Com Todo Amor - O começo
13 O futuro
O velho carvalho continuava exatamente onde sempre estivera, com as raízes monumentais e retorcidas rasgando a terra vermelha do Texas, como se fizessem questão de lembrar ao mundo que algumas coisas eram robustas demais para ceder ao tempo.
Durante meses, eu evitara deliberadamente aquela sombra. Talvez porque cada palmo daquele gramado alto me lembrasse, com uma precisão cirúrgica, do garoto loiro escuro que passara metade da infância sentado bem ali, dividindo comigo o silêncio e a terra batida. Naquela tarde abafada, porém, a pressão na Trinity tinha ficado insuportável e eu precisava desesperadamente de um espaço para respirar. Espalhei meus livros de Biologia e Química sobre a manta xadrez, tentando me concentrar. A prova para o programa preparatório de Stanford parecia avançar na minha direção na velocidade de um trem de carga.
Foi o som de passos firmes esmagando os galhos secos da grama que me fez levantar a cabeça.
Aidam.
Ele estava parado na base da árvore, com os fios loiros bagunçados pelo vento e as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta jeans que destacava seus ombros largos de atleta. Sorri de canto, tentando adotar aquela nossa velha postura defensiva.
— Olha só quem resolveu aparecer... — soltei, ajeitando a alça do meu casaco. — Achei que você tivesse assinado um decreto para me excluir oficialmente da sua existência, Wright.
Ele soltou uma risada curta pelo nariz, aquele som áspero e rústico que vibrava direto no peito dele, mas não respondeu de imediato. Aquele silêncio cortês bastou para que eu percebesse que ainda havia um rastro de culpa e desconforto escondido por trás daquela postura impecável de herdeiro.
Fechei o livro de Química com um baque suave.
— Estou brincando, poste. Senta aí.
Aidam acomodou-se ao meu lado na manta, dobrando as pernas longas e apoiando os antebraços sobre os joelhos. Por alguns minutos longos, nós apenas observamos o vento do Texas balançar a copa densa acima de nós, projetando feixes de luz dourada sobre a nossa pele. Era bizarro. Antigamente, o silêncio entre nós dois era o nosso maior conforto, o lugar onde a gente se curava. Agora, parecia que ambos estávamos pisando em ovos, procurando desesperadamente o roteiro certo para não detonar nenhuma bomba invisível.
Foi Aidam quem quebrou o gelo primeiro, a voz barítona saindo num tom arrastado:
— Já decidiu o veredito final, Camille?
Olhei para ele de soslaio, focando nos seus olhos cor de mel esverdeados. — Sobre Stanford?
Ele assentiu com a cabeça, sustentando o olhar.
Abri um sorriso imediato, sentindo a ambição queimar no peito.
— Desde os doze anos, Wright. Nunca mudou uma única linha no plano.
Ele abaixou um pouco o rosto, pegando um graveto seco na terra e desenhando linhas aleatórias na poeira entre as botas.
— Acho que vou prestar para lá também. Na Costa Oeste.
Meu coração deu um salto estúpido, iluminando o meu peito de um jeito que eu não conseguia mascarar.
— Sério, Aidam?! Você vai tentar a Califórnia?
Ele olhou de lado, capturando a minha reação com um meio sorriso genuíno.
— Sério, tampinha. Por que o espanto?
Sem pensar duas vezes, movida pelo puro reflexo da nossa antiga intimidade, dei um tapinha leve no braço musculoso dele.
— Isso seria absolutamente incrível! Imagina nós dois atravessando o país inteirinho juntos, saindo desse fim de mundo. — Sorri, os olhos azuis brilhando. — Ia ser muito bom ter o meu melhor amigo por perto no meio daquela loucura universitária.
Aidam sustentou o meu olhar por alguns segundos que pareceram suspensos no tempo. A intensidade daqueles olhos mel, agora intensamente verdes sob a sombra do carvalho, fez o ar faltar nos meus pulmões por um milésimo de segundo, antes de ele desviar o rosto discretamente em direção ao horizonte.
— Também acho, Cami — ele sussurrou, a voz descendo um tom.
Abri novamente o meu caderno de anotações, tentando recuperar a pose focada. — Neurologia continua sendo a minha primeira e única opção. O cérebro humano é fascinante.
Ele arqueou uma sobrancelha, o deboche sutil voltando a desenhar o seu rosto. — Ainda com essa obsessão? Nunca pensou em mudar para algo menos complexo?
Balancei a cabeça firmemente, os cabelos castanhos caindo pelos ombros. — Não. Quanto mais eu leio sobre os mecanismos neurológicos, mais eu tenho certeza. E você? Continua firme na cardiologia?
Ele soltou uma risada curta. — Culpa direta do meu avô, você sabe. Quando ele enfartou e o mundo parecia estar desabando na fazenda, eu tinha dez anos. Lembra?
Assenti com a cabeça.
— Lembro perfeitamente. Eu fiquei trancada no quarto com a Florence rezando para as coisas darem certo.
— Acho que foi exatamente ali que eu bati o martelo — Aidam continuou, o tom ficando mais sério, os olhos focados no graveto na terra. — Se eu puder ter o conhecimento necessário para salvar o pai ou o avô de alguém da mesma forma que aqueles médicos salvaram o dele... toda a exaustão dos livros já vai ter valido a pena.
Sorri, sentindo um calor confortável no peito. — Você vai ser um médico absurdamente foda, Aidam. E os seus pacientes vão ter que engolir essa sua arrogância texana.
Ele respondeu apenas com um riso de canto de lábio, mas a atmosfera mudou logo em seguida. Ele limpou as mãos na calça jeans e virou o corpo de leve na minha direção, adotando um tom que ele tentou fazer parecer o mais casual e despretensioso do mundo.
— E você... como estão as engrenagens com o Luke?
Fechei o caderno devagar, sentindo o peso da realidade de colégio voltar para a manta. — Bem. Nós estamos ótimos. O Luke é um namorado incrivelmente bom e maduro.
Aidam assentiu lentamente com a cabeça, o maxilar travando de forma quase imperceptível. — Imagino que sim. O capitão perfeito.
— No feriado de Ação de Graças, agora em novembro, nós vamos viajar com os pais dele para a casa de praia da família — joguei a informação no ar, testando o terreno.
O silêncio que se instalou entre nós durou cinco batimentos cardíacos lentos.
— Vai ser a primeira vez que vocês viajam sozinhos... quer dizer, juntos? — ele perguntou, fingindo uma atenção absurda na linha do horizonte.
Sorri de canto. Eu conhecia cada inflexão daquela voz barítona e sabia exatamente qual era a vertente daquela curiosidade masculina de colégio.
— Aidam Wright... se essa é a sua maneira terrivelmente educada e tortuosa de tentar descobrir se eu e o Luke vamos dividir o mesmo quarto naquela casa de praia... — comecei, estreitando os olhos.
Ele abaixou a cabeça na mesma hora, soltando uma risada sem graça, com as orelhas e o pescoço adotando um tom rosado sob a luz. — Não era isso, Camille. Ficou maluca?
— Era exatamente isso e você sabe disso! — empurrei o ombro dele de leve com o meu, rindo da defensiva dele. — Relaxa, poste. Nós ainda não chegamos nessa fase do roteiro. O Luke respeita absurdamente o meu espaço.
Aidam soltou o ar dos pulmões de forma discreta. Tão sutil e discretamente que qualquer outra pessoa no mundo teria deixado passar batido; mas eu, que passara os últimos doze anos decifrando a linguagem corporal dele, captei o alívio imediato na postura dele.
— Mas um dia isso vai acabar acontecendo, Aidam — completei, a minha voz saindo com uma naturalidade madura, de dezoito anos. — Quando fizer sentido real para nós dois e a gente estiver pronto. É o fluxo normal.
Ele permaneceu encarando as cercas da propriedade, a linha do rosto dura.
— É... faz sentido. Total sentido.
Decidi que já tínhamos esticado aquela corda o suficiente e resolvi mudar o foco da mira.
— E você? Como estão as coisas no paraíso com a Ashley Montgomery?
Ele deu de ombros displicentemente, quebrando o graveto ao meio.
— Bem. O de sempre.
Fiquei esperando o resto do veredito. Conhecia aquele monossílabo dele de cor; era o seu pior esconderijo.
— Aidam... fala a verdade.
Ele soltou um suspiro pesado, jogando os pedaços de madeira longe e passando a mão pelos fios loiro escuros. — Acho que... a Ashley gosta muito do pacote completo que as pessoas enxergam de fora, Cami. Das festas de veteranos, das fotos perfeitas nas redes sociais, de desfilar pelos corredores como o casal padrão da Trinity. — Ele esboçou um sorriso de canto amargo, meio rendido. — Só que, quando os refletores se apagam e a gente está realmente sozinho no carro... às vezes parece que não temos três frases seguidas para conversar de verdade. O assunto morre.
Fiquei em silêncio por alguns instantes, absorvendo a melancolia daquela confissão.
— E você está genuinamente feliz com esse arranjo, Wright?
Ele demorou tanto tempo para responder que a resposta real acabou se materializando no ar antes mesmo que ele pudesse articular as letras. Ele me olhou de frente, os olhos mel esverdeados cheios de uma dúvida honesta e crua que me desarmou.
— Eu não sei, Camille. Sinceramente, não sei.
Pela primeira vez em mais de um ano, senti uma vontade avassaladora de encurtar aqueles trinta centímetros de distância, passar meus braços pelo pescoço dele e apertá-lo em um daqueles abraços de infância que resolviam qualquer tombo. Mas eu não era mais aquela menina. Prendi o impulso e apenas abri um sorriso suave, cheio de empatia.
— Descobre o que você sente de verdade antes de acabar machucando o coração dela... e o seu também, Aidam.
Ele assentiu com a cabeça, a postura relaxando um pouco.
— Vou tentar, tampinha. Vou tentar.
O feriado de Ação de Graças despencou no calendário muito mais rápido do que eu tinha planejado. Luke estacionou a sua caminhonete imponente em frente à nossa varanda logo após o café da manhã de quinta-feira, o motor roncando na manhã fria. Meu pai, Otto, fez questão absoluta de chamá-lo para uma conversa de canto na cozinha antes de liberá-lo para colocar as minhas malas na caçamba. Não era um interrogatório policial ou uma ameaça de caubói; era apenas o jeito silencioso e firme do meu pai de demonstrar que confiava nas escolhas da filha, mas que o coração de um pai nunca deixaria de vigiar o perímetro.
Luke ouviu cada instrução com uma postura impecável e um respeito genuíno. Prometeu mandar mensagem assim que cruzássemos a linha de chegada na praia, prometeu dirigir com prudência na rodovia e garantiu que traria a caminhonete e a filha dele inteiras de volta para a fazenda. O meu pai gostava de Luke exatamente por essa solidez: ele nunca tentava encenar um personagem para impressionar os adultos; ele simplesmente cumpria cada palavra que saía da sua boca.
Quando terminei de acomodar a minha mochila na caçamba e me virei para puxar a maçaneta da porta do passageiro, meu olhar foi atraído, por um puro reflexo magnético, em direção ao celeiro grande dos Wright, a um quilômetro de distância.
Aidam estava parado perto do portão de madeira, ajudando John a descarregar alguns fardos de feno pesados da caminhonete da fazenda. Mesmo com toda aquela distância nos separando, nossos olhares se trancaram em linha reta através do pasto alto. Ele parou o movimento por um segundo inteiro e levantou a mão direita, fazendo um aceno discreto, contido e silencioso.
Sorri de lado, sentindo um aperto esquisito no estômago, e respondi com o mesmo gesto.
Luke aproximou-se por trás de mim, passando o braço forte e protetor pelos meus ombros, me puxando para o calor do seu corpo.
— Pronta para o feriado, Cami?
Olhei para o rosto dele, para o sorriso seguro que ele me oferecia. Assenti.
— Pronta, Luke. Vamos nessa.
Subi na cabine e fechei a porta. Enquanto os pneus trituravam o cascalho e a estrada de terra batida da fazenda ia ficando para trás, apoiei o queixo na janela e observei pelo espelho retrovisor lateral a imensidão da propriedade dos Wright desaparecer aos poucos na poeira.
Aidam ainda permanecia exatamente na mesma posição perto do celeiro. Imóvel, com a silhueta preenchendo o vidro do espelho até virar um ponto minúsculo no horizonte do Texas. Como se ele estivesse assistindo não apenas à minha partida física para um feriado de novembro... mas à distância intransponível que, tijolo por tijolo, vinha se instalando de forma definitiva entre duas pessoas que, um dia, na inocência dos seis anos, acreditaram com toda a força da alma que jamais seriam capazes de respirar uma sem a outra.
A família Carter me recebeu com uma calmaria calorosa, como se eu já fizesse parte daquela engrenagem há anos. A propriedade de veraneio deles ficava bem às margens de um lago plácido, cercada por enormes carvalhos antigos e um silêncio completamente diferente, quase pacífico, se comparado à imensidão rústica e barulhenta da Fazenda Wright. A mãe de Luke vivia orbitando ao meu redor com uma doçura maternal, perguntando a cada dez minutos se eu queria mais uma fatia da torta de abóbora recém-saída do forno. O pai dele, um homem de riso fácil, insistia em me mostrar álbuns de fotografias desbotadas da infância dos filhos. Enquanto isso, os primos mais novos de Luke corriam descalços pelo gramado úmido jogando futebol americano, sob os olhares atentos e risonhos dos adultos que finalizavam os preparativos para o tradicional banquete de Ação de Graças.
Era... bom. Surpreendentemente bom e confortável. Pela primeira vez desde o início do nosso namoro sênior, eu tinha a oportunidade real de conhecer o universo de Luke longe do caos hormonal e dos julgamentos dos corredores da Trinity. E, observando a dinâmica deles, entendi perfeitamente a razão de ele ser um cara tão genuinamente gentil, protetor e maduro. Era simplesmente impossível crescer sob aquele teto sem aprender a ler e a cuidar das pessoas ao seu redor.
Na sexta-feira à noite, depois que o burburinho da casa cessou e todos finalmente cederam ao cansaço e foram dormir, nós dois escapamos de mansinho pela porta dos fundos. Caminhamos lado a lado até a ponta do píer de madeira escura. A água do lago estava tão absurdamente estática que refletia a imensidão das estrelas com uma nitidez cirúrgica; parecia que estávamos suspensos sobre um segundo céu espelhado. Ficamos alguns minutos longos imersos em um silêncio macio, apenas balançando os pés descalços sobre o reflexo da água fria.
Luke moveu a mão pelo tablado, encontrando a minha. Ele entrelaçou nossos dedos com uma firmeza confortável. Sorri de lado, sentindo a brisa morder minhas bochechas.
— Obrigada por ter me trazido, Luke. De verdade.
Ele virou o rosto na minha direção, os olhos castanhos capturando a pouca luz da lua. — Eu fazia muita questão de que você conhecesse a minha família, Cami. E o meu lugar favorito no mundo.
— Eu adorei cada um deles. São pessoas incríveis.
— Eles ficaram completamente obcecados por você também. Minha mãe já está planejando o cardápio do Natal — ele soltou uma risada baixa, o som vibrando no peito dele.
Sorri outra vez, mas o vento frio da madrugada soprou mais forte, fazendo com que alguns fios rebeldes do meu cabelo castanho voassem contra os meus olhos. Luke inclinou o corpo e os afastou com uma delicadeza extrema, os nós dos seus dedos tocando a pele da minha bochecha de um jeito sutil. Meu coração deu um solavanco, acelerando o ritmo por puro reflexo físico.
Ele diminuiu os poucos centímetros de distância que nos separavam. Dessa vez, a lógica estava do nosso lado. Não havia a torcida histérica do estádio, não havia a pressão social das líderes de torcida, não havia uma garrafa de vidro girando no chão e absolutamente ninguém vigiando o perímetro. Éramos apenas nós dois e o lago.
Seus lábios tocaram os meus com uma suavidade doce, um carinho testado e seguro. Correspondi ao beijo, deixando-me levar por aquele ritmo calmo, sem as pressões ou as urgências do passado. Mas, no segundo exato em que Luke aprofundou um pouco mais o contato, trazendo o meu corpo sutilmente mais perto do dele, uma corrente elétrica de puro pânico travou os meus músculos. Meu corpo inteiro enrijeceu sob o toque dele, como se uma barreira invisível de concreto tivesse subido entre as nossas bocas.
Sem que eu sequer processasse a minha própria reação racional, recuei o rosto alguns centímetros, quebrando o beijo de forma abrupta.
Luke afastou as mãos do meu rosto imediatamente, as palmas abertas no ar em um sinal de total respeito.
— Ei... — a voz dele saiu baixa, mansa. — Está tudo bem, Cami. Calma.
Assenti com a cabeça rápido demais, ajeitando o casaco com os dedos trêmulos. — Está. Está tudo ótimo, Luke. Desculpa.
Mas a verdade é que nem a minha própria voz parecia minimamente convencida daquele blefe. Luke me encarou por um momento, e o vislumbre de um sorriso gentil, mas carregado de uma melancolia madura, surgiu em seus lábios.
— Você não precisa continuar se forçando a algo, Camille. Não comigo.
Olhei bem no fundo dos olhos dele, sentindo uma pontada dilacerante de culpa esmagar o meu peito.
— Me desculpa, de verdade.
— Desculpa pelo quê, exatamente?
— Eu... — soltei um suspiro pesado, a névoa do hálito sumindo no ar frio. — Eu não faço a menor ideia do porquê eu simplesmente travei agora. Do nada.
Luke permaneceu em silêncio por alguns instantes longos, observando o movimento quase imperceptível da água abaixo das nossas pernas. Ele respirou fundo, passando a mão pelos cabelos perfeitamente alinhados, antes de voltar a me encarar.
— Posso te fazer uma pergunta bem direta, Cami?
Assenti com a cabeça, sentindo meu estômago se contrair num nó doloroso. — Pode.
— Mas você me promete, olhando nos meus olhos, que vai responder com a mais pura e cruel sinceridade? Sem tentar me poupar?
Engoli em seco, o pressentimento ruim colando na minha garganta. — Prometo.
Ele desviou o rosto, voltando a focar a imensidão escura do lago. — Vai acontecer a mesma coisa que aconteceu no dia do seu primeiro beijo, não vai?
Franzi a testa, genuinamente confusa. — Como assim, Luke? Do que você está falando?
Luke soltou uma pequena risada sem humor, um som triste que quebrou meu coração de leve. — Eu esperei por você durante meses na Trinity, Cami. Segurei a sua mão, respeitei cada recuo seu porque eu queria, mais do que tudo, que você estivesse cem por cento pronta e segura. E esperei feliz, juro por Deus. Porque, para mim, você valia cada segundo de expectativa.
Uma lágrima teimosa começou a arder no canto do meu olho.
— Mas, às vezes, sentado no vestiário ou dirigindo de volta para casa... eu me pego pensando — ele fez uma pausa dramática, engolindo em seco antes de disparar a flecha certeira. — Você está realmente esperando pelo momento certo, Camille... ou você está, no fundo, esperando pela pessoa certa?
Meu coração disparou tanto que o batuque nas costelas chegou a doer. Antes que eu pudesse gaguejar qualquer tentativa de justificativa acadêmica, ele completou, a voz mansa e fatal:
— E o meu maior pânico, o pânico que me assombra desde o início do ano letivo... é a certeza de que essa pessoa nunca vai ser eu.
Pisquei as pálpebras rapidamente, sentindo o mundo oscilar no píer. — Luke... não fala assim, por favor. A gente está junto, eu estou aqui...
— Me escuta, por favor, Cami. Eu não estou bravo, não estou cobrando nada e não estou tentando te pressionar a fazer o que você não quer — ele me interrompeu, com aquela lucidez dolorosa de quem já aceitou o veredito do destino. Ele passou a mão pelo rosto, soltando o ar. — Eu conheço vocês dois há tempo suficiente para saber ler o cenário.
— Quem? — perguntei, embora o nome já estivesse queimando a minha língua.
— Você e o Aidam Wright.
Meu corpo inteiro entrou em um estado de paralisia total. O ar gelado do lago pareceu congelar meus pulmões.
Luke esboçou um sorriso triste de canto de lábio, olhando para as próprias botas. — Você pode continuar fingindo para a Emma, para a Abigail e para si mesma de que não percebe a física da coisa. Mas eu percebo, Cami. Eu sou o cara que está do seu lado. Toda vez que o Wright cruza as portas daquele refeitório ou entra em qualquer ambiente da escola, os seus olhos azuis fazem um rastreamento automático e acabam encontrando os dele. Mesmo que seja por uma fração de segundo. Mesmo que seja um reflexo tão inconsciente que você nem note que fez.
Senti o nó na minha garganta apertar até sufocar.
— E a forma como o herdeiro dos Wright olha para você pelas costas... — Luke soltou uma risada fraca, balançando a cabeça. — Camille, nenhum cara no mundo olha para uma simples amiga de infância com aquela intensidade possessiva e destrutiva. Eu senti o peso daquele olhar quando ele me deu aquele soco no gramado, e sinto toda vez que ele nos vê juntos perto do estacionamento.
O silêncio que se instalou entre nós dois no píer pareceu durar uma eternidade inteira, um abismo de palavras não ditas. Baixei os meus olhos azuis para o reflexo das estrelas, porque, pela primeira vez em toda a minha adolescência... eu simplesmente não consegui encontrar um único argumento para dizer que ele estava redondamente errado.
— Você... você está terminando comigo por causa disso? — a minha voz saiu num fio de sussurro estrangulado, desprovido de qualquer força.
Luke demorou alguns segundos tortuosos para formular a resposta. Ele esticou a mão e, com uma ternura que me fez querer chorar de vez, segurou meus dedos frios uma última vez.
— Não, Cami. Eu não estou terminando com você. Eu amo o que a gente construiu e você sabe o quanto é importante na minha vida. Eu ainda consigo projetar, com uma nitidez absurda, um futuro inteiro ao seu lado. Um futuro real, sólido, de comercial de TV. A gente saindo desse condado, indo para a faculdade na Costa Oeste, eu jogando o campeonato universitário, você fazendo a sua residência médica... construindo uma casa, uma família de verdade.
Sorri de lado, sentindo os olhos transbordarem, genuinamente emocionada com o peso daquele carinho.
Luke apertou delicadamente os meus dedos, capturando o meu olhar com uma seriedade de homem feito. — Mas eu sou orgulhoso demais para aceitar construir esse futuro sozinho, Camille. Eu preciso que a garota ao meu lado queira o mesmo futuro com a mesma intensidade. Então, eu vou te fazer uma única e derradeira pergunta. E quero a promessa da varanda de volta.
Ele respirou fundo o ar gelado do lago, travando o maxilar. — Você gosta do Aidam Wright? Desse jeito?
Abri a boca por puro reflexo mecânico, mas nenhuma palavra, nenhum som coerente foi capaz de se formar na minha língua. Porque, pela primeira vez desde que tínhamos seis anos de idade e brincávamos de caçar lagartixas na lama da fazenda... eu realmente não sabia a resposta. Ou pior... no fundo mais escuro e trancado do meu peito, eu sabia exatamente o veredito, e tinha um pavor paralisante de encarar o tamanho daquela verdade.
As lágrimas finalmente venceram a barreira dos meus cílios, escorrendo quentes pelas minhas bochechas congeladas pelo vento, embaçando a minha visão das estrelas. Balancei a cabeça lentamente, de forma derrotada.
— Eu... Luke, eu juro que não sei. Minha cabeça está uma confusão completa.
Luke assentiu com a cabeça devagar. Não havia surpresa no rosto dele, nenhuma explosão de raiva de atleta. Havia apenas a resignação de quem já esperava escutar exatamente aquela confissão desde o primeiro dia de aula.
— Tudo bem, Cami. Eu entendo.
— É cedo demais para eu ter tanta certeza sobre o que eu quero do resto da minha vida — continuei desabafando, tentando desesperadamente colar os pedaços do meu castelo de cartas racional. — Nós ainda temos dezoito anos, nem entramos na faculdade ainda! Eu tenho tantas metas acadêmicas, tantos planos para Stanford...
Minha voz falhou completamente, sumindo num soluço preso. Luke esticou o polegar, acariciando a minha mão com um afeto puro antes de soltá-la devagar.
— Eu sei, Camille. Eu sei de tudo isso.
Voltei a focar os meus olhos azuis na imensidão do lago plácido. As estrelas continuavam ali, brilhando intocáveis, refletidas na superfície escura como um mapa do universo. Fechei as pálpebras por um instante longo, deixando a mente vagar pelo futuro.
Mas, quando tentei projetar de verdade a imagem de um jaleco branco de médica, os corredores de Stanford, a exaustão de uma residência em neurologia, uma casa com cerca de madeira e um futuro sólido de jovem adulta... não foi a margem daquele lago pacífico que se materializou na minha mente. Nem aquela cidade universitária perfeita, e nem mesmo o rosto seguro e o sorriso maduro de Luke Carter.
A imagem que invadiu o meu peito com a força de um tornado foi outro sorriso. Outro par de olhos. Outro garoto, de jaqueta jeans esfarrapada, braços fortes e cheiro de vento e terra vermelha.
Aidam.
Abri os olhos em um sobressalto na mesma hora, o susto me fazendo puxar o ar com força. O meu coração batia com tanta violência contra as costelas que chegava a causar uma dor física real no peito. E foi exatamente naquele segundo exato, sob o frio cortante do feriado de novembro, que a ficha finalmente caiu e eu compreendi uma verdade devastadora e assustadora: às vezes, a parte mais complexa e dolorosa de crescer e se tornar adulta não é descobrir quem você quer ser diante do mundo. É ter a coragem de descobrir ao lado de quem você sempre, desde o primeiro batimento cardíaco da infância, imaginou viver esse futuro.
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