Com Outros Olhos
1 One Shot
Notas iniciais
Um dia normal na escola.
Eu estava me sentindo frustada por ter errado besteiras no teste de Transfiguração, minhas amigas estiveram o almoço inteiro tentando me animar.
—Lilly! Pelo calção de Merlin! Você tirou um Aceitável! Não é como se você tivesse tirado uma nota baixa!- disse Dorcas, uma menina baixinha e tímida de cabelos encaracolados castanhos. E você pode ter dois metros de altura, e ser todo musculoso, mas quando ela brilhava seus olhos azuis com raiva pra você, a sua vontade era sair correndo. E era exatamente esse olhar que ela estava lançando pra mim agora, um sinal que ela já tinha se cansado do que ela chamava de "fressuras de nerd da Lilly".
—A questão, Dorcas, não é se eu tirei uma nota ruim ou boa, é que eu errei coisas bobas que eu sabia.- os olhos dela faiscara por um momento com o que eu disse, mas, hei! Eu sou uma ruiva! Não vou voltar atrás no que eu disse, nos também sabemos ser esquentadinhas. E principalmente, sabemos ser insistentes.- Estamos no sétimo ano! Se eu errar coisas assim no Niem's eu não vou conseguir nota o suficiente pra ser medibruxa!
—Ok,- disse Marlene, uma loira de olhos cinzas que era o sonho de consumo da maioria dos garotos, parando nossa discussão enquanto olhava cautelosamente na direção do brilho assassino no olhar de Dorcas.- Lilly, sabemos que você quer ser medibruxa, e que é preciso ter notas muito boas pra passar...-
—Exatamente!- a interrompi rapidamente para reforçar meu argumento- Então você entende que eu tenho razão em..
—Não Lilly! Deixa eu terminar.- ela me olhou séria e esperou para ter certeza que eu não a interromperia novamente. Bufei, revirei os olhos e à olhei esperando que continuasse.- Essa foi a sua primeira nota no ano que não foi Ótimo. Foi um errinho bobo, como você já disse varias vezes, e você não vai deixar isso acontecer novamente, eu tenho certeza.-ela parou pra respirar. E olhou para mim, quase que suplicante- Mas você não percebe que suas chances de passar são muito maiores que as nossas?-Abri a boca pra contestar, mas ela levantou a mão e fechou os olhos.- Sabemos que está chateada, mas eu estou com media Aceitável em Poções, sendo que preciso de, no mínimo, Excede Expectativas pra ser Auror e não estou me lamuriando por aí.
Abri a boca, mas as palavras me fugiram. Ela estava falando a verdade. Dorcas estava muito abaixo do que ela tinha que tirar em Feitiços, e esse meu lenga-lenga deveria estar a irritando de verdade a essa altura. Então eu suspirei, e olhei para o meu prato pela metade quando disse:
—Sinto muito, não tinha visto por esse lado. Eu vou.... vou até o salão comunal fazer o dever de Runas.
E saí ignorando o chamado de Marlene.
Quando cheguei ao salão comunal, me joguei em uma poltrona afastada e coloquei o dever de Runas encima da mesa, mas sem colocar a mão nele. Somente fiquei olhando pela janela. Me sentindo mal por ter sido tão insensível com uma situação tão besta.
Como estava em um poltrona virada pro canto, não achei que ninguém pudesse me reconhecer para puxar papo, mas eu obviamente, me esqueci que o Potter sempre me achava quando eu não queria ser encontrada.
—Hey, Lilly! Fazendo o dever a uma hora dessas? Ele foi passado quando? Antes do almoço?- e ele deu uma risada gostosa, a qual foi impossível não deixar um sorriso escapar.
—Ah, James eu não estou muito disposta a te aturar agora não. Eu meio que discuti com as meninas agora a pouco, e vim aqui ficar quieta.- disse olhando rapidamente para seus olhos castanho-esverdeados emoldurado por óculos de armação quadrada e por uma cabeleira rebelde que ele tinha o costume de bagunçar mais.
Bem, eu e o James éramos meio que amigos. Ele parou de ser uma babaca arrogante e depois de um tempo me pediu desculpas por ser tão irritante e disse que queria ser meu amigo, então eu dei uma chance dele ser meu amigo. E ele era um ótimo amigo. Sempre me fazia rir com suas gracinhas, até as que eram fora de hora, mesmo que eu ralhasse com ele depois e batesse em seu ombro, enquanto ouvia sua risada harmoniosa.
—O que a Dorcas fez dessa vez?- disse ele revirando os olhos, porque quem normalmente era a causa das discussões era eu e ela.
—Ela não fez nada. Quem fez fui eu.- suspirei e olhei pra ele que me olhava um pouco surpreso- Eu meio que fui um pouco insensível e irritante com um assunto besta.
Expliquei que tirei uma nota abaixo do meu padrão em Tranfigurações, e que fiquei falando até as meninas se cansarem e nós discutirmos.
Abaixei o olhar para meus pergaminhos, e depois de um tempo senti o braço de James no meu ombro me puxando pra um abraço meio torto enquanto eu apoiava a cabeça no peito dele e enxugava sem querer as lagrimas que eu nem percebi que estavam caindo.
—Hey, Lírio! Não se preocupe.- ele disse enquanto afagava meus cabelos, sorri com o apelido, antes eu odiava tanto- Vocês sempre brigam, e sempre voltam a se falar como se fossem mais amigas do que nunca. E você já fez bastante por elas, e elas sabem disso. Quantas vezes você não ajudou elas, ou as fez se sentirem melhor quando estavam mal? Não se preocupe, ok? E se você quiser eu te ajudo em Transfigurações, ok?- ele deu um beijo no topo da minha cabeça- Se você ficar chorando por esses seus lindos olhos verdes eles vão apagar o seu cabelo.- ele fez essa piada péssima me fazendo revirar os olhos e rir da cara dele.
E ele passou o resto dos períodos livres que tínhamos me fazendo rir. Como ele era minha dupla na aula de Poções, fomos juntos para a sala. Eu e as meninas nos encontramos e demos uns sorrisinhos tímidos umas para as outras e conversamos como se nada tivesse acontecido, enquanto riamos muito das palhaçadas de James.
O professor chegou então nós entramos, nos sentamos, e ouvimos as instruções de como fazer a poção de hoje. Ela era particularmente difícil, então eu me esforcei mais que normalmente, mesmo que tivesse certa aptidão para poções. Tentei ajudar um pouco James, mas ele tinha feito algo muito estranho naquela poção, pois nada do que eu fiz deu resultado pra melhora-lá. E o professor não podia perceber então não deu muito certo.
No final da aula a poção deveria estar azul celeste, e com muito suor e esforço, a minha era uma das únicas que estava nesse tom de azul. A de James estava quase verde, e a dele era uma das poucas que não estava vermelha.
Eu estava radiante. Amava poções e o professor Slughorn me adorava, pois eu sempre conseguia uma poção consideravelmente boa. E quando ele passou e me disse um pouco surpreso que a muito tempo não via uma poção tão límpida e bem feita como a minha, eu dei um sorriso radiante que mal cabia no meu rosto e olhei para James. E mesmo que a dele não tivesse recebido mais que um aceno de cabeça de Slughorn, ele estava com rugas nos olhos tamanho seu sorriso. Um dos sorrisos mais lindos que já o vi dar.
Fomos jantar juntos conversando também com os outros Marotos e minhas amigas. Jantamos entre risadas, quando nos levantamos, James fez uma gracinha se fazendo de cavalheiro curvando-se, estendendo a mão e me chamando de Mademoiselle. Ri e entrei na brincadeira, fiz uma reverencia, agradeci ao nobre senhor, enquanto lhe estendia a mão e saía do salão contendo o riso, com a cabeça erguida e de braços dados com James. Que depois de um tempo riu, quebrando a pose de nobre aristocrático dele, e passou o braço por meus ombros novamente enquanto caminhávamos de volta para o salão comunal. Chegando lá ainda enrolamos um bucado para dormir. Rimos, conversamos, zoamos com o Siriús que ficou com uma carranca por causa de uma menina que o ignorou. E só fomos subir para o quarto depois de muita insistência minha, que só percebi o quão tarde estava quando olhei ao redor e vi o salão quase vazio. Nos despedimos e abraçamos todos os meninos antes de entrar, olhei ao redor de onde estávamos para ter certeza que tínhamos pegado tudo. Abracei James por último, subi as escadas de braços dados com as meninas e ainda sentindo o cheiro dele. Ele era muito cheiroso.
Quando deitei na cama, fui pensar no meu dia, e foi difícil não resumi-lo em uma só palavra: James.
Ele me ajudou, me alegrou, compartilhou minha felicidade comigo, e estava lá me fazendo rir.
Por alguma razão, eu gosto da presença dele. Antes não faria diferença, é claro a não ser se me désse raiva, mas agora... Eu acho que preciso ver o sorriso dele todos os dias pra me sentir bem. Se eu por algum motivo não o ver nenhuma vez no dia, parece quase errado. Parece que falta alguma coisa.
Acho que é aquele sorriso. Sabe aquele sorriso que te faz querer sorrir junto? Aquele sorriso que tem um pouco de alegria, uma dose de doçura, e uma pitada de satisfação? Ele tem esse tipo de sorriso.
Não o sorriso irônico, não o sorriso falso, não aquele sorriso maroto que todas as meninas amam (eu também diga-se de passagem). Mas um sorriso verdadeiro, um tipo de sorriso tão brilhante, tão lindo que mesmo que eu não consiga ficar sem ele, toda vez que ele dirige aquele sorriso pra mim eu fico sem graça. E mesmo que eu nunca me sinta envergonhada, aquele sorriso aquece meu coração e eu sorrio junto. E de alguma forma, acho que precisar tanto daquele sorriso, é um tanto intimo. Porque é um sorriso, tão verdadeiro que parece que cada vez que ele me dá um daqueles, eu consigo ver um pedaço da alma dele. De quem ele realmente é. Então eu viro a cara.
Mesmo que me esforce tanto pra ver aquele sorriso, eu não consigo olhar tanto tempo pra ele. Ele parece intimo demais, então eu abaixo o rosto. Pra ele não ver que eu fiquei um pouco corada somente por causa daquele sorriso.
Foi nessa hora que me veio o estalo.
Eu sai da comunal com o sentimento de ter esquecido alguma coisa, e por mais que eu tivesse revirado todo o lugar onde estava, não consegui achar nada. Por isso achei que era coisa da minha cabeça. Somente quando me deitei foi que eu percebi, que o que eu tinha esquecido não dava para pegar de volta, porque agora já era. E eu estava ferrada.
Eu tinha deixado com ele, com James.
Eu deixei um pedaço do meu coração.
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