Colors
10 Chapter ten: Seven seas
Após tomarmos o café da manhã, eu e a garota decidimos partir em busca da tal cachoeira. Não sabíamos da localização da mesma, mas esse era o ponto: explorar e descobrir. Não sabíamos se podíamos levar alguma coisa da casa de Caleb conosco, então apenas saímos da pequena casa com a roupa do corpo e uma mente bem atenta para caso acontecesse algo. Lembrei – ou tentei lembrar – de todos os livros informativos sobre bosques, florestas e fontes naturais que eu já li na vida e partimos de uma vez, deixando um Caleb Hunter preocupado para trás.
— Fiquem longe de doces, moçinhas! – ele berrou alto o suficiente para ouvirmos. Normalmente, ao menos nos livros, os mais velhos imploram para os mais jovens tomar cuidado com assassinos ou ladrões, o nosso caso era diferente. Doces poderiam ser mais perigosos nesse caso, porém, não saberia o que fazer caso uma pessoa comum nos atacasse...
O sol iluminava a trilha de terra que nos guiava até então, fazendo meus olhos arderem sempre que eu tentava olhar para a copa das arvores, que reluziam com a luz branca e ardente do sol. Meus pés descalços sentiam a terra seca e pequenas pedrinhas que roçavam em minha pele, me deixando com uma sensação de serenidade. Minha única amiga caminhava calmamente ao meu lado, brincando com suas próprias mãos para conter o nervosismo. Apesar disso, sorria. E eu sorria com vontade também.
— Nunca sai sozinha antes – revelou ela, virando a cabeça em minha direção para poder olhar para mim. Seus dentes estavam expostos em seu sorriso.
— Nem eu, nunca me deixaram – balancei a cabeça levemente – o Senhor Franco nunca deixou, tinha medo de que acontecesse algo ou nunca confiou em mim, não sei dizer. – dei de ombros, não era importante no momento, mas sabia que iria me atormentar com aquilo antes de dormir. Era a hora perfeita para paranoias e teorias ruins.
— Ele me falou muito bem de você quando fomos procurar o Caleb – a garota confessou timidamente, corando as bochechas com um tom mais leve de cinza claro – Disse que era tranquila, amorosa e tudo o mais. – ela deu uma curta risadinha – Mal sabe ele que isso é apenas uma casca. – e então me encarou nos olhos, esperando minha reação.
Esbocei um sorriso amarelo. Ela estava certa. Sempre fui um furacão de sentimentos dentro de um rosto sereno. Mas como ela sabia disso? Decidi não perguntar, a resposta poderia não ser do meu agrado. – É, ele não me conhece tanto assim como diz – ri baixinho e ela acompanhou a minha risada com a dela, que fazia um som engraçado enquanto a minha era quase muda. – Ele te explicou como sabia sobre você e o espelho?
Ela engasgou – Uh, sim, de certa forma – coçou a própria nuca, demonstrando que estava ficando nervosa – ele já conhecia o Caleb e aquela história de sua irmã comprova que ele tinha uma ligação com o espelho – e aquela voz intelectual voltou ao seu timbre, acompanhada por uma expressão um tanto engraçada e convencida – mas acho que ele não sabia de mim, mas sim de você! – ela apontou pra mim teatralmente.
Arregalei os olhos, fazendo-a soltar um riso alto – Eu? – segurei um sorriso.
— Sim, eu o vi falando com você aquele outro dia – continuou ela, agora mais séria – disse que eu viria, mas não disse quem era eu, acho que nem mesmo ele sabia... É complicado.
— Notei – esbocei um sorriso, torcendo mentalmente para trocarmos de assunto, aquele já estava me incomodando. Mesmo eu não sabendo o porquê da minha irritação.
Continuamos na trilha, caminhando calmamente enquanto conversarmos sobre coisas mais fúteis. Conversar sobre coisas assim faziam com que eu me sentisse uma boba, mas normal. Ser normal, completamente normal, me parecia uma coisa boa. Éramos apenas duas amigas passeando pela floresta, procurando uma cachoeira para tomar um banho e uma aldeia para nos enturmar mais tarde. É, era bom pensar assim. – Concordo plenamente – ela me respondeu bem humorada enquanto admirávamos as arvores ao nosso redor – para nós, que ficamos dentro do espelho, essas espinhas são piores! Muito mais nítidas e perturbadoras, eu as odeio. – finalizou ela, fingindo fazer uma expressão de pura raiva enquanto segurava o riso.
Eu ri baixinho, quase muda, como sempre. – Eu também! – confirmei o obvio – Poxa vida, hormônios.
— Poxa vida, hormônios! – ela repetiu, brincando e tentando me imitar.
— Poxa vida, menina do espelho – entrei na brincadeira. Ela soltou aquela risada estranha dela.
— Poxa vida, vida – e então ficamos rindo, principalmente daquilo que não tinha graça alguma.
...
Estava mais quente quando avistamos a cachoeira, mas não tanto. Ela era pequena, mas vertia a água rapidamente, encharcando as plantas e pedras ao redor. A brisa era gelada, mas precisávamos tanto de um banho que não nos importamos com o frio. A água quebrava o silencio e nós a solidão do lugar, parecia que ninguém nunca vinha ou visitava. Pessoas desprovidas de inteligência, pensei, este lugar é magnífico.
A luz do sol brincava com a água, formando um arco Iris cinzento e transparente no ar. A garota ao meu lado sorriu, parecendo feliz demais. Podia sentir sua energia, era forte. Olhei para ela, fitando o seu rosto, que se virou na direção do meu também. Sorri e olhei de soslaio para a cachoeira. Ela riu e retiramos nossos vestidos rapidamente, ficando só de roupa intima.
O frio nos deixou com os pelos do braço arrepiados e a pele eriçada como ela sempre fazia quando sentimos frio, e este era o único motivo para nos encolhermos, pois, de um jeito estranho, não havia motivo para vergonha. Notei que a garota tinha mais curvas do que eu e me senti uma garota pobre que passa fome quase todos os dias, mas isso não me abalou.
Sem evitar o momento em que cairíamos na água fria, fui até a cachoeira e, me apoiando nas pedras enormes que ficavam ao seu redor desci até a água. Era extremamente fria no começo, fazendo com que um calafrio percorresse meu corpo várias e várias vezes. Fiz uma careta e olhei na direção onde a garota estava. Ela também fazia uma careta. – Vem logo! – gritei para que ela me escutasse apesar do barulho da cachoeira. O movimento que a água fazia era forte, mas eu conseguia me segurar nas pedras sem problema algum.
Ela riu de nervoso e se aproximou da cachoeira, entrando na água e soltando um grito assim que metade de seu corpo entrou em contato direto com o frio do liquido, transformando esse grito em um riso alto rapidamente. Eu ri em seguida, me acostumando cada vez mais com a água e com o seu ritmo. Mergulhei e suspirei ao me erguer novamente para a superfície, a garota ainda estava se adaptando ao frio e eu resolvi deixá-la ter o seu tempo enquanto eu lavava o meu corpo.
Porém, não demorou muito para ela se aproximar de mim novamente, ela disse: — E se alguém aparecer aqui e nos ver assim? Alguém pode roubar nossas roupas!
Parecia preocupada. – Quem faria isso? Aqui é praticamente deserto, só um idiota entraria numa floresta abandonada para roubar dois vestidos usados. – brinquei, mas confesso que essa conversa me deixou um tanto tensa e percebi o quão hipócrita eu fui ao dizer aquilo. Só um idiota entraria numa floresta abandonada para tomar banho.
— Tem razão – sua expressão suavizou de repente e eu sorri, aliviada. Era estranho querer o bem de alguém, não sentia esse extinto de proteção há muito tempo... Se é que um dia eu já o senti. – Hum, enfim, sobre o que podemos falar? – me perguntou gentilmente.
Pensei no que dizer. De verdade, eu pensei se deveria contar sobre a coisa que andou no canto da minha mente durante todo o caminho porque eu não consegui esquecê-la completamente ou nem comentar sobre.
— Sabe o sonho que tive esta manhã? – ela assentiu, prestando atenção em mim – Eu acho que enxerguei uma cor nele, era um tom diferente: vivo. Não sei explicar qual era porque nunca o vi, não tenho com o que comparar...
Ela piscou, confusa – você via a cor aonde? – seu tom não era de acusação, mas possuía uma gotinha de desespero em sua voz.
— Saiu de mim, eu vomitei o liquido com essa cor. — Ela empalideceu e ficou calada, pensativa, eu diria. Fiquei mal só de olhá-la desse jeito, estava com medo e/ou preocupada, não consegui decifrar sua feição e muito menos o seu comportamento fechado. – Ei, deixe pra lá, foi só um sonho, lembra? – tentei desviar sua mente para a realidade falando calmamente, mas por dentro estava gritando “Sua idiota! Sua idiota! Sua idiota! Por que foi tocar nesse assunto?”.
Após alguns minutos encarando ela, a garota finalmente voltou a sua cor normal, me deixando um pouco mais tranquila. E então ela fez um movimento de braço e atirou água em mim, e, é claro, soltei um grito agudo misturado com um riso. Ela riu alto e eu ri mais ainda, atirando água nela assim como ela fez comigo.
Logo tudo virou uma brincadeira. Meus lábios já estavam doendo de tanto sorrir, mas eu não estava com vontade de parar.
...
Saímos da água depois de algumas horas de molho. Nosso banho foi longo e refrescante – e principalmente divertido. Mudávamos de assunto muito rápido e isso era bom, pois não dava tempo para enjoar. Falamos sobre comida, sobre as estações do ano, sobre algumas histórias que o Senhor Franco me contava de suas viagens... Até que, por fim, começamos a sentir fome e cansaço. O que nos fez sair da cachoeira e nos vestir o mais rápido possível, sem se importar em molhar de leve os vestidos, apenas queríamos nos aquecer um pouco. Então nos vestimos e ficamos encolhidas em baixo de uma arvore que bloqueava a brisa, uma do lado da outra, próximas demais, porém, era a única forma de nos secarmos mais rápido sem toalhas.
Apesar da dificuldade, ainda conseguíamos sorrir e conversar normalmente. Olhei para cima de repente e notei que o sol estava bem em cima de nós. Meio dia. Isso explicava a fome.
— Você já se sentiu como se não fosse importante? – começou ela, séria. Retirei meu olhar do céu e o pus nela. – Sabe, como se sua vida não valesse de nada, como se... – ela suspirou – por mais que pareça estar feliz, no fundo você está desmoronando? – e me encarou nos olhos. Profundos.
— Já – foi tudo o que eu disse, me sentindo desconfortável com aquele assunto. Baixei a cabeça e encarei minhas mãos que estavam atiradas sobre meu colo como se fosse a coisa mais interessante do mundo – você se sente assim? – arrisquei a pergunta.
— Sim.
E ficamos em silencio durante algum tempo.
— Vamos tentar roubar algo para comer na tal aldeia? – sugeri, com um sorriso no rosto, me virei para olhá-la.
Observei o sorriso brotar em seu rosto. – Vamos!
...
Caminhamos rapidamente em uma trilha que encontramos mais adiante, esperançosas para chegar à aldeia. Conforme andávamos, a temperatura dos nossos corpos ficava mais alta, não demorou para começarmos a suar. Estávamos famintas e com pressa, portanto não diminuímos o passo.
Durante o percurso, aproveitamos para bolar vários planos que poderiam funcionar em diferentes lojas e situações. Senti-me como nos livros, era emocionante.
Alguns minutos depois, avistamos uma placa quadrada que dizia “ALDEIA SETE MARES”, nos olhamos e continuamos o nosso trajeto, que foi se estendendo pela trilha de terra até que chegamos a um amplo espaço onde pessoas caminhavam livremente, algumas carregavam alimentos e caixas, outras lutavam para manter seus filhos por perto. Havia lojas e pequenas casas de madeira. Era tudo muito simples, havia pessoas de todas as etnias e jeitos. Eu gostei daquele lugar. Fazia-me lembrar de um lar, daqueles que a gente passa a vida e sente falta quando vai embora.
Escolhemos uma padaria para roubarmos – sim, eu sabia que não era algo ético a se fazer, aquelas pessoas não eram as mais ricas do mundo e eu era tão comum quanto elas... Mas eu não possuía nada para dar em troca de alimento e nem todo mundo é gentil e caridoso. Teria que viver com a culpa de ter sido uma ladra uma vez na vida.
Aproximamos-nos devagar da padaria e fomos em direção aos fundos da mesma quando ouvimos um barulho alto de batida e madeira, seguido de um grito. Viramos rapidamente na direção do som, ambas de olhos arregalados, surpresas. Porém, ao ver aquele vulto alto e branco, minhas mãos se fecharam em um punho, meus olhos fecharam lentamente e abriram em seguida na mesma velocidade. Eu sentia ódio.
Olhei para a garota e ela estava paralisada, franzi o cenho. Isso não deveria acontecer. Voltei-me para o homem branco que causava o terror na aldeia. Ele derrubava casas com uma facilidade absurda, e isso me assustava. Mas precisava fazer algo. Percorri o olhar ao meu redor, precisava de algo para me ajudar a parar aquele monstro. Respirei fundo e me arrependi no mesmo instante, aquele cheiro doce invadiu minhas narinas e eu senti vontade de vomitar.
Notei que ao lado da padaria havia uma peixaria, onde o dono já havia saído correndo fazia alguns segundos. Aproximei-me rapidamente e puxei um facão quadriculado que estava no meio de um peixe logo na bancada, segurando-o com firmeza, apesar de não saber muito bem o que fazer com ela. Mas eu tinha um plano. Já era um começo.
Fale com o autor