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2 Capítulo 1 — A Fúria de Enzo
Notas iniciais
O dia estava quase amanhecendo, o sol começava a subir e quando atingiu o pico, incomodou os olhos sonolentos de Anonimatoque começava a despertar. O escritor cobriu o rosto com o fino lençol, tentando ignorar o fato de que já era de manhã e que os gatos que empesteavam sua varanda já estavam zanzando pelo parapeito exterior da janela semiaberta de sua cozinha. E ainda tinha que pôr o lixo pra fora. Enzo virou-se de lado e abriu apenas um olho, ainda se cobrindo por completo, focando em direção à cozinha e viu de longe a pia que estava lotada de panelas sujas, dezenas de pacotes de comida congelada e salgadinhos gordurosos.
A casa era uma nojeira. Enzo não costumava lavar louça por que quase nunca usava panelas, copos ou pratos, a maior parte do que ele comia era comida congelada. Num milagre, quando cozinhava uma sopa com restos de ossos de frango assado e algumas verduras secas, ele jogava a panela suja em um armário abaixo da pia e a esquecia lá, até que começasse a cheirar a podre. Regularmente, Anonimato lavava as xícaras de porcelana, afinal, era de uso diário, tomava seu café forte todos os dias.
Camadas e mais camadas de poeira cobriam os móveis por completo. As altas prateleiras de vidro que guardavam as garrafas de bebida de Ametista carregavam mofo e pó, e jamais foram tocadas após a morte de sua dona. O chão era grudento, caía café, açúcar, e às vezes escorregava molho dos pacotes descongelados de comida, Enzo passava um pano seco pra tirar o excesso, mas o resto se acumulava em uma crosta fedorenta e melosa.
Cansado de lutar contra a sua preguiça, Anonimato levantou-se relutante e foi até a cozinha estirando as costas, que soltava leves estalos. Parou na soleira da porta que dividia sala de jantar e cozinha, e ficou observando os gatos pretos zanzando na beira da janela. Agarrou a vassoura que tinha ao lado do armário próximo e foi em direção à janela e aos bichanos, bateu com o cabo de vassoura nos felinos, derrubando-os do parapeito e fazendo-os cair numa poça d’água, havia chovido na madrugada. Os gatos saltaram rapidamente pra fora d’água, arqueando as costas e eriçando os pelos, fugindo rapidamente pelos fundos da casa de Enzo, pulando a cerca e partindo para a rua.
Virando-se de volta para sua pia, o escritor junto todos os pacotes vazios de comida e garrafas de refrigerante espalhados pela cozinha e jogou-os num mesmo saco preto de lixo. Então, girou os calcanhares indo em direção à porta dos fundos, abriu-a e seguiu até o quintal arrastando o saco de lixo para despejá-lo numa das lixeiras públicas. Essa era uma das raras vezes que Enzo saia da de casa. Retornando à cozinha, Anonimato pegou as poucas panelas sujas, jogou-as embaixo da pia, decidindo como o de costume, ignorar a sujeira delas.
Com as mesmas roupas do outro dia, o escritor sacudiu os braços, e abriu a torneira da cozinha, na pia agora vazia, enfiou as mãos embaixo da água fria, molhando-as, e em seguida esfregou os braços, passando as mãos úmidas no rosto e pescoço. Fechou a pia, esticou o braço até a mesa de mármore, e pegou sua cafeteria antiga. Enzo pôs uma quantidade enorme, porém, não calculada de água em sua cafeteira, pondo em seguida oito colheres médias de café. Ele sabia que um dia ainda teria um enfarte por cafeína por conta dessas quantidades absurdas de café. Mas ele estava acostumado. Já nem percebia mais, era como um comando automático.
— Terei que fazer sozinho agora. — ele murmurou para si enquanto mexia na cafeteira.
Enzo voltou vagarosamente até a sala e ligou seu computador, dando um chute no estabilizador, na direção do botão on/off. Logo logou em sua conta no Dark Side Home, ansioso para ver o resultado de seu trabalho da noite anterior.
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CONTA: 00254
NOME USUÁRIO:Anonimato
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Bem vindo a sua conta, Anonimato!
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História:Cemitério das Cinzas
Último Update: 24 horas atrás
Oitavo capítulo, intitulado: Banho de Sangue.
Visualizações: 485 (quatrocentos e oitenta e cinco)
Comentários: 0
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Enzo contraiu o abdômen por uns instantes, como se fosse vomitar. Inicialmente, ele encarou a tela do computador sem conseguir acreditar naqueles números. Atualizou a página, nada mudou. Atualizou de novo, e nada. E mais uma vez e outra. Por fim, ele aceitou que aquilo era real. Num sobressalto, Anonimato levantou-se da cadeira, derrubando-a no chão, fazendo um barulho estrondoso.
Mas, até alguns dias atrás, quando postou o capítulo sete, houve dezenas de comentários. Comentários satisfeitos e felizes, de pessoas o elogiando, como que de um capítulo para o outro tudo mudou tão drasticamente? Enzo balançou a cabeça negativamente e começou a andar em círculos pela sala. Suas mãos estavam arranhando suas bochechas, seus olhos abertos sem piscar focando seus pés. Enzo se forçava a lembrar-se se havia faltado algo, se algo havia desencadeado aquela crise nos comentários. Mas o escritor não conseguia se lembrar de quase nada que havia acontecido há alguns dias atrás. Na verdade ele se lembrava. Seu subconsciente lhe fornecia imagens do seu passado recente. Mas seu cérebro estava – de alguma forma – danificado. Imagens sem sentido; conteúdos sem sentido, Enzo estava absorto demais naquela guerra íntima enquanto girava em círculo. Tudo fazia cada vez menos sentido. Ele começou a ficar tonto e parou de girar. Ele estava parcialmente são, mas ainda atingido psicologicamente pelos efeitos, que transformaram seu cérebro numa bagunça na qual ele era incapaz de palpitar – por enquanto – algum motivo razoável para os seus comentários terem despencado.
— Como assim? — sua voz começou baixa, quase em um sussurro, com as mãos tremendo e o olhar arregalado. — Malditas dezesseis longas e estúpidas horas escrevendo isto. Eu não comi, não dormi. Eu apenas escrevi.
O tom extremamente baixo na voz do escritor revelava a enorme fúria que ele estava guardando. Seus dedos curvavam-se como garras, suas mãos tremiam e se sacudiam sem parar, espasmos acometiam todo seu corpo. Seus olhos estavam arregalados como se fossem pular da órbita e seus lábios tremiam como se fosse gritar e não tivesse voz.
— Eu... Eu vou dar um tempo, claro. — Enzo respirou fundo, e ainda com as mãos trêmulas seguiu até um canto isolado da sala. — Deve ter algum erro no site. É, é isso.
Ali, no canto mais frio da sala de estar, Enzo sentou-se encostado na parede. Suas mãos nervosas se uniram ao abraçar suas pernas e ele passou o resto do dia encolhido ali, falando sozinho, com os olhos avermelhados e a garganta secando. Esperando que mais tarde ele abrisse o site e visse o que queria.
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O Condado de Madrin fica no interior dos Estados Unidos. Cidade pequena, de dois mil e quatrocentos e trinta e quatro habitantes. Lá havia duas escolas, três supermercados, e outros pequenos armarinhos, uma praia isolada, um hospital e, no lugar mais afastado da cidade, uma clínica psiquiátrica. O Instituto Westin Hill de psiquiatria foi o primeiro estabelecimento fundado em Madrin, logo seguido pela Escola Campster de Madrin e então, a pequena cidade começou a crescer, ganhando vilas, ruas, avenidas e casas. Mas nunca grande o bastante para aparecer no mapa, mas notável o suficiente para ter um prefeito e um pequeno corpo político.
Condado de Madrin, uma cidade comum. Com ruas comuns, casas comuns, pessoas comuns. E na Rua Elm, casa 12, paralela a uma linda floricultura, vivia Soul Ashter, Alice Ashter e Lydia Woodsen. Adolescentes normais, com vidinhas ordinárias.
— Lydia, Alice, por favor, apressem-se, vamos perder a hora.
Soul estava segurando no corrimão gelado da escada, balançando a perna esquerda continuamente como sempre fazia quando estava ansioso. O menino olhava do topo da escadaria para seu relógio de pulso, esperando que Alice e Lydia, finalmente, descessem.
O rapaz era o terceiro membro mais alto da casa, depois de seus pais. Cabelos louros – que estavam sempre muito bagunçados – quase radiavam na luz do sol, o que dava um charme à Soul. Olhos negros e fundos, que pareciam sempre carregar muito mistério assim como suas palavras, algumas vezes muito sérias e enigmáticas. Pele pálida; sempre perguntavam se ele estava doente, pois também era muito magricela. Muito inteligente e um pouco maduro demais para sua idade, o que o fazia aparentar muito mais que dezesseis anos.
— Sério, se você não procurar ajuda vai enfartar com esse seu nervoso todo. — Alice apareceu no topo da escada, ajeitando a mochila jeans nas costas, começando a descer.
Alice era a pessoa mais baixinha que todos naquela casa conheciam. Mesmo sendo gêmea de Soul, ela não conseguia atingir muita mais que seu antebraço. Cabelos curtos na altura do ombro, sempre muito perfumados, ralos, lisos e dourados como o sol. Olhos grandes e negros, sempre brilhando assim como seu sorriso esbranquiçado. Alice levava alegria e entusiasmo aonde ia, era como uma pequena bolha de luz. Corpo não tão magro quanto o de Soul, mas com o mesmo tom de pele doentio.
— Eu não sei por que se importa tanto assim em chegar na hora. — Lydia vinha descendo as escadas atrás de Alice, revirando os olhos.
Lydia Woodsen, prima de Soul e Alice. Lydia morava com os tios – Catarina e Henri Ashter – desde que um acidente de avião matou seus pais, quando ela tinha apenas oito anos. Diferentemente dos gêmeos, Lydia tinha a pele bronzeada, cabelos volumosos e longos em um belo tom de castanho que combinavam perfeitamente com seus olhos verdes. O corpo de Lydia era típico de uma atleta, embora a menina não praticasse atividades físicas com frequência. Ela era como uma fusão engraçada de Soul e Alice: divertida e bem humorada como Alice, porém centrada e cética como Soul. Lydia tinha feito dezessete anos dois meses atrás.
Soul encarou as meninas sem paciência, depois se virou para Lydia.
— Se você gosta de se atrasar na próxima vez eu não espero você.
— Está de mau humor, senhor grosseria? — Lydia debochou, enquanto se olhava no espelho da sala antes de sair, ajeitando sua trança longa.
Soul inspirou e expirou durante quinze segundos, ajeitou a bolsa de couro cruzada em seu peito e foi até a porta.
— Só vamos, por favor. — ele pediu de olhos fechados tentando manter a paciência, então abriu a porta e saiu.
Alice terminou de pôr uns livros na mochila e seguiu até o lado de fora, em seguida Lydia também deixou a casa, trancando a porta por fim. Soul andava devagar, olhando para o celular em uma das mãos enquanto a outra batia inquietamente em sua coxa. Parecia intrigado.
— Vocês leram o capítulo ontem? De Cemitério das Cinzas? — Alice virou-se para Soul e Lydia, com entusiasmo. — Nossa, foi incrível, eu amei. Galeno está enlouquecendo cada vez mais.
— Ah, eu vi sim. Gostei bastante também. — Lydia sorriu, remexendo algo em sua bolsa.
Soul ficou em silêncio por alguns segundos, depois desligou o celular e o enfiou no bolso dianteiro da calça, e permaneceu com sua mão lá.
— O suspense do Anonimato é ótimo mesmo. — o rapaz pigarreou.
— Ele é perfeito! — Alice sorriu.
Soul deu de ombros, e pegou o celular de volta. Lydia fingiu que não ouviu e pôs seus fones de ouvido. Eles continuaram a caminhada até a escola, absortos no silêncio.
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O sol de meio dia bateu na janela de Enzo, e ele ainda estava encolhido num canto da sala, falando sozinho. O escritor respirou fundo e reergueu-se desajeitado, segurando-se nas paredes, caminhou em passos lentos e compridos até seu computador, ligou-o e sentou-se em sua cadeira de madeira velha rangedora. Em alguns teclares contínuos, Anonimatoacessou sua conta no Dark Side Home e abriu a grade de informações sobre sua história: Cemitério das Cinzas.
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CONTA: 00254
NOME USUÁRIO:Anonimato
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Bem vindo a sua conta, Anonimato!
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História:Cemitério das Cinzas
Último Update: treze horas atrás
Oitavo capítulo, intitulado: Banho de Sangue.
Visualizações: 548 (quinhentos e quarenta e oito)
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Enzo deu um pulo da cadeira sem derrubá-la. Seus olhos estavam cravados na tela, ele simplesmente não entendia. Flashes de comentários antigos passavam em sua mente sem parar, e ele se lembrava, ele sabia. Os leitores estiveram lá, e o abandonaram. A fúria cresceu dentro de Anonimato. Seus olhos esbugalharam e eles tomaram uma coloração avermelhada, sua boca abriu e não saiu som algum. Enzo queria esmurrar alguma coisa, explodir alguma coisa, estava com a mais pura raiva.
Enzo estava, mais do que nunca, louco.
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