Collonys
4 Nave Suicida
Notas iniciais
NAVE SUICIDA
Vejo dentes afiados rasgando devagarinho a garganta dela. Unhas igualmente amoladas perfuram a sua pele. Ela grita por meu nome, implorando socorro.
— Píotsy, me ajuda! Por favor! — Mas eu não posso ajudar, não sei como. Não tenho coragem o suficiente para realizar essa tarefa. Me encolho em um canto, sozinho, enquanto monstros gigantes destroçam Winnie na frente de meus olhos. — Por que você me abandonou Pío?! Só me diz o porquê!! — Tudo fica escuro no mesmo momento em que seus gritos desesperadores se anulam.
Estou deitado em minha cama, encharcado de suor, embora o grande quarto esteja realmente frio. Tenho certeza que, se não fosse o cinto que me prende na cama, eu estaria flutuando sem rumo pelo compartimento. As luzes da nave estão apagadas, mas posso enxergar a luz do sol Collonyano entrando pelas grossas janelas de vidro: Algo que com toda a certeza não estou acostumado a ver. Nós “estacionamos” neste lado do planeta porque assim podemos aproveitar, além da luz, o pouquíssimo calor que este sol pode nos oferecer.
Fito os raios de sol, e vejo uma fina camada de poeira dançando entre eles, entrando e saindo de foco a todo momento. Foco meus pensamentos apenas neles, mas não por muito tempo. Por mais que eu tente impedir, as imagens do sonho... ou melhor, do pesadelo que acabei de ter, invadem a minha memória.
Monstros horrendos estraçalham minha querida Winnie enquanto eu apenas observo. Eu me pergunto o porquê disso, o porquê de eu parecer tão incapaz no pesadelo. Eu nunca faria isso se Winnie estivesse em perigo... ou será que eu faria? Não! Percebo que estou deixando as imagens me confundirem e respiro fundo, limpando minha cabeça dos rápidos flashes de garras, dentes e, principalmente, gritos de socorro.
O ambiente está frio.
Meu rosto se resume em uma expressão de estranhamento. Frio não é algo normal na nave, pois estamos sempre em temperatura ambiente. No entanto, logo entendo o porquê da baixa temperatura. Um círculo de luz avermelhado brilha num canto específico da grande parede de metal do compartimento, indicando o que nós todos a bordo da nave odiamos que aconteça: estamos na reserva de energia. Não entendo realmente o acontecimento, pois, pelas contas mostradas no Grande Salão há pouco tempo, a Everd13 teria no mínimo mais alguns meses de abastecimento de energia — abastecimento este que logo seria totalmente preenchido utilizando a energia da luz do sol collonyano. Desafivelo os cintos de meu corpo e deixo a cama por um momento, abrindo-a como um baú para pegar o cobertor reserva: um grosso edredom que, ao ser enrolado ao redor do corpo da maneira correta, não deixa que a temperatura do corpo caia muito, ou pelo diminui a rapidez com que o calor deixa o nosso corpo.
Volto pra cama, enrolando o cobertor reserva sobre mim, acima do meu cobertor usual. Deixo as tiras dos cintos folgadas o suficiente para que eu não fique sufocado, mas ainda apertadas para que me mantenham preso à cama. Sei que será uma noite longa, e enquanto fecho meus olhos, torço para que que qualquer problema envolvendo a energia possa ser logo resolvido.
Minha torcida, porém, não parece adiantar nada.
Quando abro meus olhos, penso que cochilei por apenas alguns minutos, mas sei que dormi bem mais do que isso. O frio no compartimento aumentou consideravelmente, e sei disso principalmente porque muitos garotos do quarto estão fora de suas camas conversando preocupados e apontando para a luz vermelha que, por algum motivo, parece brilhar mais perigosamente. Retiro minhas mãos do quente cobertor para, mais uma vez, me desprender da cama, mas o simples ato de expôr minha mão ao ambiente me faz arrepiar de frio. Logo desafivelo os cintos e me enrolo nos dois cobertores, tomando coragem para sair da cama. Após alguns segundos de hesitação finalmente tomo coragem e me impulsiono com os pés, deslizando pelo ar gelado. No trajeto, vejo que praticamente todo o quarto está acordado. Todos parecem preocupados, e eu com toda a certeza faço parte deste “todos”. Aterrisso no grupo de garotos que eu vira conversando a pouco tempo, mas antes que possa dizer qualquer coisa, nossa atenção é desviada. Marx, um garoto de 15 anos bem parecido comigo está próximo de uma das janelas de vidro, boquiaberto e chamando o grupo de garotos perto de mim. Sigo eles até as janelas, e muitas outras pessoas no quarto seguem meu exemplo. De início, acho que Marx quer falar sobre o gelo que se acumula do lado de fora das janelas.
— O aquecimento externo tambem parece ter desligado. — digo. No entanto, não é isso que o está deixando tão surpreso. Ele aponta seu dedo para algo lá fora, além das janelas de vidro, e o que vejo também me espanta.
Um foguete avermelhado está passando perto de nossa nave, seguido por outros oito, bem parecidos. Eu não acredito no que vejo, e a felicidade de saber que Winnie, por algum motivo, está voltando, me faz esquecer de todas as outras coisas; de todos os problemas. Minha expressão se resumo num sorriso de orelha a orelha, já imaginando o momento em que reencontrarei Winnie. Porém, tudo o que imagino desaparece no exato instante em que meus olhos vislubram os nove foguetes colidindo com a Nave-mãe e explodindo sem qualquer hesitação.
[...]
Winnie
Medo. É tudo o que sinto. Meus olhos não conseguem captar nenhum tipo de imagem ou luz, apenas a escuridão.
Minha cabeça dói um pouco quando tento lembrar de tudo o que aconteceu antes de eu vir parar aqui. Mas aos poucos... bem aos poucos, as memórias vão voltando...
Lembro de estar dentro do foguete, partindo da Nave-mãe. Um foguete sem janelas, para evitar qualquer problema. Me lembro como minha ansiedade aumentava a cada minuto, assim como a apreensão e medo que eu sentia. E então, quando eu menos esperava, aterrissamos.Todos nós no grande foguete sorrimos ao saber que estávamos seguros.
Não estávamos.
O primeiro susto veio quando fomos avisados de que havíamos perdido a conexão com a Nave-mãe. Era algo desesperador, pois não sabíamos como nos “virar” sem ela; não havíamos recebido instrução alguma para o que faríamos no momento em que chegássemos ao solo do novo planeta. Pensamos em voltar para a Nave-mãe, mas descartamos a ideia, embora muitos dos tripulantes ainda a achassem válida. Durante algumas poucas horas, não fizemos nada. Ficamos dentro da nave esperando alguém estabelecer contato conosco, o que não aconteceu. Mas então, o mais inesperado ocorreu.
Barulhos.
Fortes barulhos vindos de fora da nave indicavam que algo estava ao nosso redor. Algo vivo. Nos desesperamos e, posso afirmar que muitos de nós se entregaram às lágrimas. Permanecemos em um silêncio quase total, a não ser os soluços que muitos ainda soltavam por causa do choro. Os barulhos aumentavam cada vez mais, se concentrando nas três portas laterais — as três únicas saídas. Não vou negar que eu também chorava, abraçada ao meu pai como em um pedido de proteção.
De repente... silêncio. E então todas as três portas abriram de uma vez.
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