Com Todo Amor - O começo
22 O futuro finalmente chegou
Existe uma frase que o meu pai costumava repetir quando eu era criança e o cansaço ameaçava derrubar o nosso dia de trabalho: "A colheita sempre chega para quem teve a coragem de plantar".
Durante anos, achei que ele estivesse falando apenas sobre a rotina da terra e das safras. Hoje, olhando para trás, sei que ele estava falando da vida.
Os dois anos seguintes ao fim da faculdade passaram como um piscar de olhos.
A rotina do internato e do início da nossa caminhada na medicina consumia absolutamente tudo. Dormíamos pouco, comíamos mal e vivíamos de café.
As olheiras profundas se tornaram parte permanente do nosso rosto.
Mesmo assim... nunca fomos tão felizes. Cada paciente que víamos se recuperar, cada procedimento que aprendíamos a dominar e cada vida que ajudávamos a salvar faziam tudo valer a pena.
Naquela manhã de junho, o auditório de Stanford estava completamente lotado. Mais uma vez, parecia que a vida fazia questão de repetir alguns cenários na nossa história. Só que agora não usávamos aquelas becas pesadas do colégio. Usávamos jalecos brancos, impecavelmente passados, com os nossos nomes bordados.
Quando o meu nome foi chamado, atravessei o palco ouvindo os aplausos ecoarem. Ao apertar a mão do diretor, lembrei da menina que chegara do Texas anos atrás, carregando uma única mala, um sonho que parecia impossível e muito medo. Ela havia conseguido.
Aidam recebeu o diploma poucos minutos depois. Olhei para ele da plateia, sentindo um orgulho que quase não cabia no peito. Ele sorriu discretamente na minha direção, daquele mesmo jeito contido que fazia desde os nossos quinze anos. O meu coração sorriu de volta.
Depois da cerimônia, caminhamos pelo campus em silêncio, apenas aproveitando o momento. A Califórnia nos transformara. Já não tínhamos mais aquele sotaque tão carregado do interior do Texas; aprendemos a viver em uma cidade grande, a dividir as responsabilidades de um apartamento, a pagar contas e a sobreviver a plantões intermináveis longe de casa. Nós havíamos chegado ali como jovens assustados, mas estávamos saindo como adultos de 26 anos, prontos para o próximo passo.
Mas havia algo que Stanford ou o tempo jamais conseguiram mudar. Toda vez que Aidam segurava a minha mão, eu ainda sentia exatamente a mesma paz da sombra do velho carvalho.
O processo para a escolha das nossas especialidades definitivas começou poucas semanas depois. Era o momento que esperávamos desde a adolescência: Neurologia e Cardiologia. Não eram mais apenas sonhos distantes; agora tinham nome, hospitais e entrevistas de verdade.
As semanas seguintes foram uma mistura de ansiedade e esperança, até que os e-mails com as respostas começaram a chegar.
Lembro exatamente de onde eu estava. Sentada direto no chão do apartamento, cercada por caixas de mudança vazias, com o notebook em cima da mesa de centro. A notificação apareceu na tela. Respirei fundo e abri.
Parabéns. Foi a única palavra que consegui ler antes que as lágrimas de alívio inundassem a minha visão e eu começasse a chorar.
Aidam entrou correndo na sala, vindo da cozinha.
— O que aconteceu, Cami?
Apenas virei a tela do computador para ele. Ele leu as linhas formais e, antes que eu pudesse prever, me abraçou tão forte que quase derrubou nós dois no chão, no meio das caixas.
— Você conseguiu... — ele sussurrou contra o meu pescoço, a voz embargada.
Ri entre as lágrimas, limpando o rosto.
— Nós conseguimos. Olha o seu sistema.
Ele arregalou os olhos e correu até o próprio computador na bancada. Foram alguns segundos de silêncio absoluto. E então, o grito dele ecoou pelo apartamento.
— Camille!
Ele veio correndo novamente e desabou ao meu lado no tapete. Agora éramos dois adultos de vinte e seis anos chorando no meio da sala como duas crianças que tinham acabado de vencer o maior desafio de suas vidas. As duas vagas eram no mesmo hospital: o Parkland Memorial Hospital, em Dallas, Texas.
Voltávamos para casa. Para o nosso solo. Eu iniciaria a minha residência em Neurocirurgia, e Aidam começaria a dele em Cardiologia. Era exatamente o plano que desenhávamos na caçamba da caminhonete aos dezesseis anos. Contra todas as probabilidades... tínhamos conseguido juntos.
Quando contamos a novidade para as nossas famílias, a varanda da fazenda parecia véspera de Natal. John abriu uma garrafa de vinho para comemorar; o meu pai, Otto, chorou discretamente no canto, fingindo com a sua típica pose de caubói que a fumaça do churrasco estava incomodando os seus olhos; e Amalia nos abraçava a cada cinco minutos, visivelmente emocionada.
— Os meus médicos... — ela repetia, segurando as nossas mãos. — Os meus dois médicos.
Florence, que agora já era uma mulher de 20 anos e estava cursando a faculdade de moda, andava de um lado para o outro na cozinha com um sorriso gigante, comemorando como se a aprovação fosse dela.
John levantou o copo no ar, pedindo atenção.
— Um brinde aos dois jovens mais teimosos que eu já conheci.
Dei uma risada, ajeitando a postura na cadeira.
— Jovens teimosos, mestre? Achei que com vinte e seis anos e dois diplomas de Medicina a gente já estivesse em outro patamar.
John sorriu, balançando a cabeça.
— Cami, para mim e para o seu pai, vocês podem ter quarenta anos e estarem salvando vidas por aí; na nossa cabeça, vocês continuam sendo as duas crianças que viviam correndo atrás dos cavalos no pasto. Isso não muda.
Todos riram juntos. Depois do jantar, permaneci na cozinha ajudando Amália a organizar as coisas. Ela secava alguns pratos com aquela sua costumeira calma enquanto eu guardava os talheres nas gavetas. Ficamos em silêncio por alguns minutos, aproveitando o frescor da noite, até que ela falou com aquela naturalidade que só ela tinha:
— Então, Camille...
Sorri de canto, sabendo que vinha alguma pergunta maternal por aí.
— Então...?
Ela levantou uma das sobrancelhas, me olhando de lado.
— Vocês já são médicos formados. Estão voltando para Dallas de vez. Já moram juntos há anos na Califórnia...
Olhei para ela de forma desconfiada, segurando o riso.
— Madrinha... onde você quer chegar com isso?
John apareceu na porta da cozinha exatamente naquele instante, como se tivesse ensaiado a entrada perfeita.
— A sua madrinha só está querendo saber, Camille, quando é que ela vai poder usar aquele vestido novo que comprou em Dallas.
Comecei a rir alto, balançando a cabeça.
— Vestido novo? Para qual ocasião?
Ele cruzou os braços, exibindo um sorriso divertido.
— No casamento de vocês, claro.
Balancei a cabeça, me divertindo com a insistência dos dois.
— Vocês dois não existem. São impossíveis.
Amália aproximou-se da bancada, me olhando com aquele jeito doce que sempre desarmava qualquer argumento meu.
— Camille... quantos anos faz que vocês decidiram ficar juntos de verdade?
Pensei por alguns instantes, lembrando da nossa linha do tempo.
— Desde a noite do baile de formatura do colégio. Faz uns oito anos.
— E quantos anos faz que vocês se conhecem e cuidam um do outro nesta fazenda?
Sorri, sentindo o peito aquecer.
— Desde os seis anos. Desde o dia em que a Florence nasceu.
John fez um gesto dramático com as mãos.
— Exatamente! Nós estamos esperando por esse desfecho há praticamente duas décadas. Vocês são devagar demais para essas coisas.
Aidam entrou na cozinha justamente naquele momento, segurando um copo de água.
— Esperando o quê, afinal? Perdi o assunto?
John não pensou duas vezes antes de disparar:
— Um pedido de casamento de verdade, Aidam. É isso que estamos cobrando.
Aidam congelou no meio do caminho entre a geladeira e a bancada. Ele olhou para o pai, depois para a mãe e, finalmente, focou o olhar no meu rosto. Senti minhas bochechas queimarem na mesma hora.
Amália caminhou até o filho, dando um tapinha suave no braço dele.
— Calma, querido. Nós não estamos pressionando vocês.
John completou imediatamente, rindo:
— Estamos apenas lembrando que o tempo passa.
— Pai... por favor — Aidam pediu, a voz descendo um tom de vergonha. — Nós ainda temos os anos intensos de residência médica pela frente no Parkland. Mal vamos ter tempo de dormir.
John deu de ombros, totalmente descontraído.
— A rotina do hospital pode ser pesada, meu filho, mas ela nunca impediu ninguém de casar.
Amália segurou a risada, acompanhando o marido.
— Nem de ficar noivo.
Aidam passou a mão pela nuca, bagunçando os fios loiros. Eu conhecia perfeitamente aquele gesto; era o que ele fazia sempre que se sentia completamente sem saída ou encurralado por uma brincadeira da família. Ele olhou para mim e sorriu sem graça, com as orelhas um pouco vermelhas.
— Cami... vamos fazer um favor a nós dois e fingir que essa conversa na cozinha nunca aconteceu? — ele sugeriu, tentando mudar de foco.
Aproximei-me dele devagar, deslizando a minha mão pela dele e segurando os seus dedos com firmeza.
— Acho uma excelente ideia, Wright. Vamos mudar de assunto antes que eles escolham os padrinhos.
John resmungou alto o suficiente para que todos na varanda pudessem ouvir:
— Eles demoram para tudo nesta vida. Primeiro, demoraram doze anos de infância para perceber que se amavam. Agora, vão demorar mais dez para assinar os papéis do casamento.
A cozinha inteira caiu na gargalhada com a reclamação dele. Aidam apenas balançou a cabeça, rendido, apertando os meus dedos contra o seu corpo.
Mas houve um breve e sutil instante... enquanto os nossos pais continuavam conversando e rindo ao fundo... em que percebi o olhar de Aidam pousar discretamente sobre a minha mão unida à dele. Depois, ele subiu o olhar devagar e fixou os olhos no meu rosto com uma intensidade totalmente diferente, despida daquela leveza de antes.
Não havia timidez na expressão dele e nem a surpresa pelo susto da cobrança dos pais. Era como se, pela primeira vez desde que havíamos completado vinte e seis anos e conquistado os nossos diplomas... a ideia de construir uma família real, de assinar um papel e de oficializar a nossa união tivesse deixado de ser apenas um sonho distante que planejávamos na juventude.
E tivesse começado a parecer, com toda a certeza do mundo, um plano real para o nosso futuro.
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