Com Todo Amor - O começo
7 Entre rumores e silêncios
Não demorou mais do que vinte e quatro horas para que a Trinity Christian Academy se transformasse no epicentro dos fofoqueiros do condado. Luke Carter e eu estávamos saindo, e essa informação correu pelos corredores mais rápido do que qualquer segredo guardado a sete chaves.
Na segunda-feira, antes mesmo do primeiro sinal tocar, eu já tinha acumulado olhares curiosos suficientes para preencher todo o meu histórico escolar. Alguns eram discretos, vindos por cima das telas dos celulares; outros eram descaradamente interessados, quase medindo o tecido do meu jeans desgastado. Minha mente de quinze anos não conseguia processar o tamanho do alarde. Luke era popular, o quarterback júnior com um charme que parecia funcionar por puro magnetismo. Eu? Bem, eu continuava sendo apenas a garota de cabelos castanhos, filha do capataz, que preferia o cheiro do campo à agitação da cidade.
Durante o intervalo, enquanto eu tentava organizar meus livros de Geometria, a silhueta de Luke materializou-se no corredor. Ele apoiou o braço forte contra o batente da porta da minha sala de aula, exibindo aquele sorriso que parecia fazer as garotas ao redor prenderem a respiração.
— Posso roubar você por cinco minutos, Camille? — ele perguntou, a voz mansa, mas alta o suficiente para ecoar pelas fileiras de armários.
As meninas ao meu redor trocaram olhares imediatos. Abigail segurou um gritinho histérico atrás da mão, e Emma abriu um sorriso triunfante, cutucando Claire com o cotovelo.
Revirei meus olhos azuis, sentindo minhas bochechas esquentarem, antes de acompanhá-lo até o jardim lateral da escola, longe do falatório.
— Você sabe que acabou de dar munição para todas as línguas afiadas dessa escola, não sabe? — brinquei, ajeitando a alça da mochila.
Luke soltou uma risada limpa, jogando a cabeça um pouco para trás. — Achei que você não ligasse para o que as pessoas ficam sussurrando pelos cantos.
— E eu não ligo. Só não gosto de ser o centro das atenções.
— Então estamos bem — ele concluiu com uma leveza invejável, caminhando ao meu lado sem pressa pelo gramado bem cuidado. Uma das coisas que eu mais gostava em Luke era justamente isso: ele nunca parecia estar se esforçando para impressionar ninguém. — Meu pai perguntou de você ontem à noite, durante o jantar.
Olhei para ele de soslaio. — É? E o que você disse?
— Que você é uma garota incrível. E ele comentou que seu pai, o senhor Otto, é o homem mais respeitado daquela região. Acho que passei na primeira fase da aprovação da família, então.
Acabei rindo, sintonizando com a energia dele. Caminhamos em silêncio por mais alguns metros, apreciando a brisa do outono, até que Luke parou perto de uma das muretas de pedra. Ele me encarou com um sorriso calmo, mas seus olhos castanhos estreitaram-se de leve.
— Você está pensando de novo, Cami. Consigo ver daqui.
Cruzei os braços, intrigada. — Como vocês conseguem perceber isso de longe? É algum tipo de radar?
Luke arqueou uma sobrancelha, captando a palavra no plural. — Vocês? O Wright também sabe quando você está tentando decifrar o universo?
— O Aidam sabe desde os seis anos — respondi, sem pensar, a menção ao nome dele saindo de forma tão natural quanto respirar.
Luke sorriu de lado, um vislumbre de compreensão cruzando seu rosto. — Imagino que sim. Vocês cresceram na mesma terra, afinal.
Respirei fundo, buscando a coragem que havia ensaiado no espelho do banheiro, e decidi disparar a dúvida que vinha cutucando meu estômago desde o sábado.
— Posso te fazer uma pergunta sincera, Luke?
— Claro. Pode mandar.
— Você não acha... estranho? — apontei discretamente com o queixo para o espaço entre nós dois.
Ele franziu a testa, genuinamente confuso. — Estranho o quê?
— Isso. A gente. Nós fomos até Dallas, conversamos por horas, estamos saindo... e a gente ainda nem se beijou.
Prendi a respiração, esperando o pior. Uma piada boba ou aquela cobrança típica de colégio. Mas Luke fez o oposto. Ele apenas sorriu — um sorriso calmo, reconfortante e absurdamente maduro para um garoto da idade dele.
— Camille... — ele enfiou as mãos nos bolsos da calça do uniforme, dando um pequeno passo na minha direção, mas sem invadir meu espaço. — Você lembra do que a gente conversou na sorveteria? Sobre você ser diferente?
Assenti, o coração acelerando um batimento.
— Então. Não mudou nada. Você não é como as outras garotas que querem acelerar tudo só para ter o que contar para as amigas. Acho que você é exatamente o tipo de pessoa que vale a pena esperar. E quando você estiver pronta... — ele deu de ombros, com uma simplicidade bonita. — Vai acontecer. Naturalmente. Se nunca acontecer, a gente conversa de novo e continua sendo amigo. Mas eu não quero que seu primeiro beijo exista só porque você se sentiu pressionada pelo status da escola. Quero que exista porque você quis. De verdade.
Era impossível não sorrir diante daquilo. Senti um alívio genuíno lavar meus ombros. Luke Carter era muito melhor do que o estereótipo de atleta intocável que a Trinity tentava pintar.
No entanto, enquanto a minha vida amorosa ganhava holofotes indesejados, a vida de Aidam parecia tomar um rumo completamente paralelo e silencioso. John Wright sempre se gabava nas refeições de domingo de que o filho tinha um talento bruto para qualquer esporte que escolhesse praticar. E, naquele semestre, Aidam resolvera testar a teoria do pai.
Ele havia se inscrito para as seletivas do time oficial de futebol americano. O detalhe? Ele não mencionou uma única palavra comigo debaixo do carvalho. Descobri por acaso, vendo o nome dele impresso em letras garrafais no mural de aprovados do ginásio, logo abaixo do nome de Luke.
Sorri sozinha ao ver o papel, sentindo um orgulho bobo. Era a cara do Aidam. Ele nunca fazia alarde, nunca buscava aplausos. Ele simplesmente ia lá e vencia.
Quando o encontrei perto do estacionamento após a última aula, bati de leve com o caderno no braço dele, que parecia ainda mais forte com a camiseta do treino.
— Então quer dizer que o senhor entrou para o time, vai virar o novo astro do Texas e nem se deu ao trabalho de contar para a sua melhor amiga? — provoquei, estreitando os olhos.
Aidam deu de ombros, ajustando a alça da mochila pesada. Seus olhos cor de mel esverdeados pareciam cansados, desprovidos daquela faísca de deboche que costumava me inflamar.
— Achei que você estaria ocupada demais e que acabaria descobrindo pelo mural de qualquer forma — ele respondeu, a voz barítona saindo num tom desprovido de emoção.
— Você é impossível, Wright.
— Eu sei, Camille. Eu sei.
Tentei sorrir, mas o gesto morreu nos meus lábios. Havia uma parede invisível subindo entre nós, tijolo por prejuízo de tijolo. Aidam continuava educado quando Amalia nos servia o jantar, continuava me estendendo a mão para descer da caminhonete, mas a distância era física. As conversas terminavam antes de começarem. Ele inventava desculpas sobre táticas de jogo para ir treinar mais cedo, e as nossas tardes debaixo do velho carvalho haviam minguado até desaparecerem por completo. Achei que fosse apenas o preço da rotina do ensino médio. Nunca, nem nos meus pensamentos mais selvagens, imaginei que houvesse outro motivo queimando por trás daquela armadura.
Na sexta-feira, durante o almoço no refeitório barulhento, Emma apoiou o queixo na mão, os olhos semicerrados enquanto analisava o ambiente com precisão cirúrgica.
— Se eu fosse você, Cami, começaria a olhar mais para as suas costas — ela disparou, mudando o tom de voz para um sussurro dramático.
Levantei os olhos do meu prato de salada. — Por que, Emma?
Ela inclinou a cabeça sutilmente na direção da mesa central, onde o grupo das líderes de torcida estava reunido. No meio delas, uma garota loira, com a maquiagem impecável e o uniforme perfeito, me encarava com uma intensidade gélida, sem qualquer esforço para disfarçar o desdém.
— Ashley Montgomery — Emma sussurrou o nome fatídico.
Segui o olhar, e Ashley desviou o rosto no mesmo centésimo de segundo, jogando o cabelo perfeito para trás. — O que tem ela? Eu nunca troquei duas palavras com essa menina.
Abigail inclinou-se para a frente, atropelando as palavras de tanta empolgação. — Exatamente! Mas ela está morrendo de ódio de você, Camille. Ashley vem tentando chamar a atenção do Luke desde as férias do ano passado, e agora a escola inteira só fala que a garota nova da fazenda conquistou o quarterback júnior.
Balancei a cabeça, soltando uma risada de descrença. — Nós não estamos namorando. A gente só está se conhecendo. É diferente.
As três me encararam como se eu tivesse falado em outra língua. — Camille, você é a única pessoa nessa escola que realmente acredita nessa diferença — Emma ironizou, mas sua expressão mudou logo em seguida, os olhos desviando para a entrada do refeitório. — Falando nos novos astros do esporte... veja só quem resolveu aparecer.
Virei o rosto por cima do ombro. Aidam cruzava as portas duplas do refeitório, rindo de alguma piada junto com três veteranos da linha ofensiva. Ele vestia a jaqueta do time, os fios loiro escuros ligeiramente bagunçados, exalando aquela confiança nata que parecia herança direta de John Wright. Quando ele passou pela nossa mesa, seus olhos cor de mel escanearam o perímetro. Eles pousaram em mim por uma fração de segundo. Ele esboçou um sorriso rápido, um aceno de cabeça cortês, mas não parou. Continuou caminhando com os rapazes até a mesa do fundo.
Emma voltou a me encarar, os olhos estreitos e analíticos. — Ele anda esquisito. Muito esquisito.
Franzi a testa, pegando o meu copo de suco. — Quem? O Luke?
— Não, sonsa. O Aidam.
— Ele não está esquisito, Emma. É impressão sua.
— Está sim — Abigail concordou no mesmo instante, balançando os cachos. — Ele quase não fala mais com você nos corredores, Cami. Antes, ele parecia o seu segurança particular; agora, parece um conhecido que estuda na mesma sala.
Deixei uma risada curta escapar, balançando a cabeça em negação absoluta. — Vocês enxergam mistério em tudo, sério. O Aidam só está ocupado. Os treinos do time são exaustivos, o pai dele está cobrando mais presença nos negócios da fazenda e temos semana de provas chegando. É normal a gente se afastar um pouco nessa fase.
Emma permaneceu séria, me olhando com aquela intensidade de quem consegue ler as entrelinhas. — Camille... você realmente não percebeu nada?
Balancei a cabeça, convicta, exibindo um sorriso confortável. — Percebi o quê? O Aidam entende perfeitamente a minha situação com o Luke. Nós sempre fomos cem por cento honestos um com o outro, desde pequenos. Ele sabe que eu continuo sendo a mesma Camille de sempre, e nada vai mudar a nossa parceria.
Emma não respondeu. Ela apenas soltou um suspiro lento e lançou um último olhar para a mesa do fundo do refeitório, onde a jaqueta de Aidam se destacava entre os outros atletas.
Naquele meio-dia barulhento, eu realmente acreditava em cada palavra que saía da minha boca. Estava convicta da minha própria certeza. Porque eu ainda era jovem demais para entender que, na vida real, quem está vivendo a história é, invariavelmente, a última pessoa a enxergar as rachaduras na estrutura antes que tudo venha abaixo.
O outono avançava rápido e, com ele, a nossa nova rotina na Trinity se consolidava. No entanto, o clima dentro da minha própria casa parecia seguir uma previsão do tempo totalmente imprevisível.
Naquela tarde de terça-feira, o céu do Texas estava carregado de nuvens cinzentas, prenunciando uma tempestade. Na mesa da nossa cozinha, livros de Biologia e cadernos quadriculados dividiam o espaço com duas canecas de chocolate quente que meu pai havia deixado preparadas antes de voltar para o campo. Luke estava sentado na cadeira ao meu lado, com o corpo ligeiramente inclinado na minha direção, rindo baixo enquanto tentava me explicar, pela terceira vez, a divisão celular.
— Entendeu agora, Cami? A mitose é basicamente quando a célula decide que cansa de ser solteira e se divide em duas cópias idênticas — ele brincou, usando os dedos para simular as células se afastando.
Deixei uma risada alta escapar, empurrando o ombro dele de leve. — Você inventa as piores analogias do mundo, Carter. Mas, surpreendentemente, funcionou.
— Viu? Eu seria um excelente professor — ele se gabou, com aquele charme fácil. Luke esticou a mão e, com uma delicadeza que fez meu estômago dar um pequeno solavanco, limpou um rastro de espuma de chocolate que havia ficado no canto dos meus lábios. Seus olhos castanhos sustentaram os meus azuis por um segundo longo demais, e o sorriso dele vacilou, tornando-se mais suave. — Você fica linda concentrada. Sabia?
Senti minhas bochechas queimarem instantaneamente. Eu ia puxar o caderno para disfarçar o embaraço quando o som pesado de botas ecoou na varanda, seguido pelo estalo seco da maçaneta.
A porta da cozinha se abriu e Aidam entrou.
Ele vestia a jaqueta do time, os cabelos loiro escuros ligeiramente úmidos do início de garoa lá fora. Ele vinha com o cenho franzido, girando uma chave de fenda entre os dedos — provavelmente enviado por John para entregar alguma ferramenta ao meu pai —, mas toda a sua movimentação congelou no milésimo de segundo em que seus olhos cor de mel esverdeados varreram a mesa.
O riso sumiu da nossa mesa instantaneamente. O silêncio que se instalou foi tão denso que o som da chuva batendo no teto de zinco pareceu ensurdecedor.
— Wright — Luke quebrou a inércia primeiro, endireitando a postura na cadeira e acenando de forma cortês, mantendo a postura de capitão do time. — Não sabia que passaria por aqui hoje.
Aidam não respondeu de imediato. Seus olhos desceram para a mão de Luke, que ainda descansava perigosamente perto do meu braço sobre a mesa, antes de subirem para o meu rosto. O tom esverdeado do olhar dele parecia quase gélido sob a luz amarelada da cozinha.
— Meu pai pediu para deixar isso com o Otto — Aidam soltou, a voz barítona saindo tão grossa e áspera que parecia lixa contra a madeira. Ele jogou a chave de fenda sobre o balcão da pia com um baque metálico estridente.
— Ele está no curral da soja, Aidam — comentei, a minha voz saindo um pouco mais tensa do que eu gostaria. Tentei amenizar o ambiente, forçando um sorriso amigável. — Quer um pouco de chocolate quente? Ainda está na leiteira. Você pode sentar com a gente, o Luke está me dando uma aula de Biologia que... bem, está quase salvando a minha nota.
Luke sorriu, deslizando o braço pelas costas da minha cadeira, um gesto possessivo, mas natural, que colou o meu ombro ao dele. — É, Wright. Junta-se ao comitê de crise. A Camille acha que os cromossomos são algum tipo de marca de carro.
Foi uma piada boba. Uma graça típica de namoradinhos de colégio que tentam incluir o amigo na conversa. Eu dei um tapinha leve no joelho de Luke, rindo da provocação: — Não exagera, Luke! Eu não sou tão ruim assim.
Mas Aidam não achou graça. Nenhuma.
O maxilar dele travou com tanta força que uma linha branca desenhou-se ao redor de seus lábios. Ele ficou parado no centro da cozinha por três segundos que pareceram uma eternidade, parecendo uma tempestade prestes a desabar dentro do cômodo. A energia que emanava dele era puramente hostil, uma rigidez que eu nunca, em todos os nossos anos de bagunça e poeira, tinha visto nele.
— Não, obrigado — ele disparou, a voz cortante como uma lâmina de gelo. — Eu tenho mais o que fazer do que assistir a isso.
Antes que eu pudesse processar o peso do insulto ou perguntar o que diabos estava acontecendo com ele, Aidam girou nos calcanhares. Ele cruzou a cozinha com passos pesados e violentos e, ao passar pela saída, segurou a porta de madeira e a puxou com toda a força que tinha.
BUM.
O estrondo da porta batendo contra o batente sacudiu as janelas de vidro da cozinha e fez as canecas de chocolate tremerem na mesa. O eco do impacto pareceu reverberar nas minhas costelas.
Fiquei encarando a madeira fechada, de boca entreaberta, o coração batendo descompassado no peito. Luke soltou o ar lentamente, tirando o braço das costas da minha cadeira e coçando a nuca, visivelmente desconfortável.
— Cara... o que foi isso? — Luke perguntou, olhando para a porta e depois para mim, os olhos castanhos cheios de dúvida. — Eu fiz alguma coisa para ele? No treino ele já estava estranho, mas agora... ele parecia querer me quebrar em dois.
— Não... não é você, Luke — sussurrei, mentindo para ele e para mim mesma enquanto tentava controlar o tremor nas minhas mãos.
Olhei fixamente para a porta fechada, sentindo um nó doloroso e inexplicável apertar a minha garganta. Aquela dinâmica de ciúmes e silêncios já não parecia mais uma invenção da mente fértil de Emma e Abigail. O território da nossa amizade tinha sido definitivamente invadido
Fale com o autor