Coming Home
3 Capítulo 3- Victor
Notas iniciais
LISTA DOS LUGARES FAVORITOS DE ANNA
1- Colégio Martin Luther King
2- Livraria municipal
3- Feirinha mensal de rua
4- Festival de cinema
5- Salão de Festas Red Velvet
6- Hotel 3 estrelas da Rua Principal
7- Hospital e Maternidade Coração Vermelho
8- Avenida 7, casa número 400
9- Banco
10- Casa
Meu filho,
Surpreendi-me com sua ideia para descobrir mais sobre sua mãe. Foi muito inteligente. Porém, sei que você não vai ser esperto o suficiente para saber o que esses lugares têm a ver com ela. Então, peço que, quando for amanhã à livraria, procure por Dandara. Boa sorte.
“Obrigado pela confiança, pai” bufou Víctor, enquanto lia o bilhete. Quem é Dandara, e porque ela saberia mais sobre a história de sua família? Essa história estava muito estranha. E como assim não conseguiria achar a ligação dos lugares com sua mãe? O que mais ele faria, senão descobrir tudo a qualquer custo? Não poderia ser tão difícil assim, poderia?
Andando até o colégio, o garoto imaginava se seu pai estava achando que tudo isso era uma brincadeira. Quer dizer, o último lugar da lista era a volta para casa. E se o pai pensou em manda-lo para todos os lugares que vieram em sua cabeça, só para o Victor parar logo com essa história de tentar conhecer a mãe e voltasse para casa menos paranoico? Podia imaginar o pai e o irmão rindo de sua cara agora, enquanto almoçavam... Eram muitos pensamentos, muitas perguntas! Parou em uma cafeteria perto de sua casa e pediu um achocolatado. Era o que tomava sempre que se sentia assim. Seguiu seu caminho.
Esse tal Colégio não era o que tinha estudado, mas não era tão longe assim de sua casa. Quem estuda lá são as pessoas mais simples da cidade, a escola tem a fama de pegar até os piores casos de crianças agressivas ou com distúrbios de atenção... Por que esse seria o primeiro ponto em que deveria ir?
Quando chegou ao local, Victor sentia-se ansioso. Parecia abandonado, ou pelo menos fechado, mas havia um segurança com o dobro do tamanho do menino na porta, já o encarando. O guarda parecia aumentar mais de tamanho enquanto iam se aproximando.
– Com licença, onde posso conseguir informações? Falar com o diretor, talvez?
– Quer uma ficha de inscrição?
–Eu... Quê? Não! Eu não estudo mais... Só gostaria de perguntar sobre uma pessoa. Beatriz Araújo. Conhece?
– Olha, de Beatriz eu não sei não, sou novo aqui... Mas o senhor Araújo é o dono da escola.
Dono da escola? “O nome é bem comum” pensou Víctor “mas pelo meu pai ter falado para eu vir aqui em primeiro lugar... Será meu avô? Ou tio?”.
– Eu poderia falar com o senhor Araújo? Haveria como agendar um horário?- os olhos dele se iluminaram.
– Sinto muito, mas ele está viajando e só volta daqui um mês. Pode tentar falar com o orientador, ele conhece todos os alunos...
– Claro, quer dizer, por favor. – mas é claro que não seria tão fácil. De qualquer jeito, não poderia desistir agora. Não tinha largado tudo por nada.
O segurança abriu os portões de ferro, então Víctor pôde ver uma grande construção, que mais parecia um antigo castelo, todo cinza e escuro. O chão era todo cimentado, sem nem um tom de verde (a não ser o musgo em alguns cantos). Tudo era muito silencioso e vazio, então o menino sentia medo. Parecia mais uma prisão que um colégio, mas, no fundo, todos são assim. Abrindo a pesada porta da frente, entendeu que as paredes eram a prova de som. Lá dentro parecia um zoológico, uma bagunça só. Havia gente por todo lado, crianças no meio de adolescentes no meio de adultos, a maioria gritando ou falando alto. Até pessoas andando de skate tinha! Tudo no meio de armários e portas para inúmeras salas.
Quando conseguiu empurrar as pessoas e abrir espaço até a secretaria, já se sentia exausto:
– Oi, meu nome é Víctor Araújo e eu gostaria falar com o orientador, por favor. – disse em só um suspiro.
– O senhor é parente de algum aluno ou professor?
– É isso que eu vim descobrir.
– Espere um pouco, por favor.
O tempo que permaneceu olhando para a mulher digitar parecia ser eterno, como se ela estivesse brincando com ele e só escrevendo palavras aleatórias no computador, ou comentando com alguma amiga dela que havia um maluco lá que não sabia quem eram seus parentes.
– Qual o seu nome mesmo? – E foi nessa hora que ele percebeu que a mulher realmente estava zombando com ele – Vou ver se o orientador pode atendê-lo agora.
– Victor. Victor Araújo. E muito obrigado. – Já havia perdido a paciência, e olha que era só o primeiro lugar. A mulher levantou e foi até a sala do lado, batendo na porta e, sem esperar resposta, colocando a cabeça para dentro.
Mais uma vez, o tempo parecia não passar dentro daquela selva que se denominava escola. Podia ver que a secretária ria ao falar com o orientador, fazendo-o mais uma vez se sentir inseguro de ter ido até ali. Se ao menos seu pai tivesse dado mais alguma informação... Logo quando pensou em dar meia volta e ir embora, a porta da sala foi inteiramente aberta.
– O senhor Alfredo irá vê-lo agora. – a mulher, cujo nome ainda não sabia, disse sorrindo.
Victor agradeceu e entrou pedindo licença. O homem que estava sentado a sua frente parecia muito, muito velho e extremamente cansado. Aquele tipo de pessoa que se dedicou a vida toda a trabalhar, e que vai fazer isso até o seus últimos suspiros. Suas olheiras juntavam com as rugas em torno dos olhos e o sorriso era amarelo, forçado. Sua cabeça com os poucos fios de cabelo que lhe restavam refletiam a luz enquanto dizia:
–Boa tarde, em que posso ajuda-lo?
–É... Oi. Meu nome é Victor Araújo, isso pode parecer um pouco estranho para o senhor, mas eu estou tentando encontrar a minha mãe e...
–E você quer que espalhemos papéis de procurada. Sem problemas, você não é o primeiro que vem aqui...
–Não! Não é isso. Olha, eu sei que de algum jeito tenho uma ligação com essa escola, e eu só queria entender qual é. Talvez pelo meu sobrenome, ou pelo nome da minha mãe. Beatriz Araújo.
Nesse momento, Victor pensou em algo que não tinha lhe vindo à cabeça antes: e se sua mãe tivesse outros filhos? E se era isso que seu pai queria que ele visse? Não saberia como reagir se isso fosse verdade, muito menos se os visse, mas só de pensar na ideia uma pontada de ciúmes atingiu-lhe em cheio. Não gostou de pensar que a mãe havia abandonado duas crianças para ter outras mais, e dessas ter cuidado a vida toda.
–Meu filho, eu estou aqui desde que nasci. Eu estudei e trabalhei aqui minha vida inteira. Se existe algo que eu sei, são as pessoas que estudam ou estudaram aqui. Alguém já deve ter te falado sobre o seu sobrenome, não é? É o nome do nosso querido diretor, Carlos Araújo. E, coincidentemente, sua filha se chama Beatriz. – Um vento de esperança atingiu Victor em cheio. Tanta coincidência assim não era possível, tinha que ser sua mãe. – Eu já era professor quando ela estudava aqui, dei aula em seu terceiro ano do ensino médio. Uma doce, gentil menina, mas ao mesmo tempo muito tímida. Lembro-me bem, ela sentava na última cadeira, o mais longe dos outros possível. – Alfredo gesticulava enquanto falava, com os olhos perdidos em suas memórias. – Mas sempre que os professores entravam, ou qualquer um que não os colegas de classe, ela sorria. Passava a aula inteira com os olhos colados na gente, sabe como é, quando não estava escrevendo em seu caderno. Tirava as melhores notas da sala, talvez por isso todos os alunos ficavam falando dela, fofocando. Se ela ligava ou não para tudo isso, aí eu já não sei, mas tudo que ela fazia era manter distância.
“Até um dia, no primeiro dia de aula depois das férias de Julho, entrou um menino novo. Não consigo me lembrar do seu nome, ele permaneceu muito pouco aqui conosco. Parece que havia causado muitos problemas na outra escola e precisou ser transferido com urgência, algo assim. De qualquer jeito, o único lugar vago para ele sentar ela do lado de Bia. O menino cheirava a encrenca, entende o que eu digo? Não trouxe nem um lápis para a aula. Mas de algum jeito, não sei como, nem por que, ele e Bia começaram a se comunicar. Com o passar das semanas, dava para perceber que a menina não estava mais olhando diretamente para a lousa, mas ficava espiando o menino. Mais dias se passaram, e a diferença era totalmente perceptível. Hora ou outra, ela estava debruçada sobre o caderno de seu novo amigo, tentando ensiná-lo algo. Tive até que chamar a atenção dos dois uma vez, o que fez a sala toda olhar e rir, esses adolescentes. Depois desse último semestre, nunca mais soube como isso terminou. O diretor não é um homem de muitas palavras como eu, na verdade só fala quando necessário, por isso não soube mais da Bia. Espero que o menino não a tenha destruído, mas nunca se sabe os rumos que a vida toma, não é?”
Victor estava tonto perante tanta informação de uma vez. Nossa, o orientador não parou nem por um segundo para perguntas! Se bem que agora, sua mente estava vazia. Não conseguia pensar nem em pergunta, nem em resposta para dar para o velho senhor. Será que aquela era mesmo sua mãe? E o menino, quem era? Seu pai? Tentava manter os pés nos chão, não ir muito longe na sua imaginação, pois sempre que isso acontece acaba em decepção. O homem o olhava fixamente, esperando uma resposta.
–Bem... Isso com certeza é muito relevante. Claro, ainda não da para saber se é ou não minha mãe, mas... Acho que não da para chegar muito além disso, não é?
–Olha, filho, se você está querendo a minha opinião... Você me lembra muito ela. O olhar, quero dizer, prestando atenção. Talvez seja mesmo quem você está procurando. Posso te dar meu voto de confiança, e um desejo de boa sorte. – Estendeu a mão para o menino, mostrando que estava na hora das despedidas.
–Muito obrigado pelo ajuda, senhor Alfredo, de verdade! Até uma próxima vez!
Saiu da sala, acenou para a secretária sem nome e saiu rapidamente da escola. O sinal já havia tocado, e os corredores antes lotados agora estavam desertos, em um silêncio ao mesmo tempo calmo e aterrorizador. Quando chegou lá fora, Victor respirou bem fundo. Bem, não era nada certo, mas era muito mais do que soube durante sua vida inteira. Tirou uma foto da escola, para guardar de lembrança. Entrou em uma lanchonete do lado da escola (incrível como sempre tem uma dessas do lado das escolas), comprou uma coxinha e um refrigerante e sentou em uma das mesas, tirando da mochila seu caderno e escrevendo tudo que se lembrava que o orientador tinha dito. Todo detalhe era importante. No fim, anexou a foto da escola. Quem sabe um dia isso vira um livro, ou sei lá, não é?
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