Com Todo Amor - O começo

11 A Conversa Que Ninguém Quer Ter


Se existia alguma coisa no universo adolescente pior do que ser escoltada até a diretoria no meio do período letivo, com certeza era ser convocada para uma cúpula de emergência entre pais na varanda. Principalmente quando a pauta da reunião era um beijo. E que beijo.

Aidam e eu estávamos sentados lado a lado nas cadeiras de vime da varanda dos Wright. Nenhum de nós dois ousava respirar muito forte, muito menos abrir a boca. O silêncio ali era tão espesso que dava para cortar com uma faca de churrasco. John Wright permanecia de pé, com os braços cruzados sobre o peito imponente, parecendo um juiz prestes a decretar uma sentença de prisão perpétua. Amália observava a cena encostada no parapeito, segurando uma caneca de café com uma serenidade que me dava arrepios. E o meu pai, Otto, parecia subitamente fascinado pelas ranhuras da madeira do piso, recusando-se terminantemente a fazer contato visual comigo. Eu o entendia. Se eu pudesse me fundir com o estofado da cadeira e desaparecer na terra do Texas, faria isso em um piscar de olhos.

John limpou a garganta, o som ecoando como um trovão.

— Então... — Ele descruzou os braços, apoiando as mãos nos quadris. — Alguém na porção jovem dessa mesa pretende começar a abrir o jogo, ou vou ter que começar a deduzir as coisas sozinho?

Olhei de soslaio para Aidam. Ele me encarou de volta pelo canto do olho, o maxilar travado sob a aba do boné. Juntos, no mais perfeito e desesperado sincronismo de colégio, disparamos:

— Foi só uma brincadeira.

John soltou o ar pelo nariz, arqueando uma sobrancelha para o filho.

— Uma brincadeira, Aidam? No meio de uma festa com metade do condado assistindo?

Aidam assentiu, tentando adotar sua melhor voz de jogador de futebol focado.

— Verdade ou desafio, pai. A garrafa girou. Regras da casa.

Meu pai finalmente levantou a cabeça, cravando seus olhos castanhos e severos em mim.

— E desde quando as regras da casa de um adolescente de dezesseis anos ditam o comportamento de vocês, Camille? Vocês decidiram cumprir o desafio só por educação?

Balancei a cabeça tão rápido que quase ganhei um torcicolo.

— Nós dois concordamos, pai! Ninguém obrigou ninguém. Foi mútuo. Juro.

John deu um passo à frente, mudando o foco do interrogatório diretamente para o herdeiro.

— Aidam.

Ele endireitou a postura na cadeira na mesma hora, os ombros ficando rígidos sob a jaqueta.

— Sim, senhor?

— Preciso fazer uma pergunta direta, e quero uma resposta de homem — John disse, a voz descendo para aquele tom calmo e perigoso de quem comanda um império de petróleo. — Você desrespeitou a Camille? Ultrapassou algum limite ou se aproveitou da situação de alguma forma?

Senti o sangue subir para o meu rosto com tanta violência que jurei que minhas bochechas iam entrar em combustão espontânea.

— Meu Deus do céu... — Enterrei o rosto nas mãos, sentindo o topo das minhas orelhas queimarem. — Isso é oficialmente o momento mais constrangedor de toda a minha existência. Quero morrer.

Pelo vão dos meus dedos, vi Amália morder o lábio inferior para segurar o riso, enquanto meu pai pigarreava discretamente, ajustando o cinto, claramente tão desconfortável com a palavra "limites" quanto eu.

Aidam nem piscou. Ele sustentou o olhar do pai com uma firmeza absoluta.

— Não, senhor. De jeito nenhum. Eu nunca faria isso com ela.

John estreitou os olhos cor de mel, os mesmos que o filho herdara.

— Tem certeza absoluta, garoto?

— Absoluta.

Abaixei as mãos, tomando as rédeas da minha própria dignidade antes que eles começassem a debater a nossa biologia ali mesmo.

— Padrinho... foi só um beijo. Um beijo de festa. E aconteceu porque eu quis também, está bem? Ninguém me pressionou, ninguém me encurralou contra a parede. Muito menos o Aidam. Ele... bem... — Suspirei, soltando a frase antes de processar o efeito dela. — Na verdade, ele acabou me fazendo um favor.

Os quatro adultos congelaram na mesma posição, me encarando como se eu tivesse confessado um crime federal. Aidam arregalou os olhos na minha direção, chocado.

Percebi o duplo sentido da frase e balancei as mãos no ar, desesperada.

— Não desse jeito! Cruzes! Pelo amor de Deus, tirem as mentes do bueiro, vocês entenderam tudo errado!

Amália finalmente soltou a caneca na mesa e explodiu em uma risada alta e contagiante, batendo palmas. Até John não conseguiu segurar, deixando um sorriso largo quebrar a pose de patriarca severo.

Cruzei os braços, bufando, tentando recuperar o pouco de autoridade que me restava.

— Eu só quis dizer que eu era praticamente a única criatura do segundo ano da Trinity que nunca tinha encostado os lábios em ninguém. O meu histórico era um zero absoluto. Então... — Olhei para Aidam, sentindo uma pontada sutil de calor no peito. — Ele foi muito corajoso em aceitar passar por aquela humilhação pública comigo para eu não pagar prenda.

Aidam coçou a nuca, um sorriso de canto finalmente surgindo no rosto dele, as orelhas ainda vermelhas.

— É... eu também estava tremendo por dentro, para ser bem sincero.

— Eu percebi, Wright. Você parecia um robô — provoquei, chutando de leve o pé dele sob a mesa.

John soltou uma risada baixa, balançando a cabeça.

— Imagino a cena.

O clima na varanda descontraiu, o peso do julgamento evaporando no ar fresco. Mesmo assim, John voltou a cruzar os braços, adotando um tom mais maduro.

— Independentemente do contexto da garrafa, vocês dois estão crescendo. O ensino médio avança rápido, e acho que está na hora de termos algumas conversas mais sérias sobre o futuro e responsabilidades.

Meu pai mudou de posição na cadeira no mesmo milésimo de segundo, o rosto assumindo uma expressão de puro pânico masculino. Era a primeira vez em toda a tarde que o caubói durão parecia genuinamente aterrorizado. Amália, claro, pescou a reação dele no ar com a precisão de um falcão.

Ela pegou a caneca de café, levantando-se com aquela elegância fluida.

— Otto... — Meu pai levantou os olhos, quase implorando por socorro. — Acho que eu posso assumir a mentoria da Camille por aqui na cozinha. E você fica responsável por dar o sermão dos rapazes para o Aidam quando chegar a hora certa. O que acha?

Meu pai soltou o ar pelos lábios num sopro audível, o corpo relaxando visivelmente de alívio.

— Eu agradeceria imensamente, Lia. De verdade.

Levantei-me da cadeira num salto, acompanhando a minha madrinha para o interior da mansão. Assim que a porta de madeira pesada se fechou atrás de nós, isolando o som da varanda, Amália girou nos calcanhares e me encarou com o maior e mais divertido sorriso do Texas.

— O que foi? — perguntei, cruzando os braços, na defensiva.

Ela se encostou na bancada de mármore da ilha central, cruzando os tornozelos. — Posso te confessar um segredo de madrinha, Cami?

— Dependendo do tamanho da fofoca... manda.

Amália riu baixo, os olhos brilhando com uma sabedoria de mãe.

— No fundo do meu coração... eu sempre soube que você e o Aidam acabariam se beijando mais cedo ou mais tarde. A química de vocês dois sempre foi barulhenta demais para passar batida.

Revirei os olhos, sentindo meu estômago dar uma pirueta esquisita. — Madrinha, por favor! Nós não estamos namorando, não tem química nenhuma. Foi só um desafio idiota de festa. Só isso.

Ela continuou com aquele sorriso enigmático, pegando uma jarra de água.

— Claro, querida. Se você está dizendo.

— É sério!

— Eu acredito em você — ela piscou. Mas, pela expressão dela, era óbvio que Amália não acreditava em uma única vogal da minha negação.

Sentei-me em uma das banquetas altas da ilha, apoiando os queixo nas mãos. Amália puxou a cadeira ao meu lado, e a expressão dela suavizou, tornando-se calorosa e acolhedora. A brincadeira deu lugar à seriedade.

— Agora, falando de mulher para mulher, Cami — ela segurou a minha mão sobre o mármore, os dedos apertando os meus com carinho. — Aquele beijo no centro da roda... foi uma escolha genuinamente sua?

— Foi — respondi, sem hesitar, fixando meus olhos azuis nos dela. — Totalmente minha.

— Você se sentiu pressionada, coagida ou desconfortável com a aproximação dele em algum momento?

Pensei na intensidade dos olhos de Aidam, no calor das mãos dele no meu rosto e no jeito como meu corpo respondeu ao toque. — Não. Nem um pouco.

— Teve vontade de dizer "não" e acabou dizendo "sim" só para agradar os outros ou o próprio Aidam?

— Não, madrinha. Eu... eu queria estar ali — confessei, a voz saindo num sussurro sincero que fez minhas bochechas esquentarem de novo.

Amália abriu um sorriso satisfeito, batendo de leve na minha mão. — Então o nome disso é consentimento. E é exatamente assim que qualquer demonstração de afeto deve acontecer na sua vida daqui para frente, Camille. Porque as duas pessoas quiseram, porque ambas se sentiram seguras e confortáveis, e porque qualquer uma delas tinha o direito absoluto de mudar de ideia e dar um passo atrás a qualquer segundo.

Escutei cada palavra com atenção, guardando o conselho no fundo da mente.

— E lembre-se — ela continuou, o tom de voz ganhando um peso mais maduro. — O consentimento não vale só para um beijo em uma festa de veteranos. Vale para cada passo, cada avanço e cada linha que você decidir cruzar em um relacionamento no futuro. Ninguém tem o direito de insistir quando você disser não. Ninguém deve tentar te convencer, te pressionar ou fazer você se sentir culpada por proteger o seu próprio corpo. O cara certo sempre vai tratar o seu tempo como algo sagrado.

Sorri de leve, relaxando os ombros.

— Isso a escola também tenta ensinar nas aulas de educação sexual do currículo júnior, sabia? Mas ouvir de você faz parecer menos... técnico.

Amália assentiu, rindo.

— Fico feliz que a Trinity esteja fazendo o trabalho dela.

Olhei para as minhas próprias unhas, pensativa.

— E, honestamente... eu acabei de dar o meu primeiro beijo real. Não estou com a menor pressa de avançar nenhuma linha ou acelerar o roteiro. Tenho muita coisa para viver, estudar e descobrir antes de me preocupar com dramas de namoro.

— Eu imaginei que sim — Amália sorriu com carinho, orgulhosa.

O silêncio que se instalou na cozinha foi confortável, recheado pelo aroma de baunilha que sempre dominava a casa dos Wright. Depois de alguns instantes, ela mudou de assunto com aquela facilidade de quem gerencia uma empresa.

— E sobre o próximo semestre? Já decidiu quais atividades extracurriculares vai trancar no seu currículo para engordar o histórico da faculdade?

Apoiei os cotovelos na bancada, os olhos brilhando com o planejamento que vinha fazendo nas férias.

— Estou montando uma estratégia. Acho que vou entrar para a equipe oficial de corrida da Trinity. Eu passo o dia correndo atrás de cavalo na fazenda, então competir na pista deve ser divertido. E também quero me inscrever no grupo de teatro e no intensivo de redação avançada de ficção.

Amália arqueou uma sobrancelha, impressionada.

— Uau. Bastante coisa para conciliar com os treinos e as notas, não acha?

Exibi um sorriso determinado, o mesmo orgulho teimoso que herdei do meu pai. — Eu quero tentar uma vaga em Stanford, madrinha.

A palavra ficou suspensa entre nós por alguns segundos, pesada e ambiciosa.

— Medicina — completei, sentindo um frio na barriga só de pronunciar o meu maior objetivo. — Eu sei que a concorrência na Costa Oeste é um absurdo absoluto, que eles trituram os candidatos. Mas... se eu quiser ter uma chance real de pisar lá dentro, preciso começar a construir a minha base agora.

Amália apertou a minha mão com força, os olhos brilhando de orgulho.

— Você nunca teve medo de sonhar grande, não é, Camille? Isso é magnífico.

— Foi você quem me ensinou que sonhar pequeno dá o exato mesmo trabalho que sonhar alto — pisquei para ela.

Ela soltou uma gargalhada gostosa.

— Acho que eu realmente disse essa frase em algum almoço de domingo.

Olhei pela janela grande de vidro da cozinha que dava para o pátio. Lá fora, sob a luz clara da tarde, Aidam e John continuavam gesticulando na varanda, provavelmente debatendo estratégias do time de futebol, enquanto o meu pai observava os dois em silêncio, com um meio sorriso calmo nos lábios.

Sem perceber, sorri também. Naquele momento, a minha maior e mais complexa preocupação era montar um currículo forte o suficiente para impressionar os avaliadores de Stanford. Eu ainda era uma garota de dezesseis anos ingênua, que não fazia a menor ideia de que alguns sonhos do coração seriam infinitamente mais difíceis de alcançar e gerenciar do que qualquer faculdade de elite do mundo.

Naquela noite, o meu quarto parecia silencioso até demais. A luz fraca do abajur de cabeceira projetava sombras suaves e alongadas no teto de madeira, enquanto eu continuava deitada de costas, encarando as pás do ventilador de teto girando em um ritmo lento e hipnótico.

Normalmente, após um dia inteiro de correria na fazenda e estresse emocional, eu simplesmente apagaria no colchão em questão de minutos. Mas não naquela noite. Minha cabeça parecia uma estação de rádio sintonizada na frequência do caos, insistindo em reprisar cada detalhe milimétrico das últimas vinte e quatro horas em um looping torturante.

A sensação dos lábios de Aidam contra os meus. O soco no estádio meses atrás. O constrangimento público diante dos nossos pais na varanda. A conversa madura com Amália na cozinha. As minhas ambições sobre Stanford...

Eu tentava, com todas as minhas forças intelectuais, organizar os pensamentos em gavetas lógicas. Não funcionava. Toda vez que eu acreditava ter encontrado uma linha de raciocínio racional e segura, a minha memória sabotadora fazia questão de me arrastar de volta para o mesmo ponto focal. Para o cheiro amadeirado de Aidam e a textura da camiseta branca dele entre os meus dedos.

Virei-me de lado na cama com um suspiro frustrado, afundando o rosto no travesseiro. — Para com isso, Camille... desliga essa engrenagem — murmurei para o quarto vazio, como se fosse possível dar uma ordem de cessar-fogo para o próprio cérebro.

Uma batidinha discreta e ritmada na madeira interrompeu o meu monólogo interno. Nem tive tempo de responder ou dar permissão; a porta se abriu uma fresta e a cabeça cheia de cachos castanhos de Florence apareceu no vão.

— Posso entrar, Cam? — ela perguntou, a voz mansa de quem sabe que está invadindo território alheio.

Sorri contra a fronha, virando o rosto. — Você já está com metade do corpo para dentro do quarto, Flor. Entra de uma vez.

Ela deu aquele sorriso sapeca e vitorioso que só as irmãs caçulas conseguem projetar e caminhou até a beirada da minha cama, arrastando um urso de pelúcia encardido e abraçando um travesseiro que era quase do tamanho do torso dela. Florence sentou-se de pernas cruzadas ao meu lado, fixando os olhos castanhos em mim com uma intensidade analítica.

Conhecendo o histórico de fofocas daquela garotinha de dez anos, aquele silêncio observador era o equivalente a uma contagem regressiva para uma bomba de efeito moral.

— O que foi, Florence? Despacha logo o que está passando nessa cabeça — intimei, estreitando os olhos azuis.

Ela inclinou a cabeça para o lado, esmagando o travesseiro contra o peito. — Então... eu tenho uma dúvida de utilidade pública.

— Lá vem...

— Você e o Aidam estão namorando oficialmente agora? Tipo, ele vai ter que pedir permissão para o papai para te levar ao cinema de Dallas? — ela disparou, sem qualquer anestesia.

Fiz uma careta de puro choque, sentindo o estômago dar um nó. — Claro que não, Florence! Ficou maluca? De onde tirou isso?

— Tem certeza?

— Absoluta! Cem por cento de certeza.

— Mas vocês se beijaram na varanda ontem à noite. E foi um beijo bem longo, eu contei os segundos na mente — ela argumentou, com aquela lógica infantil imbatível que me dava vontade de chorar de vergonha.

Escondi o meu rosto sob o travesseiro novamente, a voz saindo abafada. — Florence, você podia fazer um favor de irmã e fingir que aquela cena na varanda foi uma alucinação coletiva que nunca aconteceu? Eu agradeceria.

Ela soltou uma gargalhada gostosa, balançando as perninhas na beirada do colchão. — Não posso, Cami. É impossível.

Levantei os olhos, encarando-a com drama. — E por que raios seria impossível?

— Porque foi o único assunto da casa inteira hoje! O papai passou o dia limpando as botas com uma cara de quem ia caçar um coiote, e a madrinha Amália ligou duas vezes rindo alto no telefone. Todo mundo já sabe.

Gemi de pura vergonha, puxando o cobertor pesado até cobrir o nariz, desejando que a terra me engolisse. — Ótimo. Minha vida virou um reality show da fazenda. Maravilhoso.

— Então vocês não são namorados? — ela insistiu, cutucando o meu braço por cima da coberta.

— Não, Flor.

— Nem quase namorados?

— Não.

— Nem só um pouquinho assim, escondido?

— Florence Davis, juro que se você fizer mais uma pergunta sobre isso, eu confisco os seus cavalos de plástico por um mês! — ameacei, embora a minha voz estivesse embargada pelo riso.

Ela começou a gargalhar, jogando as mãos para o alto em sinal de rendição. — Tá bom, tá bom! Parei com o Aidam.

Achei, na minha mais profunda inocência de irmã mais velha, que o interrogatório jornalístico da caçula tinha chegado ao fim. Achei redondamente errado.

— E o Luke? — ela soltou, o tom de voz mudando para uma curiosidade mais mansa. — Aquele garoto bonito da caminhonete que te deu o casaco?

Respirei fundo, o ar saindo pesado pelos lábios enquanto eu encarava o teto novamente. A lembrança da discussão no cascalho da festa voltou a me dar um aperto incômodo no peito.

— Nós terminamos, Flor. Ou melhor... resolvemos que não dava mais para continuar tentando.

Florence franziu a testa, os olhinhos castanhos demonstrando uma decepção genuína. — Vocês brigaram muito feio? Teve grito?

Abanei a cabeça negativamente. — Não, nada disso. O Luke é um bom garoto. Nós só... percebemos que fazia muito mais sentido cada um seguir o próprio caminho na escola. Nós funcionávamos melhor como conhecidos.

Ela fez um biquinho pensativo, abraçando o urso de pelúcia com mais força. — Que pena. Ele parecia saído de um filme de TV.

Ficamos alguns segundos em um silêncio confortável, quebrado apenas pelo som sutil do vento batendo nas árvores do lado de fora. Então, Florence sorriu, com aquele olhar sonhador e puro que é típico dos dez anos de idade, quando o mundo ainda parece um lugar protegido de qualquer maldade.

— Sabe, Cam... quando chegar a minha vez de dar o meu primeiro beijo, daqui a muitos e muitos anos... — Olhei para ela de soslaio, prestando atenção. — Eu espero que seja exatamente do jeito que foi o seu.

Pisquei os olhos azuis, surpresa. — Do jeito que foi o meu? No meio de uma confusão?

— Não — ela balançou a cabeça, os cachos castanhos balançando. — Eu quero que seja com alguém que eu conheça desde pequenininha. Alguém em quem eu confie de olhos fechados, que saiba quando eu estou triste e que seja o meu melhor amigo no mundo inteiro. Acho que assim dá menos medo de dar errado.

Um sorriso involuntário e incrivelmente terno brotou nos meus lábios. Estiquei o braço por cima do lençol e passei a mão pelos cabelos macios dela, bagunçando os cachos com carinho. As palavras da caçula tinham tocado exatamente no ponto que eu vinha tentando disfarçar com a minha lógica intelectual o dia todo.

— Ainda falta muito tempo para você começar a desperdiçar neurônios pensando nessas bobagens, mocinha — comentei, a voz mansa. — Trate de focar em terminar o dever de Matemática.

Florence revirou os olhos com uma perfeição dramática. — Você falando desse jeito parece um clone do papai. Credo.

— É um elogio ser parecida com o Otto Davis, pirralha.

— Não é não, ele é sistemático demais — ela rebateu, me fazendo rir alto.

Florence bocejou logo em seguida, a energia infantil finalmente esgotando após o dia cheio. Ela inclinou o corpinho para o lado e encostou a cabeça no meu ombro, os olhos pesando. — Boa noite, Cam.

Inclinei o rosto e deixei um beijo terno na testa dela. — Boa noite, Flo. Trata de ir para a sua cama antes que o papai pegue você acordada.

Esperei até que ela se levantasse, arrastando os chinelos pelo corredor até o quarto vizinho, antes de esticar o braço e apagar o abajur de cabeceira. O quarto foi mergulhado em uma escuridão acolhedora.

Fechei os olhos azuis, puxando o cobertor até os ombros. No dia seguinte, a segunda-feira chegaria trazendo uma avalanche de aulas de Geometria, treinos na pista de corrida e uma pilha de deveres de Biologia esperando por mim na Trinity. E, sinceramente? Era exatamente de uma rotina esmagadora e cheia de prazos que eu precisava naquele momento. Porque eu estava começando a descobrir, da forma mais intensa possível, que, às vezes, a única maneira eficaz de impedir que o coração faça alguma besteira avassaladora é mantendo a mente ocupada demais para sentir.