Comex - Uma virada de vida
3 Capitulo 3 - E agora José?
Notas iniciais
Pois então. A noite anterior passava em flash na sua cabeça enquanto via a claridade tomar conta do quarto.
Foram pro caixa em silêncio. Na hora de pagar, mesmo insistindo em dividir ele simplesmente lhe lançou um olhar sério, levantou uma sobrancelha e entregou o cartão á atendente sorridente até demais. Compras pagas e devidamente embaladas foram pro carro. Ele abriu a porta pra ela enquanto acomodava as compras no banco de trás. Ao se sentar no volante, ele olhou pra ela que apertava o cinto.
—- Qual o problema em um pouquinho de adrenalina? – Perguntou com um sorriso de canto e um olhar malandro.
—- Nenhum, desde que seja eu atrás do volante.
—- Ah, então a senhorita dirige? – ele pergunta se virando pra ela, apoiando o braço esquerdo no volante e aumentando o sorriso.
—- Com certeza, é uma das minhas paixões, oras. – ela riu de leve. – Posso ligar o rádio?
—- Fique a vontade. – disse também colocando o cinto de segurança.
O carro se encheu com os acordes do piano de Freddie Mercury, em Bohemian Rhapsody e ela sorriu inconscientemente e começou a cantar a letra, sabia de cor desde que se entendia por gente. Ficou vermelha ao ver que John sorria abertamente e batucava no volante, mas continuou cantando. Até que ele encostou o carro com um supetão e começou a imitar o solo da guitarra no ar, com uma careta. Não pode se conter e riu abertamente. Ele retomou a estrada, dirigindo bem devagar agora, aproveitando o momento e rindo com ela a medida que balançava a cabeça no ritmo da musica.
Chegaram com cabelos bagunçados e riso fácil em casa, o que deixou Dona Luci com os olhos brilhando. Eles se entreolharam e cada um pegou uma mão da senhora e se puseram a cantar novamente enquanto faziam uma dança improvisada na sala. Depois de se cansarem e se jogarem juntos no sofá, Aläis se levantou e disse que precisava pegar a massa na geladeira.
Foi rapidamente em casa e voltara já indo pra cozinha pedindo permissão pra distribuir tarefas.
Dona Luci foi encarregada do molho, visto que a ultima vez causara um acidente. Enquanto isso John ia na sala e colocara um vídeo de Bon Jovi — Livin' On A Prayer pra rodar enquanto Dona Luci ria.
—- Não sei o que você fez, mas acabou de despertar o monstro das musicas anos 80 e 90.
—- Não faz mal, também gosto. – e ria enquanto observava ele vir pra cozinha fazer novamente a guitarra imaginária. – Vamos picar os ingredientes, todos bem pequenos e uniformes por favor.
—- Sim senhora, capitã! – disse ele batendo continência a fazendo rir e jogar um pano de prato nele.
Sentaram-se na mesa e picaram tudo enquanto cantavam juntos os refrões das musicas e riam. Ela olhou pra sua pilha já terminada, perfeitamente picada e olhou com falsa decepção para John que picava tudo de qualquer jeito e na velocidade de uma lesma.
—- Meu Deus... Você é péssimo nisso....- balançou a cabeça e estalou a língua – Que decepção.
—- Me dá um desconto, não to afim de perder o tampo dos meus dedos, preciso deles pra trabalhar sabia? — disse ele bufando.
—- Até agora você não me disse onde trabalha. — indagou a moça limpando as mãos em um pano de prato.
—- Trabalho na área de engenharia de transportes de uma empresa chamada CONTransport.
—- Hmm, interessante...- disse pescando um cubo de presunto com o garfo e colocando na boca.- Como tá indo o molho dona Luci?
—- Tudo certo querida, já pode começar a montar a travessa se quiser.
E assim ela pegou uma travessa de vidro própria para ir ao forno e se dispôs a montar as camadas da lasanha. Terminado o processo, colocou no forno e colocou o cronometro do celular para 45 minutos. E assim começou a tocar Total eclipse of the heart e ela se dispôs a balançar lentamente ao ritmo da musica, sem reparar que John tinha se levantado, até ele colocar as mãos em sua cintura e a virar pra si, acertando o compasso da dança. Ela prendeu o folego ao se ver pressionada contra a muralha de músculos do peito dele e obrigou seus pés a não pisarem nos dele. No refrão que a musica se agita ele passou a solta-la do abraço pra fazer firulas de dança e ela começou a rir por não saber o que fazer. Dona Luci ria da cena sentada na cadeira da mesa de jantar com um copo de suco nas mãos. Assim o tempo passou até se sentarem para comer. Aläis olhava com diversão as reações dos novos vizinhos ao provarem a massa. Vários hmm’s e meu Deus escaparam aquela noite e ela manteve um sorriso satisfeito no rosto até se dar conta da hora.
—- Nossa já é quase onze horas, melhor ir pra casa, não quero atrapalhar...
—- Relaxa, amanhã é sábado, e até onde sei você é a mais nova desempregada. – riu John levantando uma taça de vinho para um brinde, sendo acompanhado pelas mulheres, sua mãe com suco e Aläis com vinho também.
—- Ah menina, fico preocupada com você, mas acho que você sabe se virar, então parabéns pela liberdade! – rindo beberam de suas taças enquanto se levantavam. – Não não, deixe a louça aí que o John lava querida.
—- Ah Dona Luci, fui educada a sempre lavar a louça quando jantar na casa de alguém, é um hábito, então não consigo largar mão – riu já se aproximando da pia.
—- Então vamos fazer o seguinte, você lava e eu seco, vamos dar um descanso pra essa lava louças mãe. – disse John já se colocando a postos ao lado da pia.
—- Tudo bem então, vou tomar um banho e me preparar pra deitar, amanhã vou caminhar cedo, se quiser me acompanhar Aläis, por que esse menino depois que começou a trabalhar no escritório não sai da cama cedo no fim de semana nem por reza brava!
—- Claro, ficaria feliz, faz tempo que não faço exercícios mesmo. – ela sorriu pra senhora enquanto ela subia as escadas acenando.
—- Beleza, vamos dar cabo da louça logo, vai passar um filme que quero muito assistir, você me acompanha?
—- Sim, não tenho muita coisa pra fazer também – riram e se colocaram a lavar, enxugar e guardar a louça que já estava terminada em poucos minutos.
Ele disse a ela ir pra sala na frente e se acomodar que ele iria abrir outra garrafa de vinho. Quando estava devidamente acomodada no sofá, ele apareceu com duas taças e a garrafa. Aläis tinha um pequeno problema com vinho tinto suave que basicamente, era NÃO SABER QUANDO PARAR DE BEBER. Sendo assim aceitou uma taça e viu ele ligar a tv e ir para o canal.
— Do que é o filme?
—- Olha lá, já vai começar, logo você vai entender. – ela deu de ombros pro olhar vidrado dele na tela e bebericou o vinho. Quase engasgou ao ver o titulo de um filme de terror que Stella garantiu a ela que não conseguiu dormir por 3 dias de tão macabro que era. Mas pensou que esse era tempo de mudança. Então ignoraria a parte do seu cérebro que a mandava correr pro mais distante possível e continuou observando a tela. Passados 10 minutos do filme, com John a vontade, esparramado ao seu lado com um braço no encosto atrás dela, ela se encolheu e fechou os olhos quando um demônio apareceu na tela. Ele tão vidrado na história não percebeu que a movimentação dela era de medo e levantou sem dizer nada, e pegou uma manta que estava na poltrona próxima e jogou sobre suas pernas.
—- Melhor assim? – como não conseguia achar a própria voz só acenou com a cabeça e ele lhe deu um sorriso de canto e voltou a mesma posição, prestando atenção na tv. Acabou se distraindo com o desenhos da manta e num descuido olhou pra tela, se assustando de uma forma que acabou pulando no sofá, meia de lado e fechado os olhos com força. – Aläis, olha pra mim, Aläis...- ela cedeu e abriu os olhos quando a mão forte e calejada dele pegou seu queixo e o levantou – Você tem medo desse tipo de filme?
—- N-n-não sou muito fã de filme de terror...- e estremeceu com o grito da personagem principal que vinha da tv.
—- Oh, me desculpe, eu não imaginava, achei que fosse gostar...- ela viu algo como tristeza no olhar dele e sentiu uma pontada no peito – Posso mudar de canal se quiser.
—- Não! – agora a tristeza se tornou confusão nos olhos âmbar – Não precisa mudar, eu só não garanto que vou olhar pra tela – sorriu envergonhada da própria bobagem, quem tem medo desse tipo de filme? Só ela pelo jeito, pois ele abriu um sorriso brilhante, á puxou pra perto de si e continuou prestando atenção no filme.
Não sabia se era pelo vinho, ou por estar tarde, mas ela sentiu sua cabeça girar e podia jurar que ele suspirara mais profundamente perto de seu cabelo. Não se deu conta de quando adormeceu, mas acordou no meio da noite ainda abraçada a cintura dele, com as pernas em seu colo. Saiu de fininho, fechando a porta devagar e indo pra casa nas pontas dos pés. Não sem antes dar uma boa olhada, memorizando os traços do rosto relaxado do homem enorme encostado no sofá, parecendo um anjo sob a luz da tv.
Sacudindo a cabeça pra espantar as memórias da noite passada, se levantou e foi pro banho tentar ficar mais desperta. Ouviu a vizinha chamar baixinho no portão e abriu a porta sorrindo.
—- Bom dia Dona Luci.
—- Bom dia menina, achei que não fosse levantar, não vi a hora que foi embora. Tudo certo pra caminhada?
—- Tudo certo sim, vamos indo?
—- Com certeza! – enquanto trancava o portão não podia se conter diante da tagarelice da senhora – Ah como é bom ter alguém pra caminhar junto comigo, é tão chato fazer sozinha...Você gosta de exercícios?
—- Gosto sim, mas não tinha muito tempo pra praticar. Agora tenho bastante até arrumar outro emprego. – disse indicando a rua para começarem.
—- Então achei uma parceira! Olha, agora que estamos só nós duas, preciso te agradecer. – curiosa, fitou o olhar perdido da senhora, que sorria complacente – Nunca vi meu filho tão alegre desde que fui á sua formatura da faculdade. Perdemos David, o pai dele, muito cedo e ele achou que deveria assumir o posto de homem da casa, só que cedo demais. Ele sempre fez o possível pra me dar conforto, como o pai dele fazia, mas em troca perdeu a adolescência e até hoje não vejo ele sair pra se divertir seja sozinho ou acompanhado. Ontem vi aquele brilho no olhar dele e isso deixou meu coração velho muito feliz. – riu de leve enquanto pegava a mão de Aläis – Mesmo não te conhecendo á muito tempo, posso dizer que você tem um espaço especial no meu coração. É como diz o ditado : quem trata bem os meus filhos adoça minha boca. – sorriu abertamente fazendo Aläis sorrir também.
–- Obrigada Dona Luci, vocês também tem um espaço reservado no meu coração! – sem prestar atenção no caminho, Aläis não viu um buraco no asfalto. Só viu o chão se aproximar mais rápido do que deveria normalmente. O impacto a deixou fora do ar por alguns instantes, mesmo tentando aparar a queda com as mãos não conseguiu impedir que seu rosto também batesse no asfalto assim como os joelhos. Depois do primeiro choque voltou a realidade com uma Dona Luci desesperada ao seu lado com um celular colado na orelha.
Droga!
Fale com o autor