Com amor, Lutávio
18 Mas por que este rapaz vai participar?
Notas iniciais
Pedro observou o número da portaria que lhe correspondia. Demorando na entrada, resolveu andar pouco mais largamente, esperando ganhar tempo para estudar o texto. Viu as fachadas todas, inclusive as das outras novelas. Foi olhando para os corredores infinitos, para pessoas que iam e voltavam, sem saber se eram definitivas ou não.
Se ele seria definitivo, isso não sabia. Soube do teste por amigos do teatro, veio fazer, quem sabe. Ainda não entendia muito a proposta do papel, mas até que o personagem lhe agradava. As únicas indicações que lhe deram era que Otávio, o capitão, poderia crescer ao longo do trabalho. Ali estava um dos plenos poderes do escritor. E uma das deveras incertezas do ator. Deveras, Pedro riu por dentro. Já estava a falar como o rapaz do texto.
Parou de pensar um tempo, chegando à sala de espera que dava para uma porta. A porta indicava, ali seriam os testes. Sentou-se, cruzando as pernas para dentro e debateu-se com seu texto. Testou algum diálogo de própria boca, verificando a melhor entonação, aqui e ali. Na cena, ele chegava com Randolfo à casa do coronel e falava, estranhando... Mas por que este rapaz vai participar? Refletiu se algum daqueles personagens já havia ganhado um ator.
A marcação do texto dizia: “Otávio olha estranhamente para Luccino...”. O capitão o olhava diretamente, sem parar. Luccino até chegava a ficar sem graça. Pedro coçou a barba, que provável, teria que raspar e manter o bigode. Luccino, pelo que vinha estudando, ficava um pouco assustado com Otávio, porque não conhecia. Certo, aos poucos, Pedro ia se revelando calmo e confiante.
Enquanto esperava, percebeu a entrada de um rapaz de cabelos pretos e sorriso marcado. Ele também estava com um texto em mãos. Será que seria um provável Otávio? O rapaz se sentou ao seu lado, cumprimentando-lhe com boas tardes.
“Nervoso com o teste?” Ele perguntou para Pedro.
“Um pouco. Globo! Sabe como é: o tamanho disso aqui sempre assusta.”
Ele assentiu com veemência.
“Qual seu nome?”
“Pedro Henrique. E o seu?”
“Juliano. Veio fazer teste de qual personagem?”
“Me viram no teatro e disseram que o Otávio tava sem ator, então vim pra fazer o teste dele. E você?”
“Randolfo. Também tá sem ator. Então vamos contracenar juntos?”
“Sim, você tá na cena da reunião, né? Como é que você pensa em fazer a questão da gagueira? Nesse diálogo aqui?” Pedro disse, apontando para a marcação no roteiro.
Juliano leu o diálogo e o fez. Pedro assentiu, achando que havia sido um trabalho bastante pontual. Juliano parecia um pouco mais sereno que ele, como percebia por sua respiração lenta.
“Orgulho e Paixão, né? Jane Austen... Se eu pegar o papel, vou fazer um bom workshop por fora... Pesquisar bastante. Mas acho que o Randolfo não é dos livros, né?” Juliano indagou.
“Eu já li alguns livros dela. Gosto bastante do Razão e Sensibilidade. É uma ideia muito legal adaptar os livros dela pra uma novela, eu mesmo nunca teria essa ideia. Olha, acho que já vão nos chamar” Pedro percebeu a movimentação vinda da porta.
Dois atores saíram da sala e os cumprimentaram. Uma moça da emissora os chamou para serem os próximos. Era uma sala comum, com uma bancada composta por parte reduzida da equipe da novela, com uma câmera a filmar toda a movimentação da cena. Pedro respirou fundo, segurando firme seu texto e buscando concentração.
O homem do centro da mesa leu algo no papel:
“Então... Pedro Henrique Muller... E Juliano Laham. Para Otávio e Randolfo. Pois bem. Vamos fazer primeiro esse teste e depois com os outros personagens da cena pra ver qual se encaixa melhor. Assistentes?”
Ele chamou os assistentes para preencher o espaço de cena que seria de Luccino e Brandão. Pedro e Juliano enfim se posicionaram e aguardaram a indicação para o começo da cena.
Pedro entraria depois de Brandão e Luccino, ao lado de Randolfo. Segundo o roteiro, o personagem também teria um envolvimento com Lídia, com quem não fez o teste. A cada nova indicação do diretor, ia dando novas tonalidades ao gestual e voz do personagem. Quando a bancada pareceu satisfeita, Juliano e ele se cumprimentaram.
Juliano sussurrou “você foi ótimo” e Pedro agradeceu com uma réplica sincera, “você também!”. A bancada olhou alguns dos roteiros e pediram para trocar os papéis. Pedro ficaria com Randolfo e Juliano com Otávio. Realizaram a mesma cena mais vezes, com Pedro dando outras pontualidades às especificidades de Randolfo. Juliano, como Otávio, necessitava ser sisudo como um bom servidor da pátria, muito embora trouxessem veia cômica na caracterização. Mas não se tratava de um deboche.
“Certo, meninos. Agora mais uma inversão. A mesma cena, dessa vez como Luccino e Otávio. Juliano como Luccino e Otávio com o Pedro novamente. Podem começar.”
Os dois atores trocaram um olhar cúmplice. Lá estava a cena outra vez, com o texto escapulindo da língua com facilidade. Quando a finalizaram, pediram para esperar ainda ali dentro. Após uma breve discussão entre a bancada, houve outro anúncio.
“Agora, vamos dar um texto novo a vocês. Vocês tem meia hora para estudar. Podem improvisar vez ou outra, se quiserem.”
Com frio na barriga, Juliano e Pedro foram pegar seus textos. Ainda eram os personagens Luccino e Otávio, mas não era um texto da novela em si. Era uma colagem de vários diálogos nas vozes do mecânico e do capitão. Uma série de diálogos que dava a entender os dois como um... Casal. Pedro e Juliano entreolharam-se uma vez mais, surpresos. Foram para a mesma sala de espera aguardar o fim da meia hora, enquanto estudavam o roteiro. Assim permaneceram, silenciosos, cada um com seus vícios de artista. Até que o prazo de meia hora encerrou e eles foram chamados de novo para a sala de testes.
Os atores imaginaram o quarto de Luccino, ambientação da cena. Juliano tirou a camisa, como a marcação pedia. Pedro o olhava, já com a admiração de seu personagem. Assim, começaram. A cena era uma espécie de declaração entre os dois, bem sutil e subentendida.
“Certo, Juliano e Pedro. Essa cena ainda não faz parte da novela. São rascunhos, experimentações. Para ver como se realiza em cena e qual a melhor forma de abordá-la na versão definitiva. Podem começar.”
Pedro fez uma pausa estratégica, suspirando para demonstrar o nervosismo de Otávio. Juliano adequou sua respiração à expectativa de Luccino.
“Muita coisa mudou desde então, Luccino” E Pedro aproximou seu corpo do de Juliano, sentados no chão como uma cama. “Eu mudei e você também. E agora... Depois de tudo que eu disse no jantar... Eu não sei se você ficou ofendido ou se...” Pedro foi rápido, pois o personagem se embaralhava nas últimas palavras.
“Não, capitão.” Juliano o cortou. “Eu só quero saber se foi tudo verdade. Se você falou tudo aquilo para o meu pai... Ou para mim...”
“Tudo aquilo o quê?” Sussurrou Pedro.
“Sobre assumir o que sente. Mesmo que pareça inadequado...”
Pedro fez uma pausa, pensando no que dizer segundo os sentimentos de Otávio. Usou de suas próprias experiências para compor o diálogo improvisado:
“Luccino, viver se escondendo é penoso. E sacrificante. O que eu disse diz respeito a você, é claro.”
“Eu? Porque eu?” Juliano engoliu em seco, os olhos brilhando, antecipando a chegada de lágrimas.
“Ora, tantas coisas que pensava de você! As aparências! Elas mudam tanto... Achei que poderia viver a minha vida como sempre estive acostumado, mas...”
“Mas?” Juliano usou uma entonação certeira, firme, de alguém que queria acabar de uma vez por todas com as suposições que lhes rondavam.
“Mas você apareceu. E agora eu posso ter um motivo para lutar.”
Pedro olhou o mais intensamente que pôde para Juliano. Este esperou um pouco mais, mantendo-se firme no olhar que Pedro lhe dava. A cena pedia alguma tensão e magnetismo entre os dois, com os desejos dos personagens entrando em conflito, já pulsando para fora de seus corpos.
“Pode ter?” Juliano fez de seu Luccino vacilante.
“Se você me disser que sim.”
“E se eu disser que sim, você promete que será sincero?”
“Coisa que já não estou sendo, Luccino?”
“Até agora você só usou meias palavras...”
“Talvez eu não seja mesmo bom com palavras...” Pedro lamentou, olhando para baixo e em seguida para Juliano. Como o roteiro pedia, Otávio prendeu a respiração e admirou a boca de Luccino, segurando e massageando seu queixo com carinho. Luccino necessitava de entrega, e os corpos dos dois se aproximaram quanto podiam, os narizes se tocando, e um casto beijo interrompido pelo pai de Luccino, interpretado por um dos assistentes.
Juliano e Pedro afastaram-se, puxando o ar para voltar à realidade.
“Corta! Bom.” Disse o membro da bancada.
“Certo, meninos. O teste foi esse. Aguardem a possível chamada. No mais, obrigada pela participação. Próximo!”
Pedro e Juliano assentiram, voltando juntos aos corredores dos estúdios Globo.
“E aí, o que achou?” Pedro perguntou.
“Pegaram a gente de surpresa... Um envolvimento entre o Luccino e o Otávio... Acha mesmo que vai acontecer?”
“Isso às seis da tarde. Ia ser bom se acontecesse, mas não sei.”
“Tomara que eu fique com o Randolfo.” Juliano comentou.
“Eu ainda espero que será com o Otávio. Bom, se eu passar. Mas acho que fui bem. Novela ainda é coisa nova pra mim.”
“Você foi ótimo.” Juliano sorriu para ele. “É aqui que eu saio. Boa sorte pra nós, hein? Quem sabe!”
“Tomara, meu amigo!” Pedro torceu e abraçou Juliano. Os dois se separaram naquele corredor, aguardando com expectativa os resultados do teste de que sairiam dali três semanas.
Fale com o autor