College Boy
7 Capítulo 06
Notas iniciais
Honestamente, meu cérebro não tem quantidades significativas de neurônios com capacidade de processar informações biológicas. Não há espaço o suficiente para armazenar qualquer tipo de conhecimento que envolva o funcionamento dinâmico de seres vivos que são formados por mais de uma célula.
E, francamente, não creio que ter chegado atrasada na primeira aula do ano e ter sido recebida com “Alunos, se quiserem passar despercebidos ao se atrasarem, não pintem o cabelo de azul.” ajude a desenvolver neurônios compatíveis com a biologia e seus derivados. Além disso, ter consciência de que Casper Jenkins apenas soltou minha mão para conduzir-se até uma das carteiras vagas no fundo da sala ao lado de seus colegas de time e, no momento, está compartilhando o mesmo ar e espaço que eu durante os próximos exatos noventa minutos não faz com que meu cérebro tenha um funcionamento considerado produtivo.
Apesar de estar devidamente sentada a praticamente três metros de meu colega de quarto, concentrar-me nas palavras proferidas pelo professor parecia irrealizável, já que a lembrança do calor de uma das mãos de Casper e de seu toque firme e levemente áspero era túrbida e preenchia a maior parte de meu raciocínio ainda sã.
Fazer qualquer tipo de esforço para decifrar as palavras desconexas que eram soltas no ar pelo professor estava fora dos meus planos a partir do momento que a ideia de virar-me para Casper e observá-lo por alguns segundos passou por minha cabeça, afinal, era algo definitivamente mais atraente do que a origem da palavra "biologia".
Mesmo com uma aparência consideravelmente nerd, Jenkins ainda conseguia arrancar alguns suspiros de todas as garotas naquele local. Seus braços estavam perfeitamente posicionados para que seus músculos fossem facilmente notados. A quantidade de luzes espalhadas pelo local favorecia o tom azul acinzentado de seus olhos, que permaneciam fixos na direção do professor. Por mais difícil que pareça acreditar, Casper possuía a capacidade peculiar de ignorar todas as gargalhadas provenientes de seus colegas de futebol, que pareciam estar aglomerados em volta dele.
Assim que reparei que os olhos de Casper dirigiram-se aos meus e que um dos cantos de seus lábios começou a curvar-se, retornei à minha posição inicial e dediquei-me a dar atenção ao professor, cujo sobrenome, segundo as letras garrafais e praticamente ilegíveis presentes na lousa, era Collins.
Ao menos, analisar a escrita na lousa afetava uma quantidade menor de partes do meu cérebro em comparação à troca de olhares realizada com Jenkins. Palavras grafadas em giz branco não são capazes de alterar meu nível emocional, respiratório ou cardíaco de forma significativa.
Um silêncio apoderou-se do local assim que o senhor Collins sentou-se em sua cadeira, observando qualquer tipo de movimento que poderia ser realizado por seus alunos nos próximos sessenta minutos de aula.
Sua aparência era um tanto quanto intimidadora, a não ser pela armação grossa de cor preta que ele carregava em seu rosto. As sobrancelhas eram escuras e curvadas. Era possível que o grau de seus óculos estivesse atrasado, o que explica o porquê de seus olhos estarem cerrados. Seu rosto era quadrado, dono de um maxilar definido e barba por fazer. Seus fios de cabelo eram curtos e pretos, contudo, havia mechas grisalhas razoavelmente perceptíveis. Um homem de talvez quarenta e seis anos, sério e rígido, senhor Collins aparentava ser especialista em quesitos biológicos.
Sua voz ecoou por entre meus ouvidos, anunciando parte do conteúdo que seria estudado durante o semestre. Ao ouvir uma pequena introdução sobre o comportamento humano em relação ao sexo oposto e as reações desencadeadas – e devidamente interpretadas pelo sistema límbico – diante de cada ação realizada pelo próximo, levei meus pensamentos até Casper, idealizando o pequeno sorriso sedutor que havia ignorado há alguns minutos atrás.
Após refletir sobre as múltiplas reações que Jenkins havia causado em mim até o momento, percebi o quão arriscado era ser sua namorada publicamente. Seria presumível que ele aproveitaria da situação e do meu sistema límbico com danos em desenvolvimento, visto que analisar seus músculos, olhos e/ou sorriso era aparentemente inevitável.
Debrucei-me sobre a mesa, apoiada em meus dois braços e dedicando-me a fazer anotações mentais sobre os componentes principais do sistema nervoso até que o sinal soasse.
O som intensamente agudo fez com que o professor concluísse o assunto e nos dispensasse. A maioria dos estudantes levantou-se, carregando suas mochilas nas costas e alguns papéis nas mãos.
Empenhei-me para apoiar-me na mesa e fazer mesmo. Estava prestes a recolher minhas folhas, quando uma mão máscula agarrou um de meus punhos.
Olhei para os orbes azuis que me encaravam com curiosidade. Retribuí o olhar de forma desafiadora, esperando que Jenkins se intimidasse e me soltasse.
Ele gargalhou tempo o suficiente para pegar os papéis que estavam espalhados por minha mesa e, assim que cessou, guiou-me até o corredor sem dizer uma palavra sequer.
– Casper, se for possível – respirei fundo – gostaria que você me soltasse antes que arranque meu punho fora.
– Não temos tempo para arrancar punhos, Maddie – ele disse. – Não me faça rir.
– Faça o favor de me soltar antes que eu mesma faça isso – revirei os olhos.
– Infelizmente, não posso – ele suspirou. – Comprometi-me a ser seu namorado durante os horários que passamos fora daquele dormitório e, como um amante exemplar, devo cuidar de você e te levar de forma segura até as mãos de Aiden.
– Não creio que um amante exemplar leve sua namorada até as mãos de outro cara – observei.
– Um amante exemplar leva sua namorada até as mãos de Aiden Foster quando ele é capaz de ser sua companhia durante a aula de matemática, Lewis – ele sorriu ao deduzir que havia conseguido me calar. – Aliás, você pode me agradecer depois.
– Não pense que eu vá te beijar para mostrar o quão grata eu estou por você exercer seu sagrado direito à estupidez desnecessariamente – falei, reprimindo seu tom malicioso. – A única coisa capaz de agradecer seus atos como um amante exemplar seria um soco.
– Você sabe que não me machucaria, Lewis – ele zombou.
Encarei-o de forma irritada e puxei meu braço de suas mãos, livrando-o de seu toque firme e levemente quente.
– Apenas ande, cale a boca e aja normalmente, Jenkins – rosnei, passando um de seus braços por meus ombros. – Ou eu certamente tentarei te socar fazendo com que doa.
– Não seja rude, Lewis – ele aproximou nossos corpos, ainda andando pelo corredor. – Eu entendo que seja decepcionante saber que, infelizmente, não será capaz de apreciar a visão que meu rosto lhe proporciona caso se distraia durante o restante das aulas.
Assim que me virei para examinar sua expressão, seus lábios projetaram o som de uma gargalhada maliciosa.
– Para sua informação, eu estava completamente entediada e decidi meramente analisar a sala e, infelizmente, você fazia parte dela.
– Não chame o fato de estar perdidamente apaixonada por mim ao ponto de não escutar uma palavra que Collins dizia de uma mera análise, Maddie.
– Se estamos dando nome aos bois, creio que meus sentimentos são reciprocamente correspondidos – retruquei, disfarçando um pequeno sorriso vitorioso que aparecera em minha boca. – Você retribuiu o olhar.
– Adoraria dizer que você tem razão, Lewis. Mas, infelizmente, ao observar a sala durante sua mera análise, presumo que você não percebeu o quão deliciosamente bela era a ruiva que estava sentada ao seu lado.
Calei-me assim que percebi que Casper havia – obscenamente – me derrotado, limitando-me a apenas andar com um de seus braços apoiados sobre meus ombros.
– Às vezes, eu te acho um saco – comentei.
– Ás vezes, eu aprecio o quão sinceras são suas palavras – Jenkins riu. Ele estava saboreando minha honestidade da forma mais desleixada possível.
Era oficial: Casper Jenkins não conseguia calar-se quando confrontado com palavras. Casper Jenkins tinha resposta para tudo.
Paramos em frente às escadas levemente tumultuadas que iam em direção ao térreo. Virei-me minimamente para a direita, encarando o rosto de Casper.
– O que exatamente estamos fazendo parados quando deveríamos estar nos movendo em direção a Aiden e à aula de matemática?
– No momento, estamos testando a habilidade de Foster em sobreviver entre a multidão incontrolável de alunos com a finalidade de buscar você e te levar, de forma segura, até Thompson, o professor da área de matemática.
Cerrei meus olhos na tentativa de encontrar Aiden no meio da superpopulação de estudantes localizada a alguns metros de mim. Quando o notei subindo as escadas, meus olhos encontraram-se com os dele e seu braço direito passou a se movimentar em uma velocidade frenética, em forma de aceno. Logo que conseguiu afastar-se da aglomeração ocasionada pela troca de aula, Foster veio em nossa direção, com um sorriso notável.
– E nos vemos novamente, cabelos azuis – ele falou em um tom alegre ao se aproximar de mim. – Sei que você ainda não teve tempo o suficiente para processar seus sentimentos relacionados ao melhor amigo de seu colega de quarto e namorado, mas eu também senti sua falta durante os noventa minutos que estive aturando a senhora Marshall e suas análises sacais da língua inglesa.
– E, lamento lhe informar, você terá que tolerar o senhor Thompson, seus números sacais e minha namorada pelas próximas aulas – Casper direcionou-se para Aiden.
Os sentimentos de Casper por mim eram, da forma mais irônica possível, adoráveis.
– Não brinque com o fogo, Casper – falei em um tom tranquilo. – Mesmo porque você é extremamente sortudo por ter o direito de me chamar de namorada.
– Não acho que seja sensato você retrucá-la – Aiden intrometeu-se, fazendo-me sorrir e concordar com suas sábias palavras.
Foster se afastou, esperando-me próximo à escada. Encarei Casper por alguns segundos.
– Você é um idiota – falei, revirando os olhos.
– Você é extremamente sortuda por ser razoavelmente bonita ao ponto de me fazer pensar duas vezes antes de quebrar nosso acordo agora mesmo – Casper sussurrou em meu ouvido, fazendo-me corar. – Mesmo porque eu ainda posso me aproveitar dele.
– Do que você está falando? – minha voz saiu em tom alterado e volume baixo.
– Disso – ele passou os braços por minha cintura, aproximando nossos corpos e selando-os num abraço acolhedor. Seu rosto tomava o espaço de meu ombro direito e sua respiração era tão desconcertante quanto a minha ao sentir o quão rígido seu peitoral estava e o quão envolvidos nós dois estávamos durante os segundos que ficamos, literalmente, colados um ao outro.
Casper separou-se de mim e toda a rigidez e o ar exalado pelo corpo dele deixaram de fazer parte do meu.
– Agradeça-me depois por demonstrar afeto em público e garantir que Aiden ainda tenha certeza de que nós dois somos um casal – ele falou, fazendo com que eu procurasse resquícios de qualquer tipo de sentimento em seus olhos azuis.
Ainda atônita, fiz com que meus pés se direcionassem a Aiden que me aguardava com um sorriso formado por segundas intenções.
– Você foi literalmente agarrada em público, cabelos azuis.
– Eu já sei disso, Aiden – ri.
– Ele gosta de você – Foster soltou no ar palavras que, pra mim, eram incoerentes, visto que minha relação com Casper não passava de um acordo do qual ele poderia tirar proveitos.
– Eu também sei disso – disse, mesmo que não fosse verdade.
– Espero que você esteja preparada para uma relação complexamente complicada entre letras e números – dito isso, Aiden me puxou pela escada, evitando as formas de vida de base carbono que bloqueavam a passagem.
Em poucos minutos, vi-me novamente envolvida por uma série de carteiras. Poucas delas estavam ocupadas, logo um sorriso brotou em meus lábios e um sentimento silencioso de gratidão por não ter chegado atrasada tomou conta de meu corpo.
Sentei-me na quarta fileira de cadeiras e, em seguida, Aiden tomou a carteira vazia ao meu lado. Sorri brevemente pra ele e virei-me para a lousa de giz assim que o provável senhor Thompson adentrou apressadamente.
– Infelizmente, tenho o desprazer de anunciar que nós teremos uma aula dupla – Thompson parecia tão descontente quanto a maioria dos alunos ao perceber que seu anúncio significava que teríamos mais de duas horas para nos relacionarmos com letras e números antes de nos alimentarmos devidamente no refeitório da universidade. – Antes de iniciarmos nosso curso, sugiro que vocês sejam explicitamente atentos às aulas, não me interrompam e tentem utilizar uma parte de seus cérebros para armazenar fórmulas.
Apesar do tom de voz ríspido, Thompson tinha conselhos úteis. Suspirei, apoiando minha cabeça em uma de minhas mãos, deixando a outra livre para anotar propriedades e fórmulas necessárias para uma permanência sem complicações no país dos números. Porque, francamente, sobreviver lá não aparentava ser fácil.
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