Colore-me
1 VIVA À COR
Notas iniciais
Eu gostaria de poder parar o tempo. Congelar os instantes e poder me mover. Num momento de felicidade, que pudesse observar-me e que pudesse reparar no olhar das pessoas me vendo.
Como esse é um mundo diferente, eu ainda não posso fazer isso.
É decepcionante, de certa forma, porque não podendo parar o tempo, os dias avançavam cada vez mais e mais. E as datas festivas chegavam rápidas e, quando menos se espera, você está prestes a se tornar o desastre da família.
Meu aniversário de vinte e um anos estava a dias de acontecer e eu ainda não era casada. Você está aí pensando: “Grande coisa!” Mas você não entende.
Nesse belo mundo que vivo, todos possuem uma alma gêmea. Isso é meio estranho de dizer, e até pensar. Ficar com uma pessoa pelo resto de sua vida? Parece surreal. Inimaginável. Mas acontece.
Aqui vivemos em par. Oito bilhões de pessoas. Todos, em sua corrida pela vida, procurando achar alguém que os complete.
Não encontrei meu par ainda. E estou prestes a ter vinte e um.
— Isso não é tão ruim quanto soa — disse-me minha mãe, uma vez. É fácil para ela dizer, encontrou meu pai aos doze anos e, desde então, vive casada.
Todavia, eu podia sentir a firmeza em sua voz ao dizer que, claramente, estava tudo bem. Meu pai aceitava isso de boa, ainda mais, porque ele não me queria ver casando logo. Porém, como em todo caso, meus familiares, os mais ricos que nós, achavam que eu devia ser deserdada.
Só por não ter encontrado minha alma gêmea ainda. Isso soa muito mais absurdo do que realmente é.
Até minha irmã careta, Sleep, de quinze anos já tinha encontrado sua alma gêmea. Ela caçoava de mim, muitas vezes, até eu me estressar e fazê-la parar.
De uma forma pouco pessoal, gostava de dizer a mim mesma que minha alma gêmea estava prestes a nascer — o que seria, muito, muito estranho —, ou havia sido baleada em um beco qualquer. Minha irmã costumava rir.
Foram duas batidas na porta que me fizeram desconcentrar do computador. Essas batidas me lembraram de que a cadeira estava extremamente desconfortável e que minhas costas não estavam gostando.
— Quem é? — eu gritei, ainda encarando o monitor.
— Eu — ouvi a voz reconhecível de minha irmã mais nova, Sloth. Percebi a maçaneta girando-se com cuidado e logo sua pequena cabeça estava para dentro de meu quarto. Os cabelos azuis escuros de Sloth caiam por cima de seu olho e ela sorria sapeca.
— O que foi? — perguntei, girando a cadeira em sua direção.
Sloth abriu mais a porta, de forma que seu corpo pudesse entrar também.
— Mamãe disse que é minha vez de usar o computador — falou ela, balançando o corpo detrás para frente.
Sloth era cinza. Não tão escuro e nem tão claro.
Sloth era cinza e seus cabelos e olhos eram azuis.
Sloth não era a única pessoa cinza. Minha mãe era cinza e meu pai também. Até minha irmã Sleep era cinza.
Eu enxergava todas as pessoas cinza. Não que eu fosse daltônica e enxergasse diferente de todos.
Mas no nosso mundo, só enxergamos nossa alma gêmea com cor. Assim como só nossa alma gêmea pode nos enxergar com cor, além de nós mesmos.
Eu sempre me perguntei o porquê disso. Qual a necessidade de não enxergamos os outros como realmente são? Minhas questões perturbavam bastante minha mãe quando era pequena.
— É o amor, minha querida — ela respondia, sorrindo, e eu ainda lembrava-me de sua impaciência ao contar sempre a mesma coisa —, só podemos ver aquela pessoa que estamos destinados a viver para sempre com cor.
— Mas por quê? — eu continuava perguntando.
— Para que tenhamos olhos somente para ela — minha mãe respondia isso. Hoje tenho quase certeza de que ela usava esses argumentos, porque nem ela mesma sabia o sentido disso. Mas hoje em dia, também, parei de lhe encher com minhas perguntas racionais.
O amor era irracional.
Ter encarado Sloth por um longo período de tempo a fez ficar impaciente. Ela se aproximou, passo a passo, com cuidado, até chegar ao meu lado e espiar o que eu estava fazendo na internet.
— Você vai sair? — ela ajoelhou-se ao meu lado e apoiou sua cabeça em meu colo, espalhando seus cabelos tão parecidos com o meu. Ela queria cafuné.
— Sloth — chamei-a e ela olhou para mim, com os olhos esperançosos. O que esses jogos online fazem com as crianças? — Tenho que fazer umas pesquisas de preço, só mais tarde.
Sloth deu de ombros e continuou com a cabeça em meu colo. E soube que eu quem não tinha alternativa, então, comecei a afagar-lhe os cabelos com uma mão, com a outra, continuava minha busca no navegador.
¨¨¨
Foi um pouco mais tarde quando minha mãe apareceu na porta de meu quarto, exatamente como Sloth havia feito. Ela sorriu e encostou-se à patente.
— Tá tudo bem? — perguntou.
Minha mãe era a culpada de ter dado a mim e Sloth os cabelos azuis. Os dela eram um pouco mais escuros que o de Sloth. Eu costumava dizer que o meu tom era o céu de manhã, por ser o mais claro, o de Sloth era o céu da tarde e o de minha mãe, a noite.
— Sim — eu disse, desviando meus olhos do monitor para encará-la.
Percebi que os olhos de minha mãe recaíram sobre Sloth, que ainda estava apoiada em meu colo, dormindo tranquilamente.
— Ela dorme em qualquer lugar mesmo, não é?
Concordei e nós rimos de leve.
— Quer que a tire? — mamãe perguntou novamente, ajeitando a postura.
— Quero.
Minha mãe conseguiu pegá-la, apesar de reclamar do peso de Sloth, e levou-a do quarto, indo em direção ao da garota. Após deixá-la por lá, minha mãe retornou, ainda sorrindo.
— Sequer acordou — informou. Balancei a cabeça incrédula. Sloth era uma criança incrível. — Logo o almoço estará pronto. Vem comer.
Foi assim que minha mãe deixou meu quarto. Levantei-me para fechar a porta e concentrei-me novamente em minhas pesquisas de preços para o serviço.
Eu trabalhava na empresa de meus pais, e que futuramente passaria a ser minha. E de Sleep. E de Sloth. Eu assumiria primeiro por ser a mais velha das três, e quando alcançassem a idade certa, me ajudariam no administrativo.
Isso me irritava um pouco. Não que a empresa fosse passar a ser de Sleep e de Sloth também, mas sim, a parte administrativa. Chegava a ser cansativo e até mesmo chato. Mamãe estava me fazendo aprender tudo com sem sequer, um curso adequado. Mas tudo bem, eu precisava mesmo aprender.
Quando estava prestes a terminar, meu celular vibrou em cima da mesa. Fiquei tentada a checá-lo, e foi o que fiz. Com o objeto em mãos, fui em busca do porquê ele havia vibrado.
Descobri que fora uma mensagem de Hap, meu amigo do trabalho.
“Quer fazer algo hoje? -Hap J”
Batuquei as unhas na mesa e balancei as pernas por debaixo delas. Não sabia o que responder. Eu queria fazer algo hoje, até porque estava muito tedioso ter que fazer o trabalho, entretanto, alguns familiares chegariam no fim do dia.
Demorei mais alguns minutos, raciocinando, antes de dizer:
“Com certeza, tem algo em mente?”
De jeito maneira, não estava preparada para encarar minha própria família dizer que eu era, absolutamente, o desgosto em pessoa.
Nas mensagens seguintes, combinei de me encontrar com Hap dali duas horas na esquina de casa.
Coloquei o computador para hibernar e caminhei até a sala de jantar, devido o cheiro que me chamava até ela. Minha mãe já estava sentada, assim como meu pai. Sloth provavelmente não viria comer e Sleep não estava em casa.
Sorri para meu pai e sentei-me de frente para ele. Meu pai tinha os cabelos castanho-escuros, porém estavam esbranquiçados. A velhice estava chegando para ele.
— Como foi o trabalho?
Meu pai continuou servindo-se, enquanto me respondia:
— Cansativo — falou por fim, suspirando —, aquela mulher, a Red, está me dando nos nervos.
— O que foi dessa vez? — minha mãe intrometeu-se, preocupada.
Servi-me, para hoje, nossa cozinheira havia preparado um risoto de frango, em grande quantidade, para que sobrasse para nossos parentes que estavam chegando.
— Está querendo nos processar — confessou papai —, acreditam? Só porque ela engordou e não quer pagar o concerto do vestido.
Mamãe balançou a cabeça em desapontamento. Comecei a levar o garfo à boca, ainda os observando. Entre bebidas de refrigerante, observei meus pais se observarem, agora calados.
Juro que nunca me senti tanto em vela.
De certa maneira, acho que esse era o legal do amor e da alma gêmea. Se lhe encontrássemos, nossa corrida em busca do amor acabaria e, finalmente, nossa vida conseguiria dar uma acalmada. Mesmo que por dentro, ainda fosse uma agitação.
Isso me causou inveja.
Em nossa sociedade, não estar casada até os vinte e um significava vergonha para os pais, e até mesmo, para a família inteira.
— Vou sair com Hap daqui à uma hora — resolvi dizer, para quebrar o silêncio. Continuei comendo encarando o prato.
Mamãe encarou-me, surpresa.
— Consegue voltar a tempo de buscar seus tios no aeroporto conosco?
— Que horas? — questionei, mexendo a comida.
— Às cinco — papai respondeu por ela. — Mas, querida, se não quiser ir, não tem problema, você sabe.
— Tudo bem — assenti.
O clima voltou ao normal, um tempo depois, enquanto terminava minha comida, papai continuava a contar-nos sobre Red e o caso Red. Acabei dando boas gargalhadas com ele e depois de um tempo, levantei-me e levei-me ao banheiro.
Preparei uma banheira com minha fragrância preferida.
Depois de me despir, passei bons momentos com o corpo sob a água, enquanto refletia e me limpava. Logo, pude ouvir as batidas de minha mãe na porta do banheiro, me apressando para sair.
Deixei a água sair pelo ralo e enrolei-me na toalha, enquanto encarava-me em frente ao espelho. Vi uma garota pálida e dos olhos fundos encarar-me de volta. Respirei fundo, deixando o banheiro.
Após sair, dei de cara com Sleep, impaciente.
— Finalmente, mocinha. Tô quase me mijando toda aqui.
Eu ri e Sleep adentrou o banheiro com rapidez. Corri para o meu quarto e separei minha roupa.
Nossa família não era pobre. E nem tão rica. Éramos uma classe média alta. Tínhamos nossa empregada que também era cozinheira, porém, nossa casa não era tão grande assim. Isso não me incomodava, e sequer, a minhas irmãs, porém nossos pais, às vezes pensavam em se mudar. De nossa família inteira, éramos os únicos com a casa nem tão grande.
Sem saber para aonde Hap e eu iríamos, optei por escolher meu vestido xadrez vichy preto. Uma meia-calça escura e meus coturnos também pretos. Resolvi não mexer nos cabelos.
Depois de deixar o quarto, dei-me com minha mãe.
Ela sorriu, ao ver-me arrumada.
— Conseguirá voltar até às cinco? — perguntou e comecei a afastar-me, indo em direção à porta.
— Vou tentar fazer o possível — respondi e sorri.
Deixei nossa casa, logo após isso.
Hap era uma abreviação de Happy. Nós ganhávamos nomes de expressões, sentimentos, vontades, tudo no abstrato, e até mesmo cor. Mamãe queria combinar o nome das três filhas, e foi por isso que o meu acabou sendo Dream, e o de minhas irmãs Sleep e Sloth. De certa maneira, há uma forma de como eles coincidem.
Gosto disso.
Sair na rua me dava uma sensação muito estranha, mas eu já estava acostumada. Enxergar todas as pessoas cinza, no meio de várias coisas coloridas, meio que nos ofuscava. Nossos cabelos eram as únicas partes de nós que os outros podiam enxergar como realmente eram.
Diversos estilos e cores diferentes. As pessoas não se preocupavam em esconder o seu “verdadeiro” eu. Nossos cabelos eram nossas fontes de inspirações e que demonstravam quem nós éramos. Eles abusavam da criatividade.
Mamãe nunca me deixou pintá-lo, apesar de conseguirmos as cores que desejamos com precisão, nossos cabelos voltavam ao natural em pouco tempo.
Quando virei à esquina, logo avistei Hap. Ele acenava, buscando minha atenção. Atravessei a rua com cuidado e lhe dei um abraço.
— Você me salvou hoje — falei, respirando fundo. — Minha família está vindo e você sabe...
O cabelo de Hap era preto. Ele usava uma espécie de dreads em seu cabelo longo. E assim como eu, vestia roupas pretas. E claro, o seu casaco de couro.
Hap o supervalorizava desde que eu o havia dado de aniversário. Fora o primeiro presente que tinha lhe comprado. Eu costumava repudiá-lo e chamá-lo de idiota. Trocávamos muito insultos, até que começamos a trabalhar no mesmo local. A loja de vestidos de meus pais.
— O que faremos? — indaguei, ansiosa. Hap curvou seu braço e encaixei o meu no dele, assim, pudemos caminhar mais confortáveis.
Hap pareceu animar-se com minha pergunta.
— Inaugurou um lugar muito maneiro — contou ele —, e pra te tirar dessa depressão pré-vinte e um, vou te levar lá.
Eu ri.
— Vai me casar com alguém qualquer?
Hap deu de ombros e aproximou-me mais.
— Se você quiser.
Continuamos andando por mais alguns minutos, enquanto eu lhe contava que meu pai estava tendo problemas com a noiva Red, que eu e Hap havíamos ajudado a escolher o vestido. Hap riu e ficou incrédulo com a história.
Depois, não sabia mais o que dizer e ficamos em silêncio alguns segundos.
— Como andam as coisas com Rox?
Hap ergueu as sobrancelhas, em dúvida.
— Roxo? — perguntou e eu assenti. — Vão normais — deu de ombros. — Ela talvez venha me visitar mês que vem — ele sorriu.
Enquanto comemorava com Hap, senti, novamente, àquela coisa da inveja. Porém essa era uma inveja onde eu estava feliz. Pelo menos meu amigo Hap, poderia ter seu amor em braços.
E não em um oceano de distância.
O que no meu caso é, a conhecimento de distâncias. Começara realmente a acreditar que ele havia sido baleado ou vagava por terras distantes.
Falamos sobre Rox até chegarmos ao local que Hap tinha combinado. Pegamos uma pequena fila, por ter inaugurado há pouco tempo. O nome do local era “VIVA À COR” e pela minha percepção, pessoas mais jovens que eu estavam presentes.
— Nome e idade? — um garoto pediu, quando alcançamos o começo da fila. Ele estava com uma prancheta na mão e parecia muito entediado com seu trabalho.
— Happy, 19.
— Dream, 20.
O rapaz anotou nas folhas com preguiça. E depois de perceber que era eu quem tinha 20 anos, sorriu de lado, debochado.
— Esse não parece um bom lugar para quem é casado — disse, em um tom que me irritou profundamente. Por não ter me visto sorrir, ele acrescentou: — Oh! Não são todas as pessoas que têm sorte de casar cedo, não é mesmo?
Eu já podia sentir às milhares de células do meu corpo pedindo para tapeá-lo pela falta de respeito. Minhas bochechas ficaram vermelhas, o que causou o risinho dele.
— Quanto é mesmo? — cortei o seu barato. Pelo canto do olho pude perceber Hap encarar-me preocupado. Ele sabia que eu estava prestes a fazer algo, ou ofender o querido em minha frente.
— Para os já casados, saí 35 — informou. — Para os solteiros, é somente 20.
Hap lhe entregou 35 e entreguei-lhe os meus 20.
— Ele foi um idiota mesmo — foi a única coisa que ele disse, respirando com calma.
Fiz minha melhor cara de bunda ensaiada.
— Eu sei, porque as pessoas simplesmente não aceitam que as outras não casem aos vinte e um?
Hap deu de ombros e apertou meu nariz gelado.
— Não se apague à isso, Drê.
—Tudo bem — falei, tentando esquecer o desprezo há poucos segundos.
Hap sorriu e nós rimos.
— Agora vamos — pediu Hap, um tempo depois. — Viemos aqui para nos divertir.
Estávamos em uma sala totalmente branca, por ela havia uma porta e dois seguranças ao seu lado. Aproximamo-nos e eles sorriram, abrindo a porta gigante.
Uma fumaça atóxica me cercou no momento que a porta foi aberta. Adentramos o local, aos cuidados, e vi a coisa mais linda.
Havia cores, muitas cores, diversas cores. Cores lindas. As pessoas dançavam engajadas umas as outras, com seus rostos pintados enquanto uma música eletrônica alta tocava. As cores eram de neon, o que deixava tudo mais incrível e chamativo.
A criatividade por ali não perdia a vez. Isso nos dava uma vida. Quase não percebi que todas as pessoas ali dentro eram cinza.
Abracei Hap de lado e nós sorrimos, entrando naquele mundo que, no momento, desejei não sair mais.
Não posso dizer que não fui eu mesma ali dentro, porque enquanto eu dançava embalada pela música eletrizante, eu senti que, qual é, eu não precisava de um homem para ser feliz. Não precisava achá-lo.
Não sabia que horas eram quando Hap disse que estava cansado. E ele realmente aparentava estar. O suor começava a escorrer e seus cabelos escuros estavam começando a ficar molhados.
Eu poderia ficar ali para sempre — o que soa bem vadio —, mas aceitei ir embora.
Na saída, evitei contato com o rapaz que havia me desrespeitado quanto meu estado civil. Passei reto e com o rosto erguido, acompanhado de um belo sorriso no rosto.
— Você parece melhor — notou Hap. Já estávamos caminhando de volta para nossas casas. — Isso te ajudou?
— Com certeza — disse ainda animada. — Muito obrigada, Hap. Você é o melhor amigo que poderia pedir.
Ele encolheu os ombros e sorriu.
— Eu tento o melhor.
Abracei-o por espontaneidade. Depois nós rimos.
— Você está soada — ele comentou—, isso foi nojento.
— Ei!
— Nada mais que a verdade.
Quando chegamos à esquina de minha casa, não o abracei novamente. Ao atravessar a rua, ouvi o meu nome ser gritado.
— Drê! Dream!
Virei-me e dei com Hap acenando, de novo. Ele atravessou a rua correndo e parou de frente a mim.
— Achei isso — ele disse, retirando um objeto do seu bolso. — Queria te dar para comemorar dois anos de amizade.
Peguei o objeto.
— Uma presilha? — arqueei as sobrancelhas, contendo um riso. — Aonde você achou isso?
— Eu comprei — ele falou. — Não falo aonde exatamente.
Dei de ombros.
— Tudo bem. Você sabe que nossos dois anos de amizade se comemora daqui uma semana, certo?
Ele pareceu surpreso.
— Droga! Eu sempre fui ruim com datas.
Ri.
— Tudo bem — sorri. — Obrigada.
— Agora eu preciso ir — ele disse. Assenti e Hap retornou em seu caminho para sua casa.
Foi minha vez de acenar.
Depois que Hap sumiu de minha vista, observei atentamente a presilha de cabelo que havia me dado. Uma presilha azul que combinava com meu cabelo. Havia duas bolinhas vermelhas decorando.
Guardei no bolso, planejando testar quando chegasse em casa. Aproveitei e olhei no relógio do celular. 16h54m. Se eu corresse, talvez desse para pegar meu pai e minha mãe indo buscar nossos parentes.
Não corri. Andei o mais devagar possível.
A rua de volta para casa estava deserta, como sempre. Um casal passou por mim cheio de “mi mi mi”, o que me deixou enjoada.
Prestes a entrar em minha casa — cujo carro de meus pais estava ainda ali —, vi algo muito interessante. Uma garota corria. Ela passou por mim e virou uma esquina.
Sei exatamente porque corri atrás dela. Nunca me esforcei muito na educação física, na época do colégio, foi por isso que fiquei mais para trás. Mas corri bem, o que me orgulhou. Mas não corri perfeitamente o possível, porque, prestes a pular uma lata de lixo, minha perna enganchou e dei de cara no chão.
Doeu. Doeu muito. E quase gritei. Por sorte meus dentes ainda estavam em minha boca, mas eu podia sentir o sangue escorrendo. O enjôo que senti há pouco tempo voltou e comecei a me acabar ali no chão mesmo.
Ainda fraca apoiei minhas mãos no chão e tentei levantar. Falhamente. Quando consegui reerguer-me, minhas pernas bambearam com a possibilidade e cai no chão.
Dessa vez minha cabeça foi a principal atingida e eu fui engolida pela escuridão.
Tentei manter-me acordada no pensamento. Eu havia mesmo visto minha alma gêmea correndo por aí? E ela tinha a pele mais escura que a minha? Será que era bonita? Era uma mulher?
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