Colors

12 Chapter twelve: the Carnation and the Rose


Notas iniciais
Eu sei que demorei MUITO, peço desculpas, mas tive que dar prioridade para a escola (que não parava de exigir trabalho). Enfim, este capitulo foi de longe o mais emocionante pra mim, eu sofri muito para escrevê-lo, espero que toque alguns corações também. Peço desculpa se tiver muitos erros, eu ainda não tive tempo de revisá-lo e estava com pressa de publicá-lo. AAAAAA não me matem, por favor.

Minha mandíbula tremia, fora do meu controle. Meus dedos estavam congelando, tanto os dos pés como os das mãos, porém, todo o meu corpo sentia o frio selvagem que a tempestade trazia. O trovão ecoava nos céus, fazendo-me estremecer ainda mais. A cada luz que brilhava na noite, eu segurava mais forte no cavalo que galopava sem parar, correndo em linha reta, parecendo mais um rato assustado do que com um cavalo valente. As vezes ele relinchava, e eu sempre respondia um “estamos chegando”. No fundo eu sabia que ele não entendia o que eu queria dizer, mas eu acreditei que sim. E isso me deixou um pouco mais tranquila.

A chuva, eu sentia, não estava completamente contra mim, afinal, eu me sentia motivada a acabar com aquilo a cada gota que tocava em minha pele. Meus dedos deram sinal de dor e eu relaxei, tentando ficar menos tensa sobre minha vida.

O sonho, aquele sonho, veio em minha mente em um raio. Eu lembrei do que o Diabo-branco me dizia, do liquido colorido que eu vomitava enquanto minha garganta rasgava por dentro. Da dor em minha cabeça, era como.... Um trovão despertou-me do devaneio, fazendo-me piscar sem parar por alguns segundos, até finalmente manter o foco na realidade. Tudo estava estranho, e eu queria terminar tudo. Era o único jeito.

O tempo parecia estar mais lento, como se o destino estivesse me dando uma segunda chance de refletir e desistir, apenas voltar para a pequena casa de Caleb Hunter. Imaginei ele em seu quarto, pensativo ou dormindo calmamente com um livro antigo em mãos, ele parecia ser do tipo que gostava de ler antes de dormir. Imaginei a garota dormindo, aninhada nas almofadas que estavam jogadas por ali, sonhando e sorrindo com um futuro positivo e feliz. E isso me fez querer voltar. Mas eu não voltaria, nunca mais.

...

O cavalo parou de correr quando vi o prédio do casarão em meio as arvores. Uma sensação de nostalgia atingiu meu peito e me fez suspirar, aliviada por ter chegado em poucas horas. Algo em mim acendeu, não como uma chama, mas sim uma vaga luz. Ainda montada no cavalo, me aproximei do casarão, e a cada passo que o animal dava, as batidas do meu coração aceleravam.

Alguns minutos depois, eu me encontrava em frente ao casarão que eu sempre quis sair. Engoli em seco. Ele parecia maior do que antes, mais fantasmagórico que antes. Suspirei, criando coragem para adentrá-lo sem ter um ataque. Minhas mãos tremiam, contudo, caminhei até ficar frente a frente com a grande porta de entrada. Respirei fundo uma última vez, levantando meu punho fechado, batendo na porta em seguida.

Esperei. E não houve resposta. Bati novamente, franzindo o cenho, algo estava errado. Bati. Bati. Bati mais forte, e nada. Suspirei, um tanto frustrada. Pensamentos negativos invadiram minha mente e por um momento eu quis gritar. Mas me contive, precisava ter foco.

Tentei a maçaneta. A princípio eu pensei que ela estaria trancada, como sempre esteve quando eu era criança, porém, para minha surpresa, ela estava quebrada e a porta foi empurrada para trás com um pouco mais de esforço vindo de mim. Ela estava aberta, porém emperrada. Minha mente me manteve alerta, e eu temi aquele gesto. Quem deixaria uma casa enorme daquelas aberta? Engoli em seco, deixando a resposta no fundo da minha garganta. Eu não ousaria dizê-la.

Olhei para trás e um trovão gritou novamente no céu negro, como um impulso, eu adentrei o casarão. Minha espinha arrepiou-se inteira quando o cheiro doce invadiu meus pulmões, e eu pensei que iria passar mal com o cheiro, mas continuei. Caminhei cada vez mais para dentro daquele lugar, estava escuro, a única coisa que iluminava era a luz dos raios que dançavam na chuva.

Os corredores estavam silenciosos, e a escuridão me assustava com suas sombras. Involuntariamente, me encolhi, abraçando-me na tentativa inútil de me manter calma e quente. Neste momento eu me arrependi amargamente de ter me atirado na chuva, mas eu retirei este pensamento da minha mente. De que adianta estar quente se eu morrerei de qualquer forma?

Dobrei no primeiro corredor e entrei na sala de jantar, sorri tristemente, lembrando de quantas refeições eu comi ali, todas muito afastadas da família Franco, porém a comida sempre era boa e farta. Annie sabia cozinhar, e me tratava bem quando eu estava doente. Normalmente era ela que me fazia chás e levava sopas quentes até o meu quarto quando eu não queria descer para comer. Ela nunca me criticou e em troca eu nunca infernizei a vida dela, como Amora Franco fazia.

A mulher costumava criticar a empregada, que já era uma velha senhora, e a fazia ouvir suas reclamações quase todos os dias. Um dia eu perguntei a ela como ela conseguia aguentar Amora, já que esta era desagradável, e Annie me olhou nos olhos, sorriu docemente e respondeu:

— A senhorita Amora só desconta sua frustração em mim, mas eu não fico frustrada, sou uma boa ouvinte – ela aproximou-se de mim e sussurrou: — Às vezes, as pessoas são más porque ninguém lhes ensina a amar, e assim você os ensina e não ao contrário.

A lembrança doeu em meu coração e me fez despertar e me preocupar com a realidade. Olhei para a mesa, aproximando-me da mesma e franzi o cenho. A mesa estava posta. Havia pratos e copos nos lugares aonde haviam cadeiras, pela mesa havia pratos cheios de comida e panelas entreabertas com a colher de servir para fora; Potes de sobremesas estavam abertos e quase vazios, ao contrário do restante. Era difícil enxergar na meia-luz que vinha das janelas, contudo, pude notar que nenhum dos pratos estavam sujos.

Meus olhos se arregalaram quando minha mente concluiu o que tinha acontecido ali.

Cheiro doce, a sobremesa, nenhum prato... corri desesperadamente até a cozinha, não me importando com o barulho que eu estava fazendo com os meus passos pesados e molhados na madeira. Abri a porta e olhei ao redor, parecia que tudo estava em ordem. Entrei no cômodo e abri os armários, procurando pelo sal, mas eu não o achava em lugar nenhum. Meu coração batia tão forte que doía em meu peito. Senti o medo me atacar com velocidade, e quando notei, eu já estava chorando.

Fui até a despensa e procurei por Annie, mas tudo por ali parecia estar vazio. Praguejei em minha mente.

A escuridão não facilitava, mas eu tentei caminhar mais devagar para não bater em nada, o que não funcionou. Cheguei na sala de estar e quase sorri ao ver ao longe um abajur ligado. Alguém, pensei, finalmente. Me aproximei da luz, mas parei ao sentir algo tocando em meu ombro. Olhei para trás, nada. Movi meu olhar para o meu ombro e notei que era uma gota, contudo, ela possuía uma cor forte: era preta. Olhei para cima e senti meu corpo inteiro tremer.

— Annie – sussurrei – ANNIE! – Cai para trás, utilizando meus cotovelos para manter-me firme. – Não.... Não pode ser. – Meus olhos encheram de lagrimas, borrando completamente a minha visão. Annie, a empregada, estava no teto. Seu corpo estava atirado, preso por estacas escuras, que cortavam a pele dela. Seus olhos estavam vazios e rachaduras decoravam os mesmos. Sua boca estava aberta em um grito já silenciado. Uma mensagem escrita com sangue rodeava o corpo da senhora.

— “O cravo brigou com a rosa, debaixo de uma sacada” – eu li em um sussurro seco e duro, sentindo meus olhos queimarem e meus punhos se fecharem. Essa música...

Lamentei a morte de Annie por alguns minutos, que pareceram infinitas horas. Porém, acabei por me levantar e secas minhas lagrimas com minhas próprias mãos. Suspirei, afim de tranquilizar meu coração e minha alma e minha mente, mas tudo o que eu era e representava poderia ser resumida em uma única palavra: tristeza.

Caminhei lentamente até o abajur ligado e o desliguei.

...

Subi as escadas com pressa, sentia que tudo pioraria, mas precisava encontrar alguém. Depois da morte da Annie, eu tive ainda mais certeza de que um diabo-branco estava no casarão, então eu temi pelos outros. Por Amora, por Lucian e principalmente pelo senhor Franco, Colin. Minha mente me prevenia da possível morte dos três, mas meu coração me dava esperanças, e a cada batida ele se convencia disso.

Os corredores estavam escuros, assim como toda a casa, então eu tateei as paredes até encontrar o quarto de Lucian. A porta estava fechada, portanto eu levei minha mão até a maçaneta para abri-la. Senti o melado do açúcar em minha palma e não consegui contar minha feição de nojo. Abri a porta e limpei minha mão em minhas vestes, prestando atenção no quarto dele. Era como meu quarto, porém mais elegante e espaçoso. Sua cama estava estraçalhada, com os lençóis manchados e rasgados. Respirei fundo muitas vezes antes de dar outro passo em frente, me aproximando da cama, e, apesar de estar manchada de um liquido escuro – que eu presumi que fosse sangue -, ele não estava ali.

Ouvi um gemido baixo, virei na direção e senti meu coração parar quando dei de cara com a porta do banheiro de seu quarto. Na porta, estava os dizeres escritos com sangue:

— “O Cravo ficou ferido, e a Rosa despedaçada” – eu li em voz alta, arregalando os olhos e correndo para dentro do banheiro – LUCIAN!

Eu o vi dentro da banheira, a agua estava escura e sua expressão era de dor. Ele estava sem roupa, mas eu não me importei. Apenas me aproximei dele e toquei em seu rosto, Lucian gemeu e abriu seus olhos com esforço.

— Emília – ele sorriu fracamente, fazendo com meus olhos se enchessem de lagrimas novamente.

— Lucian, por favor – eu solucei – não morra, por favor, eu preciso de você vivo. – meu tom era de desespero, mas ele parecia tranquilo, apesar de estar sofrendo – O que houve?

Ele manteve o sorriso, me olhando como se eu fosse uma memória feliz e distante. – O Diabo me esfaqueou e me pôs aqui – ele franziu o cenho – eu me esfaqueei – ele levantou seu braço direito, e em sua mão fechada havia uma adaga cinzenta, manchada com o sangue escuro dele. Estremeci entre meus soluços. – Emilia...

— Lucian, ele te obrigou, Lucian, por favor, fica comigo – eu dizia, mas minha voz não parecia ser minha. Na verdade, parecia que eu estava ficando distante, como se minha alma pudesse sair de meu corpo. – Eu te imploro – Sua pele escura cintilava seu próprio suor. Minha mãe continuava acariciando sua bochecha, tentando sentir o calor de sua pele, que infelizmente se esvaia de seu corpo. – Lucian...

— Salve-se, irmãzinha – ele disse em um quase sussurro, suas palavras perdendo a voz em segundos. Ele fechou seus olhos e sua cabeça se tornou pesada e gelada em minha mão.

Permaneci paralisada aonde eu estava, chorando, quieta. Fechei meus olhos e me afastei da banheira, caminhando até a porta e parando em seguida. Voltei até a banheira, soluçando e arfando por ar, peguei o braço de Lucian e retirei a adaga de sua mão, mantendo-a em punho.

Transformando minha tristeza em raiva, sai do cômodo, percorrendo o corredor com determinação e fúria em meu olhar. Algo em minha mente gritava “Ache-o e mate-o”, e eu estava louca para fazer isso.

Abrindo as portas que eu encontrava no caminho, eu suspirava a cada cômodo vazio que eu encontrava. Em meu interior, eu estava torcendo para que o senhor Franco não estivesse ali, que estava viajando como sempre fazia, porém, foi só no pensar que a próxima porta conseguiu destruir minha sanidade. Amora e Franco estavam com o rosto deformado, as veias quase prestes a saltarem para fora, manchas cinzas estavam em seus rostos negros, seus olhos pareciam querer abandonar as orbitas. Nas paredes, as frases eram claras:

— “O Cravo ficou doente, e a Rosa foi visitar” – eu sussurrei, lembrando da música que o senhor Franco cantava para me fazer dormir – “O Cravo teve um desmaio, e a Rosa pôs-se a chorar” – E então eu notei o quão triste esta canção era.

Uma lagrima escorreu em meu rosto e em seguida se tornou fechado, impenetrável. A adaga em uma mão direita ficou quente quando eu apertei-a em meu punho.

— Finalmente – ouvi uma voz grossa e fria, o cheiro adocicado invadindo meus pulmões como veneno – A Rosa voltou ao jardim – o som de passos se tornou mais alto. Me mantive parada. – É uma pena que os cravos já estão mortos.

A adaga caiu da minha mão, que automaticamente ficou frouxa.

Ouvi um riso, logo uma movimentação e outros sons que não reconheci. Silencio. Franzi o cenho, e me virei, na direção de onde deveria estar o Diabo-branco, mas tudo o que havia era um Caleb Hunter encharcado, encarando-me com solidariedade e tristeza. Pensei que ele fosse me abraçar, ou simplesmente me levar de volta para a casa dele, ou quem sabe até me dar um sermão por ter fugido com um dos cavalos dele. Porém, tudo o que ele me disse foi:

— Vai ficar tudo bem, eu estou aqui. – E, de alguma forma, estas palavras foram o bastante.