Notas iniciais
Então, cada capítulo vai ser narrado por um dos grupos. Esse capítulo é pelos gregos, o próximo pelos romanos e assim por diante.
Espero que gostem!

POV. Caroline Stair

Fiquei encarando a idiota. Oh, talvez eu deva ser mais específica: Eu estava encarando Carollyn rir e fazer carinho em seu cachorro. Não pense que é um cachorro como um poodle ou um labrador. É um cão infernal.

– Não acredito que você tem um cão infernal – falei descrente – Sabe como isso é perigoso?

Ela revirou os olhos.

– Cães infernais não são perigosos! São fofinhos e...

– E arrancam cabeças – completei erguendo uma sobrancelha.

– Por isso eu os amo! – Carol fez carinho na barriga de Totó, um cão infernal bebê com dois meses.

Talvez eu deva nos apresentar. Sou Caroline Stair, filha de Apolo. Carollyn Black é filha de Hécate (talvez isso explique o porquê do cão infernal). Temos dezesseis anos. Nós passamos o verão no Acampamento Meio Sangue e agora estamos indo para o nosso ótimo ano letivo em Manhattan. Nós somos vizinhas, moramos uma ao lado da outra. É uma sorte que não tenha aparecido até o Tártaro para tentar nos matar.

A buzina tocou do lado de fora. Carollyn deu um beijo no focinho de Totó, pegou sua mochila e me empurrou para a entrada da casa.

– TCHAU, PAI! TCHAU, MAGGIE! – gritou ela para o pai e a madrasta.

– Tchau, filha! – gritou Sr. Black de dentro da casa.

Corremos até o carro prateado parado na frente da casa de Carollyn. Katie buzinou impaciente.

– Se nós nos atrasarmos para o primeiro dia de aula, cabeças rolarão! – exclamou.

– Calma, flor – Carollyn abriu a porta traseira do carro e escorregou para dentro. Entrei e fechei a porta – Suas semideusas favoritas chegaram, já pode ir.

Katie bufou e deu partida no carro. Katelyn “Katie” Grace é minha meio-irmã filha de Apolo e Caçadora de Ártemis. Você deve estar se perguntando por que Hades uma Caçadora iria para uma escola mortal, mas acontece que a digníssima deusa da caça enviou Katie para aprimorar seus conhecimentos mortais para depois aprofundar-se nas artes divinas.

Ou seja, “Vai estudar e não enche o saco, garota”.

No banco do passageiro estava Natalie Mackehell, nossa amiga filha de Atena. Ela lia algum livro e nos dirigiu um aceno de cabeça distraído. Não posso culpá-la, ela estava lendo A Guerra dos Tronos. Mal sabe o que vem a seguir, coitada.

Coloquei os fones de ouvido, encostei-me ao banco e fiquei ouvindo as minhas músicas. Só para esclarecer: Esse não é um celular comum, é o IHephaestus, o celular oficial do Olimpo. Hefesto precisa sustentar Afrodite de algum jeito. Fui despertada do meu mundo musical com Carollyn gritando como um gato com dor de barriga.

– O que foi?! – perguntou Katie quase batendo o carro num poste de luz.

– OLHA AQUELA LIVRARIA! – gritou Carol – TEM A COLEÇÃO ESPECIAL DE HARRY POTTER!

– Você é filha de Hécate! – exclamei – Você é praticamente o Harry Potter!

– Infelizmente, sim – ela suspirou dramática – Eu sou a Menina que Sobreviveu ao Recalque.

Natalie virou em nossa direção e recitou numa voz sibilante:

– Aquele com o poder de vencer o Lorde das Trevas se aproxima… Nascido dos que o desafiaram três vezes, nascido ao terminar o sétimo mês… e o Lorde das Trevas o marcará como seu igual, mas ele terá um poder que o Lorde das Trevas desconhece… e um dos dois deverá morrer na mão do outro pois nenhum poderá viver enquanto o outro sobreviver… aquele com o poder de vencer o Lorde das Trevas nascerá quando o sétimo mês terminar…

Katie bateu a mão na testa.

– Estou num carro com idiotas – ela resmungou.

– Acostume-se – recoloquei os fones de ouvido e fiquei olhando pela janela, deixando Katie cuidar de uma Carollyn histérica e uma Natalie-Oráculo.

Chegamos à escola alguns minutos depois. Katie estacionou e descemos. Despedi-me das loucas e fui para o meu armário. O corredor não estava muito jeito e ao lado do meu armário havia uma garota. Era pálida como Carollyn, com olhos verdes e cabelo ruivo escuro. Hrum, estou só de olho nesse tom falso de ruivo. Não é divinamente laranja como o meu.

Foi aí que eu percebi.

– Com licença – falei – Você jogou purpurina no meu armário?!

– Oh, foi sem querer – a garota disse – Minha primeira aula hoje é Artes e quando eu fui abrir meu pacote de purpurina, voou para todo o lado.

– Será que você poderia pelo menos limpar? – perguntei sarcástica.

– Estou ocupada, desculpa, irei limpar mais tarde — ela colocou sua mochila nas costas.

– Limpe agora! – mandei.

Ela me olhou com uma sobrancelha erguida e riu.

– Iludida – falou – Seu armário ficou ótimo com purpurina.

– E a sua cara vai ficar ótima com roxo!

– Roxo é a minha cor – ela admitiu com um sorriso sarcástico no rosto.

– ESCUTA AQUI, QUERIDINHA! – estalei os dedos na cara dela – ESSE ARMÁRIO É MEU E EU NÃO QUERO PURPURINA NELE!

– ESCUTA AQUI, QUERIDINHA! – a garota estalou os dedos na minha cara – EU SOU RUIVA E QUERO PURPURINA, ENTÃO HAVERÁ PURPURINA!

– VOCÊ É UMA RUIVA FALSA!

– MORRA!

– Sammy! – uma outra garota chegou. Era morena com a pele acobreada e tinha olhos escuros – Pare de brigar e venha! Temos Artes agora!

A tal Sammy-Ruiva-Falsa me lançou um último olhar mortal e seguiu a amiga para a aula de Artes. Abri meu armário purpurinado, joguei minha mochila lá dentro, peguei o livro de História Americana e segui para a sala de aula.

POV. Carollyn Black

Será que ainda dá tempo de voltar de carro naquela livraria e pegar os livros? Eu não vou conseguir dormir hoje se não os tiver!

Fechei a porta do meu armário e olhei o meu cronograma. Minha primeira aula seria Espanhol. Eba. Sinceramente, essa matéria parece grego para mim!... Não, espera.

Peguei meus livros e fui andando tranquilamente pelos alunos. Quando eu virava o corredor, alguém esbarrou em mim e meus livros caíram todos no chão.

– Oh, desculpe! – exclamou um garoto. Era loiro, bronzeado e tinha olhos azuis brilhantes – Meu nome é Drake Lockwood.

E foi tudo como naqueles filmes românticos para adolescentes: Olhei para o rosto do garoto por um segundo, ergui minha mão e dei-lhe um belo tapa na cara.

– Olhe por onde anda! – exclamei – Eu não me interesso se seu nome é Drake ou Godofredo, pegue meus livros do chão!

Ele franziu a testa, pegou os livros e me entregou. Saí andando sem nem falar obrigada.

– Espera, qual o seu nome? – ele perguntou.

Pensei um segundo.

– Marieta Alannys Pudim da Silva Pereira Rabastan Godofreda Alejandra Felton – sorri – Tenha um bom dia!

Entrei na sala de Espanhol. Sentei-me no fundo da sala, perto da janela. Duas garotas entraram conversando e sentaram-se perto de mim. Fiquei lendo o livro, tentando entender alguma coisa (dislexia é triste, crianças), até o professor entrar na sala.

A aula começou, um discurso de feliz retorno às aulas! foi feito e o professor começou a explicar a matéria. Juro pelo Estige que tentei prestar atenção, mas o discurso me pareceu meio assim:

– Bláblábláblá Esse ano iremos estudar o espanhol... bláblábláblá Preciso da dedicação de vocês... bláblábláblá Precisam se esforçar... blábláblá...

– Ele realmente acha que alguém está prestando atenção? – sussurrou uma das garotas a amiga. Ela era morena, com cachos escuros e olhos brilhantes como ônix.

– Coitado – respondeu a outra. Essa era pálida e loira. Parecia um vampiro. Ela usava uma camiseta preta que ia até a metade do antebraço, deixando dois traços de uma tatuagem escura aparecer.

Foi bom ouvir alguém que também estava pouco se lixando para a aula, para variar. A garota loira se inclinou em sua carteira na minha direção.

– Com licença, você pode me dizer onde é o laboratório da escola? – perguntou ela em voz baixa – Minha próxima aula é Biologia, eu não tenho a menor ideia de onde é.

– O laboratório é na Ala Norte, perto da biblioteca – respondi baixo – Caso não ache, vá à secretária e peça um mapa da escola.

– Obrigada – a garota sorriu – Sou Anne Hayes, essa é Julieta Deep – apontou para a amiga com a cabeça – Fomos transferidas da Califórnia, sabe.

– Legal, bem vindas à Nova York – acenei com a cabeça. Tenho educação, sim? Eu só me recuso a usá-la com gente recalcada.

– Não sei como vamos ser bem vindas – reclamou Julieta – Já viu a entrada dessa escola? Parece que vai cair aos pedaços! E os professores parecem um circo de aberrações.

Comecei a rir porque era a mais pura verdade. Anne riu da minha risada. Julieta começou a rir também.

– Señorita Black? – chamou o professor em espanhol erguendo a sobrancelha — Se ríe de lo que?

– Ér...

Olhei para Anne, que olhou para Julieta, que sorriu e respondeu:

– Nos reímos porque somos felices, maestro. Feliz para usted ser un excelente maestro.

O professor pareceu satisfeito e continuou dando a aula. Dei um sorriso de agradecimento para Julieta. O que quer que ela tenha dito, resolveu muito bem a situação. Julieta acenou a cabeça com um sorrisinho cúmplice.

Quando finalmente chegou a hora do almoço, fui até a sala de História e encontrei Katie discutindo com um garoto mortal.

– APOLO É O DEUS DO SOL, NÃO DA LUA! – gritou ela.

– TANTO FAZ! – gritou o garoto.

– TANTO FAZ? TANTO FAZ É A MÃO QUE VOCÊ VAI LEVAR NA CARA, SEU...

– Ei – falei invadindo a sala – Katelyn, Katelyn, deixe o garoto acreditar no que quiser. Apolo é o deus da lua? Ótimo. Ele também é o deus da putaria, se quer saber. Agora vamos almoçar.

E a carreguei para fora. Ela ficou resmungando o tempo todo sobre mortais estúpidos e sobre alguns lugares muito pouco dignos onde ela enfiaria flechas.

Entramos no Refeitório. Era um grande salão branco com mesas de pedras com cinco cadeiras cada. A tia da cozinha que servia nosso lanche tinha uns dois metros de altura e uns cinco de largura e sempre tinha uma carranca. Pegamos nosso almoço e sentamos em uma das mesas. Natalie e Caroline chegaram pouco tempo depois.

– Hrum, olha lá – Carol fungou e virou a cara – Aquele cabelo tem tanto recalque que os piolhos morrem intoxicados!

– Onde? – perguntei.

Ela apontou levemente com a cabeça para uma das mesas. Lá estavam Anne, Julieta, o garoto recalcado que derrubou meus livros, uma ruiva e uma garota de pele acobreada.

– Quem são? – perguntou Katie – Aquela ruiva fez Artes comigo hoje.

– Eles vieram transferidos da Califórnia – Natalie disse tomando um gole do seu suco – A loira é Anne Hayes, a morena é Julieta Deep, a ruiva é Sammy Hellthorne, a de cabelos escuros é Debby Abadeer e o garoto é Drake Lockwood.

Todas nós a encaramos.

– E como descobriu tudo isso? – perguntei.

– Eu estava conversando na aula e...

– NATALIE MACKEHELL CONVERSANDO DURANTE A AULA? – gritou a nada escandalosa Katie – O que Dona Atena pensa do assunto?!

– Eu não estava conversando durante a aula – ela respondeu corando, metade do Refeitório olhou na direção do grito de Katie – Ouvi isso antes da aula começar.

– Hrum.

Peguei meu calendário de aulas da mochila. Próxima aula: Educação física. Eba.