College Boy
8 Capítulo 07
Notas iniciais
O fato de o corredor poder ser comparado com o próprio helvete – sueco para “inferno” – acima da terra não possibilitou com que meu cérebro se recuperasse das duas aulas seguidas lecionadas por Thompson. A questão é que a álgebra é exatamente como Jenkins. Desafiadoramente abstrata por fora e profundamente indecifrável por dentro.
– Então, cabelos azuis, o que você achou da sua primeira aula de matemática? – Aiden perguntou, observando a multidão que se aglomerava à nossa volta.
– Tragicômica, Aiden – respondi, acompanhando os olhos castanhos esverdeados dele até os seios de uma garota de cabelos negros. – Definitivamente tragicômica.
– É normal perder alguns neurônios dentro daquela sala, Maddie – ele suspirou, ainda encarando a garota. – Particularmente, eu já perdi o suficiente para não ter a mínima ideia do que “tragicômico” significa.
Queria dizer que eu tinha a leve impressão de que, nem com todos os neurônios intactos, Aiden conseguiria saber o que “tragicômico” significava. Mas, não creio que ferir os sentimentos dele seja a maneira mais eficiente de torná-lo mais próximo de mim.
Antes que eu pudesse pensar em uma resposta que não ofendesse o restante dos neurônios que Aiden alegava ainda possuir, percebi que os olhos dele estavam totalmente focados nos meus.
– Certo, cabelos azuis. Acho que temos um problema – ele pronunciou em voz alta e clara o suficiente para que eu conseguisse ouvi-lo sem grandes dificuldades. – Preciso de um favor. E também preciso que você prove o valor da nossa amizade.
– Você quer que eu prove o valor da nossa amizade que começou há cerca de cinco horas? – arqueei uma das sobrancelhas.
– Exatamente. Apenas cinco horas ao seu lado e já sinto que somos melhores amigos – ele riu baixo. – Ou algo do tipo.
– Ok, se você está me dizendo que somos melhores amigos ou algo do tipo, acho que seria sensato da minha parte lhe prestar um favor – falei. – Só não se esqueça de que você está me devendo uma. Você sabe como as coisas entre melhores amigos ou algo do tipo funcionam.
– De fato, sei. E também sei que poderia te abraçar agora mesmo como uma espécie de agradecimento – ele sorriu, mostrando os dentes brancos. – Mas, não quero passar a ideia errada para aquela garota de cabelos negros.
– Não tenho certeza se devo perguntar o porquê – comentei, pousando meus olhos sobre a face da garota para qual Foster havia, discretamente, apontado.
– Acho que ela está afim de mim, cabelos azuis – Aiden foi direto. – Qual é sua opinião feminina em relação a isso?
Observei-a por alguns instantes. Os olhos dela estavam fixos em Foster.
– Creio que você esteja sendo refém de um claro e evidente ato de apodyopsis – eu disse. – Antes que me pergunte, é grego para “a ação de despir alguém mentalmente”.
– Interessante – um sorriso carregado de malícia surgiu nos lábios dele. – Isso só confirma as minhas suspeitas de que, infelizmente, terei de abandonar você em uma jornada solitária até o seu ponto de encontro com a Dylan.
– Você não pode fazer isso comigo, Aiden – grunhi, impedindo que a carga de desespero desencadeada pela fala de Foster deixasse meu corpo e tomasse proporções reais.
– Maddie, você disse que, já que é minha melhor amiga no momento, iria prestar-me um favor – ele piscou os olhos lentamente, como se estivesse convencido de que poderia me seduzir a ponto de aceitar que ele fosse embora.
– Tecnicamente, eu não imaginei que seria um favor que sacrificasse minha sobrevivência nessa universidade – cruzei os braços, numa tentativa de mostrar a ele que não iria cair em seus truques. – Você acha mesmo que eu vou conseguir chegar à cantina a tempo de almoçar? Aliás, você acha que eu sequer irei chegar à cantina sozinha?
– Bem, você não vai deixar com que eu perca a oportunidade de ir para o banheiro com a garota que, segundo você, está desejando meu corpo no sentindo mais sexual possível, vai?
– Ir para o banheiro? – perguntei, confusa. – O que isso significa?
Esperando a resposta dele, atrevi-me a olhar uma última vez para a garota. Constatei que ela estava indo embora e contive um sorriso de vitória.
– Pergunte à Dylan – Aiden respondeu com um leve grau de perversidade na voz, e, no mesmo instante, saiu correndo por entre a multidão a fim de alcançar a garota a tempo.
– Você não é, de forma alguma, meu melhor amigo, Aiden Foster! – esbravejei em meio à multidão que, em segundos, o engolira, impedindo-me de segui-lo.
A única certeza que eu tinha naquele momento era que Aiden seria um homem morto na próxima vez que eu o visse. Fora isso, eu não tinha a menor ideia do que deveria fazer.
Desviando todas as expressões ofensivas que meu cérebro conseguiu atribuir à Aiden até então, caminhei até a escada, parando-me em frente à mesma e esperando por um relance de sabedoria que contribuísse com minhas tentativas de relembrar o caminho que havia feito desde a árvore, onde estavam Dylan e seus amigos, até a sala de matemática.
Assim que decidi que o mais sensato a fazer seria seguir o fluxo de pessoas, senti um braço masculino sendo passado ao redor de meus ombros.
O nome de Casper, automaticamente, passou por minha cabeça. Contudo, ao virar meu rosto para o dono do braço, deparei-me com um ser totalmente desconhecido.
Passei meus olhos sobre ele, analisando-o minuciosamente antes de tomar qualquer tipo de atitude. Portador de olhos verde-claros, fios de cabelo marrom-chocolate e – se me atrevo a dizer – músculos muito bem distribuídos, o garoto sem identidade não se incomodou em, ao menos, ter a decência de explicar o que estava fazendo.
– Gostaria que você me avisasse por quanto tempo pretende utilizar meus ombros como apoio para seu braço – pronunciei da forma mais seca possível.
Percebi que o corpo dele enrijeceu no exato instante em que me ouviu protestar contra a ousadia dele.
– Sinto muito – ele desculpou-se com prontidão, expondo a maciez de sua voz e retirando o braço de meus ombros. – Só queria ter certeza do que Casper estava carregando nas mãos dele dessa vez.
– E suas conclusões são? – perguntei, cerrando meus olhos.
– Jenkins está com um belo de um desafio nas mãos – ele declarou. – E eu, particularmente, sou louco por um desafio.
– E audacioso o suficiente para flertar comigo sem, ao menos, saber meu nome – completei.
– Não estou flertando com você, Maddie Lewis – um pequeno sorriso sedutor tomou conta dos lábios dele, assim que eu, surpresa, arqueei as sobrancelhas. – Noah Massets. É um prazer.
– O prazer seria meu se, ao menos, eu pudesse ter tido a oportunidade de me apresentar – forcei-me a rir, ainda que estivesse desconfiada em relação às intenções de Noah Massets.
– Estou convicto de que ensejos não lhe faltarão, Maddie – um sorriso um tanto quanto sedutor tomou conta de seus lábios rosados.
– Você está mesmo flertando comigo, não está, Massets? – questionei assim que percebi uma leve pontada de malícia em sua voz.
– Se sua definição de “flertar” for “ser amigável”, tenho de admitir que, sim, Maddie, estou flertando com você.
Antes mesmo que eu pudesse expressar, em voz alta, o fato de que eu o conhecia a menos de trinta minutos e já o achava um babaca, – não por completo, mas ainda assim, babaca – Noah Massets pronunciou duas palavras que me fizeram mudar de ideia em relação a não aceitar, sem reclamações, sua amizade repentina.
– Maddie, por que você não me acompanha até o refeitório? – ele perguntou, estendendo sua mão para que eu a pegasse. – Antes que você conteste, isso não é uma tentativa de seduzi-la. Isso, para ser franco, sou eu mostrando o quão compreensivo eu posso ser com aqueles que parecem não fazerem a mínima ideia da localização da cantina ou de qualquer outra coisa no campus.
– Você não está esperando que eu pegue sua mão para me guiar, está? – era, de fato, algo estúpido de se fazer se considerarmos o fato de que eu o conhecia há menos de vinte minutos e, teoricamente, estava em um relacionamento sério que, ainda que não fosse verdadeiro, merecia ser preservado.
– Por acaso, seu namorado te ensinou o caminho até o refeitório?
– Infelizmente, não – respondi. De fato, Jenkins era um péssimo pseudo-namorado e, como se não bastasse, seus amigos – principalmente os loiros de olhos castanhos esverdeados – eram piores.
– E você sabe ir até lá sozinha? – Noah reprimia um sorriso vitorioso conforme suas palavras preenchiam o ar existente entre nós.
– Não – suspirei, dirigindo meus olhos aos dele, os quais adquiriram um brilho instantâneo ao ouvir-me murmurar uma resposta negativa.
– Sinto em lhe informar, Maddie Lewis, mas pegar a minha mão parece ser a sua única opção – dito isso, revirei os olhos e encaixei nossas mãos, fazendo com que um sorriso de segundas intenções passasse momentaneamente pelos lábios de Massets.
– Para alguém que está sendo apenas amigável, você parece extremamente exultante em segurar minha mão – comentei, esperando que a ironia em minhas palavras reprimisse seu maldito sorriso e deixasse claro o quão esplêndida a situação estava sendo para mim.
– Fazer novos amigos é sempre bom, Maddie – retrucou e, sem esperar por uma resposta, aventurou-nos pela multidão.
Apesar de ter a leve impressão de que seus olhos verdes pairavam sobre mim a cada corredor que virávamos, foram poucas as vezes que correspondi o contato visual de Noah. Sua postura era semelhante à de Casper ao segurar minha mão, como se estivesse realmente determinado a não me perder por entre a aglomeração de estudantes que nos acompanhava.
Noah estava sendo gentil. Gentil o suficiente para lembrar-me de que gestos cavalheirescos como aquele só existiam caso o praticante deles recebesse algo em troca.
Casper Jenkins era a prova viva disso. Apesar de ter concordado em tratar-me devidamente em público quando aceitei nosso, digamos, namoro, algo me dizia que ele tinha certa consciência dos benefícios e vantagens que poderia tirar de nosso relacionamento fictício.
Se Noah fosse tão pretensiosamente ousado quanto aparentava ser e – se devo dizer – tão semelhante a Casper, era provável que ele requisitasse a recompensa que merecia por, pacientemente, instruir qual era o caminho mais rápido do segundo andar até o refeitório sem deixar com que quaisquer danos ocorressem comigo.
A parada brusca e repentina de Massets fez com que minha análise comportamental dele se perdesse por entre meus pensamentos, dando lugar para a concepção da imagem que já havia visto no dia anterior: mesas com seis cadeiras que, ainda, permaneciam parcialmente limpas e devidamente lotadas, quase sem lugares disponíveis e uma fila megalomaníaca.
– Como você pôde observar, Maddie, chegamos ao seu destino – afirmou o óbvio, deixando com que um sorriso passasse a fazer parte dos traços que compunham de seu belo rosto.
– Tecnicamente, a única coisa que eu consigo observar é o tamanho da fila para que se consiga, com sorte, obter uma refeição nesse lugar – falei, encarando-o como se enfrentar aquela fila fosse o fim dos tempos.
– Você sempre pode contar com as máquinas de salgadinhos e refrigerantes em situações como essa – ele riu, dirigindo os olhos para uma delas.
Antes que eu pudesse listar alguns dos malefícios causados por refeições baseadas em salgadinhos e latas de refrigerante em voz alta, avistei Dylan Watson caminhando em nossa direção.
Quando ela aproximou-se de nós, agradeci Noah pelo pequeno tour que ele havia me proporcionado e despedi-me, sustentando um pequeno e sincero sorriso em meu rosto. Virei-me para Dylan no exato momento em que Massets de vista.
– Eu sabia que você havia se metido em problemas assim que vi Aiden ajeitando as calças ao aproximar-se do nosso ponto de encontro sem você ao lado dele – sua voz soou doce e calma por entre meus ouvidos. – Entretanto, não sabia que seriam problemas desse tipo.
– O que você quer dizer com “problemas desse tipo”? – questionei, certificando-me de que meu tom de voz fosse tão ríspido quanto o dela ao pronunciar as exatas mesmas palavras.
– Problemas do tipo Noah Massets – respondeu de forma simples. – Ou seja, dos grandes.
– Explique-se – pedi.
– Tudo o que posso lhe dizer é que Casper Jenkins e aqueles que apoiam a promoção dele para capitão do time de futebol, definitivamente, não gostam do seu guia turístico.
– Por que eu sinto que, talvez, você esteja me privando de informações extremamente relevantes e necessárias? – girei os olhos, fazendo-a soltar uma gargalhada.
– Porque eu tenho certeza de que Casper me presentearia com um encontro com o Criador antes mesmo que eu pudesse contar todo o passado ilícito dele a alguém – respondeu, arrancando uma risada de mim.
O fato de Dylan ter escolhido o adjetivo “ilícito” para descrever o passado de Casper era interessante. Interessante e, ao mesmo tempo, soava como se falar sobre ele fosse contra as regras.
– Certo – concordei, sabendo que não conseguiria mais dados sobre Casper – Mas, só para constar, Noah Massets teve de ser meu guia turístico, visto que o original não estava disponível por ter ido para o banheiro com uma garota qualquer.
– Você está me dizendo que Aiden preferiu satisfazer os desejos sexuais dele a realizar as vontades de Casper? – e foi assim que eu descobri que ir para o banheiro também poderia ter um significado impuro e de conotação totalmente sexual.
A vida não é simplesmente fantástica?
Dylan passou os olhos pelo refeitório e entrelaçou nossos braços, obrigando-me a acompanhar seus passos em direção à fila.
Corrigindo: Em direção a Aiden, que estava no final da mesma, segurando um prato de vidro sobre uma bandeja para apoiá-lo.
– Eu simplesmente não entendo como, no segundo dia de aula, você já consegue arranjar compromissos relacionados ao que você tem entre as pernas, Aiden – Dylan repreendeu-o, chamando sua atenção e fazendo-o encará-la.
– Bom, é o mínimo que eu posso fazer quando a veterana que eu tanto almejo, minha cara Dylan, ainda não desenvolveu a capacidade de não resistir aos meus encantos – seus lábios se curvaram para cima instantaneamente.
– Você é repugnante, Aiden – Dylan afirmou e eu soltei uma leve risada.
– No entanto, Dylan, minha repugnância não impediu que Maddie chegasse aqui sã e salva – ele disse, olhando-me de cima a baixo e entregando-nos dois pratos.
– Porque, aparentemente, Noah Massets fez seu trabalho, Aiden – Dylan encarou-o e os olhos castanhos esverdeados de Foster se tornaram ligeiramente maiores.
– Bem, vocês não acham que seria patético e, de certa forma, suicídio, compartilhar esse detalhe com Casper? – Aiden perguntou, dirigindo-se a nós duas dessa vez. Apesar de sua postura dizer o contrário, seus olhos denunciavam o quão desesperado ele estava por uma resposta afirmativa. – Não que o fato de você, cabelos azuis, ter sido guiada por um cara que, segundo Jenkins, exerce seu sagrado direito à estupidez da forma mais egocêntrica e acéfala possível, seja importante e deva ser mencionado, certo?
Se o boato de que eu estou namorando Casper se espalhou em menos de um dia pela universidade – não é à toa que Massets sabia meu nome antes mesmo de eu ter tido a oportunidade de pronunciá-lo em voz alta –, imagino quanto tempo será necessário para que o rumor em relação a Noah ter segurado minha mão chegue aos ouvidos de Jenkins.
– Não acho que será preciso mencionar qualquer coisa, Aiden – falei, observando-o, um tanto quanto aflita.
– O que você quer dizer com isso? – indagou Foster.
– Creio que você está prestes a descobrir – Dylan tomou a liberdade de responder por mim, assim que os olhos dela pousaram sobre o indivíduo de cabelos negros e orbes obscenamente azuis acinzentados que havia acabado de adentrar o refeitório em uma entrada explicitamente triunfal. Se é que podemos chamar o ato de empurrar uma porta com agressividade e violência e a habilidade de silenciar todos que ali estavam presentes de triunfo.
– Aconselho que preparem uma lista de exigências para o velório de vocês – Dylan nos encarou rapidamente, antes de voltar sua atenção a Casper que, até então, passava os olhos pelos estudantes, como se procurasse uma pessoa em específico. – Porque, sem dúvidas, alguém aqui está indo ter o prazer de presenciar um encontro com Senhor sem passagem de volta.
O olhar que parecia transportar uma tempestade carregada de caos e destruição cruzou com o meu, amedrontado, inseguro e com receio do desconhecido e do que ainda viria a acontecer.
– Eu até me daria o trabalho de dizer o mesmo a Noah e a toda arrogância implícita atrás daqueles olhos verdes, – Dylan continuou – no entanto, acho que Jenkins já escolheu a vítima de hoje.
Com passos largos e pesados, Casper aproximou-se gradualmente de nós, mantendo os olhos fixos nos meus.
Ao chegar perto o suficiente, posicionou-se em minha frente, de modo que eu fosse capaz de sentir sua respiração descompassada e acelerada.
– Casper... – Aiden pronunciou ao meu lado.
– Conversaremos mais tarde, Aiden – Jenkins, rudemente, interrompeu-o. Piscou algumas vezes e um largo sorriso tomou conta de sua face. – Já nós, Maddie, vamos conversar agora.
A mão esquerda dele tomou posse de meu antebraço direito, arrastando-me pelo mesmo caminho que ele havia feito até alcançar-me, junto à Dylan e Aiden.
– Casper... – proferi na metade do percurso, alimentando o silêncio do refeitório com seu nome, pronunciado de forma hesitante. – Casper?
– Sim? – ele parou por um instante, mas não me soltou.
– Podemos conversar depois? – interroguei, apreensiva.
– Você tem um bom motivo para adiar nossa conversa, Maddie? – respirou fundo. – Espere, deixe-me adivinhar... Por acaso seu motivo está relacionado a Noah Massets? Porque eu aposto que você adoraria utilizar o tempo do nosso diálogo para grudar suas mãos nas dele novamente, não?
Pude ouvir ao menos metade dos estudantes soltar pequenos e abafados gritos de surpresa.
Eu deveria ter feito o mesmo. Deveria ter ficado surpresa. Deveria ter dito que, na verdade, queria conversar depois porque, no momento, só queria almoçar com Dylan e com os outros indivíduos do grupo dela. Os indivíduos com os quais, supostamente, eu deveria me relacionar e que, agora, não podem ter o prazer de desfrutar minha companhia durante aquilo que seria nossa primeira refeição juntos porque um dos caras que fez com que eu os conhecesse prefere humilhar-me na frente deles e de, provavelmente, oitenta por cento do campus. Isso porque esse cara em especial tinha um acordo comigo e havia prometido que se eu seguisse as regras estúpidas dele, ele iria me respeitar fora de nosso dormitório. Que irônico.
Espere. Havia mais alguma coisa...
Ah, sim. Eu não poderia requisitar uma solicitação para mudar de quarto.
Enquanto eu tentava lembrar o motivo que Casper havia me dado para não trocar de colega de quarto, pude ouvir o som dos pés de uma das cadeiras do refeitório serem arrastados com crueldade no chão. Alguém fora corajoso o suficiente para se levantar, pensei.
Pude sentir que Jenkins, instantaneamente, largou meu antebraço e virou-se para trás.
Ainda de costas para quem quer que tenha sido audaz o suficiente para atrair toda a atenção para si, visto que, até então, a mesma estava focada em mim e em Casper, analisei a vermelhidão que tomara conta do espaço segurado por meu colega de quarto e passei minha outra mão sobre a área, retornando a concentrar-me em meus pensamentos relacionados ao porquê de eu não ter saído daquele dormitório quando tive chance.
– Noah – Casper anunciou, rispidamente, o nome daquele que se levantara. Eu já o ouvira pronunciar o mesmo nome no exato mesmo tom quando ele havia me contado quem fora seu ex-colega de quarto.
– Casper – espere um segundo. Essa não é a voz de Noah Massets?
Virei-me para confirmar, colocando-me ao lado de Jenkins. Deparei-me com Massets e um sorriso desafiador nos lábios.
Isso não era nada bom.
Noah Massets e Casper Jenkins tinham histórico. E, se devo dizer, esse não era dos melhores.
– Contei à sua namorada o quanto eu adoro desafios – Noah falou. – E você sabe o quão mais intrigante eles ficam quanto te envolvem, não sabe?
– Você não irá encostar nela, Massets – Casper disse em um tom autoritário.
– Eu já encostei, Casper – Noah riu sarcasticamente. – Afinal, não foi você quem acabou de dizer que ela iria grudar as mãos dela nas minhas novamente?
Olhei para Casper, esperando por sua reação. Seu maxilar estava travado e a tempestade em seus olhos parecia dar lugar a dois violentos furacões. Suas mãos estavam fechadas em punhos e algo me diz que uma delas estava prestes a causar um estrago na bela face de Noah Massets. Isso é, se o mesmo não estivesse em uma distância parcialmente segura.
Jenkins deu um passo largo e aproximou-se consideravelmente de Noah, ficando a poucos centímetros de seu corpo. Acompanhei seu movimento e pus-me ao lado dele. Respirou fundo, exalando o ar que adentrara seu organismo de forma pesada. Uma de suas mãos, com brutalidade, segurou a gola da camiseta de Massets.
Oh, não.
Antes que sua outra mão fosse capaz de deixar uma bela marca no rosto de Massets, coloquei-me à frente de Casper, agarrando seu corpo e envolvendo seu pescoço com os meus braços.
– Casper, não – sussurrei em seu ouvido da forma mais tranquila que consegui, na ponta dos pés. Senti que parte dos meus lábios haviam tocado sua pele quente. – Por favor, não faça isso.
Quando notei que seu peitoral havia relaxado, apoiei minha cabeça em seu ombro direito e o abracei, como se agradecesse em silêncio. Casper correspondeu, passando, assim, os braços por minha cintura de maneira possessiva.
– O que você acha de termos aquela conversa agora? – sua voz soou rouca e doce por entre meus ouvidos. – Posso resolver as coisas com Massets quando você não estiver por perto para me desconcentrar dessa forma.
A verdade é que eu deveria, ao menos, cogitar a possibilidade de recusar seu, digamos, pedido, uma vez que – com ou sem as mãos sobre meu corpo – Casper havia sido estupidamente babaca. Porém, no fundo, eu sabia que minha sanidade e minha habilidade para julgar determinadas situações já estava afetada a partir do momento em que eu, por impulso, posicionei-me em sua frente e impedi-o de ferir Massets. Portanto, dizer não a Jenkins não parecia ser uma opção para meus neurônios no momento.
E isso, com certeza, era um problema.
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