Com amor, Lutávio
9 Tina?
Notas iniciais
Quando Luccino pós os pés na casa de Otávio pela primeira vez, sentiu o tremor típico daqueles que sabiam estar se metendo numa grande confusão. Mas não havia escolha: Gaetano havia o expulsado de casa assim que o viu próximo do capitão em seu próprio quarto. O pai não quis escutá-lo de maneira alguma e coube a Luccino a decisão drástica de ir se abrigar na oficina.
“Mas isto não é lugar pra você dormir”, salientou Otávio, perturbado por Luccino ter de dormir num espaço impróprio. “Você não vai dormir aqui como se fosse um remendo. Vai pra minha casa.”
Otávio foi categórico, mas o italiano ainda chegou a tentar relutar, o que claramente terminou no insucesso de sua parte. Agora lá estava ele, entrando com uma mala parca na modesta sala do Capitão.
“É tudo muito simples, Luccino, mas fico feliz que esteja aqui. Lamento que tenha de passar por isso. E por minha causa. Olha, eu sinto muito mesmo.” Otávio pegou em seus ombros, de fato aflito.
Luccino procurou tranquilizá-lo.
“Está tudo certo, Otávio. Quer dizer, nem tudo. Mas eu me ajeito em qualquer lugar.”
“Você vai dormir no meu quarto.”
“O q-quê?” o mecânico gaguejou.
Otávio ergueu as sobrancelhas e inclinou o bigode.
“Sim, tenho uma cama extra que cabe ao lado da minha. A não ser, é claro, que você queira poupar espaço e... Durma comigo... Colocando... Uma cortina no meio... Para que não...”
“Para não fazer nada inapropriado, não é?” o italiano completou.
“Inapropriado? Eu ia dizer inadiável... Ou... Outra coisa.”
Luccino ruborizou.
“Pensei que fosse eu o desajeitado com as palavras.”
Otávio deu de ombros.
“Bom. Você deve estar cansado. Vá tomar um banho. Você no chuveiro e eu na banheira. Depois conversamos melhor.” O capitão deu as costas para Luccino, mas tornou para o italiano, parecendo ter se esquecido de dizer algo. “Olha, Luccino... Uma hora o seu Gaetano muda de ideia. Você vai ver.”
Ele deu um longo suspiro.
“Espero que sim, capitão.”
Otávio seguiu para os fundos da casa, onde ficava a banheira improvisada. Luccino foi em direção ao chuveiro, trancando a porta do banheiro para tentar acalmar os ânimos. Estar perto do capitão lhe causava um frenesi. Tirou o colete e a boina, tentou abrir o chuveiro, mas não conseguiu. Tentou outra vez, para o outro lado, sem sucesso. Ele juntou as mãos nervosamente, sem saber o que fazer. Otávio barulhava pela casa, arrastando a banheira. Luccino tentou sorrir com o ruído, mas a ideia lhe envergonhava tanto que logo tentou coibi-la.
Ele se agarrou à toalha e voltou para o ambiente da casa. Otávio veio dos fundos em sua direção, distraído com seus afazeres. Observou Luccino assustado e preocupou-se.
“Que houve, Luccino? Encontrou algum inseto no banheiro?”
O mecânico ficou tímido.
“Não é isso. Na verdade... Não está caindo água.”
“Ah! Os problemas de sempre com a água... Por isso não abro mão da banheira...” Otávio lamentou fazendo um estalo com a língua. “Bom...” E tornou a falar, sem graça: “Quer vir comigo?”
“Com vo-você?”
“É, oras. Banho. Ou quer ficar fedorento para que eu tenha razões de fugir de você?”
“Na-Não é isso...”
“Vamos logo. Nem sim nem não. Só vamos”.
Otávio puxou Luccino pela mão. Quando os dois saíram do transe do imprevisto, já estavam frente a frente olhando para a banheira cheia. Otávio começou a tirar o uniforme do exército. Luccino prendia a respiração, envergonhado.
“Vai tomar banho com essas roupas?”, Otávio estranhou.
“Melhor que tomar sem, na-não é?”
Otávio revirou os olhos, com uma espécie de impaciência. Veio para frente de Luccino e com um golpe engenhoso de mãos, retirou com raiva a primeira camada de roupas do mecânico, que respirava pesadamente. Otávio aproveitou a proximidade para falar ao pé do ouvido do rapaz.
“Bem melhor tomar sem, não é Luccino?”
O mecânico engoliu em seco.
“Do que você tem medo?”
Luccino fechou a expressão, demonstrando firmeza.
“Não tenho medo.”
“Então? Quer que eu tire o restante das roupas ou você tem colhões para isso?”
Luccino avermelhou e tirou a segunda da camada de seu traje simples de camponês, deixando o peito exposto aos olhos do capitão. Otávio o massacrou pelos olhos, mas não se moveu; parecia compenetrado. Luccino tinha costas largas e um peito bem aberto com alguns pelos estratégicos em partes do corpo, como ao redor dos mamilos.
“O senhor acha que é muito constrangimento para mim? Pois vou lhe mostrar que não.”
“Para mim que não é.” Otávio retrucou. “No exército somos acostumados a nos despir um na frente do outro.”
“Ótimo saber disso”, Luccino devolveu com ironia.
O capitão ergueu as sobrancelhas, divertindo-se. Logo ele também começou a tirar suas roupas. O porte físico do capitão era dos mais simples, um tanto magricela, mas definido pelas constantes atividades físicas do serviço militar. Mesmo assim, não transmitia uma aura máscula, pelo contrário, demonstrava alguma fragilidade, algo de intocável. A tensão era visível entre os dois, prestes a estilhaçar.
Luccino retirou os trajes de baixo, ficando apenas com as roupas de banho típicas do século 19. Otávio igualmente. Ambos entraram na banheira, com a água ainda limpa, e logo um silêncio constrangido tomou conta.
“Parece que voltamos aos velhos tempos de tinas de banho, não é?”
Otávio refletiu.
“Quase isso. Exceto que, agora, tudo mudou.”
Luccino indagou:
“O que foi que mudou?”
“Tudo”, respondeu o capitão, dando de ombros.
Luccino olhou para as curvas expostas de Otávio, admirando a saliência no osso do ombro e como ela se curvava à medida que capitão se movimentava na banheira. Otávio esticou os pés ao mesmo tempo em que Luccino e os dois se retesaram quando tais membros encostaram-se ao fundo d’água.
“Desculpe”, Luccino disse.
“Pare, Luccino.”
“O quê?”
“Pois bem, se você é quem deveria estar se atropelando com as palavras, eu é quem deveria estar fugindo de você, não o contrário. E esse não é o momento de ser arisco, não acha que tenho razão?”
“Quer saber? Tem razão.”
Luccino abriu a boca lentamente para um sorriso e se aproximou de Otávio, dando-lhe um beijo ansioso. A água e as mãos do italiano com sua pele só o fizeram sentir arrepios. Os rapazes perderam o fôlego no beijo, e a cada movimento a água realizava sua trilha sonora de gotejos e pequenas ondulações. O último estalo do beijo se deu com Luccino em cima do capitão, olhando-o para guardar detalhes.
“Falta algo.”
“O que é, Luccino?”
“Falta... A falta... Das suas roupas...” Luccino falou com cuidado, surpreso com sua própria ousadia.
“Enfim começamos a falar no mesmo idioma.”
Ainda com Luccino em cima dele e sem parar de lhe dar beijos, Otávio retirou as peças da roupa de banho, ficando completamente aberto ao italiano, ausente de medo, embriagado pelas possibilidades. Luccino observou o corpo de Otávio exatamente como ele era, por inteiro, e não poderia ter ficado mais maravilhado com o que viu. Ali estava seu maior presente, vulnerável, tão... Humano como nada que havia visto. O rapaz percorreu a área do peito do capitão com os dedos e Otávio dava pequenos gemidos. Luccino beijou com demora os mamilos de Otávio, que soltou um longo gemido ao mesmo tempo em que soltava a respiração. Quando chegou à linha do umbigo, Luccino parou o beijo para rir.
“E então?”, Otávio não entendeu. Estava ofegante.
“Parei na melhor parte, não foi?”
Otávio fez a melhor cara de patife.
“Melhor? Ainda não viu nada.”
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