Combustível
1 Capítulo 1
Eles ficaram lá olhando um para o outro durante o que pareceram 5 minutos, mas que na realidade não deve ter sido por mais do que uns segundos. O único som era o da chuva monótona de final de tarde batendo na janela. Miguel tentou manter a sua respiração controlada, á espera que ela falasse primeiro.
"Lígia.." Disse, quando se deu conta de que sua espera era inútil. Ela olhou para ele como se não acreditasse que ele escolhesse começar com aquela palavra, mesmo sabendo que ela própria não saberia o que fazer. Suspirou.
"Será que a gente pode conversar?"
Ele pareceu demorar sua digestão de tudo aquilo a sua volta. Ele tropeçou nas palavras ao convidá-la para entrar, também a chamou para sentar-se mas ela não o fez.
"Dispense a cortesia. Estamos longe disso."
"Lígia, eu.."
"Você sente muito, Miguel? Por que, sinceramente, eu não acho que meia dúzia de palavras podem reparar o que você fez." Andou conversando com a irmã. Pensou, mesmo sabendo que não era um momento propício para ironias. "Você estragou minha vida antes mesmo de fugir e fazer todo esse teatrinho seu. Não se abria, não se mostrava.." Ela parecia em sofrimento.
Miguel sentiu o desprezo vindo de teatrinho e isso o perturbou. "Você vai deixar que eu me explique?"
"Eu não sei se pode se dar o luxo de sarcasmos agora, Miguel. Por isso, por que você não faz o favor de só me ouvir? Seria pedir muito para você?"
Havia uma pontada perigosa na voz dela. Ele sentou-se e ela copiou o ato, ficando da mesma altura que este.
"Por quê?" perguntou Lígia, e ele considerou falar e por fim conteve-se. Havia lágrimas nos olhos da mulher à sua frente, elas se recusavam a cair, como se pertencessem à Lígia. Como se fossem uma marca dela. "Eu fico me perguntando como você viveu todo esse tempo, como você conseguiu deitar e dormir carregando essa culpa, esse peso. Mas eu sou tola, não sou? Aposto que nem um pingo de remorso veio para você."
"Eu não lembrava de nada, Lígia. A maior parte desse tempo, eu não lembrei."
"Não lembrava de ter feito uma doação? Não lembrava de que aqueles garotos a sua frente eram seu filhos? Por que até onde eu sei, você sabia quem Bernardo e Pedro eram."
"Isso foi depois."
"Ah claro! Me lembrei." Agora algumas lágrimas arriscavam cair e foi quando a jornalista abriu a boca mais uma vez para continuar, que estas tomaram posse da maçã de seu rosto atingindo a pele macia de suas bochechas. "Antes você precisava me ver com um filho no colo para fugir."
"Eu não tenho nada pra te dizer, eu sei que errei mas esse é meu jeito! Eu não tenho o que fazer! Todo lugar que me encaixo, eu destruo e mesmo quando não quero, eu.. Isso foi na minha adolescência.."
"Você vai mesmo me contar algo que durante nossa relação inteira você resolveu negar, esconder?" Ela esperou que ele continuasse com a explicação, só para depois ter o prazer de o cortar. Lígia estava cega de rancor, tão cega que não havia espaço para seus sentimentos falarem mais alto, por mais que tentassem. Quanto à Miguel, queria beijá-la. Análises parnasianas eram feitas em sua mente, ele encarava a mulher bem diante de seus olhos com um fervor de sentimentos, uma mistura. Por um momento ele não entendeu como conseguiu prestar atenção em tudo que ela dizia e ao mesmo tempo, contemplá-la. Sem contar com a sensação de alívio que o barulho da precipitação lá fora o causava. Ele realmente não sabia como conseguira, apenas o fez. Ela suspirou e olhou para o chão. "Sabe, eu te admirava demais. Era cega por você.."
Ele se ajeitou-se na cama, concentrado no verbo era. "Eu realmente te admirava em tudo, até no seu jeito esquivo e solitário. Só que as vezes isso me incomodava, isso me atingia. Se eu soubesse que essa sua loucura, esse seu conflito interno fosse tomar essa proporção eu jamais teria me envolvido com você."
Quase imediatamente ela se arrependeu no que disse. Acontece que as palavras já haviam saído de sua boca, num segundo Miguel já estava desabando num choro silencioso, também sem derramar lágrimas. Inquieto, ele se levantou. Lígia continuou o encarando, com a cabeça erguida. Ela não se levantou, pelo contrário, não moveu um músculo. A chuva agora estava mais forte lá fora. "Como é que você me deixou chorar a tua morte com uma criança recém-nascida no colo, Miguel?!"
Ela tremeu, continuou fazendo esforço para não se mexer. Queria meter-lhe a mão na cara, mas sabia que não suportaria. A visão seria dolorosa demais.
Soluços tomaram conta de cada palavra proferida pela mulher, agora ela estava chorando de verdade. Ambos estavam.
"Lígia, por favor.." Ele dobrou-se na direção dela, a cara dele tão perto que podia sentir sua respiração. Ela fechou os olhos assim que percebeu as mãos do homem vindo para mais perto e engoliu em seco.
"E tem mais, como você pôde fazer com que o Lauro e Isabel escondessem isso? Como você pôde ser tão manipulador." Lá estava o desprezo em suas palavras por ele antes conhecidas. Miguel andou, não conseguindo disfarçar sua tortura. Depois sentou, novamente na frente da jornalista e assim, ela continuou.
"O que você viu em mim, ou no meu filho que provocasse tamanha rejeição?" A voz rouca pelo choro dela, estava aumentando a cada final de frase, juntamente com a dor. Um trovão os assustou. Era estranho, mas até parecia que as nuvens estavam cientes da discussão.
"Lígia, eu.." Fechou os olhos criando forças para continuar.
"Tira meu nome da tua boca! Por que você não merece!" Numa rapidez, ela se levantou. Deixando um significado entre a diferença de altura entre ela e o amado. Quem ergueu-se dessa vez foi ela, mas não sendo levada pelos sentimentos e sim pela fúria. Ela podia cuspir na cara de Miguel. Talvez, até criasse coragem. Os cabelos se levaram tanto pelo vento que entrara pela janela à direita, quanto pelo impulso do movimento. O ambientalista não pôde deixar de notar: ela ficara ainda mais linda furiosa.
"Tudo bem. Você venceu, eu não vou te chamar pelo nome! Mas se for pra assim ser, pelo menos você poderia me contar o sobrenome de seu marido, não é? Quem sabe assim eu te chame por este novo que veio junto ao seu."
"Você acredita mesmo que fazendo esse show de falso-ciúmes vai me convencer de que o jogo virou e eu também deveria me sentir culpada de algo? Você realmente acha que depois de tudo o que aconteceu eu não sou a vítima de alguma dessas merdas que você fez, Sanches?"
Ele sentiu o gelo por detrás daquele uso incomum de seu sobrenome. Não. Ele não ia deixar. Miguel puxou-a para si, colando seus corpos. Não sem antes a tocar nos ombros, como em consolo.
"Com que direito você encosta a mão em mim? Com que direito você invade a minha casa, a minha vida?"
"Com o mesmo direito que você invadiu a minha. A minha vida, que antes de vocês era outra!"
"Vocês quem, Miguel? A criança que você abandonou, o filho que você enganou ou esse que você espera ser uma rota de fuga para que seu ato nobre seja capaz de o fazer ser perdoado?"
"Eu não espero nada. Na verdade tudo que eu esperava desde que me lembrei de você foi despedaçado assim que a vi sorrindo, entrelaçando mãos com outro homem. Mesmo com toda tortura, com a vontade de socar aquele cara, eu não podia estragar aquilo. Eu já tinha feito isso de estragar tudo uma vez e não é bacana. Quem me dera poder consertar tudo o que eu fiz." Permaneceram calados, olhando um para o outro cautelosamente. "Escuta, se é isso o que você quer, eu sempre te amei. Sempre vou te amar!" Seu lado que teme ter amarras, esse lado que foge de vínculos afetivos, o mesmo lado que o mantém tão perto e tão longe de Lígia, se surpreendeu. Entrou em choque. A jornalista pareceu não se importar, pelo menos não diante do amado. Ela manteve-se em silêncio, em transe, tentando decorar cada cor, cada movimento e palavra daquela cena. Quem sabe essa noite ela não teria algo novo para o que sonhar.
Pelo visto, a declaração teria movido pauzinhos por ali. Finalmente, Lígia levantou a mão cobrindo os olhos para esconder lágrimas. Quando ela a abaixou, seus olhos estavam secos, mas vermelhos. Era claro que algo tinha mudado. Ele só queria saber o quê.
Irrado com a falta de respostas, ele segurou-a pelo maxilar com apenas uma mão, puxando-a para perto e assim formou-se o beijo. Tudo aconteceu tão rápido e natural que nenhum dos dois percebeu quão ligeiro aproximavam-se dessa paixão avassaladora que os fervia o sangue. De olhos fechados e respiração contida, ambos trocavam um beijo lânguido, lento e apaixonado. A mão direita dele deslizou da cintura para o rosto dela. Aproveitavam o tempo perdido até que a rejeição que ele temia o veio chamar.
Miguel, você nunca vai conseguir ter isso. Isto, essa mulher, ela já não o ama mais. Agora há outro em sua vida e ele beija tão melhor que você..
Ele tentou afastar esse flash que o subconsciente veio mostrar-lhe, era a imagem de Lígia dizendo aquelas palavras — ele beija tão melhor que você. — Ele abriu os olhos, agradecendo por ser apenas sua imaginação. Glorificando um deus que ele nem sabia se acreditava por ela ainda estar em seus braços. E foi aí que ela se desvinculou.
"Você não tem o menor respeito por ninguém. Aquela idiota, que você abandonada sem o menor cuidado e depois seduzia de volta, aquela morreu! Foi você quem matou!" A mulher disse, ainda se recuperando. Deu um passo para trás e ele se recusou a liberá-la totalmente, continuando a tocar-lhe no cotovelo com apenas um dedo. A última ação que ela pôde fazer foi elevar sua mão até onde julgasse ser o campo de visão de Miguel e apontar com bastante firmeza para sua aliança. Ele não teria motivos para se sentir incomodado, teria? Vicente era o marido, usava uma aliança com o nome dela marcado a ferro quente. Ele tinha o direito de usufruir dela, Miguel já não tinha nada. Só desprezo, talvez.
A perna dela sacudia nervosamente como se estivesse atrasada, ele abriu caminho para que ela seguisse e ela dirigiu-se até a porta e a bateu com toda sua força. Ele a observou se afastar na pouca luz do fim de tarde. “Eu não vou desistir de você!...”. Foi a primeira frase lúcida que sua mente pode extrair daquele tornado de pensamentos. A segunda foi: “...Porque eu cansei de fugir.”.
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