Colombina
1 Capítulo Único
"Senhoras e senhores! O espetáculo vai começar!"
E com essas palavras de Pantalone, o mestre de cerimônia (e o dono) do circo, o espetáculo de fato começava.
Colombina era uma das primeiras a se apresentar. Ela e Vivi formavam a dupla de contorcionistas. As duas foram formidáveis, como sempre. Era fácil. Não precisava sorrir. Se precisasse, certamente já teria sido demitida.
Admirava Pierrot, que vinha após ela. Apesar de tudo, sorria e fazia sua performance brilhantemente. Era o melhor palhaço da região.
Pierrot, coitado. Colombina era serelepe comparada a ele. Ele tinha depressão profunda. Cortava-se pelo menos duas vezes por semana. Colombina o ouvia chorar baixinho, todas as noites. Dividiam a tenda com Vivi e Arlequim, o domador.
Arlequim era a única pessoa do circo que podia ser considerada feliz. Seus sorrisos, dentro e fora do picadeiro, eram genuí fosse assim por não conseguir engordar, podendo assim comer as guloseimas que quisesse. A maioria dos artistas tinha que se submeter a uma dieta rigorosa para não ultrapassarem um limite de peso supostamente saudável. Supostamente, porque Vivi tinha problemas sérios de bulimia por causa da pressão que Pantalone fazia.
Havia também Emmerson e Thati, o mágico e sua assistente. Os dois viviam um romance não muito saudável. Ele a traía frequentemente com "fãs", que iam atrás dele por ser bonito. Apesar de ter várias mulheres desejando-o e uma namorada, Emmerson não era feliz. Sentia-se só. Thati, por sua vez, sentia-se abandonada pelo namorado e, em vez de largá-lo, chorava e bebia.
Nem o dono do circo era feliz. Ganancioso, explorava o pessoal para ganhar mais e mais dinheiro. Nunca se satisfazia. Colombina achava que ele poderia ser feliz numa favela, de preferência deixando o circo para os artistas cuidarem. Tinha certeza de todos sairiam ganhando assim. Só em não ter mais Pantalone por perto...
Naquele dia, Thati e Emmerson tinham brigado mais uma vez. Como sempre, o motivo era a traição dele. Entraram no picadeiro disfarçando a raiva o máximo possível, mas, no caso dele, deu tudo errado.
Era o truque de "cortar" a assistente ao meio. A raiva levou Emmerson ao nervosismo, e ele cortou Thati ao meio... literalmente, sem aspas.
Para a sorte do público, o corte praticamente não atingiu nenhum vaso sanguíneo, e o sangramento foi mínimo. Além disso, Emmerson, ao ver o estrago que fizera, fechou as caixas discretamente, não deixando uma gota cair no chão. Pantalone murmurou qualquer coisa sobre encontrar outra assistente fácil, fácil e pediu ao resto dos funcionários que não contasse nada a ninguém.
No fim das contas, só Thati se deu mal.
[X]
Colombina era bonita. Todos os caras do circo olhavam para ela direto. Emmerson até tentou agarrá-la uma vez, mas ela recusou. Quem realmente gostava dela, porém, eram Arlequim e Pierrot.
Arlequim não disfarçava seu interesse. Cavalheiro e simpático, tentava conquistá-la com pequenos gestos adoráveis. Colombina ruborizava sempre que ele os fazia. Já Pierrot era mais tímido. Era com pequenos gestos que demonstrava sua afeição pela contorcionista. Na verdade, foi Vivi que contou a Colombiana que o palhaço gostava dela.
O coração de Colombina estava dividido. Por um lado, admirava Pierrot por sua coragem, sua determinação e seu amor pelo que fazia; além disso, queria ajudá-lo a superar sua depressão. Por outro, Arlequim talvez pudesse fazê-la feliz, nem que fosse por alguns momentos. Para completar, sabia que escolher um faria o outro triste. Não sabia o que era pior: Arlequim sucumbir à tristeza endêmica do circo ou Pierrot afundar ainda mais na depressão.
Assim, optou deixar que o tempo lhe mostrasse o melhor caminho. Tinha fé que, um dia, um deles se desapaixonassem deixando-a livre para ficar com o outro. Ou talvez os dois desistissem dela, e ela não teria que escolher entre os companheiros de tenda.
O palhaço e o domador se davam bem, apesar de gostarem da mesma mulher. Frequentemente Arlequim fazia as vezes de palhaço, para deixar o amigo feliz. A bem da verdade, Pierrot ria, mas porque Arlequim não sabia ser palhaço de jeito nenhum. Pelo menos o fazia rir, coisa que Colombina nunca conseguira.
[X]
Colombina estava certa. O tempo lhe mostraria o caminho. Mas este não era bem o que ela esperava.
O circo tinha acabado de mudar de cidade. Após a primeira apresentação, ela e Arlequim caíram doentes. Ninguém avisara que a cidade sofria com uma epidemia de dengue.
Pantalone apressou-se em comprar repelente para todos do circo. Não porque se importasse; o show devia continuar, e não podia deixar que mais artistas adoecessem e comprometessem o espetáculo. Dois dias depois, ele próprio caiu doente.
Sem como recorrer a um hospital, Arlequim e Colombina foram cuidados por seus colegas de tenda. Ao longo do tratamento, os dois homens se aproximaram bastante, e Colombina notou uma mudança significativa no humor dos dois (principalmente no de Pierrot; ele sorria!).
Logo perceberam que uma paixão brotara entre os dois. A contorcionista se alegrou. Não precisaria escolher entre os dois amigos; eles já tinham um ao outro.
Arlequim se recuperou rapidamente, graças ao amor de Pierrot. Pantalone, sem amor nem ajuda de ninguém, pereceu. Sua morte foi comemorada pelo pessoal do circo. Agora estavam livres para administrar o circo de forma justa. Ninguém mais sofreria! A alegria contagiou todos.
Todos, menos Colombina. Apesar de estar feliz pelos dois amigos, percebera que ninguém mais a amava naquele mundo. Vivi era uma grande amiga, mas só isso. Nem o amor fraternal entre elas havia. Mais triste do que nunca, não conseguia melhorar da dengue. No fim, tiveram que levá-la a um hospital e lá deixá-la, pois não podiam ficar na cidade por mais tempo.
[X]
Para sua sorte, não morreu. O hospital a tratou bem, e em dias ficou curada. Infelizmente, por mais que procurasse, não encontrou mais o circo. Algumas pessoas a mandavam voltar para casa, que essa história do circo era loucura causada pela febre.
Colombina procurou pelo circo dias a fio, mas começava a se perguntar. Será que tudo não foi mesmo um delírio causado pela febre prolongada? Será que sonhara durante o tempo em que estivera doente, e a dengue do sonho era só um aviso de que ele estava no fim?
Mas e Pierrot? E Arlequim? Vivi, Pantalone, Emmerson, Thati... todos do circo? Eram tudo fruto da imaginação febril da contorcionista? E ela, seria mesmo uma contorcionista? Se tudo fora de fato um sonho, quem era ela? Chamava-se mesmo Colombina?
Perambulou atrás de respostas. Ninguém sabia dá-las. Onde estava o circo? Quem era Colombina?
Caiu no chão de terra batida e lá dormiu. Dormia e acordava incessantemente. No meio disso, teve a impressão de ouvir, ao longe, uma voz familiar anunciar que o espetáculo ia começar. Avistou o que parecia ser uma lona. Dormiu de novo, e só acordou de manhã.
Não havia mais lona.
Notas finais
Críticas construitivas são benvidas :)
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