Comex - Uma virada de vida

1 Capítulo 1 - O que aconteceu com a minha vida?


Notas iniciais
Olá! A grafia do nome da personagem principal pode ser complicada no início. Mas se lê Aláis. Aproveitem!

Desde que saíra da casa dos pais há seis anos, sempre morou no centro da cidade. Gostava da praticidade, das luzes e movimentos. Pagava caro? Com certeza. Boa parte do seu salário era aluguel e contas. Não se dava ao luxo de comprar roupas e sapatos, estava maior parte do tempo no trabalho com seu uniforme de trabalho ridiculamente...Ridículo.

Uma calça feia com a cor de um roxo estranho e camisa polo preta. Sapatos emborrachados fechavam a estranha combinação. Pagava as contas com o baixo salário e pensava se valia a pena todas as horas de sono perdidas entre a faculdade e o trabalho pra continuar na mesma vida: Oito horas de trabalho estressantes lidando com o público, muitas vezes hostil, com o seu melhor sorriso e simpatia. Foram horas de sono perdidas fazendo trabalhos e aprimorando seu inglês até ser fluente.

Isso fervilhou seu sangue. Tinha de ser diferente, não aguentava mais. Porém, sempre com os pés no chão, ligou seu computador e procurou aluguéis mais baratos. Encontrou uma casinha encantadora no subúrbio que atendia todas suas necessidades. Mandou mensagem ao dono e conseguiu agendar a visita para o dia seguinte.

Fora trabalhar feliz. Sentia-se tomando as rédeas de sua vida. A mudança foi rápida, entregou a chave do apartamento do centro em menos de dez dias e estava se acomodando na nova casa, quando ouviu alguém bater no portão. Abrira com medo, não estava acostumada com pessoas tão perto da porta depois de morar tanto tempo em condomínios fechados, com acesso controlado. Deu de cara com uma senhora de sorriso simpático com uma cesta de frutas em mãos.

-- Desculpe bater e chamar no portão a essa hora, vi que acabou de se mudar e te trouxe um mimo. Meu nome é Luci.

-- Sou Aläis. Muito obrigada pelas frutas, não imagina o quanto gosto de maçãs!

—- Fico feliz com isso, tenho uma loja bem próxima daqui. Precisa de ajuda com a mudança?

—- Olha Dona Luci, ajuda eu não preciso, mas se quiser me fazer companhia eu aceito e ficaria muito feliz.

Dei espaço para ela entrar e seguiram para o quarto. Elas conversavam sobre coisas básicas quando Luci ficou séria de repente.

—- Você vai morar sozinha?

—- Sim, já fazem seis anos que moro só. Por que? – Aläis riu diante da careta horrorizada da doce senhora.

—- Desculpe, mas qual é a sua idade?

—- Tenho 21 anos. – E riu da boca aberta da nova vizinha.

—- Meu filho tem 33 e eu nem consigo imaginar ele saindo de casa!- as duas riram e voltaram a conversar amenidades.

Depois de algum tempo, Luci se despediu dizendo a Aläis que estava convidada para jantar dentro de uma hora. Sendo assim a garota decidiu tomar um banho frio pois fazia um calor agradável lá fora, se vestiu de maneira simples: Jeans surrados e uma camiseta simples, branca. Rumou para rua vinte minutos adiantada, descalça, com a intenção de ajudar a vizinha com o que pudesse. Ao ser recebida com um sorriso, pensou em como as coisas seriam diferentes, como se sentia acolhida em seu primeiro dia na nova casa. Seguiram para a cozinha e Aläis se sentiu impressionada com o tamanho da casa. Um sobrado de dois andares com decoração feminina e alegre. A cozinha rústica parecia saída de seus sonhos, adorava fazer uma refeição decente depois de uma jornada de hambúrgueres e batata frita.

Já se sentindo á vontade, lavou as mãos e começou a mexer no molho de uma panela fumegante no fogão enquanto conversava sobre sua origem italiana com a anfitriã. Num descuido deixara de mexer na panela e o molho espirrou em suas mãos e na camiseta.

—- Meus Deus menina! Você se machucou? Suba as escadas, á direita tem o banheiro, lave-se, no armário tem pomada para queimaduras.

—- Obrigada – subiu as escadas sem correr, ser asmática não ajudava e já se sentia nervosa pela ardência em suas mãos. Achou a porta e a mesma estava trancada. Bateu desajeitada enquanto avaliava quanto tempo levaria pra tirar a mancha na camiseta enquanto puxava a camiseta e olhava a pele da barriga também ardendo, sem notar que a porta se abriu e uma nuvem de vapor delineou a silhueta alta de um homem.

—- Droga mãe! Já pedi pra me chamar com calm...- Olhando pra cima assustada seus olhos se encontraram e o rosto da jovem esquentou, sem ter nada a ver com o ar quente vindo do cômodo. O rapaz estava somente com uma toalha envolvendo a cintura, o corpo maravilhosamente forte na medida certa ainda úmido do banho. – Porra, aconteceu um massacre lá embaixo? E quem é você?

—- D-d-desculpe, preciso de pomada pra queimadura...

—- Entra aqui, vou te ajudar. Sou John McCain, qual seu nome? – Perguntou enquanto apontava o sanitário pra moça se sentar.

—- Aläis Bellini. Estava mexendo o molho da Dona Luci e me distraí – Ele riu e ela ficou ainda mais vermelha se era possivel, mas agora num misto de raiva e vergonha. Se no inferno era quente como dizia a biblia, ela jurava que estava recebendo uma demonstração de como seria pagar por seus pecados.

—- Isso aidna não explica como parece que você foi esfaqueada. Aqui, estenda as mãos.- ele espalhava a pomada com cuidado, com uma expressão séria no rosto, por toda extensão das mãos pequenas dela.- Acho que não vai ficar marcado. Vou deixar você lavar sua blusa, vou te emprestar uma, ok? – ela concordou com a cabeça sentindo que sua língua era de pano no momento. Mas que diabos aquele cara estava rindo dela? Ela sabia muito bem se cuidar em uma cozinha industrial, só fora um pequeno acidente.

Lavou a camiseta na pia e aplicara pomada na barriga. Ouviu John dizer que a camiseta estava na maçaneta da porta. Esperou o som de seus passos se afastarem e pegou a camisa. Ficou parecendo uma criança dentro da roupa velha do pai. Ajeitou seus cabelos em um coque improvisado, respirou fundo e desceu as escadas com o rosto ainda quente. Ao chegar na cozinha encontrou Dona Luci com um olhar preocupado, John porém, colocava os pratos á mesa sem transparecer nada.

—- Como você está menina? Quer ir ao hospital?

—- Não precisa se preocupar Dona Luci, não é nada grave. Já estou acostumada a me queimar assim.

—- então quer dizer que você é voltada á desastres?- disse o rapaz com um sorriso torto que a irritara profundamente.

—- Na verdade não. Trabalho na DB Industria Alimentícia, na cozinha industrial. – ele a olhou confuso e ela se sentiu satisfeita.

—- Você não tem interesse em estudar? – indagou a senhora agora trazendo as travessas de massa á mesa.

—- Sou formada em administração com foco em comercio exterior.

—- Então não deveria estar perdendo tempo. Já tentou outro emprego menina?

—- Sim Dona Luci, mas é complicado mudar de ramo sem ter indicações internas. Comecei como aprendiz e hoje lidero a produção. Porém não vejo oportunidade de crescimento.

—- Posso mandar uma lista de e-mails de RH que tenho. Também mudei de ramo depois de me formar na faculdade.

—- Ficaria muito agradecida, se não for te atrapalhar. – sentindo o rosto esquentar terminou seu prato e se colocou a lavar a louça.

—- Não menina, deixa isso aí que coloco na lavadora depois.

—- Certo, obrigada pelo jantar Dona Luci, estava incrível. – Sorriu vendo os olhos da senhora brilharem, era italiana assim como ela, com certeza. – Já está tarde, melhor eu ir arrumar minhas coisas porque amanhã acordo cedo.

—- Eu te acompanho até o portão. – Antes de sequer conseguir abrir a boca pra dizer que não era necessário já estava em frente a porta da sala com o homem á suas costas. – Mãe não mexe em nada, deixa que eu arrumo isso aí.

Foram em direção á sua casa. Demorou um pouco pra conseguir abrir o portão, parte por falta de costume, parte nervosismo. Evitou ao máximo olhar na direção do homem enorme encostado no muro de braços cruzados.

—- Então é isso, obrigada pelo jantar e pela ajuda com a pomada.

—- Certo, depois me dê um currículo seu. Vou ver o que posso fazer.

—- Obrigada mais uma vez, espero não atrapalhar.

—- Muito pelo contrário. Só que, Aläis..- Ela encarou os olhos do homem reparando como o castanho tinha um toque dourado na luz da rua – não magoe minha mãe. Ela se apega muito fácil ás pessoas. – e entrou deixando uma moça confusa plantada no portão, tentando entender o que aquilo significava.