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1 Prólogo — A Essência da Psicopatia


Notas iniciais
Olá. ♥

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História:Cemitério das Cinzas

Último Update: 42 horas atrás

Oitavo capítulo, intitulado: Banho de Sangue.

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VIII: Banho de Sangue

"E naquele instante, Galeno já não sabia qual era sua direção. Ele tinha uma faca cheia de sangue; as mãos cheias de sangue; um corpo degolado à sua frente; e sua vingança estava sendo traçada através das pegadas sangrentas que habitavam o chão de madeira liso. Galeno amava aquela cena, era seu psicopata interior, seu ser vingativo renascendo."

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Anonimato espreguiçou-se em sua cadeira de couro velho, afastando-a alguns centímetros da escrivaninha do computador, e soltou um leve gemido em sintonia à cadeira que rangeu brevemente. Ergueu o olhar por alguns instantes até a bela tapeçaria de sua sala em tons de bege claro, e logo depois analisou a enorme prateleira de vidro repleta de bebidas alcoólicas intocadas. E então, Anonimato desceu o olhar à tela do computador à sua frente, puxando a mesa para mais perto, arrastando-se na cadeira. Ele encarou um site aberto onde havia acabado de postar o último capítulo escrito para sua brilhante história, Cemitério das Cinzas. Chamar esta história de brilhante é, provavelmente, um belo uso do eufemismo, já que história era impecavelmente perfeita. Cemitério das Cinzas — que se baseava em assassinatos cruéis nos quais os corpos eram carbonizados até serem deixados em cinzas – era publicada em um blog muito conhecido por acolher histórias amadoras de escritores desconhecidos, e atrair leitores interessados num gênero específico: horror. O blog era intitulado como Dark Side Home, o nome fazia alusão ao conteúdo lá depositado, que na maioria das vezes, como o nome indica, eram histórias de terror ou contos de thrillers assassinos macabros e violentos.

Anonimato, ou Enzo para os íntimos, ou seja, quase ninguém, amava escrever suas histórias, e reescrevê-las, e relê-las, e amá-las. Foram vários projetos escritos, rascunhados, engavetados, e quase sempre inacabados. Mas todos eles tinham algo em comum: giravam em torno de mortes, sangue, violência, maldade, impiedade e sangue frio. A essência de uma psicopatia presente. Mas nada nunca atingiu Enzo com tanta força quanto Cemitério das Cinzas, ele considerava este seu maior projeto, e também foi o único que viera a público. Anonimato dedicava-se dia e noite, madrugadas até, àquele seu precioso projeto. Reescrevendo capítulos, consertando erros, acrescentando coisas e mudando detalhes que contradissessem a história. Poderia parecer imperceptível, mas não para Enzo. Detalhes jamais seriam imperceptíveis aos seus olhos.

Enzo Monroeabandonou o primeiro período da faculdade – aos 19 anos – após a morte de Ametista Monroe, sua mãe. Ametista foi uma mulher, a princípio, de sorte. Filha única de um casal rico, de uma família relativamente famosa. Também neta única, ou seja, a única herdeira da família Monroe, o que significava herdar a cobiçada Delicate Vintage Monroe, uma empresa que estava na família gerações a fio. Delicate Vintage era a maior indústria de exploração de pedras preciosas – principalmente diamantes – dos Estados Unidos, então se tornando em pouco tempo a maior fornecedora de pedras para lojas de joias caras.

As palavras: “competente” e “capacitada” definiam perfeitamente Ametista em relação ao cargo de presidente – e dona de 60% das ações – da D. Vintage. Sozinha, ela foi uma das mulheres mais bem sucedidas do ano, aumentando o rendimento da empresa com seus excelentes projetos e ideias, se tornando cada vez mais rica, e, claro, lucrando cada vez sua excepcional lábia em reuniões com os representantes do exterior. Ametista tinha o talento para o sucesso. Para o mundo, Ametista Angelina Monroe era uma supermulher, inteligente, centrada, determinada, responsável, bem sucedida e de quebra extremamente elegante. Mas para uma visão íntima, havia outras versões de Ametista, como a de uma péssima mãe, uma alcoólatra, uma louca.

Sendo tão ambiciosa em relação à sua vida profissional, Ametista deixou a pessoal desgastada. A semana acabava e ela se sentia cansada, exausta, querendo apenas dormir até o próximo o ano. A fadiga lhe trouxe a vontade de apenas ficar em casa, em todo o seu tempo livre que era escasso. Empresa, casa, empresa, casa. Um círculo vicioso. Ela passava o dia todo sendo uma figura pública invejável, mas à noite, ela chorava por estar deprimida e se sentir sozinha, largando-se no chão da sala, chorando alto e gritando com o filho, descontando nele coisas das quais o garoto não tinha nem conhecimento, que dirá culpa.

A verdade era que Ametista era incapaz de amar o ser que fez o amor da sua vida deixá-la. O pai de Enzo os abandonou logo quando Ametista contou que estava grávida, mas o rapaz não fazia ideia do quanto àquela mulher era apaixonada por ele, o quanto ela o amava e como ela daria a vida por ele se fosse preciso. Ametista teve a criança, e batizou-a como Enzo Daniel Monroe, e a odiou desde seu nascimento. As constantes brigas entre mãe e filho eram ouvidas em toda a rua, ambos gritavam palavras ofensivas, palavras de ódio. E então, depois que a bagunça estava feita, Ametista chorava de novo, se agarrava a uma garrafa de rum e outra de uísque, bebia loucamente, depois vomitava pelo chão da sala e continuava a chorar. Um círculo vicioso, novamente. A vida de Ametista era feita deles.

— Ninguém te ama, Enzo! — Ametista gritou, enquanto cambaleava pela sala, com uma garrafa de vinho em mãos, com a maquiagem borrada pelas lágrimas e o cabelo bagunçado pelo surto.

Houve silêncio em seguida, o garoto estava a observando, parado no pé da escada, sem nenhuma expressão no rosto, apenas observando a mãe se descabelar, e chorar.

— Seu pai... — ela soluçou, se jogando no chão, caindo de joelhos, equilibrando a garrafa na mão direita. — Ele me amava, ele teria ficado se...

Enzo soltou uma risada debochada, enfiando as mãos na calça.

— Se ele te amasse teria ficado mesmo que você estivesse grávida de trigêmeos. — ele rosnou. — Se ele te amasse, teria me amado e se ele tivesse me amado, ele teria ficado.

Ametista berrou alto, pondo a mão no peito, apertando os olhos.

— Ninguém é capaz de te amar, Enzo! Eu não amo você, você não é amado!

Enzo continuou inexpressivo, como se as palavras da mãe penetrassem numa parede invisível e nunca chegassem até ele.

— Temos algo em comum, Ametista. — o garoto disse com muita calma. — Nenhum de nós é amado.

Ela soltou um uivo de dor, e agarrou a blusa que usava, com a mão em direção ao peito. Estava de joelhos, então caindo de cara no chão, a garrafa em sua mão quebrou e seu pulso sumiu. Um mal súbito atingiu Ametista naquela noite, ela estava morta. Enzo respirou fundo, impassível, e com a mesma expressão vazia habitual, ele subiu as escadas de volta ao seu quarto. Ametista estava enganada. Não era impossível amar Enzo Monroe, era impossível que Enzo Monroe amasse alguém.

Após a morte de Ametista, a Delicate Vintage Monroe faliu, não havia nenhum herdeiro direto. Enzo recusou pertinentemente o cargo. O rapaz herdou tudo que um dia foi de sua mãe. Imóveis, móveis, até mesmo as ações da empresa falida. E também, muito dinheiro. Tal fortuna que era o suficiente para viver quase duas vidas sem sequer trabalhar. Desde então, Enzo vivia sozinho, recluso do resto do mundo, dentro de sua enorme e refinada casa, saindo poucas vezes apenas pra comprar comida.

Anonimatolevantou-se de sua cadeira, que tornou a ranger, agora um pouco mais alto. Enzo trajava uma longa calça de moletom acinzentada e um longo blusão preto onde o cheiro ruim impregnado se fazia presente. Ele roçou os pés em seu delicioso tapete cor de vinho, atravessando a sala indo até o banheiro e ficou parado olhando-se no espelho, como fazia usualmente. Admirando cada traço seu. Sua pele negra marcada por feridas que ele mesmo causava. Seus olhos pretos envoltos com olheiras, e seu cabelo tão mal cortado, já que sem jeito, ele mesmo passava a tesoura em casa. Deu um soco no espelho, mas sem quebrá-lo. Resmungou, e deixou o cômodo, indo até a cozinha, que possuía vários armários lotados de louça de prata e coisas refinadas que Enzo não se dava ao trabalho de mexer, tudo já estava empoeirado há anos. Passando pela longa mesa de jantar, ele chegou à porta dos fundos, que estava aberta, Enzo rodopiou a chave e trancou-a em um clique. Virou-se em direção ao armário de mármore há alguns passos de distância e pegou uma xícara vazia e a garrafa de café, despejando café gelado na xícara esbranquiçada. Desligou a luz da cozinha e caminhou vagarosamente até a sala, indo em direção ao computador para desligá-lo, e isso fez. Olhou de relance para ao relógio de parede e notou que já eram três horas da manhã.

Com um bocejo e uma sacudida de ombros, Enzo bebeu o café gelado em um gole rápido, fez uma breve careta e pôs a xícara em cima da escrivaninha do computador. Estirou os braços e se deitou no sofá velho da sala, raramente ele subia até o quarto, e quando ia era apenas para buscar algo, Enzo não dormia mais lá há muito tempo. Bocejando alto e gemendo pelas contínuas dores nas costas e nas juntas dos dedos, ele estirou as pernas, cobriu-se com um lençol fino e o sono veio lentamente, embalando-o em um torpor profundo. Ele estava se sentindo relativamente mais cansado naquela noite, ele tinha essa sensação às vezes, como se estivesse sem dormir por semanas, mas esse era um dos efeitos.

Notas finais
Obrigada por chegar até aqui. ♥