Colégio Interno

28 Virtuosa tempestade e revolta de Rodrigo.


Corri até o banheiro pra me trocar e, quando saí do quarto, Bruna estava deitada junto com Lucas em sua cama. Abri um sorriso malicioso enorme e completamente involuntário e ela me censurou com o olhar.

— Sou muito nova pra ser tia – cantarolei – Usem camisinha!

E saí saltitando pelo campus até debaixo de uma árvore, onde pudesse me sentar para ler o meu livrinho. Abri-o novamente na mesma página e me perdi nos meus pensamentos de novo. Novamente, estava completamente sem noção de nada que havia a meu redor quando fui bruscamente interrompida.

— Que tá fazendo? – rinchou Gabriel.

— Pesquisando a respeito da cura para o câncer de próstata, e você? – perguntei, sorrindo irônica.

— Doce feito um prato de quiabo amanhecido...

— E você é tão doce que me dá diabetes. Romântico que só.

— Hey, você está com o meu colar da sorte. Isso é romantismo.

Mostrei a língua e ele se sentou ao meu lado, me apertando e beijando minha testa. Rolei os olhos e limpei sua baba.

— Que tá lendo, pequenina?

— Quem lhe deu essa liberdade toda?

— Eu! – respondeu, simplesmente.

— Ok, Gabriel, ok. Tô lendo Percy Jackson.

— Ah, eu to no primeiro!

— Rapaz, perto dos outros, é uma bosta. Mesmo sendo ótimo, perto dos ou tros...

E ficamos conversando por muito tempo, mesmo. Sem brigas, sem alfinetadas nem nada. Gabriel até se aproveitou da situação para se jogar no meu colo, e eu nem liguei.

— Você é perfeita, cara, perfeita! – ele disse, rindo – A Natalie não gosta de Percy Jackson.

— Ah, vagabunda! – gritei – Slut!

— Isso tem o mesmo significado em francês, pequena...

Dei os ombros e ele riu. Conversamos sobre várias coisas durante várias horas. Quando percebi, estava até afagando seus cabelos. Daí... Começou a garoar.

— Droga – resmungou ele.

Levantei e o puxei até o dormitório feminino. Até lá, foi uma boa caminhada. Quando chegamos, estávamos encharcados. A fina garoa havia se transformado numa tempestade.

— Sabe o que eu acho?

— Que você, Gu, meu amor, vai ficar bem quietinho enquanto eu admiro esse fenômeno da natureza que Deus nos mandou?

Eu tinha um fascínio por tempestade. Via nelas uma beleza que mais ninguém via. O som do trovoar, as nuvens densas e roxas, os raios, relâmpagos e trovões... Tudo. Gu bufou.

— Você me mandou ficar quieto?

— Desculpa, meu amor – disse, rindo.

— Eu estava pensando que a gente vai ter que dormir aqui, porque isso aí não vai pensar.

— Não chame a tempestade de isso – resmunguei.

— Ela tem uma relação especial com tempestades... – disse Bruna, sorrindo – O primeiro beijo dela foi durante uma tempestade, e a primeira vez que ela e o Caio saíram também.

— E eu já tinha algo com tempestades antes disso, ok?

— Ah, verdade.

Continuei a fitar a tempestade e estava perdida nos meus pensamentos absortos. De novo. Acho que já comentei que isso ocorre com uma assustadora frequência. Enfim. Então, senti Bruna mexendo em meu pescoço.

— Você está fazendo o quê? Procurando um chupão?

— Não – disse ela, rolando os olhos – Cadê seu colar?

— Eu troquei com ele – disse, apontando com a cabeça em direção a Gabriel.

— Isso quer dizer que você tá com a corrente dele? – disse Thiago.

— É o que parece.

Suspirei ao olhar no relógio do celular.

— Toque de recolher.

— De novo – disse Gu, suspirando – E como já disse, esta virtuosa graça divina que cai aí fora, pra não falar isso, não passou.

A inspetora entrou no quarto e nos disse o que já sabíamos: ficaríamos ali presos até que a tempestade passasse. E ao que parece, eu devia ter atingido um consumo máximo de café em uma semana naquele lugar, já que me trouxeram minha própria máquina de espresso.

— Amém – disse, me servindo de uma xícara de mocha – Não viveria sem café.

— Ok, agora nos explique por que diabos ele tá com seu colarzinho e você com esse troço que ele não tira do pescoço desde sempre? – disse Thiago

— Ele pediu – eu respondi, dando os ombros.

— Por quê?! – guinchou Natalie – Por que não eu?!

— Você não ia querer andar com esse negócio de barbante pendurado no pescoço – debochou Gabes.

— Claro que ia! – gemeu ela – Quero dizer... Sendo do meu, exclusivamente meu, Gabrielzinho, claro que eu adoraria!

Thiago soltou uma risadinha contida, provocando alguns resmungos da cunhada e me fazendo rir baixinho.

— Me responde olhando nos olhos, Gabriel, você me ama tanto quanto ama a Amanda?

— Ele não me ama. Não tem essa de me ama tanto quanto ela. Relaxa.

Ele riu ironicamente e me puxou pra mais perto, beijando minha testa.

— Sabe que é mentira, certo? – sussurrou em meu ouvido.

— Sei de nada, agora me largue antes que apanhemos – sussurrei de volta – Vou deitar.

— Deita aqui comigo – miou Gustavo.

Esticou os bracinhos, me fazendo rir e caminhar até ele. Gabriel começou a corar furiosamente e puxou Natalie de qualquer jeito. Ajeitei-me sobre o abraço de Gustavo, que beijou meu nariz, mordendo-o levemente, me fazendo rir e fechar os olhos. Eu adorava beijinhos no nariz.

— Mandie? – chamou Thiago. Abri os olhos para encará-lo – Podemos conversar?

— Gu?

— Vai lá – disse ele, sorrindo doce.

Assenti, soltando-me e caminhando para o lado de Thi. Ele me puxou até um lugar onde não pudessem nos escutar.

— Gosta de fazer ciúme no Gabriel ou é só impressão?

— Cara – disse, fitando-o – Eu não consigo dizer não ao Gus!

Ele assentiu, me abraçando. Era um pior que o outro quanto a isso, sabe. A abraços. Combinávamos perfeitamente nesse quesito, já que ele era enorme, e eu podia encaixar minha cabeça em seu peito e ouvir seu coração batendo, enquanto ele podia colocar seu queixo na minha cabeça, algo que ele adorava fazer.

— Não o provoque, por favor.

— Por quê?

— O Gustavo já foi melhor amigo do Gabriel, mas hoje em dia ele anda um puta talarico... – disse, rolando os olhos.

— Mesmo?!

Ele apenas assentiu. Passamos algum tempo apenas abraçados. Aquilo era o suficiente. O silêncio. Quando voltamos a sala, Gustavo me encarou.

— Demoraram demais pro meu gosto – disse, fazendo beicinho.

Thiago mostrou a língua e me abraçou, mordendo minha bochecha e beijando minha cabeça.

— Não começa – disse Gabes, encarando o irmão.

Olhei pra Thiago, que olhou pra mim. Começamos a rir como os dois idiotas que somos. Gabriel bufou.

— Preciso falar contigo, Amanda.

— Não! – resmungou Natalie – Deixa de mimimi pro lado dela, tá me irritando já.

— Sabe o que tá me irritando? – disse Rodrigo, fazendo com que todos os presentes o encarassem – você. Puta merda, Natalie, você é cega ou o quê?!