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10 Execução
Notas iniciais
Era tudo culpa minha. Tudo. Eu deveria ter previsto que ela não se sairia bem. Claro que Maggie era esperta e ágil, mas era frágil. Eu evitava pensar no pior. Eu só queria encontrá-la logo. Eu me sentia culpado por ter colocado a vida da Maggie em risco por uma pessoa que eu mal conhecia. Quanto mais eu corria, mais a culpa pesava e mais eu me sentia com vontade de chorar. Era inevitável pensar que os civis a capturaram. Eu jamais conviveria com essa dor, com esse peso. Todos os dias eu acordaria com o coração acelerado imaginando que eu era culpado pela tristeza da família dela, pela morte dela e principalmente por não ter vivido tudo o que poderíamos ter vivido juntos.
Eu gritava para o vento. Os pássaros se assustavam, os animais corriam, mas nada além disso. Eu não conseguia pensar onde ela pudesse estar. Eu corria mas nunca saia do lugar. Senti meus olhos lacrimejarem e eu tentei evitar que as lágrimas caíssem. Eu não conseguia mais lutar contra mim mesmo. O sol estava me matando, deveria ser quase meio dia e o calor me deixava pior. Sentei perto da árvore mais próxima e tirei a camiseta molhada pelo meu suor.
– Maggie, me desculpe por tudo.
Soquei a árvore com força, alguns pássaros voaram e permiti que minhas lágrimas caíssem. Aquilo não era suficiente para trazer ela de volta. Provavelmente já estaria morta.
Morta.Essa palavra se repetia diversas vezes na minha cabeça e eu me sentia mais nervoso. Prometi a mim mesmo que se ela estivesse morta, faria de tudo para matar todos aqueles políticos miseráveis. Mas a culpa não era deles, nunca foi.
O sinal tocou e tive um sentimento contraditório. Depois que notaram o sumiço de Alice, se realmente Maggie tivesse sido pega, era a hora de saber.
Corri o mais rápido que pude. Tropecei nas pedras e me cortei nas cercas, mas nada me parou. Se ela estivesse viva, eu a salvaria, não importava as circunstâncias.
As pessoas já estavam aglomeradas no centro. Vi a mãe de Maggie aflita, ela estava sozinha. Dois civis subiram no palanque junto ao tio de Alice, que parecia muito irritado.
– Bom dia! Ou não tão bom. – ele fingiu limpar as lágrimas que nunca caíram. – Essa manhã tive a notícia do desaparecimento da minha sobrinha Alice. Estamos todos chocados com o acontecimento e estamos a sua procura. De qualquer forma, ontem a noite uma garota nos chamou atenção. Ela tentou distrair nossos civis e logo depois notamos o desaparecimento de Alice. – ele suspirou. – Tragam a garota.
Parei de respirar por um momento. Maggie estava suja, cheia de cortes e roxos por todo o corpo. Ouvi gritos da mãe dela, e o tio de Alice a fitou. Maggie estava algemada e olhava para baixo. Eu deveria estar no lugar dela. A culpa era minha.
– Bom, sabemos que não era do interesse de alguns que Alice viesse ao poder. Essa garota... – Ele disse levantando o rosto de Maggie com força. – Essa garota é quem provavelmente sequestrou minha sobrinha e a menos que alguém se habilite agora, ela vai ser executada em praça pública.
Olhei para o lado e agora Sarah estava caída no chão. Eu não sabia o que fazer. Eu tentava pensar em algum jeito de ajudar, olhava para todos os lados procurando algo que me servisse. Eu não podia fazer nada sem pensar. Se eu estivesse morto não poderia salvar a Maggie.
– Já que ninguém tem nada a dizer, creio que você Maggie, seja a culpada. – ele disse bem próximo a ela – Seria uma pena te matar, logo você que é tão bonita... – seu sorriso diabólico crescia – Vou dar-lhe mais uma chance. Quem sabe se alguém ver seu sofrimento, não mude de ideia não é?
Um civil subiu no palanque com um pedaço de ferro nas mãos. Ele levantou para bater em Maggie e eu não consegui me segurar.
– A Alice está comigo! – Eu gritei e todos olharam para mim.
– Josh, não! – Maggie gritou e o civil a socou.
– Eu deveria ter pensado nisso. A Alice realmente queria falar com você depois do discurso, era obvio. Tragam-no.
Não esperei me buscarem. Fui até o palanque e não olhei para a Maggie, seria muito mais doloroso vê-la triste.
– Onde Alice está?
– Solta a Maggie e a gente conversa.
– Você não está em condições de exigir nada.
– É melhor você soltar ela antes que diga algo sobre o carro da Alice – eu disse num tom agressivo.
Ele ficou quieto. Aquelas palavras o intimidaram de uma maneira que ele mesmo abriu as algemas. Ela não queria ir.
– Maggie, vai. – Eu disse baixo e rude. Ela desceu as escadas chorando e eu me senti mal.
– Agora você já pode falar. Onde ela está?
– Eu a matei e joguei o corpo no rio.
Todos ficaram em silêncio. Ele fingiu que estava assustado mas eu sabia que estava feliz, imaginando que foi muito mais fácil para ele.
– Não é possível! Procurem o corpo! – ele me olhou com os olhos agradecidos – Algemem.
Não respondi. Um civil me ajoelhou de frente para as pessoas e me algemou.
– Quando quiser. – O Melbourne disse e eu fechei os olhos.
Maggie está bem, ela está viva e só isso importa. Queria poder ver seu rosto pela ultima vez, mas sei que é impossível.A sua imagem surgiu e eu entrei num transe completo. Agora morrer era a única coisa com que eu me importava. Nem mesmo ouvir o som do machado me assustou.
Nos últimos segundos antes da minha morte várias coisas passaram pela minha cabeça. Eu achava que essas coisas não aconteciam quando se sabe que vai morrer. Vi imagens da minha infância, de momentos bons e ruins. Lembrei da primeira vez que levei Maggie para pescar e ela escorregou nas pedras e cortou o joelho. Lembrei da primeira vez que Maggie me ensinou a ler e escrever. Lembrei de quando Sarah me abrigou em sua casa e cuidou de mim como se eu fosse seu filho. Lembrei do retrato dos meus pais. Com amor Bill e Rose, era o que dizia atrás da foto. E todos esses pequenos momentos marcantes da minha história vieram a tona, como se ela acabasse ali, no palanque, no centro da cidade para que todos admirassem a minha morte.
Uma gritaria chamou minha atenção. Eu já estaria morrendo? Dizem que mesmo depois de perder a cabeça podemos sobreviver por cinco segundos. Eu não queria pensar em nada diferente. Eu sentia o vento batendo no meu rosto, e a gritaria continuou. Duas mãos me levantaram e eu abri os olhos.
– Vamos, Josh. Vamos logo.
Era Alice. O tio dela já não estava ali e três civis estavam jogados no chão cobertos de sangue, assim como seu rosto e as mãos dela.
– Alice, o que você está fazendo aqui?
– Vamos, logo seu imbecil.
Ela segurou minha mão e corremos para a floresta. Alguns civis nos perseguiram mas nos escondemos no meio da multidão. Ela não sabia para onde estava indo, mas eu conhecia a floresta melhor que qualquer pessoa. Corri para o outro lado e ela me seguiu. Nos escondemos atrás das árvores e esperamos até que os civis passassem. Eu não conseguia pensar em nada. Pela primeira vez nada vida eu não fazia idéia do que eu deveria fazer, de como seriam as coisas dali pra frente.
– Precisamos ajudar a Maggie. – Alice disse baixo.
– O que ela tem?
– Não sei bem. Da ultima vez que a vi, estava coberta de sangue e um garoto estava levando ela pra algum lugar. A mãe dela estava junto.
– Se a Maggie morrer, eu... Eu não sei do que sou capaz.
– Ela não vai morrer ta legal? Vai ficar tudo bem, Josh.
– Você não sabe, você não é médica, e quer saber? É tudo culpa sua. – Eu gritei.
– Culpa minha? Eu não te pedi nada. Porque não me deixou morrer?
– Eu deveria. Pelo menos Maggie e eu estaríamos bem.
– Você é um idiota! A culpa não é minha. Eu não queria que essas coisas acontecessem. Eu não posso evitar sem quem eu sou.
– Isso é problema seu. Não deveria ter me metido nos seus assuntos.
– E eu que pensei que estivessem errados sobre vocês. Agora eu entendo meu tio. Vocês não valem nada.
– Cala a sua boca. – Eu gritei – Quem não vale nada é você e a sua família de merda. A Maggie nunca te conheceu e mesmo assim se arriscou pra salvar a sua vida. Você é uma ingrata. Deveria estar como o seu pai e a sua mãe, os três mortos.
– Desgraçado!
Ela me deu um tapa na cara com toda a força que tinha. Ela estava ofegante e eu percebi a besteira que eu tinha falado. Se alguém falasse isso para mim, não magoaria, mas ela tinha acabado de perder os pais. Fui cruel, mas eu sabia minha dor.
– Eu vou atrás da Maggie. Faça o que quiser daqui pra frente.
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