Com amor, Lutávio
8 O tempo para
Notas iniciais
“Santa Maria mãe de Deus”...
Otávio ouvia as orações por todos os cantos. Desespero e caos total. As crianças se agarravam à barra da saia das mães. Ruídos ainda em processo de despedaçamento agoiravam as almas vivas, no entanto mortificadas, do navio Albatroz. Luccino ao seu lado, agarrado ao capitão pelo tronco que envolvia firme com seus braços.
“Rogai por nós pecadores...”
O mecânico respirava mal. O ambiente de desespero daquele naufrágio o deixava dentro dos piores pensamentos possíveis, desde o fato de que o último contato com os pais seria o de uma decepção extrema até o de que tal decepção viera de uma dádiva, aquela onde ele estava seguro naquela noite, prestes a afundar com as demais esperanças da tripulação.
“Agora e na hora de nossa morte...”
Alguém fungava por ali perto. Os dois estavam de pé enquanto o Albatroz ameaçava pender para o outro lado. Os pensamentos de Luccino igualmente oscilavam: justo eles, que embarcaram para tentar uma vida melhor a dois longe do preconceituoso povo do Vale do Café... O italiano começou a chorar. Otávio percebeu as pequenas tremulações no corpo de Luccino, este que, como o capitão sabia, era sutil até mesmo na linguagem corporal, resultado de anos de aprisionamento em si mesmo.
“Não chore, querido...” Otávio procurou lhe confortar, parando o caminho das lágrimas com o dedo indicador. “Estou aqui com você.”
“Minha família, Otávio... Será possível que vou morrer marcado como a maior decepção que eles tiveram na vida?”
O capitão ponderou um instante sem nada dizer. Houve um barulho de outras partes do Albatroz rasgando, um barulho que parecia fatal e tremeu todo o navio. Otávio segurou Luccino mais forte, pressionando os olhos e sentindo o peito queimar.
“Amo você. Sabe, não é?”
E sentindo todo o corpo querer trazer à tona sua náusea advinda do pânico, Luccino engoliu em seco, não pelas palavras, mas pela forma que elas seriam recebidas assim que saíssem de sua boca... Iriam sacolejar frente àquele medo, angústia, pavor, que tomavam conta do Albatroz em plena morte. Será que chegariam intactos até o coração de Otávio?
“Amo você.”
E Otávio aninhou-o perto para que nenhuma palavra escapasse ao medo. O coro de mortos continuava:
“Agora e na hora de nossa morte... Amém...”
x-x-x
Otávio acordou com a cabeça estourando de dor. Lembrou-se da sensação de quentura. Mas o corpo todo molhado. Os raios do sol o tomavam da cabeça aos pés. Do outro lado, no entanto, uma enorme sombra atrapalhava o restante da visão do espaço. Assim que tomou consciência de seu corpo, o que ocorreu de forma muito lenta tal qual quando se recupera de uma cãibra, o capitão viu que estava com roupas de cidadão comum... Do século 19.
Era uma praia, sem dúvida. Coberto de areia, não havia dúvida. Qual praia? Qual o motivo de aquelas pessoas estarem formando uma meia lua em volta dele? Não pôde observar por muito tempo. Aquela luz moderna, e, no entanto a mesma de sempre, era um veneno para seus olhos de outro século. Ele se retesou para guardá-los com o braço a tapar o sol.
“Aqui, ó.”
Um homem de olhos graúdos lhe deu óculos escuros. O capitão abriu-se ao mundo novamente com cuidado, se acostumando com o conforto dos óculos. Mas enxergava tudo sob uma lente fosca.
“É melhor não tirar. Ou vai passar mal.”
“Onde estou? Cadê Luccino?”
“É o quê?” O homem indagou.
“Estou aqui, capitão...”
“Vocês dois são cosplayers?”
“O quê? Onde está Luccino?”
“Capitão... Aqui...”
Otávio olhou na direção da voz. Lá estava o italiano, demonstrando estar igualmente tonto, pálido e desnorteado. Na visão, os mesmos óculos escuros que Otávio não havia gostado nada. O capitão se aproximou de Luccino, querendo tocá-lo de todas as formas para que enfim pudesse entender... Que ele, sim, estava ali.
“O que aconteceu conosco, Luccino?”
O homem dos óculos respondeu-os. Só naquele instante Otávio percebeu que ele trazia algo na cabeça, que no fim das contas para as pessoas desse século era um boné.
“Não sei. Tem gente que diz que vocês caíram de um bloco de gelo. Eu achei mentira. Ninguém fica congelado e sobrevive.”
“Bloco de gelo?” Otávio devolveu.
E Luccino:
“E o navio?”
“Olha, mano se teve algum navio, veio à tona, foi K.O., sacou?”
Luccino franziu o cenho, não entendo bulhufas.
“Que impropério foi esse que ele disse?” Otávio falou ao mecânico.
“Ih, já vi que os dois são é doidos. Vou me embora que a vida tem que seguir.”
“Então vai... Então vai...”
Era o som do celular de uma banhista que passava pela cena. Luccino olhou para aquele objeto com susto genuíno. Do susto que teve com o aparelho, a visão percebeu outro detalhe no homem dos óculos: tinha a cabeça raspada e uma flor pendurada na orelha. Estranho..., Luccino pensou, um rapaz usando flor na orelha...
“Luccino... Então o navio... Não afundou?”
Luccino olhou para ele sem saber responder.
“E o senhor... Quem é o senhor?” Perguntou ao estranho.
“Bom. Aqui, Phabullo.”
“Fábulo?”
“É”, O estranho riu, “Quase isso.”
Mas então houve um fato inesperado. Uma ventania na praia desviou o foco da multidão semi-circulada que observava Luccino e Otávio. O boné do homem dos óculos voou para longe. Sem o comodismo da sombra da aba do boné, seu rosto foi facilmente identificado por um grupo de jovens desnudos. E começaram a sacar seus celulares e correr para abraçar o tal “Fábulo”, a quem chamavam de “Meu Deus, é a Pabllo!”. As pessoas se dispersaram ao ver a movimentação, percebendo que existia alguém mais interessante naquela praia que aqueles dois “malucos”.
Luccino riu nervosamente, Otávio olhou-o incrédulo.
“Gente esquisita. Onde viemos parar? Estamos molhados. Será que ficamos à deriva?”
“Talvez. Mas tudo está tão esquisito! As pessoas andam com essas roupas... Ou sem as roupas... E essas coisas que tocam... Melodias! Acho melhor nos aprumarmos e irmos procurar uma casa de chá com telefone... Mariana precisa saber que estamos vivos... O coronel...”
“Tem razão”, Concordou Otávio.
Ele fez força para deslocar seu corpo todo para cima. Em seguida, ofereceu sua mão para Luccino, que com algum esforço conseguiu levantar. Os dois, lentamente, passaram a caminhar pela praia em busca de telefone público e comida, admirando-se com cada detalhe estranho que notavam, sem perceber que estavam adiantados em muitos séculos.
Desnorteado, Luccino tentou virar o rosto para o lado ao tentar fugir da fúria do sol e deparou-se com uma cena ainda mais esquisita e, porém, aquela mais reconfortante até então. Dois rapazes ao longe, afastados na beira da praia, parecendo viver um momento próprio, trocavam carinhos explícitos e em público, de mãos dadas, sem dar importância a alguma reação dos outros.
“Otávio, Otávio...” Luccino cutucou o capitão.
Otávio não precisou fazer grandes perguntas. Mesmo desnorteado, seguiu o olhar do italiano e viu a mesma cena, com igual perplexidade, daqueles dois meninos... Daqueles dois meninos... Namorados? E Luccino ligava ao homem dos óculos com uma flor no cabelo... Que lugar era aquele? Não imaginando que a pergunta certa seria... Que tempo é este?
Talvez por espanto ou reflexo, Luccino procurou as mãos de Otávio como se estivesse cego. Os dois se embaralharam no toque, mas respiraram pesadamente assim que seus dedos se encontraram. Talvez um teste, talvez... Um risco... Talvez pudessem, ali... Assustados, os dois continuaram a andar, reagindo a cada mínimo caminhar de outra pessoa, pois qualquer um poderia surgir com um potencial ataque para o ato deles... Mas ninguém aparentemente viu o toque dos dois.
“Luccino... O que está acontecendo? Precisamos voltar para o Vale...”
“Calma, Otávio.” E apertou com mais firmeza aquelas mãos, trocando uma espécie de cumplicidade com elas. “Eu sei que tudo vai ficar bem... Agora, vamos achar um telefone. Precisamos entender aonde viemos nos meter...”
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