Com Todo Amor - O começo
14 O fim da nossa adolescência
Acho que o processo de amadurecimento tem muito menos a ver com soprar velinhas em um bolo de dezoito anos do que as pessoas romanticamente imaginam. Crescer é, na verdade, a percepção tardia e dolorosa de que algumas pessoas entram na nossa narrativa para nos ensinar a amar com cada fibra do corpo... e outras entram puramente para nos ensinar a nobre arte de deixar ir.
Quando cruzamos as cercas da fazenda de volta daquele feriado de Ação de Graças, Luke Carter e eu colocamos um ponto final no que tínhamos. Não houve gritos dramáticos no estacionamento, nem lágrimas cênicas dignas de um musical de colégio, muito menos aquelas promessas impossíveis de serem cumpridas que os adolescentes costumam sussurrar no escuro. Fomos apenas dois jovens maduros sentados na caçamba de uma caminhonete sob o céu cinzento de novembro, assimilando em silêncio que o carinho e o respeito mútuo nem sempre são combustíveis suficientes para sustentar o peso de um futuro planejado.
Ele segurou a minha mão direita durante boa parte da conversa, os nós dos seus dedos firmes contra os meus. Luke chegou a esboçar um sorriso terno quando a primeira lágrima quente teimou em escorrer pelo meu rosto. Ele olhou nos meus olhos azuis e disse, com aquela solidez que me conquistara, que nunca, nem em um milhão de anos, se arrependeria de ter esperado pelo meu tempo. Eu respondi, engolindo o nó na garganta, que nunca me arrependeria de ter cruzado o seu caminho. Luke Carter sempre seria uma das melhores, mais puras e mais honradas pessoas que já haviam passado pela minha vida. E talvez tenha sido justamente por isso, Larissa, por ele ser tão impecável, que a despedida tenha cravado os dentes tão fundo no meu peito.
Decidimos, num pacto silencioso, não espalhar o veredito para ninguém. Não imediatamente. A Trinity Christian Academy operava na base de boatos radioativos, e nenhum de nós dois estava minimamente disposto a transformar o término de uma história real em entretenimento barato para os fofoqueiros de plantão nos corredores. Durante uma semana inteira, mantivemos as aparências com uma precisão cirúrgica: continuávamos chegando no mesmo horário, sentávamos em cadeiras próximas no refeitório barulhento e conversávamos com uma naturalidade cortês. Até que, aos poucos, com o passar dos dias, cada um foi deslizando sutilmente de volta para o seu próprio trilho. Sem escândalos. Sem mágoas residuais. Apenas com aquela saudade mansa de um "quase" que poderia ter sido.
Na tarde abafada de sábado, com o sol do Texas castigando os pastos, resolvi aproveitar o raro tempo livre para montar. Sentia uma falta quase física daquilo. Desde que a obsessão por Stanford, os ensaios de teatro, as redações da Guerra Fria e os tiros de velocidade na pista haviam sequestrado a minha mente, eu passava cada vez menos horas pisando nos estábulos. O cheiro de feno seco, couro e terra sempre teve um efeito curativo e curioso sobre o meu sistema nervoso. Era o equivalente a sintonizar na frequência exata de casa.
Empurrei a porta pesada de madeira corrida do celeiro velho. O interior estava imerso em um silêncio fresco, quebrado apenas pelo som metálico, rítmico e seco de ferramentas batendo umas contra as outras ao fundo. Segui o eco dos estalos pelo corredor de terra batida.
Foi então que os meus olhos colaram nele.
Aidam.
Ele estava de costas para mim no vão de uma das baias, com o corpo robusto ligeiramente inclinado para a frente enquanto ajustava os cravos de uma ferradura. Usava apenas uma calça jeans gasta, desbotada pelo uso, que ficava perigosamente baixa o suficiente na cintura para revelar a linha perfeitamente marcada e musculosa das suas costas quando ele se abaixava para firmar o casco do animal. O mormaço daquela tarde fazia pequenas gotas de suor deslizarem lentamente pela pele dourada dele, brilhando sob os feixes de sol que cortavam as frestas do telhado.
Aidam soltou a ferramenta e passou o antebraço pelos cabelos loiro escuros, jogando os fios úmidos para trás antes de girar o corpo devagar na minha direção.
— Cam? — a voz barítona dele ecoou pelo celeiro, saindo num tom baixo que vibrou direto nas minhas costelas.
Meu cérebro simplesmente sofreu um blecaute técnico. Esqueci instantaneamente como funcionavam os mecanismos básicos da fala por alguns segundos tortuosos, e tudo o que consegui fazer foi engolir em seco, com as mãos paradas no casaco de couro. Desde quando... — a pergunta gritou na minha mente — ...desde quando o garoto magricela da infância tinha ficado exatamente desse jeito avassalador? Talvez a transformação tivesse acontecido em câmera lenta, treino após treino na musculação, ano após ano na lavoura, e eu simplesmente estivesse ocupada demais fugindo para conseguir parar e olhar de verdade.
Aidam arqueou uma das sobrancelhas escuras, e aquele maldito e perfeito sorriso de canto desenhou-se nos seus lábios.
— Vai continuar aí parada me encarando como se eu fosse um fantasma no celeiro, Davis?
Piscar os olhos pareceu uma excelente estratégia para recuperar a minha sanidade.
— Eu não estava encarando você, Wright. Menos. Bem menos.
— Claro que não estava — ele ironizou, limpando as mãos sujas de graxa em um pano velho na cerca.
Revirei meus olhos azuis, ajeitando a sela que carregava.
— Você é um convencido insuportável.
Ele soltou uma risada ruidosa e desarmada, o som ecoando pelas vigas de madeira. E o eco daquela risada fez com que cada músculo teso do meu corpo relaxasse instantaneamente. Era assustador como, mesmo após os meses de silêncio e paredes invisíveis, a gente ainda conseguia sintonizar na mesma frequência de implicância com um único olhar.
Apoiei a sela de couro sobre a divisória de madeira da baia, tentando adotar um tom casual. — E a Ashley? Como estão as coisas no paraíso das fotos perfeitas?
Aidam mudou a postura, escorando o corpo contra a cerca. Ele ficou em silêncio por alguns segundos longos, o olhar cor de mel esverdeado fixo nos meus dedos. Depois, deu de ombros com uma indiferença crua.
— Nós terminamos, Camille.
Franzi a testa, o coração dando um solavanco estúpido.
— Quando?
— Alguns dias depois daquela nossa conversa séria debaixo do velho carvalho — ele respondeu, sustentando o olhar com uma intensidade que fez o ar sumir dos meus pulmões.
Assenti lentamente com a cabeça, a memória daquela tarde de confidências voltando com força total.
— Sinto muito por isso, Aidam.
Era uma mentira deslavada. Ou, pelo menos... uma verdade terrivelmente incompleta. Eu lamentava de verdade que ele tivesse passado por um período cinzento ou triste na fazenda; mas eu não guardava um único milímetro de lamentação pelo fim daquele namoro de aparências. Nem um pouco.
Aidam pareceu ler a falta de sincronia na minha resposta no mesmo segundo. O sorriso de canto dele voltou, mas dessa vez era mais suave, quase cúmplice.
— Você continua sendo a pior mentirosa de todo o estado do Texas, tampinha. A assinatura do blefe está na sua testa.
Deixei uma risada baixa escapar, relaxando os ombros contra a madeira.
— É. Nunca fui boa nisso com você.
Ele deu um passo à frente, apoiando os cotovelos sobre a cerca da baia, diminuindo a distância física que nos separava. Os olhos dele focaram o meu rosto.
— E você, Cami? Como está o capitão perfeito?
O meu sorriso murchou de leve, substituído por um suspiro demorado.
— O Luke... — desviei o olhar por um segundo antes de cravar a verdade nos olhos dele. — Nós terminamos, Aidam. De vez.
Os olhos cor de mel dele dilataram instantaneamente, capturando a informação como se o mundo tivesse mudado de eixo.
— Quando isso aconteceu?
— No feriado de Ação de Graças. Na casa do lago.
O silêncio que se instalou no celeiro foi absoluto, cortado apenas pelo som distante de um cavalo relinchando em outra baia.
— Aconteceu alguma coisa lá, Camille? — ele perguntou, a voz descendo para aquele tom baixo e protetor que sempre me desarmava. — Ele desrespeitou você?
Fechei os meus olhos azuis por um breve instante, e a imagem daquela madrugada fria no píer de madeira voltou a clarear a minha mente. O reflexo das estrelas na água, a lucidez dolorosa de Luke e a pergunta fatal que mudara o rumo da minha história. Quando abri as pálpebras e encarei o peito nu e os olhos famintos de Aidam na minha frente, percebi que o tempo das mentiras e dos esconderijos acadêmicos tinha chegado ao fim. Estava na hora de parar de fugir do óbvio.
— O Luke me perguntou, olhando nos meus olhos, se eu estava esperando pelo momento certo da vida... ou se eu estava, na verdade, esperando pela pessoa certa — sussurrei, a minha voz saindo trêmula, mas firme.
Aidam permaneceu completamente estático, quase parando de respirar.
— Ele disse que via com uma clareza absurda a forma como você olhava para mim nos corredores da Trinity — continuei, dando um passo na direção dele, encurtando o espaço entre as nossas botas. Minha voz desceu mais um tom, virando um segredo confessional. — E disse que via a forma exata como eu olhava de volta para você. Toda vez que você entrava no refeitório.
O silêncio parecia ter preenchido cada fresta e cada grão de poeira daquele celeiro velho.
Aidam deu um passo lento na minha direção. Depois outro. Sem qualquer pressa, com a precisão de um predador que sabe exatamente onde a presa está encurralada, mantendo aqueles olhos cor de mel — que agora pareciam duas chamas completamente verdes sob a penumbra — cravados nos meus lábios. O meu coração começou a golpear o meu peito com tanta violência que parecia impossível mascarar o barulho no meio do celeiro.
— E o que você respondeu para ele, Camille? — ele perguntou, a voz barítona saindo num sussurro rústico, a centímetros do meu rosto.
Respirei fundo o ar com cheiro de couro e sol, sentindo o calor do corpo dele me incendiar.
— Eu respondi que eu não sabia.
Aidam deu o passo definitivo, eliminando a última barreira invisível, até que eu pudesse sentir o hálito quente dele contra as minhas bochechas.
— E agora, tampinha? — ele instigou, o maxilar travado de expectativa pura. — Você já sabe?
Minha garganta secou por completo, mas um sorriso genuíno e liberto brotou nos meus lábios.
— Agora eu tenho certeza absoluta, Wright.
No mesmo segundo, a sela de couro que eu segurava escapou dos meus dedos inertes e caiu sobre a palha seca do chão com um baque abafado e oco. Nenhum de nós dois se deu ao trabalho de desviar os olhos para olhar o estrago. Aidam já estava perto o suficiente para que o cheiro de sabonete limpo, suor e o calor bruto do sol da tarde me envolvessem como um casulo. Não existiam mais as zonas cinzentas dos últimos anos, não existiam medos do vestiário e nenhuma dúvida pendente sobre o futuro. Havia apenas a avassaladora e estranha sensação de que aquele milésimo de segundo exato estivera esperando pacientemente por nós dois durante toda a nossa existência.
Foi Aidam quem rompeu o bloqueio, erguendo a mão direita calejada e espalmando-a com uma delicadeza extrema na lateral do meu rosto, os dedos grandes se enterrando nos meus cabelos castanhos. Foi um toque trêmulo, um pedido silencioso de permissão que ele ainda fazia com os olhos.
Inclinei ligeiramente a cabeça para o lado, colando a bochecha na palma quente dele, entregando o meu veredito antes mesmo que qualquer palavra pudesse sair da minha boca.
E então, nossos lábios se encontraram.
O mundo ao redor da fazenda simplesmente desapareceu da existência. Não havia a plateia barulhenta de veteranos, não havia regras estúpidas de jogos de colégio, nem as expectativas esmagadoras da Trinity Christian Academy sobre os nossos sobrenomes. Éramos apenas Camille e Aidam. Duas metades da mesma terra vermelha finalmente colidindo.
O beijo começou lento, intencional e incrivelmente calmo, como se as nossas bocas estivessem apenas redescobrindo um caminho geográfico que, de alguma forma oculta, as nossas almas já conheciam de cor desde os seis anos de idade. Mas a calmaria durou pouco. À medida que o contato se aprofundava, a urgência contida de anos de negação explodiu. A boca de Aidam moveu-se contra a minha com uma fome avassaladora e rústica, me puxando para o centro do seu peito nu com uma força possessiva que me fez soltar um gemido baixo contra os lábios dele. Minhas mãos agiram por pura vontade própria, subindo pelos braços fortes dele até agarrarem os ombros largos, enterrando minhas unhas na pele quente dele para não perder o equilíbrio.
Quando nos afastamos por uma fração de segundo, apenas o suficiente para arrancar um pouco de oxigênio para os pulmões ofegantes, percebi que as minhas pernas pareciam estranhamente leves, feitas de pura fumaça.
Deixei uma risada limpa e trêmula escapar, tentando recuperar o fôlego que ele tinha acabado de roubar. — Meu Deus... acho que eu fiquei legitimamente zonza, Wright.
Aidam sorriu, o peito sacudindo contra o meu. Aquele sorriso de canto torto, íntimo e focado, que pertencia única e exclusivamente a mim desde a infância. Deslizei a minha mão pelo braço musculoso dele, tencionando os dedos para encurtar novamente os poucos milímetros que nos separavam, pronta para buscar a boca dele outra vez. Pela primeira vez em toda a minha jornada adolescente, não restava uma única gota de dúvida sobre o que eu queria viver.
Ele percebeu o movimento do meu corpo. Seus olhos cor de mel suavizaram em um tom quente, mas, antes que as nossas bocas pudessem selar o contato novamente, as mãos grandes dele seguraram delicadamente os meus pulsos, freando o meu avanço com uma firmeza sutil.
Ele balançou a cabeça loira devagar, com um brilho misterioso nos olhos. — Não, Camille. Parou.
Franzi a testa, sentindo um beicinho de frustração desenhar meus lábios. — Não? Como assim "não", Aidam? Ficou louco?
Ele abriu um sorriso maior, passando os dedos pelo meu queixo. — Não aqui no chão de terra.
Olhei ao redor da estrutura rústica, assimilando o cenário: o velho celeiro da fazenda, o cheiro forte de feno acumulado, as baias dos cavalos e as ferramentas jogadas. Acabei soltando uma risada rendida, percebendo a lógica dele. — É... pensando por esse lado prático... talvez você tenha uma ponta de razão. O ambiente não é dos mais românticos de Hollywood.
— Você merece algo infinitamente melhor do que a poeira de um celeiro para o início da nossa história, Camille Davis — ele soltou, a voz barítona descendo para um tom sério, os dedos apertando os meus com uma intensidade que fez meu coração dar um nó apertado e gostoso.
Senti meus olhos marejarem de leve com o peso daquele cuidado. — E o que o grande e estrategista Doutor Wright sugere para o nosso cronograma, então?
Aidam respirou fundo, puxando o ar com força. E, pela primeira vez em toda a nossa história de confidências, vi um rastro de nervosismo cru e genuíno oscilar no olhar dele — um nervosismo humano e vulnerável que eu nunca, nem nos seus piores jogos de futebol, tinha visto no herdeiro dos Wright.
— O baile de formatura dos veteranos, em maio — ele decretou, a voz firme, mas carregada de uma solenidade bonita.
Fiquei estática, esperando o resto do plano.
— Eu quero fazer as coisas do jeito certo, tampinha. Sem esconderijos, sem jogos de garrafa e sem fofocas de vestiário — ele continuou, dando um passo definitivo e colando a testa dele na minha. — Quero colocar o meu melhor terno, dirigir até a varanda da sua casa exatamente no horário combinado e ter aquela conversa oficial com o senhor Otto na sala, seguindo cada maldita tradição do Texas. Quero comprar as flores certas para combinar com o seu vestido, abrir a porta da caminhonete para você subir e te levar para jantar no restaurante mais caro de Dallas antes de o salão abrir. Quero dançar cada música lenta com você no meio daquela pista da Trinity. E se, no final daquela noite inteira, quando eu te trouxer de volta para essa varanda, você olhar nos meus olhos e ainda quiser me beijar... — Ele abriu aquele sorriso torto perfeito, os olhos cor de mel esverdeados brilhando com uma promessa inquebrável. — Aí sim, Camille... aí a gente começa a nossa verdadeira história pelo portal da frente. Do jeito que você sempre mereceu.
Senti uma lágrima solitária e quente vencer a barreira dos meus cílios, escorrendo pela bochecha enquanto eu sorria de forma desarmada. Depois de tantas estações de silêncios tortuosos, de tantas fofocas de corredores, de portas batidas com violência na cozinha e de tantos desencontros dolorosos na pista de corrida... a ficha finalmente caiu com uma clareza cristalina no meu peito: o amor verdadeiro nunca esteve perdido ou fora de alcance entre as nossas propriedades. Ele estava apenas aguardando pacientemente, sob a proteção do tempo, pelo segundo exato em que nós dois tivéssemos a maturidade e a coragem necessárias para parar de fugir e escolhê-lo por inteiro. E o futuro, pela primeira vez na vida, parecia um lugar para onde eu mal podia esperar para correr.
Durante as semanas que antecederam aquela noite, a Trinity Christian Academy continuou sendo o mesmo tribunal de fofocas de sempre, mas nós tínhamos aprendido a jogar o jogo. Mantivemos um relacionamento estritamente escondido do resto do mundo dentro daquelas paredes de tijolos. Nos corredores, éramos apenas os velhos conhecidos da fazenda; trocávamos acenos corteses, ignorávamos os sussurros sobre a Ashley ou o Luke, e sustentávamos a fachada com uma disciplina militar.
Nossos pais sabiam a verdade. Amália e Otto observavam de longe, com um consentimento silencioso que nos dava o porto seguro que precisávamos fora do colégio. Mas na escola? Na escola era uma tortura silenciosa. Aidam e eu passávamos as aulas contando os minutos para o sinal final tocar. Não víamos a hora de deixar aquele lugar para trás, pegar a estrada de terra e passar o resto do dia grudados na propriedade, longe dos olhares alheios. Era um sentimento viciante, uma gravidade que nos puxava um para o outro com tanta força que o resto do mundo parecia apenas um borrão sem importância.
E então, o baile de formatura chegou mais rápido do que eu gostaria.
Passei a manhã inteira repetindo para o meu próprio reflexo no espelho do banheiro de que estava sob total controle da situação. Mentira deslavada. Eu nunca estive tão absurdamente nervosa em toda a minha existência. Amália apareceu na nossa sala logo depois do almoço, carregando uma capa protetora de cetim preto pendurada no braço com uma elegância inata.
— Pronta, Camille? — ela perguntou, arqueando uma sobrancelha.
Sorri de canto, os dedos batucando na mesa. — Definitivamente não.
Ela soltou uma risada melodiosa, abrindo o fecho. — Ótimo. Significa que você é uma jovem perfeitamente normal.
Quando o zíper correu e ela afastou o tecido protetor, fiquei alguns segundos sem conseguir arrancar uma única palavra da garganta. O vestido era exatamente como eu imaginaria se alguém tivesse a audácia de invadir os meus sonhos mais profundos. Em um tom de verde-esmeralda denso e profundo, a peça valorizava a linha dos meus ombros e caía com uma fluidez impressionante até o chão, acompanhando cada sutil movimento do meu corpo. O tecido parecia puro líquido acetinado quando a luz da janela o alcançava, enquanto pequenas aplicações discretas de cristais na costura refletiam o brilho como constelações distantes.
Passei a ponta dos dedos trêmulos sobre a saia esvoaçante. — É a coisa mais linda que eu já vi, madrinha...
Amália sorriu com ternura, ajeitando as alças. — Eu sabia, no segundo em que bati os olhos dele em Dallas, que seria esse o seu escolhido.
Quando terminei de prender o cabelo e ajustar os sapatos, o ronco grave e familiar da F-150 ecoou no pátio, estacionando do lado de fora. O meu coração simplesmente esqueceu como funcionavam os mecanismos básicos de um batimento. Florence materializou-se no corredor, me dando um empurrão entusiasmado escada abaixo.
— Anda, Cami! Ele chegou! Ele está na varanda!
Quando puxei a porta de madeira e a abri... Aidam estava parado ali, escorado na mureta da varanda. Usava um terno preto clássico, perfeitamente ajustado aos seus ombros largos de atleta. A gravata escura contrastava com a camisa branca impecável, e os fios loiro escuros estavam penteados para trás com um gel sutil. Ele segurava uma pequena caixa transparente de flores nas mãos.
Por um instante suspenso no tempo, nenhum de nós dois conseguiu formular uma frase. Ele apenas me encarou de cima a baixo, os olhos cor de mel esverdeados brilhando com uma intensidade avassaladora, antes de deixar aquele sorriso torto surgir.
— Uau, Camille... você está... inacreditável.
Senti minhas bochechas queimarem num tom escaldante. — Isso foi exatamente o que passou pela minha cabeça quando eu abri a porta e vi você, Wright.
Ele soltou uma risada baixa, o peito relaxando visivelmente sob o paletó, num alívio claro. — Ainda bem. Achei por um segundo que eu ia desmaiar na terra.
Ri, dando um passo na direção dele. — Eu também achei.
Meu pai, Otto, apareceu logo atrás de mim na soleira. Aidam imediatamente endireitou a postura de jogador, assumindo aquela rigidez respeitosa que o Texas exigia dos rapazes.
— Senhor Davis... — Aidam estendeu a mão direita calejada, sustentando o olhar do meu pai. — Vim buscar a sua filha para o baile de formatura.
Meu pai apertou a mão dele demoradamente, avaliando o garoto que ele vira crescer. Depois, olhou para mim no vestido verde, e em seguida voltou a encarar Aidam. Um sorriso discreto e acolhedor surgiu no rosto do caubói.
— Divirtam-se, crianças. E Wright... traga a minha menina de volta para casa inteira.
— Eu prometo, senhor — Aidam respondeu, sem desviar os olhos por um único milésimo de segundo.
Antes de cruzarmos os portais do salão da escola, fomos jantar em um pequeno e reservado bistrô no centro de Dallas. Pela primeira vez desde que tínhamos decidido cruzar a linha da amizade no celeiro, nós estávamos completamente sozinhos na cidade grande. Sem a pressão dos corredores da escola, sem amigos nos vigiando, sem horários de treinos na pista e sem nenhuma alma conhecida medindo as nossas reações. Era uma sensação estranha. E absolutamente maravilhosa.
Aidam mexia distraidamente no guardanapo de pano sobre a mesa, os dedos longos denunciando o nervosismo contido. Percebi a engrenagem rodando na cabeça dele.
— O que foi, Aidam? Que cara é essa?
Ele respirou fundo, largando o tecido e me olhando de frente. — Posso te pedir uma coisa séria, Camille?
Assenti com a cabeça, bebendo um gole de água. — Claro. Pode mandar.
— Se... — ele parou por um instante, o olhar cor de mel vacilando com uma vulnerabilidade crua. — Se isso entre nós dois... se esse sentimento não der certo no futuro por causa das faculdades ou de qualquer outra coisa... você me promete, olhando nos meus olhos, que a gente vai tentar de tudo para voltar a ser amigo? Que a gente não vai se perder?
O meu sorriso desapareceu na mesma hora. — Aidam...
— Eu estou falando sério, Cami — ele continuou, a voz descendo um tom, rústica. — Eu prefiro o seu desprezo de colégio a ter que viver num mundo onde você não fale comigo.
Olhei para ele durante alguns segundos, absorvendo o tamanho do medo que ele carregava sob aquela armadura de quarterback. Então, estendi a minha mão sobre a mesa de madeira e segurei os dedos dele com firmeza, entrelaçando nossas palmas.
— Não — respondi, o tom de voz firme e inabalável.
Ele franziu a testa, os olhos esverdeados cheios de dúvida. — Não?
Balancei a cabeça devagar. — Não vou te prometer isso porque vai dar certo, Wright. Nós passamos a vida inteira aprendendo o pior e o melhor de cada um na terra daquela fazenda. Eu não consigo, nem nos meus pensamentos mais distantes ou nas minhas teorias de Stanford, imaginar uma única versão da minha existência em que você não seja o eixo principal dela. Vai dar certo.
A emoção tomou conta das feições duras dele no mesmo segundo. O maxilar de Aidam travou de leve, e ele apertou delicadamente os meus dedos contra o mármore da mesa. Nenhum de nós dois conseguiu ou precisou dizer mais nada durante o resto do jantar.
Quando entramos no salão do baile da Trinity, foi como se o tempo parasse. Dezenas de rostos conhecidos se voltaram na nossa direção na mesma hora, os sussurros começando a se espalhar pelas mesas decoradas. Emma levou as duas mãos à boca, soltando um gritinho de vitória abafado, enquanto Abigail abriu um sorriso gigante, apontando para nós. Luke, que estava do outro lado da pista perto do balcão de ponche, apenas sorriu discretamente com aquela sua costumeira maturidade; ele levantou o copo plástico na nossa direção num brinde silencioso e genuíno de felicitação. Ashley Montgomery observou a nossa entrada por alguns segundos longos, jogou o cabelo loiro para trás e voltou a conversar com as amigas, deixando o passado em paz. Pela primeira vez em muitos anos... nada parecia fora do lugar.
Nós dançamos até os nossos pés implorarem por trégua. Rimos das piadas idiotas dos professores, cantamos as músicas que sabíamos de cor e tiramos dezenas de fotografias polaroides. Emma chorou três vezes de pura nostalgia da formatura, Abigail chorou cinco, e Aidam passava o tempo rindo do drama das duas enquanto me puxava pela cintura. Entre uma transição de música e outra, na penumbra das luzes douradas, ele encontrava a minha mão. Às vezes nossos dedos apenas se tocavam de leve sob o tecido verde; em outras, ele me puxava com uma firmeza possessiva para mais perto do seu calor. Os beijos aconteciam com uma naturalidade avassaladora. Sem medos do vestiário, sem culpas pendentes e sem nenhuma plateia importando. Cada toque dos lábios dele parecia selar e confirmar aquilo que o meu coração finalmente aceitara: eu estava exatamente onde sempre deveria ter estado.
Já passava das duas da manhã quando deixamos o complexo da escola. Subimos na cabine da caminhonete prata ainda rindo alto das fofocas da noite, as gravatas e os saltos jogados no banco de trás. Aidam girou a chave na ignição, fazendo o motor roncar na madrugada fria, mas nenhum de nós dois parecia ter qualquer resquício de vontade de pegar a rodovia de volta para a fazenda. O silêncio, de repente, tomou conta do interior do veículo, tornando a atmosfera densa, elétrica.
Olhei para o perfil dele. Ele girou o rosto, me encarando de volta. O meu coração acelerou numa batida desordenada.
— Aidam... — chamei baixo.
— Hum?
Respirei fundo, sentindo a coragem dos dezoito anos queimar na minha garganta. Eu nunca fui boa em mascarar o que sentia perto dele. — Eu quero ficar com você. De verdade. Hoje à noite.
Ele permaneceu completamente imóvel por três segundos inteiros, as mãos congeladas no volante. Ele não respondeu imediatamente com palavras; em vez disso, desligou o motor da caminhonete com um clique seco, virou o corpo robusto inteiramente na minha direção e fixou aqueles olhos cor de mel esverdeados, que agora pareciam duas chamas na escuridão da cabine, nos meus azuis.
— Você tem certeza absoluta disso, Camille? Sem pressões?
Assenti com a cabeça devagar, sustentando a intensidade dele. — Tenho, Aidam. Tenha certeza.
Ele continuou me olhando por mais alguns instantes, como se o seu instinto protetor estivesse caçando qualquer sinal de hesitação ou medo no meu rosto. Não encontrou nada além de uma entrega convicta. Ele abriu um sorriso cheio de uma ternura indescritível e ligou o carro novamente.
— Então vem comigo.
Os pais de Aidam mantinham uma cobertura executiva no centro de Dallas, usada apenas para quando John precisava esticar as reuniões de negócios na cidade. Era um apartamento elegante, silencioso e imerso numa penumbra cinzenta. Os móveis eram poucos, de linhas minimalistas, e as paredes brancas ainda pareciam esperar pelas fotografias de família que nunca chegaram a ser penduradas.
Quando a porta pesada da entrada se fechou atrás de nós com um estalo seco, o resto do mundo pareceu ser sumariamente extinto do mapa. Nenhum de nós dois proferiu uma única palavra. Era curioso e fascinante como, após doze anos de uma amizade barulhenta, milhares de discussões por causa de cavalos e incontáveis memórias divididas na terra, o silêncio agora parecia falar tudo o que importava.
Aidam aproximou-se com passos lentos pelo piso de madeira escura. Ele estendeu a mão e segurou os meus dedos, entrelaçando as nossas palmas com aquela familiaridade quente de sempre.
— A gente ainda pode dar a volta, subir na caçamba e ir embora para a fazenda, Cami — ele sussurrou, a voz barítona vibrando no espaço vazio.
Sorri de lado, sentindo o meu coração bater feliz. — Eu sei que podemos.
— Nós ainda podemos simplesmente pedir uma pizza pelo telefone, ligar a TV, assistir a um filme qualquer e passar a madrugada conversando debaixo do cobertor — ele continuou, dando um passo a mais, eliminando o espaço.
O meu sorriso aumentou, os olhos colados nos dele. — Eu sei disso, Wright.
Ele ergueu a mão livre, os dedos grandes e calejados acariciando a lateral do meu rosto com uma delicadeza que fez minha espinha estremecer por completo. — Eu só quero... eu preciso que tudo o que acontecer entre nós a partir desse segundo seja uma escolha puramente nossa, Camille. Não uma expectativa da escola, não uma obrigação de namorados e nem o clichê do baile. Uma escolha nossa.
Assenti com a cabeça, sentindo os olhos azuis marejarem com a imensidão daquele cuidado que ele sempre tivera comigo. — E é exatamente por isso, Aidam... porque você me lê desse jeito... que eu escolhi você. Para sempre.
Aidam fechou os olhos por uma fração de segundo, engolindo em seco, como se aquelas palavras significassem mais para ele do que qualquer troféu ou campeonato que ele já tivesse vencido na vida. Quando ele abriu as pálpebras, aquele mesmo sorriso tímido, desarmado e terno do garoto que dividia comigo a sombra do velho carvalho surgiu no seu rosto.
Sem soltar a minha mão, ele me guiou lentamente pelo corredor silencioso até a porta do quarto principal. Eu o acompanhei, passo a passo. Não havia pressa de vestiário, não havia a ansiedade desajeitada que as meninas descreviam no manual do banheiro; havia apenas a expectativa serena e bonita de duas pessoas que passaram a vida inteira aprendendo a confiar os seus segredos mais escuros uma na outra.
Quando a porta do quarto se fechou suavemente atrás de nós, mergulhando o ambiente na penumbra cortada pelas luzes dos arranha-céus de Dallas pela janela de vidro, o ato da nossa primeira vez se desenhou de forma real, intensamente romântica, mas ainda experimental para dois jovens que estavam descobrindo um novo corpo no escuro.
Aidam deu um passo à frente, as mãos subindo devagar pelas minhas costas, os dedos tateando o fecho invisível do vestido verde-esmeralda com uma hesitação quase cômica que me fez soltar uma risada baixa contra o pescoço dele.
— Calma, quarterback — sussurrei, sentindo o calor do hálito dele na minha pele. — Não é um passe de futebol.
— Esse tecido é escorregadio demais, Davis. Estou tentando não rasgar a obra de arte da minha mãe — ele resmungou de volta, a voz rouca de desejo, mas cheia daquele nosso velho bom humor que quebrava qualquer gelo.
Quando o zíper finalmente cedeu, o vestido azul-esverdeado escorreu pelo meu corpo feito líquido, acumulando-se no chão. Fiquei apenas de lingerie preta sob o olhar dele. Os olhos de Aidam escureceram por completo, fixando-se nas minhas curvas com um assombro tão genuíno que o meu peito inflou de confiança. Minhas mãos, agora livres de qualquer amarra, subiram pelo peito dele, desfazendo os botões da camisa branca com pressa, afastando o tecido para sentir a musculatura rígida e quente do seu abdômen contra as minhas palmas.
Ele me guiou até a cama de casal, deitando-me sobre os lençóis de algodão egípcio com um cuidado extremo, como se eu fosse feita de porcelana fina. Quando o corpo pesado e musculoso dele se posicionou por cima do meu, o contraste do peso dele contra o meu me fez soltar um suspiro demorado. O toque das nossas peles era puro fogo.
O primeiro beijo ali na cama não teve nada de técnico; foi uma exploração lenta, molhada e profundamente experimental. Nossas bocas se moviam tentando decifrar o novo ritmo da intimidade, os dentes se esbarrando de leve numa transição desajeitada que nos fez sorrir um contra o outro no meio do carinho. Aidam desceu os lábios pelo meu pescoço, mordiscando a pele da minha clavícula com uma urgência contida que me fez arquear as costas, cravando minhas unhas nos ombros largos dele.
— Aidam... — o chamado saiu como um gemido baixo, rasgando o silêncio do quarto.
— Estou aqui, tampinha. Não vou a lugar nenhum — ele sussurrou contra a minha orelha, a respiração dele tão ofegante quanto a minha.
Quando o momento definitivo se aproximou, o nervosismo voltou a tencionar meus ombros por um milésimo de segundo. Aidam percebeu o recuo do meu corpo imediatamente; ele parou o movimento, apoiando o peso nos antebraços e segurando o meu rosto entre as mãos, forçando meus olhos azuis a trancarem nos dele.
— Camille... olha para mim — ele pediu, a voz grave e trêmula de autocontrole. — Se doer, se você quiser parar agora, eu juro por Deus que eu paro. Você está no comando.
Olhei bem no fundo daqueles olhos mel esverdeados, vendo toda a devoção e o respeito que ele guardara por mim durante doze anos condensados ali. Relaxei os ombros, abrindo um sorriso suave no meio da penumbra. — Eu não quero parar, Wright. Continua.
E quando nos tornamos um só, sob a luz difusa da cidade grande, não houve a perfeição coreografada dos filmes românticos ou o roteiro impecável dos livros. Foi real. Teve aquela ardência inicial que me fez prender o hálito e apertar os ombros dele com força, teve o ritmo descompassado de dois adolescentes descobrindo como encaixar os corpos pela primeira vez, e teve a intimidade crua de duas pessoas que se conheciam de dentro para fora. Aidam moveu-se com uma lentidão quase dolorosa de tanto cuidado, os olhos colados nos meus o tempo inteiro, capturando cada nuance da minha reação, até que a dor inicial evaporou por completo, sendo substituída por uma onda avassaladora de calor e uma eletricidade nova que fez o meu mundo inteiro rodar em um eixo inédito.
Nossos corpos se moviam na palha daquela cama como se estivéssemos apostando mais uma corrida no pasto da fazenda, mas dessa vez, não havia linha de chegada e nem vencedores. Havia apenas a entrega total. O cheiro de suor, do perfume amadeirado dele e o som das nossas respirações unidas preencheram o quarto até que o ápice nos atingiu juntos, um espasmo intenso que me fez morder o ombro dele para não gritar na madrugada de Dallas.
Minutos depois, quando o turbilhão assentou, eu estava deitada com a cabeça apoiada no peito largo de Aidam, ouvindo os batimentos cardíacos dele voltarem lentamente ao normal sob a minha orelha. Os braços fortes dele me envolviam com uma firmeza protetora, e os seus dedos longos faziam carinho nos meus cabelos castanhos desfeitos.
O nosso futuro, repleto de aprovações em Stanford, jalecos brancos e as distâncias geográficas do país, continuava nos esperando na manhã de segunda-feira. Mas ali, na quietude daquela cobertura, envolta no calor do garoto que tinha segurado a minha mão no riacho, eu soube que a nossa adolescência tinha sido oficialmente encerrada com a chave de ouro mais bonita do mundo. E que, não importava o tamanho dos desafios que a medicina colocasse no nosso caminho, o nosso começo tinha sido escrito do jeito certo. Um nos braços do outro.
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