Colors
14 Art.
Notas iniciais
Uma leve batida na porta me fez abrir meus olhos. O teto e as paredes que seguravam o mesmo eram de um branco assustador. A única iluminação que meu quarto recebia vinha de uma minúscula janela neste mesmo teto, e a luz do sol denunciava o dia que havia nascido novamente. A batida tornou-se o som de uma chave entrando e sendo torcida dentro da fechadura, como sempre fazia nos últimos meses. A porta abriu com um rangido alto, fazendo doer os meus ouvidos. Virei minha cabeça em direção a porta, sabia que estava drogada o bastante para não ter a capacidade de correr e fugir – muito menos de atacar alguém -, então me mantive tranquila. De lá, três enfermeiras entraram no quarto, todas com um uniforme largo e verde; elas me fitavam com pena e firmeza.
— Hoje é seu dia de sorte, menina – uma delas me disse enquanto me ajudava a levantar da cama.
Sempre que me movia, sentia meu peito doer, como se a cicatriz abrisse a cada movimento meu. Porém, ela havia se fechado e nunca mais aberto. Minhas enfermeiras viviam me dizendo que minha cicatriz, na verdade, era mais mental do que física. E me senti fraca por nutrir meus traumas ao invés de tentar superá-los.
Elas me conduziram pelo corredor, duas enfermeiras ao meu lado, me ajudando a andar e outra na minha frente, guiando o caminho. Passamos por tantos corredores, dobramos mais de sete esquinas entre um corredor e outro. Parei de contar, era perda de tempo, nunca decoraria o caminho de qualquer jeito.
Não sabia para onde estava indo, mas normalmente me levavam para o pátio, onde ficávamos ao ar livre, em um campo cheio de mesas com tabuleiros de jogos tatuados e cadeiras de madeira fraca. Acompanhei as três enfermeiras de boa vontade, mesmo com a dor em meu peito, sabia que seria mais doloroso e demorado se eu imitasse uma mula teimosa e empacasse.
Como previsto, viramos mais uma esquina de corredor e seguimos por este até que uma porta aberta revelava o pátio e os raios solares que trazia a única beleza do local. Pisquei meus olhos com força até os mesmos se acostumarem com a claridade enquanto me guiavam até uma das mesas que ali estavam.
Sentei em uma das cadeiras. As enfermeiras me lançaram um olhar duro, e eu entendi que não deveria sair dali até segunda ordem. Assenti em resposta e, surpreendentemente, elas saíram do local e me deixaram ali. Sozinha. Engoli em seco e olhei ao redor, ansiosa. Meu rosto provavelmente não nutria um tom saudável e minha feição deveria estar pior, porém, o local me mantinha apreensiva por si só, fazendo com que minha aparência fosse insignificante.
Esperei por alguns minutos por algo, mas nada acontecia, então cruzei meus braços em cima da mesa e afundei meu rosto no meio destes, fechando os olhos com força. Flashes corriam por minha memória. Lembro-me das mortes, do golpe, das rimas nas paredes... O cheiro adocicado que parecia ter impregnado em minhas narinas, fazendo-me sentir aquele odor repugnante a todo mundo. Eram coisas difíceis de recordar, porém, meu cérebro o fazia constantemente.
O rosto das pessoas que eu conhecia criava vida em meus sonhos, eles sorriam para mim e me diziam coisas confortantes antes de se tornarem pálidos e sujos de sangue. Senhor Franco, Amora, Lucian, Grace... Estavam mortos. Mortos por simplesmente ter alguma ligação comigo, com toda a confusão em que participei. Eu me culpava por eles, me culpava por não ter chegado a tempo de salvá-los antes do Diabo-Branco por um fim na vida e na paz que aquele casarão representava.
Ouvi um som rouco. – Emília? – Congelei. Aquela voz.
Levantei minha cabeça lentamente enquanto meu corpo começava a tremer. Não era uma sensação ruim, contudo, fora uma surpresa grande demais para mim. Senti minha garganta doer e meus lábios arquearem em um sorriso involuntário. Meus olhos ficaram marejados em seguida, mas não consegui me mover, não mais.
Em minha frente, de pé, perto da mesa, uma garota me encarava com um olhar recheado de nostalgia. Seus cabelos estavam compridos e negros, lisos; seu rosto parecia mais maduro, seus olhos mais centrados e não confusos e perdidos como eram antes. Suas vestimentas eram simples e brancas, com tons de cinza na saia. Ela transmitia uma confiança única. – Você voltou.
Ela sorriu lindamente. – Voltei, procurei por você por muito tempo.
Quase engasguei.
— Muito tempo? – franzi o cenho, não fazia ideia de quanto tempo havia passado.
— Sim, desde o dia em que acordei e não via nem a sombra de Caleb ou a sua, já faz cinco anos.
— Cinco anos – repeti, distante.
— Procurei por vocês, mas não encontrei nada, nenhuma pista. – Ela sentou-se na cadeira disponível, de frente para mim – Então fui para aquela vila que visitamos e um casal de idosos me acolheu. Eu não queria abandonar vocês, por isso, tentei ao máximo encontrá-los. Depois de dois anos, eu pensei em desistir. – Ela me encarou séria e eu retribui o olhar com a mesma seriedade – Mas ouvi falar de você, de histórias sobre um casarão isolado. Presumi de quem se tratava e busquei informações, precisava delas.
— O que ouviu sobre mim? – questionei, curiosa.
— Ouvi que você assassinou uma família inteira, que cometeu atrocidades, que era louca.
A feição dela era de repulsa.
— Mas eu sabia que você nunca faria isso – continuou ela. – Por isso não desisti. Até que um dia me avisaram sobre este lugar... Vim assim que pude.
— Eu não matei ninguém – falei fracamente – O Diabo-Branco matou, ele me fez ver tudo aquilo e... Lucian morreu em minha frente, ele estava na banheira... – Solucei, minha visão foi embaralhada pela quantidade de lagrimas que escorriam de meus olhos – Depois eu entrei no espelho e o Diabo fincou uma espada em meu peito. – Apontei para o local, secando minhas lagrimas com a outra mão. O rosto da mulher em minha frente era de solidariedade. – Eu não sei como sobrevivi, mas lembro de Caleb estar lá também, ele estava tentando me salvar.
— Sinto muito, Em – ela estendeu sua mão para mim e eu coloquei minha mão na dela, fazendo nossos dedos se entrelaçarem – Sinto de verdade, foi uma grande perda.
— Depois eu acordei nesse lugar, sem saber como, ninguém conversa comigo direito sobre – molhei meus lábios – Meus médicos dizem que foi tudo uma invenção da minha cabeça, mas... Você é real, está aqui na minha frente.
— Nunca mais viu Caleb? – ela me perguntou timidamente.
— Não – respondi – as vezes penso se ao menos ele ainda está vivo.
Ela sorriu. Um sorriso bondoso antes de uma careta invadir o seu belo rosto. Notei que ela olhava através de mim; olhei para trás e vi que uma enfermeira acenava pra ela, indicando que o tempo estava acabando. Lamentei mentalmente, gostaria que aquele momento durasse para sempre.
— Bom – ela começou – devo partir, mas prometo aparecer sempre aqui e – suspirou, soltando minha mão. – Tentarei te tirar daqui o quanto antes.
Assenti. – Agradeço. – Sorri – Mas... – A vi se levantar – Antes de ir... – Ela me olhou nos olhos e eu me levantei também, avançando nela em um abraço apertado.
Ouvi a enfermeira berrar algo lá atrás, mas não lhe dei ouvidos, pois senti os braços da garota retribuírem o meu abraço. E por alguns instantes, tudo ficou bem. E então, algo me puxou para trás, me afastando da minha visitante.
— Por favor – disse enquanto estava sendo levada para longe dali – Me diga o seu nome! – gritei enquanto tentava parar a enfermeira. Ela era forte demais para mim. A imagem da garota se tornando cada vez mais distante me apavorou e comecei a suar frio.
— Artemísia! – ouvi a voz dela, distante, como um eco. Sorri.
........
Meu cenho se franziu assim que ouvi um tilintar. Abri um olho e em seguida outro, tudo ainda estava escuro. Era noite. Mais um ano havia se passado, eu sabia disso naquele momento, afinal, as visitas cada vez mais frequentes de Artemísia eram bem informativas quanto a passagem de tempo. Estranhamente, eu me sentia a mesma pessoa de antes. Curiosa, presa, quieta.
Por mais que Art tentasse me tirar das garras destas enfermeiras, era impossível, visto que não éramos oficialmente parentes. Por fim, me conformei com a minha vida nesse tipo de prisão. E me contentei com as histórias de vida de Art, que constituiu uma vida boa e conquistou seus sonhos com o tempo. Através dela, fiquei sabendo que seus quadros eram famosos e isto a ajudava a viajar para lugares belos e diferentes. Estava feliz por ela.
Voltei a realidade rapidamente, ouvindo outro tilintar. Olhei para cima e notei que havia algo na janela de vidro. Esfreguei meus olhos, tentando enxergar algo em meio a escuridão que me cercava. Após encarar tanto a janela, a sombra que me encarava através dela me fez segurar um grito.
Permaneci um tempo paralisada, com as mãos na boca, olhando fixamente para a forma que me encarava de volta com um sorriso leve e familiar nos lábios. Lentamente, removi minhas mãos da minha boca. Engoli em seco e sorri fracamente. – Pai? – o reconheci. Seu rosto parecia o mesmo, suas características permaneciam as mesmas desde a primeira vez que o vi.
— Está tudo bem, estou aqui, vamos para casa – ele me assegurou com um sussurro.
E, de alguma forma, estas palavras foram o bastante.
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