Notas iniciais
Peguem suas fantasias e purpurina venham para ler sobre esse Carnaval! Como trilha para esse começo, Los Hermanos - Pierrot: https://www.youtube.com/watch?v=Y26VLfZD3DU

Poncho

:- Lá estava ela mais uma vez divagando entre seus dois amores, o carnal e o emocional entrando em conflito mais uma vez. – De longe eu podia ouvir a voz marcante de Luna narrando a peça, mas só conseguia me concentrar nela.

Conforme Luna narrava Dulce fazia uma coreografia dançando com toda sua leveza sob as pontas dos seus pés enquanto o seu rosto maquiado abusava de expressões faciais, arrancando toda a atenção do público presente, porém ainda mais a minha. Que assistia tudo escondido por trás da cortina.

Após uma pirueta Dulce se ajoelhou numa pose típica de bailarina e fechei os olhos imaginando sua fase séria, totalmente compenetrada em sua personagem. Abri os olhos para tornar minha imaginação real, a vi séria enquanto ainda jogava seu laço vermelho, olhando para a plateia profundamente, como se eles pudessem ajudá-la a escolher.

:- Eu não posso...- Dulce falou derrotada agora com uma face demonstrando frustração ela respirava profundamente e isso mostrava o quanto se sentia dividida e ainda dava a ilusão de que os losangos de seu figurino ficassem maiores. Conclui olhando para eles abaixo do seu decote, balancei a cabeça quando Dulce continuou sua fala. – Eu não consigo, escolher entre eles. – agora ela falou mais alto, resultado de sua compreensão.

Aquilo me machucou por que eu sempre confundi a realidade das nossas personagens com nossa vida real.

:- Eu amo os dois! – ela falou em alto bom som. A vibração foi tão forte que senti como se fosse um soco em mim. – Ela olhou para uma mulher que a compreendia e assentia a sua situação embaraçosa e se aproximou dela. – Como é possível isso, você também se sente assim? – mais uma vez a mulher balançou a cabeça solidária a sua situação.

Dulce se afastaria, mas um homem reclamou algo que eu não pude ouvir. Ela foi em sua direção, improvisando.

:- Não acredita em mim? – ela perguntou a ele chocada, que se assustou por ela estar falando com ele. – Não! Não é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo. – ele respondeu abalado, por ela está o encarando de tão perto.

:- Ora essa! – ela soltou uma risada, abaixando o olhar seguiu talentosa na sua improvisação. – Vejo que o senhor é casado? – sem o deixar responder ela continuou. – Que bonita é a sua mulher! – ela disse vitoriosa quando ele ficou vermelho por todos estarem o olhando, a mulher que o acompanhava era muito mais jovem que o velho senhor.

E pela risada de presentes, todos concluíram que essa não era a mulher dele.

Por isso, Dulce saiu vitoriosa com um sorriso majestoso no rosto, ela era uma versão feminina de Arlequim, linda, inteligente, ardilosa, irônica. Seu sorriso foi temporário por que rapidamente ela saiu de sua improvisação voltou para a personagem.

:- Pierrô – Ela sussurrou alto e eu estremeci ao ser pronunciado indiretamente – ele é a minha base de tudo, ele que me levanta alto para que eu possa sonhar e mesmo que eu caía, sei que vai está ali para me amparar. É o romantismo em forma de pessoa, — ela suspirou e aquele momento eu senti que ela estava não só descrevendo Pierrô, como eu também. – Meu sonhador. Mas, Arlequim... – fechei o rosto. – ele representa o carnal, o desejo, a ação. Ele faz com que eu queira viver intensamente. – abriu um sorriso lindo e os olhos brilharam, mesmo de longe eu tive a certeza que ela falava de Christian.

Eu me afastei da onde estava e fui em direção aos camarins, devo ter esbarrado em alguém ou algo no caminho, mas eu não tirava da cabeça o sorriso de Dulce ao falar de Christian. Estava cego de ciúmes.

Agradeci mentalmente por ninguém esta ali, todos deveriam estar se preparando no outro camarim. Me olhei no espelho ofegante, mas resignado. Submisso aquele amor impossível, os dois se queriam eu não tinha chance alguma. Olhando um homem apaixonado e um completo covarde peguei um pincel, encontrei a tinta preta e passei no rosto.

Reforçando a lágrima abaixo do meu olho, característica da minha personagem. Era tudo que eu queria naquele momento, chorar.

:- Poncho! Até que enfim, te encontrei – Valentino, ajudante da peça entrou desesperado no camarim eu parecia ser sua salvação. – Ande homem de Deus, é sua vez de entrar. – ele começou a me empurrar em direção ao palco pela parte traseira, me entregou algo e sumiu logo após.

Abaixei a cabeça me concentrando no Pierrô que existia em mim. Não foi difícil, eu me sentia ele. Olhei para o meu figurino indeciso entre o negro e o branco, a minha maquiagem em mesmas tonalidades formando uma expressão triste. Só ajudou na incorporação.

Pronto, eu me posicionei para minha entrada no palco, ouvindo as falas das personagens.

:- Eu não consigo resistir a você. – Christian falou num sussurro alto e galanteador.

:- Você não precisa, por que eu sou sua. – Agora a voz feminina de Dulce chegou aos meus ouvidos, pelas as sombras que eu podia ver eles que estavam muito próximos.

Escutava ao fundo algumas falas da plateia esbanjando diversas reações, de apoio e de intolerância. Mas, eu forçava meus ouvidos a se encontrar as vozes de Dulce e Christian, só que elas cessaram. E pelo modo que ouvi a vibração da plateia eu confirmei o pior e era aquele momento no qual eu entraria.

Contando humanamente ali, eu fiquei parado alguns segundos, mas mentalmente eu fiquei minha vida inteira desde quando me entendo por gente, desde quando me apaixonei por Dulce quando criança. Não sei o que aconteceu com o meu corpo, sempre soube controlar meu ciúme e o fazia muito bem canalizando a energia em outras ações.

Entretanto, eu não conseguia mais me controlar vendo os dois parados a poucos metrôs de distância de mim. Ao ver Dulce puxando a nuca de Christian para aprofundar o beijo nada técnico que eles davam.

Algo se destruiu e quase pude escutar cacos de vidro se quebrando, não sei o que aconteceu comigo, mas algo mudou, ou melhor, eu mudei. Senti pela forma que eu apertei o objeto no meu bolso e como eu visualizava todos meus sonhos românticos sendo destruídos.

...O Pierrot apaixonado chora pelo amor da Colombina...

Com um estalo de realidade me dei conta de onde estava e o que eu tinha que fazer, andei firme consciente do momento importante para minha personagem. Pierrô deixava de ser o apaixonado submisso e passava a ser envenenado pelo ciúme.

:- O que está acontecendo aqui? – perguntei em alto, assustado com a cena em que via, pelo menos a minha personagem.

Christian foi o primeiro a separar de Dulce, ele tinha expressão de Arlequim, quando era pego em uma de suas travessuras. Dulce antes de voltar a ser Colombina, fez uma cara de frustração por se separar de Christian. Apertei os olhos ao ver aquilo.

:- Pierrô?! – ela falou me olhando com cara assustada. – Não é nada do que você está pensando. Ele é apenas, apenas – ela começou a gaguejar nervosa conforme eu me aproximava.

Nós três fazíamos tudo de acordo os nossos milhares de ensaios, Arlequim se esconderia atrás de Colombina que servia de escudo, ambos com ares culpados andavam de costas, dando a volta na mesa que fazia parte do cenário, enquanto eu tinha uma pose de acusador andava para frente na tentativa de encurrala-los.

A plateia estava em alvoroço os olhares de felicidade por ver uma briga, todos esperavam a minha reação.

:- Apenas o que, Colombina? – eu gritei, explodindo.

:- Amigos, somos amigos – Dulce respondeu baixo.

:- HA HA HA – eu forcei uma gargalhada. – Com um amigo como esse eu não preciso de inimigos. – encarei furioso Christian.

E uma parte da plateia me apoiou, solidária. E a outra vibrou para saber o que aconteceria dali em diante.

Eu alcancei os dois e empurrei Dulce acertando um soco falso em Christian, que naquele momento eu desejava ser verdadeiro. Christian se jogou fingindo o impacto de sua dor. E a plateia urrou de felicidade em minha defesa.

:- O que você fez, Pierrô? – Dulce correu até Christian preocupada. – Arlequim, você está bem? – ela passava a mão no seu rosto carinhosa o ajudando a se levantar.

Enojado com a cena patética eu virei de costas a eles.

...Mas Colombina trocou seu amor por Arlequim...

:- Será que ainda não percebeu, Pierrô? – Escutei a voz de Christian e me virei para vê-lo. – Ela me escolheu e não a você! – ele falou maldoso.

Transbordando de raiva eu tirei a faca cenográfica apontando para os dois, Dulce ficou assustada e Christian tirou o sorriso maldoso mudando para um preocupado. O “Oh” que a plateia gritaram, totalmente surpresos, me estimulou mais.

Tudo tinha que ser rápido e assim foi, eu apontei a faca na direção deles, Christian de preocupado passou a ficar em pânico vendo o perigo se aproximar e Dulce de assustada passou de aflita para dolorosa, essa era expressão dela. Eu via de muito perto, abaixei o rosto para ver o falso sangue se arrastar pelo figurino dela, fiz uma cara de psicopata, Christian como Arlequim não acreditava na cena que via.

...E o Pierrot, chora!

Me afastei dos dois agora assustado com meu último ato, derramando lágrimas involuntárias, matar a mulher que amava por conta dela me trocar por outro. E comecei a chorar demonstrando arrependimento, ao ver Colombina a minha frente morrer nos braços de Arlequim, o seu escolhido.

As cortinas se fecharam e foi assim que a peça acabou.

A plateia que ficou estranhamente calada desde o momento que exibi a faca, após o fechamento das cortinas urraram de apoio e desagrado, mas sobre tudo se ouvia os aplausos. Isso que fez com que Dulce levanta-se e abraçasse Christian sorrindo os dois comemorando pelo sucesso da peça, o que o Christian não esperava, eu menos ainda presenciar, foi Dulce beijar Christian alegremente.

Aquilo foi à gota da água.

Tudo que fiz ali foi sair o mais rápido que eu pude, na medida do possível, cumprimentando algumas pessoas no caminho eu consegui chegar ao camarim e recolher minhas coisas, tirando apressado meu figurino troquei de roupa velozmente. Olhei no espelho e vi a maquiagem borrada pelo meu choro, mas decidir ficar assim demoraria muito para tirar tudo aquilo.

Sai com minha camisa vermelha e meu jeans vestidos em tempo recorde, procurando a saída mais próxima do Teatro, algumas pessoas me olhavam com os olhos arregalados, algumas me conheciam e outras não. Não me importava, o que mais queria era sair dali.

Antes de realmente sair do teatro, consegui escutar o som dos aplausos da plateia abafados pela distância que eu estava, todos os atores deviam estar no palco agradecendo, menos eu. Se fossem em outros tempos eu engoliria meu orgulho e colocaria um sorriso no rosto e estaria lá, mas assim como minha personagem Pierrot nessa última cena. Eu também mudei ou pretendia mudar.

Não que eu fosse arrumar uma faca e matasse Dulce e Christian, longe disso, ainda os amo, acima de tudo, eu unicamente tomei a decisão que só um homem apaixonado e não correspondido faria.

Fui para o bar mais próximo.

...E na esquina se mata a beber pra esquecer...

Eu deveria estar com uma aparência muito macabra, por que recebia olhares assustados durante todo o meu curto trajeto ao bar mais próximo do teatro, o olhar do barman foi tão apavorado que ele ficou estático até me atender com voz trêmula, ele me encarava como se eu fosse à morte.

Após ele chegar com o meu pedido vi o meu reflexo na garrafa transparente, eu estava num estado deplorável, com a maquiagem escorrendo grudenta e chorando, no caminho até ali eu pensava que tinha parado de chorar, mas não eu continuava e depois da minha terceira dose de uísque, me dei conta de que não conseguiria esquecer nada, por que as malditas lembranças aprenderam a nadar no meu uísque. Malditas!

O meu coração me lembrava a cada batida o que eu deveria esquecer, os dois, mais principalmente ela, que eu deveria abandonar mentalmente.

Voltei a chorar mais forte o barman já acostumado com minha presença e minha aparência bufou perto mim. Sendo assim, aquilo era mais um motivo para ficar ali a noite toda no mínimo, isso se eu não fosse interrompido.

:- Pierrot? – Escutei uma voz feminina me chamando, o miserável do meu coração vibrou momentaneamente, por que poucas mulheres me chamavam assim e ele tinha esperança que fosse ela.

Me virei só depois de tomar o último gole do décimo-quinto copo.

:- Oh, meu Deus é você mesmo! – vi uma mulher desconhecida falando comigo. Me olhando preocupada e desajeitada procurou algo em sua bolsa, logo achou com esforço e me estendeu algo. – Aceita!?

:- O que é isso? – virei meu corpo para onde ela estava parada perto de mim.

:- Lenço umedecido! – eu peguei ainda sem entender. – Para você limpar o seu rosto. – ela apontou um dedo para o meu rosto e fez um círculo indicando onde tudo que estava sujo.

:- Obrigado, mas eu ... – falava calmo mesmo após toda bebida.

:- Por favor não pode ficar assim, tem que tirar isso do rosto. Além de fazer mal para sua pele e não fica bem em você, a não ser que vá para alguma festa Halloween, totalmente fora de época. – ela sussurrou o final e eu me olhei de novo no reflexo da garrafa próxima, estava assustador mesmo. – Vem eu te ajudo a tirar, tenho espelho e mais lenços.

Sem que eu falasse nada, ela me puxou pela mão e me guiou em direção a alguma mesa vazia para dois.

Ficamos um tempo em silêncio até que ela voltasse a falar, nesse tempo eu fiquei a observando enquanto ela limpava o meu rosto, não a conhecia de lugar nenhum então como é que ela sabe de Pierrot?

:- Eu te vi na peça. – ela comentou, esclarecendo minhas dúvidas mentais que sequer foram ditas. – Você foi um dos melhores, meus parabéns. Poucas vezes eu vi alguém interpretar Pierrot dessa forma intensa. – ela se afastou para ver como meu rosto estava e aproveitou para sorrir para mim. – Pronto, está limpo de novo.

:- Obrigada, pelo elogio e por me ajudar a me limpar. – coloquei mais cerveja no meu copo.

:- Por nada e olha que eu já vi muitas interpretações do Commedia dell’ Arte, em várias partes do mundo. – ela piscou. – Então Pierrot, qual é o seu nome verdadeiro? – ela tomou um pouco do seu vinho.

:- Poncho.

:- Maite. – ela me estendeu a mão que a peguei prontamente.- Prazer.

:- Prazer é meu, você conhece o estilo commedia? – me interessei por ver que ela sabia do assunto.

:- Sim, minha família é italiana e morei na Itália durante alguns anos, vi muitas peças do gênero, elas me encantam. Se não fosse tão apaixonada pela culinária, não teria deixado minhas aulas de teatro de lado. Em minha casa tenho uma enorme coleção de livros sobre teatro e sobre esse gênero. – ela riu se gabando de sua provável coleção e me soltar um sorriso também.

:- Você sorriu, uau, ganhei minha noite agora! – ela levantou a taça dela e bateu no meu copo forçando um brinde. – Pensei que fosse chorar a noite inteira, então qual é o nome dela?

:- Dela quem? – perguntei confuso.

:- Da mulher pela qual você chorava antes. – ela deixou sua taça de lado e se apoiou nos cotovelos para me escutar, esperando uma história interessante por vir.

Parei por um momento, olhando Maite, indeciso se contava ou não, mas eu precisava desabafar com alguém. Bom, ela era uma estranha e talvez nunca mais nos veríamos mesmo.

:- Dulce. – eu soltei me culpando por não só me lembrar dela, como também falar. – Ela me considera um irmão desde que nos conhecemos no orfanato, desde ali me apaixonei.

:- Orfanato? Hm, que interessante, vamos lá rapaz temos duas garrafas para terminar e próximas ainda que viram, – ela indicou com a cabeça as garrafas na nossa mesa – ou seja, temos muito tempo para você me contar essa história completa.

:- Eu era muito pequeno quando perdi meus pais, sem nenhum parente, fui parar no orfanato, Santa Virgem de Guadalupe, sabe? – ela assentiu – Lá eu conheci Dulce que também não tinha família, logo ficamos amigos, éramos muitos novos e somente tínhamos um ao outro. Isso até Christian chegar ao orfanato. – eu falava nostálgico me lembrando de tudo. – O amor de Dulce por Christian nasceu da mesma forma que o meu se concretizava por ela.

Parei terminando mais um copo de cerveja, sentindo sede.

:- Bom, nos tornamos inseparáveis não vivíamos um sem o outro e isso é até hoje, formamos uma família e quando éramos pequenos não dávamos tanta bola para isso de amor. Até a adolescência chegar e começar os meus conflitos internos e os de Dulce também, já que eu era seu confidente. – fiz uma careta me lembrando e Maite me ouvia atenta a tudo. – Enfim, ainda no orfanato ganhamos um tutor que nos auxilia até hoje apesar de não nos conhecemos, ele fez questão que tivéssemos aulas intensas de teatro.

:- Peraí! – Maite me interrompeu e eu aproveitei para beber mais um pouco. – Dulce? Christian? Teatro? Não vai me dizer que...- ela começou a associar as pessoas.

:- Sim, Dulce é a Colombina e Christian o Arlequim. – a respondi.

:- Nossa! Mas, continue contando. – voltou a se apoiar na mesa interessada.

:- Não tem muito que dizer, saímos do orfanato quando ficamos maiores de idade. Eu nunca confessei meu amor por Dulce, por conta do seu pelo Christian, sempre preferi priorizar nossa amizade. Christian nunca deu muita bola para as investidas de Dulce, até certo tempo atrás, agora acho que eles namoram ou estão enrolados, não sei. – dei os ombros terminando mais um copo e mais uma garrafa.

:- Caramba! – foi tudo que ela falou absorvendo ainda toda a história complicada da minha vida. – Nunca quis lutar por ela?

:- Lutar? – estranhei a pergunta e me envergonhei pela resposta covarde. – Não. Ela sempre foi louca pelo Christian e eu não poderia fazer isso com ela, ainda mais quando ele também passou a querê-la. Me deixei sobreviver com meus sonhos românticos.

:- Quer ajuda?

:- Para que?

:- Para conquistá-la. – ela falou firme.

:- Ela não gosta de mim.

:- Como sabe? Já se declarou por algum acaso? – foi certeira.

:- Não.

:- Então, tem que tentar para saber e eu posso te ajudar. – ela falou contente.

Me lembrei de tudo que eu passei, de tudo que eu sofri, de todas as lágrimas que eu soltei sozinho por conta desse amor inalcançável, e pela primeira vez na vida resolvi me priorizar em vez de Christian ou mesmo Dulce. E resolvi me dar aquela oportunidade, afinal de contas, depois que vi hoje eu não conseguiria mais viver ao lado deles sem dizer tudo o que eu sentia.

:- Aceito! – Falei sorrindo estendendo minha mão para que ela selando uma parceria, que foi aceita. – Fechado. – ela sorriu apertando minha mão para soltar logo em seguida. Pegando o resto do seu esquecido vinho junto mais uma vez naquela noite, fazendo um brinde.

:- Já são três e meia. Como o tempo passa rápido.

:- Se tiver que ir embora, eu vou entender.

:- Você não vai? – ela terminou sua taça de vinho e a garrafa também.

:- Não, não quero chegar lá no meu apartamento e dar de cara com Christian e Dulce aos beijos ou coisas piores. – revirei os olhos.

:- Por que não dorme lá em casa, então? – ela sugeriu e eu juntei as sobrancelhas estranhando, me esquecendo de respondê-la. Ela me olhou e se deu conta do quanto foi sugestiva sua pergunta. – Ah, não estou dando em cima de você garotão. Fique tranquilo, moro com minha família e lá você vai dormir no quarto de hóspedes. – ela riu.

Quando ia rir junto com ela, meu celular tocou, eu me abaixei procurando ele em minha mochila.

:- Alô! – falei feliz pela ótima companhia que Maite estava me fazendo. – Christian? – voltei à seriedade ao escutar sua voz. – Nada, não tem que se preocupar, estou aqui com Maite. – ela me olhou surpresa por eu mencioná-la.- Somente uma amiga, Christian! Estamos num bar perto do teatro, por quê? Sim, é esse... Vocês vão vir aqui? – eu perguntei falando mais alto, olhando mais sério o nada, detestando aquela ligação. – Não, Christian.. nã ...Christian? Droga, desligou na minha cara. – bati minha mão na mesa exaltado.

:- O que aconteceu? – Maite me olhou assustada pela minha mudança.

:- O pessoal da peça devem estar vindo para cá. E isso inclui Dulce e Christian. – expliquei para ela. – Não quero vê-los, Mai. – deixei escapar algum apelido involuntário.

:- Por que não? Eu posso te ajudar a... – a interrompi. – Não! Eu não quero vê-los juntos agora, só agora, depois vemos isso. – fui grosso, mas a situação me deixou assim.

:- Ok! Vamos embora então, só vamos pagar a conta. – ela pegou sua bolsa e se levantou, eu fiquei extremamente agradecido quanto mais rápido formos, melhor.

Eu paguei a conta no caixa combinando com ela que pagasse o táxi para irmos embora, quando estávamos saindo vi de longe o grupo se aproximando, como deduzi veio Anahí, Christopher, Dulce e Christian em casais, rindo de alguma piada dita possivelmente por Christian.

:- Maite, eu vou te esperar lá fora! – eu disse saindo apressado, vendo ela enrolada com sua bolsa.

:- Calma, Poncho para que essa presa? – ela me viu se afastando dela.

Mal escutei sua voz e fui saindo do bar, não tive certeza se algum deles tinham me visto mais tudo o que mais queria era me afastar dali. Não queria passar uma noite inteira vendo Christian e Dulce esbanjando sua felicidade de estarem juntos, eu queria esquecer pelo menos aquele resto de noite e conversar com Maite me fez esquecer.

Sai do bar pelo lado oposto que eles vinham e vi um táxi do outro lado.

Foi tudo muito rápido, na verdade em questões de segundos. Quando fui escutar a voz de Maite já era tarde demais.

:- Poncho! Cuidado!

Virei para vê-la e dizer que tinha achado um táxi, mas antes que falasse qualquer palavra, escutei o freio do carro alto e senti ser arremessado a alguns metros da onde estava.

Sentia meu corpo doer e muito não conseguia mexer nenhum músculo, não conseguia abrir os olhos, mas senti e ouvi a voz de Maite.

:- Poncho! Meu deus, seu louco como é que atravessa a rua assim. Você está bem? – sua voz era sofrida. – Estou ligando para a ambulância, não se preocupe!

E quando me esforcei para abrir os olhos e agradecê-la, além de ver Maite, vi Dulce se aproximando totalmente preocupada comigo.

:- Poncho, você está bem?

Foi sua voz assustada a última coisa que escutei antes de desmaiar, não sem antes derramar uma lágrima teimosa de felicidade por causa da minha Colombina.

E o Pierrot, chora! E o Pierrot, chora!
E o P
ierrot, chora!
Pierrot...

...

Escutava uns murmúrios a minha volta, que eu tinha dificuldade em identificar de quem seria, aliás, me sentia estranho, onde eu estava?

Abri os olhos com dificuldade. Fechei rapidamente depois de a claridade invadir meus olhos.

:- Não sei, o que ela está fazendo aqui! – escutei alguém falar próximo de mim. Abri os olhos para reconhecer quem era.

Dulce estava parada junto a Christian próximos onde eu estava, ela falava olhando para um canto do quarto, dava para ver raiva em seu olhar, Christian estava sério e apenas acompanhava o seu olhar e a escutava.

:- Eles estavam juntos, ela é algo dele, Dul! – Christian respondeu baixo, ainda olhando para o local.

:- Como algo dele? Poncho, nunca me falou dela! Ele sempre me conta tudo. – Dulce falou raivosa mantendo seu tom baixo.


Nem tudo Dulce, eu suspirei baixo. Balancei a cabeça abrindo melhor, os olhos já acostumados com a claridade do lugar, eu estava deitado numa cama!

Observei o lugar era realmente um quarto de hospital, me lembrei do meu atropelamento até ficar inconsciente. Mas, o que mais me surpreendeu foi ver Maite sentada numa poltrona branca com ar de apreensiva.

:- Maite? – eu falei numa voz meio rouca, me esforçando para me levantar.

:- Poncho! – Não só escutei a voz de Maite como também de Dulce e Christian, ao mesmo tempo. Eu ignorei os dois e foquei em Maite, por que eu realmente estava surpreso por ela está ali.

Ela levantou e venho em minha direção mudando a apreensão para alívio.

:- Ainda bem que você acordou, Poncho, estávamos todos preocupados! – ela falou do meu lado e passou a mão esquerda em minha cabeça. Num gesto protetor.

Pensando no que ela falou, olhei para os dois do meu outro lado, eles estavam incomodados com a presença de Maite, talvez não fosse paranoia minha ou a batida que eu levei foi bem forte, por que eu via o olhar de Dulce fuzilar a mão que Maite mantinha em minha cabeça.

:- Quanto tempo eu estou aqui? — perguntei para algum deles.

:- Há algumas horas. – Christian respondeu.

:- Nossa ainda bem que sou duro na queda. – comentei humorado – Maite, por que ficou aqui todo esse tempo, não precisava. – olhei para ela. Que soltou um sorriso antes de me responder.

:- Não podia deixar você sozinho. – deu uma piscadela que só eu entendi. E antes que pudesse sorrir para ela. Fomos interrompidos por Dulce.

:- Ele não está sozinho, estamos aqui com ele. – ela falou agressiva, fuzilando Maite com o olhar, eu e Christian encaramos as duas com apreensão vendo até faíscas saindo do olhar de Dulce, Maite parecia não se importar com nada, estava indiferente eu tinha a impressão que ela até rir queria, pela sua expressão debochada.

Antes que voltássemos a falar algo ou mesmo Dulce alfinetar Maite, a porta do quarto foi aberta. Christopher e Any entraram antes que o médico.

:- Bela adormecida acordou do seu sono de beleza. – Christopher falou debochado implicando comigo.

:- Christopher! – Any deu um tapa nele repreendendo pela brincadeira de mau gosto. – Você está bem, Poncho? Ficamos todos preocupados com você.

:- Estou bem sim.

:- É verdade, tão bem, que vou lhe dar alta. Você é um cara de sorte, meu rapaz. – O médico pela primeira vez se pronunciou.

:- Ah que maravilha vamos poder voltar todos para casa! – Dulce exclamou contente.

:- Hum, nem todos Dulce. – Eu comecei a falar me sentando realmente me sentindo bem. – Não só Dulce como todos me olharam confusos. Me virei para Maite e fiz o meu melhor para que ela lesse na entrelinhas. – Sua proposta ainda está de pé?

:- Está. – Ainda bem que ela entendeu e não me contrariou.

:- Por que eu aceito.

:- Aceitar o que? — Foi Christian que perguntou tomando a frente à curiosidade de todos ali. Eu já tinha me levantado e encarei todos, mas focando em Dulce.

:- Vou com Maite para sua casa!

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