Colégio Interno

62 Términos, chantagens e Subway Surfers


Voltei ao apartamento e me sentei entre os dois. Suspirei e deitei a cabeça no ombro de Bernardo. Eu precisava de um momento com ele antes de qualquer coisa. Segurei sua mão e o arrastei até fora do quarto, sentando-me na sacada junto a ele.

— Que merda você fez com a minha vida, não? – disse, tirando um cigarro do bolso e fechando a porta de vidro da sacada. Fitei Gabes sentado na sala jogando videogame e não pude evitar um sorriso.

— Ué – exclamou Bê – Que diabos eu fiz?

Demorou uns minutos para que eu lhe contasse tudo com detalhes. Tempo suficiente para que eu acabasse com aquele cigarro. ele suspirou.

— Me perdoa – sussurrou – Mesmo. Eu...

— Relaxa – eu sussurrei – Eu... Vou conversar com o Gabes. Se você puder nos dar licença...

Ele assentiu e saiu saltitando do quarto. Porque caralhos ele saltitava eu também não entendi, mas era adorável. Sentei-me ao lado de Gabes e ele me encarou

— Que foi?

— Não tá dando certo a gente namorar, pequeno.

— Que é isso? Vamos nos casar? MINHA NOSSA! – berrou, me fazendo recuar – Isso seria incrível! Agora nas férias, sabe, a gente podia sei lá, ir pra Las Vegas e se casar por lá! Imagina que bonito a gente chapadão se casando numa capelinha e tendo um casal de lésbicas como padrinho! Digo, madrinhas! Minha pequena, isso seria inacreditável!

Ele tagarelava incessantemente sobre como seria lindo quando nos casássemos, e por mais que aquilo fosse extraordinariamente lindo, eu queria morrer por ter que acabar com toda aquela alegria.

— Criatura! – gritei, fazendo-o rir – Não é nada disso.

— Então você...

— É, por aí.

Ok, aquela alegria toda se esvaiu. Como se estivesse segurando um monte de areia nas mãos e ela escorresse pelos seus dedos.

— Por quê?

— Porque tem um maníaco me ameaçando com uma coisa que eu não posso te contar e ele pediu pra que eu terminasse com você e ficasse com ele.

Caralho, isso foi muito sincero. Mesmo. Fiquei até um pouco afetada depois disso. Gabriel, por um estranho momento, riu.

— E daí?! – gritou – A gente pode continuar se pegando aqui dentro. Ué, eu te amo e você me ama. A gente pode levar um amorzinho secreto aqui dentro de casa. Ele tem uma câmera te vigiando ou o quê?

Aquele garoto era inacreditável. O amor que eu sentia por ele e por aquele sorriso lindo, sem nem se preocupar sobre que merda eu tinha feito... Era incrível. A confiança dele em mim era maravilhosa.

— Você é incrível.

— Minha filha, eu descobri isso depois que consegui te namorar mesmo depois de te jogar uma maldita bola de golfe no meio da testa.

— Vai mesmo se lembrar disso?

— Todos os dias de nossas vidas, meu amor.

— Eu te amo – sussurrei.

— Eu sei. Agora vamos chamar nosso amigos e lhes contar que você fez uma merda tão grande que vai ter que namorar um psicopata.

— Já namoro um.

— Vai se fuder – disse, me empurrando com as nádegas – Um que você não ama.

— Voce... Nem quer saber o que eu fiz?

— Não – disse, seguramente – Eu te amo e se você diz que não pode me contar, eu acato isso de boa. Você é miha princesa, e nada vai mudar isso.

— Caralho, Gabriel, você é inacreditável.

— Eu sei disso.

Beijou minha testa e me abraçou com força. Mas eu sabia que nada, nada, era tao simples assim.

— Para de fingir que tá tudo bem.

— Não tá. Mas o que eu posso fazer? Eu não vivo sem você, coisinha.

Não pude deixar de esboçar um sorriso e mordi sua bochecha. Quando descemos, estávamos confortavelmente afastados e ele nem sequer olhou pra mim. Nicholas estava sentado de frente ao dormitório e me encarava. Santo Deus, que olhos eram aqueles?

— Quero só ver como você vai lidar pra beijar esse cara – ele disse, rindo baixinho. Eu o encarei como se dissesse “Que porra é essa?”. Ele riu mais alto – Antes de ser teu namorado eu sou teu amigo, minha filha.

Mordi o lábio, na tentativa de reprimir meu desejo incontrolável de agarrá-lo ali mesmo.

— Vá lá falar com teu macho.

Encarei aquele garoto infantil, bobão e completamente aleatório. Caminhei até Nicholas e me sentei ao seu lado.

— Ele aceitou bem – disse, sem olhar pra ele – Quero dizer... Nós terminamos.

— Espero que isso seja verdade – disse, levantando meu queixo –E espero que ele não se importe com isso.

Ele ia se aproximando de mim quando empurrei sua cabeça, segurando-a quase toda com minha mão. Encarei-o enojada.

— Espera aí, meu filho, calma. Nem o Gabriel eu beijei tão rápido. Vamos devagar.

— Como...

— Eu quis dizer, seu doente, que eu não vou te beijar agora!

Ele me encarou assustado e segurou meu braço. Com muita força. Força demais. Gemi baixinho e mordi o lábio.

— Escuta aqui... – sussurrou – Lembrando que eu tenho muitas coisas contra você. Então vamos dar uma baixada nessa bola, ok?

— Nicholas, estamos no meio do pátio. Se você não me largar eu vou fazer um escândalo e você vai ser expulso.

— Você já fez tanta merda e nunca foi – desafiou – Sugiro que não me teste.

— Eu vou voltar pro meu quarto. Preciso conversar com o Bernardo.

— Se você contar pra ele...

— Ah, se controla aí, também. Vamos parar de ameaças que já entendi.

Subi para o quarto e percebi que Gabriel ainda estava lá. Quietinho, sentado, concentrado no celular. Sentei-me ao seu lado e ele me mandou calar-me. Não que eu tivesse dito alguma coisa.

— Não podemos conversar muito. Vai que seu homem instalou câmeras por aí.

— Você é inacreditável – disse, tentando não rir – O que tá fazendo aí?

— Jogando. Subway surfers. Vou conseguir a japonesa pra você.

— O quê?

— A bonequinha.

Continuou focado no jogo e eu percebi porque o amava: era tão criança quanto eu.