Notas iniciais
Motivos do atraso do capítulo: vestibular. E resolvi atualizar uma outra fic minha, que estava criando teia de aranha. De qualquer modo, aqui está a criança. Aproveitem, porque finalmente vai ter pegação. *flies away*

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VII

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Quando Shisui voltou a acordar, já não sabia onde estava – no mundo real ou em um sonho. Porém, já havia entrado bastante da primeira luz da manhã no quarto para que ele pudesse ver o papel de parede azul-claro e manchado e a cruz pregada no alto da parede. Então estava no quarto deles, debaixo de camadas quentes e pesadas de cobertores, profundamente enterrado no colchão de estopa, tão confortável que sentiu como se todas suas forças tivessem se esvaído durante a noite, e isso não era de maneira alguma ruim. Poderia ficar naquele estado de letargia por dias.

Mas o que o acordara?

Shisui ainda estava abraçado em Itachi, que havia afundado em seu gulag de cobertas até os olhos fechados tornarem-se a única parte visível de seu rosto; o que o acordara? Não estava com vontade de fazer xixi... não muita, pelo menos, então o que...

Uma mão entrou em seu campo de visão, enrugada e escura, para tocar a testa de Itachi. Nan Melda estava acima deles, com um penhoar por cima da camisola amarelo-milho. Ficou com a mão pressionada ali durante um tempo, e depois, com uma delicadeza que definitivamente não era comum à sua pessoa, tirou uma mecha de cabelo do rosto dele e a empurrou para trás da orelha.

Em seguida, endireitou-se e seus olhos encontraram-se com os de Shisui. Ele estava plenamente consciente de que o jeito como envolvia Itachi, praticamente colado a ele, um braço passando possessivamente por seu pescoço, não deveria parecer nem de longe inocente como realmente o era. Porém, ele não conseguiu largá-lo. Por um bom tempo, não conseguiu nem se mexer. Os velhos olhos da governanta pareciam tê-lo congelado naquela posição, como se ele estivesse olhando a própria Górgona no rosto.

Passou-se um bom tempo em que os dois ficaram assim, encarando-se sem dizer nada, e quando Nan Melda retirou-se bruscamente, o quarto ainda estava naquela penumbra pré-alvorada das cinco da manhã, mas ficando mais claro, mais claro.

A temperatura interna de Shisui parecia ter despencado 30 graus. Sentia-se despido, como se o olhar dela houvesse penetrado na parte mais profunda de sua alma. E um temor tomou conta dele ante a ideia do que ela poderia ter encontrado lá.

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Itachi encontrava-se acordado quando Shisui voltou do colégio. Uma pequena árvore de Natal natural em que já começavam a despontar as agulhas fora colocada na sala e meias foram fixadas ao longo da parede, numerosas demais para serem postas somente sobre a lareira. Ele estava sentado no sofá, enrolado até o queixo em uma colcha e – para variar – concentrado em um livro de Sociologia Estatística.

Shisui arrancou o livro dele.

– Me devolve isso, Shisui.

– Você não pararia de estudar nem mesmo se estivesse no seu leito de morte, não é? Não iria conseguir. – Sentou-se ao lado dele. – Como está se sentindo?

– Consideravelmente melhor – ele fungou –, embora eu tenha ganhado uma dor de garganta.

Ele não se lembra de ontem à noite.

– Sua voz tá bem escrota, mesmo.

– Nan Melda está me fazendo beber xarope de própolis de hora em hora, e de vez em quando vem checar se estou suficientemente aquecido. Fico grato, mas gostaria que ela parasse. Não sou uma criança, e todo esse excesso de cuidado é desgastante.

Tocar no nome de Melda o fez sentir-se desconfortável, mas não deixou transparecer em seu sorriso.

– Ora, então o garotinho pensa que já é um homem? – perguntou, abrindo a mochila. – Não tenha tanta pressa assim para crescer, Itachi, o ginásio não é tão legal quanto parecer ser.

Tirou um maço de folhas de papel e o depositou no colo dele.

– Isso...

–... é o que você perdeu de aula hoje, sim. Por favor, não me mande flores.

Itachi riu, mostrando brevemente seus dentes separados, e em seguida começou a tossir.

– Opa, calma lá – Shisui bateu nas suas costas. – Talvez seja melhor você ir se deitar.

– Passei a manhã inteira dormindo, não sinto nenhuma vontade de voltar para lá.

– Então não durma, apenas faça-me companhia enquanto travo uma luta de vida ou morte com o monstro de sete cabeças que é meu dever de casa dessa semana.

Pegaram suas coisas, conversando despreocupadamente, e Shisui sentiu que as coisas estavam, talvez, voltando a ser como antes. Aquilo alegrou seu coração com uma felicidade e alívio indisfarçáveis.

Até o momento em que encontraram Nan Melda descendo a escada. Ela olhou-os com uma expressão vazia.

– Ah, Shisui, tava mermu isperânu tu chegá – disse. – Pricisu falá com tu.

A sensação boa de Shisui começou a ir embora. Quase conseguia senti-la voando pelo alto da cabeça, como se fosse um passarinho. Ou morcegos numa torre.

– Te vejo depois – murmurou para Itachi, que olhou para ele e depois para a governanta, e novamente para ele. Era um garoto perceptivo, e sentiu a tensão que subitamente aflorara ali, mas acabou indo, segurando seus papeis contra o peito.

Como se numa repetição da cena daquela manhã, eles se encararam longamente, nenhum dos dois falando nada. Sustentar o olhar dela talvez tivesse sido a coisa mais difícil que Shisui recordava de fazer, mas não os desviou. Sabia que, se o fizesse, pareceria culpado, e parecer culpado seria o fim.

Por fim, Melda quebrou o silêncio:

– Queru aquelas cama separada. Tendeu?

– Por quê? – Shisui perguntou.

Ela estreitou seus olhos de córneas amareladas para ele.

– Tu acha u quê, fedelhu? Qui eu sô idiota? Pois ti digu uma coisa, num sô. Num vô permiti essa sacanagi dibaixo dessi teto, tendeu? Ninhum docêis é mais criança pra usá di discurpa pra fazê issu.

Sacanagem, Shisui pensou, inquieto.

– Separa as cama – ela repetiu. – Agora, sai da minha frenti.

Ele saiu. Foi para o quarto, encontrando Itachi às voltas com seu material de estudo, os papeis esparramados sobre as camas.

Ele ergueu a cabeça.

– Então? – perguntou. – O que ela queria?

Shisui colocou a mochila sobre a mesa e sentou-se em frente a ela.

– Pediu para passar no mercado para comprar umas coisas – disse, retirando seu dever de casa. – Alvejante e não sei mais o quê.

– Posso ir junto?

Shisui virou-se para olhá-lo.

– Você quer se matar, Itachi? Seja sincero.

– Quero apenas dar uma volta. Passei o dia inteiro trancado aqui dentro.

– A porta não estava trancada quando eu cheguei.

– Você me entendeu. Nan Melda ficou rondando à minha volta o tempo todo. Não me deixou nem mesmo sair para o pátio.

– Bem que ela fez.

– Por favor, Shisui?

Itachi sorria-lhe amavelmente, e seu coração deu um salto. Shisui virou-se bruscamente, mordendo o lábio, rezando para que o amigo não tivesse visto o rubor que começara a avermelhar suas orelhas.

– Vou pensar no seu caso – disse, sabendo que já cedera. Itachi também, pois voltou a atenção à papelada que Shisui lhe trouxera.

Ele terminou seu dever de casa muito antes que Shisui, e depois ajudou o amigo quando ele começou a disparar uma enxurrada de imprecações direcionadas ao professor Sarutobi e ao sistema de ensino. Com a intervenção dele, o trabalho andou muito mais depressa. Às vezes, Shisui desconfiava (na verdade, tinha quase certeza) que um dos motivos para ele ser um dos poucos amigos de Itachi, muito possivelmente o único, era o hábito dele de ser bom em tudo. Era frustrante, e terrivelmente insuportável logo depois que ficaram amigos, mas Itachi era esse tipo de sujeito que sabe fazer tudo melhor do que os outros, e Shisui por fim aprendeu a não esquentar a cabeça com isso. Era até mesmo vantajoso. Não muito depois de ele ler a proposta do professor e espiar rapidamente o livro didático, estava terminado.

– Obrigado, cara – disse com sinceridade. – Não sei o que aconteceria comigo sem você.

– Provavelmente iria ter de repetir uns dois anos – foi a resposta de Itachi.

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A tarde estava perto do fim quando foram para a sala. Não voltara a nevar, mas era apenas uma questão de tempo até isso acontecer, pois o céu tampouco clareara. O anoitecer chegou estranhamente sem sombras, escurecendo rapidamente até, de repente, ser noite. Eles ficaram na sala, assistindo a um filme em preto e branco chamado “A Maldição da Mosca”, que Shisui declarara ser o besteirol mais sem sentido que ele já se sujeitara a ver.

Havia bastante tráfego e pouco vento na rua, mas apesar disso, o supermercado estava fechado. As portas duplas traziam duas placas, cada uma em um vidro, com a mensagem ENCERRAMOS NOSSOS SERVIÇOS MAIS CEDO DEVIDO AO FALECIMENTO DE NOSSO ESTIMADO GERENTE. DESCULPAMO-NOS PELO TRANSTORNO – A EQUIPE.

– Antes ele do que eu – comentou Shisui. – Bom, acho que esse é o fim da nossa pequena e voluntariosa jornada, eu acho.

– E aquele mercadinho 24 horas? – pergunta Itachi.

– Em Kingsfield Pike? Pode esquecer, Itachi. É uma puta caminhada até lá, e você não...

Mas ele já estava indo.

Porra – Shisui grunhiu para ele quando o alcançou. – Se você tiver uma maldita crise de hipotermia no meio do caminho, te enterro no calçamento e lavo as mãos de tudo isso, tá me ouvindo?

Itachi não respondeu; olhava para cima. Minúsculos flocos de neve rodopiavam no ar, muito pequenos e demasiados escassos pra sequer serem levados em consideração, mas Shisui ficou um pouco preocupado mesmo assim.

Kingsfield Pike era uma zona tão pouco populosa que era praticamente deserta. Ninguém no mercadinho salvo eles, e o senhor que os recebeu tinha uma marca vermelha num lado do rosto por ter dormido sobre o balcão. Shisui achou graça ele já estar de pijama debaixo do casaco comprido e ter sobre sua cabeça um gorro de dormir com um pompom na extremidade quando o relógio na parede marcava 00h17.

Compraram alvejante, meia dúzia de sabonetes, fósforos e – por que não? – uma coca-cola para cada um.

– Tudo bem você tomar algo tão gelado? – Shisui perguntou. – Sua garganta parece estar bem fodida.

– Não sei, e não me importo muito. Estou com sede.

Atrás do mercadinho, o campo de vegetação amarelada estendia-se até onde se conseguia ver no escuro, com amontoados de neve derretida e pegajosa do dia anterior aqui e ali. Uma torre de rádio piscava uma luzinha vermelha na distância.

Sentaram-se num banco à beira da rua. Um poste de luz projetava a luz alaranjada de suas lâmpadas de sódio bem sobre suas cabeças, e os flocos de neve voavam pelo ar, ainda pequenos mas agora em maior quantidade, momentaneamente visíveis quando entravam no feixe luminoso e desaparecendo novamente ao serem levados pelo vento.

Itachi bebeu longamente da sua Coca e suspirou profundamente, estremecendo.

– Acho que está na hora de voltarmos – Shisui disse, levantando-se.

– Não. – Itachi pegou seu braço, puxando-o de volta. – Espere um minuto.

Shisui sentou-se, olhando-o cuidadosamente.

– O que foi?

Ele respondeu com outra pergunta, sucinta e direta.

– Você quer namorar comigo?

– Não. – Aquilo o pegou tão desprevenido que a palavra saiu de sua boca sem antes ser analisada pela cabeça. – Não, espera. Que diabos, Itachi, como assim?

Ele desviou os olhos para a coca-cola, e por causa da luz Shisui não pode ter certeza, mas achava que ele estava corando.

– Não me faça repetir.

– Você... por que iria querer me namorar?

– Porque você disse estar apaixonado por mim.

– E daí? – A resposta saiu mais ríspida do que ele queria.

Itachi olhou para ele, uma sobrancelha erguida.

– E daí que a pouca experiência que eu tenho no assunto diz que as pessoas namoram quando estão apaixonadas.

– Pois você ainda tem uma tonelada de coisas para aprender. – Shisui levantou-se. – Caso ainda não tenha notado, você é um garoto e eu sou outro. Não vou namorar você.

– Vai fazer o quê, então? – Gelo infiltrou-se na voz dele. – Vai ficar roubando beijos meus toda vez que eu estiver doente demais para reagir?

Sua boca abriu-se, mas nada saiu dela. O que poderia sair?

– Você tinha pedido – falou afinal.

– E você acatou, sabendo que eu não estava em meu juízo perfeito. – Ele suspirou, parecendo de repente muito cansado. Seu cabelo castanho estava cintilante de neve. – Não que eu esteja criticando-o, mas chegou o momento de você decidir, Shisui. Não podemos continuar assim.

– Não vou decidir porra nenhuma. – Ele estava zangado, mas isso era uma reação ao medo que havia por trás. Iriam ter aquela conversa mais ou menos tardar, mas agora que ela havia chegado, ele simplesmente não estava preparado para tê-la. – E nós vamos continuar assim. Até as coisas voltarem ao normal.

Um triste sorriso chegou à boca de Itachi.

– Ah, sim, poderíamos fingir que as coisas teriam voltado ao normal, mas o fato é: elas não vão. Nunca mais. Não agora que eu me apaixonei por você.

Agora ele estava corando de fato, ainda que não tanto quanto Shisui, que sentiu o sangue quente espalhar-se pelas bochechas, pescoço e orelhas. Os pedacinhos de gelo que pousavam em seu rosto derretiam quase imediatamente.

Observou o amigo levantar-se e ficar à sua frente. A parte de seu cérebro que continuava analítica não gostou de vê-lo com o nariz tão vermelho, quando estava na cara que a febre ainda espiava por uma fresta. A outra, uns bons 80% da capacidade total, concentrava-se exclusivamente naquela frase, que seria repetida várias vezes nos dias que se seguiriam: centenas de vezes, milhares, pelo resto da sua vida.

Não agora que eu me apaixonei por você.

Eu me apaixonei por você.

Por você.

Contudo, antes que pudesse ter a chance de duvidar daquilo ou sequer sentir-se feliz, uma outra voz esgueirou-se para dentro de sua cabeça, muito menos agradável e fria como metal congelado: Num vô permiti essa sacanagi dibaixo dessi teto, tendeu?

– Não – disse, recuando uns três passos. – Não podemos. Não mesmo.

– Por que não?

– Que merda, Itachi,o que você acha? Não vê que não ?

Itachi apenas o olha por um momento.

– Tudo bem – disse. Não parecia feliz, mas estava calmo. – Nesse caso, acho que estou partindo.

– Ótimo – Shisui respondeu de imediato, começando a ir embora.

– Não quis dizer partindo para o orfanato, Shisui.

Ele parou e deu meia-volta.

– Como assim?

Ele e o amigo se encararam, afastados dez passos um do outro.

– Semana passada, o diretor da Trinity School veio à minha escola conversar os alunos com as maiores notas do ensino fundamental. Eu e outras duas garotas fomos chamados para recebê-lo.

Shisui o olhava.

– Ele nos ofereceu uma bolsa para estudarmos lá.

Não disse nada. Não estava bem certo de que conseguiria falar mesmo que tivesse algo a dizer. O modo como Itachi trouxera a notícia do nada lhe roubara as palavras. Trinity School, pensou. Manhattan. No mínimo, uns 1.500 quilômetros daqui.

Percebeu que o amigo esperava que ele se manifestasse.

– Ótimo – conseguiu dizer numa voz baixa e apática. – Bom para você, cara.

– Nada foi decidido ainda – Itachi enfiou as mãos no grande bolso da frente do casaco de moletom –, mas é uma proposta muito boa. Boa demais, na verdade. É certo que as meninas aceitarão...

– E você deveria aceitar também – disse Shisui, bruscamente. – Alguém com miolos tão bons quanto os seus com certeza terá mais valor lá do que aqui.

– Quem sabe? – Ele não parecia muito interessado na possibilidade. – A questão, Shisui, é que vou deixar você escolher por mim.

Ele tentou entender as palavras, mas não conseguiu.

– Eu...

– Sim. Você se recusa a namorar comigo, e o mais provável é que eu arrume minhas malas ainda esta noite. Mas se você mudar de ideia, eu não pensaria duas vezes antes de entregar minha bolsa para outro, e dane-se se estou desperdiçando meus “miolos tão bons” nesta cidadezinha, desde que eu os desperdice ao seu lado.

Aquilo, Shisui percebia, não era uma nenhuma declaração de amor. Poderia parecer absurdo, e ele jamais esperaria uma coisa assim de Itachi, mas aquilo era o que era: uma... uma...

– Isso é uma porra de uma chantagem?

Itachi encolheu-se um pouco. Shisui percebeu isso, mesmo de longe.

– Não diria chantagem – disse, porém sem soar na defensiva. – Estou fazendo você decidir. Você sabe o que quer, mas tem medo de assumir isso.

– Puta que pariu, é óbvio que eu tenho medo! – ele estava gritando agora. – Você não tem? Isso é um inferno de tão arriscado; se as pessoas souberem, é adeus a qualquer chance de uma vida normal. E vão falar disso, se descobrirem. Como provavelmente vai acontecer. Conseguiria aguentar falarem de nós pelas costas o tempo inteiro? Conseguiria aguentar as piadinhas? Os olhares de nojo? Porque, por Deus, Itachi, não seja inocente ao ponto de achar que iremos suportar tudo isso “desde que tenhamos um ao outro”.

Achou que o amigo sorria, mas não teve certeza.

– Que as pessoas falem, façam piadas e olhem o quanto quiserem, porque elas não entendem. E o que não entendem, tendem a destruir. Sempre foi assim, e se algum dia acharam que dá para mudar isso, infelizmente estão enganados. Sim, você está certo, apenas termos um ao outro não é o suficiente, jamais será, e eu adoraria viver sem sentir-me constantemente com medo e eternamente em dúvida sobre o que será de nós, mas eu não consigo viver sem você.

Shisui não acreditava no que estava ouvindo, não quando aquilo tudo jamais deveria estar acontecendo fora dos seus sonhos. Esta era a dura, implacável realidade, e não um sonho do qual ele poderia facilmente acordar. Sim, ele desejava Itachi, como um homem costuma desejar uma mulher... mas confirmar a ideia era algo tão mais difícil.

De certo modo, ele não queria tornar-se algo assim – algo tão mais íntimo – com o amigo, o menininho dos dedos quebrados, o garoto que o derrotara no scrabble (e todos os outros jogos que jogaram) vezes sem conta, o rapaz gentil que não diria merda se a visse no prato. Contudo, de outro modo, mais profundo e difícil de conter, ele queria, e muito mais.

– Shisui? – Ouviu-o chamando. – Qual a sua decisão?

Sua boca abriu-se, mas quem disse que saiu alguma coisa dela? Estava seca como serragem, porém ele tinha que dar sua resposta.

– Eu... eu não...

Não conseguiu continuar.

Ver o rosto dele desmoronar daquele jeito partiu o coração de Shisui de um jeito horrível, uma sensação física mesmo, que ele nunca havia sentido antes. Itachi virou a cabeça para o lado, fazendo que com a luz alaranjada do poste iluminasse cada traço do rosto. Apertava tanto os lábios que eles chegaram a desaparecer. Fechou os olhos, numa expressão de angustiosa decepção que era quase terrível demais até mesmo para se ver, contudo que durou apenas um instante.

– Tudo bem – disse. Inspirou fundo, soltou o ar e repetiu: – Tudo bem.

Ele deu um passo para trás, e foi então que Shisui correu para ele. Seria sempre assim, porque Itachi foi a primeira coisa que ele teve na vida. Que as pessoas odiassem aquele estranho amor que tinham um pelo outro, isso não era problema, percebeu, porque eles não o odiavam. Eles que dessem suas risadinhas, vaiassem, engasgassem (ou bocejassem) de aversão, se quisessem; assim que acabassem, ele voltaria e beijaria Itachi repetidamente na boca, quantas vezes tivesse vontade, pois era somente aquilo que de fato importava.

E era o que ele estava fazendo agora. Agarrara o braço dele e puxara-o para si, passara as mãos por debaixo de seus braços e o segurou pelas costas, ouvindo de algum lugar o tinido que a latinha de Coca de Itachi fez ao cair no chão, seguido do sibilante borbulhar do refrigerante se espalhando-se no asfalto. Manteve-o ali enquanto abria sua boca na dele, beijando-o o mais forte que podia, beijando-o ali, sob a luz alaranjada das lâmpadas de sódio do poste. A princípio, Itachi apenas se deixou ser beijado... mas logo o estava beijando também, enxugando a umidade embaixo dos olhos dele com movimentos suaves, delicados dos polegares, depois correndo as palmas das mãos por suas faces como Shisui desejava tanto que ele fizesse. Pela primeira vez, sentiu a língua dele, quente e febril, e a envolveu com a sua. Itachi gemeu em sua boca, e Shisui o apertou mais contra si, as mãos subindo até enterrarem-se nos cabelos compridos e úmidos acima.

Foram os melhores beijos da vida dele e jamais seriam esquecidos. O movimento macio dos lábios de Itachi e a forma nítida dos dentes mais atrás tornava a coisa urgente e de nenhum modo tímida. Era voraz, com gosto de Coca-Cola. Então Itachi estava se afastando um pouco, o ardor e a paixão brilhando no rosto, uma das mãos indo para os lábios, que Shisui beijara até deixá-los inchados. Um filete de sangue corria do canto do lábio inferior. Os olhos dele, arregalados sobre os seus. O peito subindo e descendo. O coração de Shisui batia tão forte que dava para sentir nos olhos.

Foi assim que eles começaram e assim que se condenaram.

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Voltaram caminhando sem dizerem nada, de um modo muito parecido com a vez em que voltaram do drive-in, exceto que desta vez o silêncio não era perturbador, e sim uma espécie de agradado constrangimento. A certa altura, Shisui tocou incerto a mão dele, ao que Itachi respondeu pegando-a na sua. Não por muito tempo, contudo; a neve estava grossa, e eles percorreram os últimos dois quarteirões correndo.

Ele estava tossindo bastante quando chegaram no orfanato. Shisui sabia que ele não deveria ter saído de lá, mas talvez tivesse sido melhor assim. Eles agora estavam nos eixos, como se diz.

Itachi tomou mais duas aspirinas fortes, porém elas não seriam o suficiente daquela vez, e ele teria que faltar às aulas pelo resto da semana. Depois de lavarem-se e vestirem-se para dormir, trocaram alguns últimos beijos antes de deitarem. Itachi estava sentado em seu colo, as pernas cruzadas atrás de suas costas e as mãos em seus ombros. Shisui o beijou na têmpora e então, experimentalmente, no pescoço. Sentiu-o estremecer em suas coxas.

– É a febre voltando – Itachi murmurou.

– Vamos dormir. – E quando estavam de baixo das cobertas (ele não separara as camas, e Melda que fosse se danar): – Você está parecendo Rudolph, a Rena do Nariz Vermelho.

Itachi fungou, e depois espirrou. Shisui riu. Algumas pessoas estão destinadas a apaixonarem-se, mas isso não quer dizer de maneira alguma que estão destinadas a ficarem juntas.