrou com tudo, atirando sua mochila em um canto e a gravata em outra. Quando viu o irmão, congelou:
– Onde você está indo? – parecia desconfiado.
– Estou indo ver a mamãe. – disse o menino como firmeza, como se fosse algo fácil de fazer. Quem me dera que fosse.
– Vi... Já conversamos sobre isso...
Desde que teve a brilhante ideia de tentar achar a mãe, Pedro tentava convencer Víctor de que era uma péssima ideia. Aquele não gostava de sua mãe, sentia ódio por ela ter os deixado quando mais precisávamos dela, e não ter nunca se importado nem em mandar um cartão de Natal. Mas nenhum dos dois sabe o motivo de ela ter fugido. E Víctor sente que precisa descobrir. Já foi andando, parando na metade da porta para se virar e dizer:
– Tarde demais. Até alguns dias, volto logo!
– Você sabe que não pode deixar ele assim. – Pedro abaixou a voz e olhou para baixo. Seu irmão sabia do que ele estava falando. O pai deles está com muitos problemas de saúde, e irmão mais velho está ralando ao máximo para conseguir sustentar a família.
– Não vou embora para sempre. Um mês no máximo. Qual é, Pedro? Você não tem a mínima curiosidade? De saber como ela é, como está e por que fez aquilo? Como consegue dormir não sabendo como é sua própria mãe?
– Pare de ser egoísta. Está pondo a sua curiosidade na frente do bem maior, da nossa família, aquela parte que não nos abandonou. Mamãe foi egoísta ao nos deixar, e você está fazendo o mesmo. Eu preciso de você. Papai precisa de você. Se o pior acontecer com ele, Deus sabe o que vamos fazer.
– Como eu disse, não vou embora. Vou descobrir isso, para assim vivermos nossa vida melhor, todos juntos. Cuidarei de papai, você conseguirá nos manter. Eu só preciso de um mês, Pedro, só isso. Não pode me dar essa oportunidade? Por nós.
Nunca Pedro mostrou aquela expressão antes. Uma mistura de tristeza, decepção, ódio, e... Dor? Pena? Não dá para saber ao certo. E Víctor não ficou para descobrir qual seria sua próxima reação. Virou-se e fechou a porta. A brisa do fim de tarde acertou-o em cheio, secando seus olhos molhados de lágrimas. Não poderia mais voltar atrás. Estava nas mãos do destino, sentia a liberdade e o medo pulsando em todo seu corpo. E agora?
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