Collonys
9 Ele
Notas iniciais
CAPÍTULO 9: ELE
ELE — Murp67, 3:31AM
O barulho do metal sob meus pés ecoa pelos corredores conforme eu passo correndo por eles. Estão atrás de mim e eu não posso, de forma alguma, ser pego. Isso não ia pôr fim apenas à minha vida, mas também a de milhares de outros como eu.
Paro imediatamente quando avisto um dos borps ao final do corredor. Assim que seus olhos pousam em mim, ele começa a correr em minha direção. Eu congelo de medo e permaneço parado, mas assim que percebo que o borp se aproxima, eu me obrigo a voltar a correr. Entro num corredor lateral; sei que o borp está na minha cola porque posso ouvir seus passos. Enquanto corro pelo longo corredor, meus dedos digitam números e letras em meu holomografizador. É difícil mexer no aparelho enquanto eu corro, mas não há outra opção. Paro de repente e, com um comando meu, a parede ao meu lado se abre, revelando uma passagem secreta da nave. Com um rápido movimento da minha mão, as pernas do borp ficam bambas e ele se desequilibra, caindo com tudo no chão. Entro correndo no compartimento que acabei de abrir enquanto meus dedos digitam o comando para a porta se fechar; o que acontece segundos antes do borp se levantar. Suas mãos socam a porta pelo lado de fora, e com esses movimentos posso perceber o quanto está furioso. Estou seguro por enquanto, mas não por muito tempo.
Olho ao meu redor. Estou num compartimento gigante que eu reconheço de cara: o Grande Salão.
O local está deserto, obviamente por causa do horário. Corro até uma das saídas do salão e então volto para os corredores que mais parecem um grande labirinto. O único barulho que ouço é o dos meus pés contra o chão, mas não por muito tempo. Estou quase chegando em meu compartimento secreto quando mais um borp aparece sem aviso. Infelizmente, desta vez o corredor não tem saídas laterais e, pior ainda, não tem nenhuma passagem secreta. Agora posso ouvir passos ao longe se aproximando atrás de mim, o que significa que voltar não é uma alternativa. Continuo correndo em frente, na direção do borp. Ele aponta uma arma tranquilizadora para mim, mas antes que possa atirar, minhas mãos fazem um movimento de cima para baixo, o obrigando a usar a arma elétrica no próprio pé. Ele desmaia no instante em que puxa o gatilho na direção do membro inferior, e eu aproveito a chance passando correndo por ele. Os outros ainda estão muito distantes, então estou seguro no momento. Viro mais algumas vezes, alternando entre direita-esquerda nos corredores até finalmente alcançar o meu compartimento. Pela primeira vez no dia, abro um sorriso. Com mais alguns toques no holomografizador, obrigo a porta a se abrir e me permito descansar. Meus olhos checam os corredores a minha volta e então eu entro, sem hesitar; o meu pior erro. Quando coloco meu primeiro pé dentro do compartimento percebo que há alguém ali. Um borp que parecia estar me esperando. “Como ele sabia do meu esconderijo?”, pergunto indignado, mas sou tirado de súbito de meus pensamentos quando seu punho cerrado atinge meu rosto, me fazendo cair de costas no chão. Meus óculos escorregam para longe, então tudo o que vejo é o borrão de seu corpo à minha frente. O borp de forma estranha parece se preparar para me chutar, mas antes que isso aconteça eu passo minhas pernas pelas suas, fazendo-o derrapar e cair no chão. Minhas mãos buscam meus óculos e eu os coloco imediatamente. O borp está se levantando; seu rosto vermelho de raiva. Eu sei que ele quer me matar; e ele vai. Antes que se levante, eu me jogo sobre ele, segurando as laterais de sua cabeça com minhas duas mãos abertas. Seu punho se cerra novamente para me socar, mas para no meio do caminho do meu rosto. Seus olhos param de me encarar e ficam vidrados. Sua expressão se suaviza e percebo que sai sangue pelo seu nariz, olhos e orelhas.
— Me… me desculpe… — Digo para o homem que acabei de matar. — Eu… eu realmente pensei que conseguiria controlar… Desculpe… — Estou com a voz embargada pelo susto que acabo de levar. Só então ouço passos ao longe, e percebo que a porta está aberta. Sem nem pensar duas vezes, digito o comando para que ela se tranque. Em poucos segundos posso ouvir os outros borps passando em frente ao compartimento, como se a porta nem estivesse ali.
Fito novamente o homem morto. É a primeira vez que uso tanto da minha capacidade. Eu sei que não podemos controlá-la, mas mesmo assim fui idiota o suficiente para achar que conseguiria. Balanço minha cabeça, me livrando destes pensamentos. Tenho que me concentrar no mais importante neste momento: Contatar Merly e instruí-la a mandar seu irmão à Collonys com segurança. É o único modo de salvar a quase extinta raça de Merly; a tão fraca raça humana. E principalmente, tenho que me concentrar em salvar a mim próprio.
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