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5 A morte chega para todos
Notas iniciais
Eu sabia que ela estava escondendo algo de mim e eu não ia deixar isso passar. Mesmo depois de ter prometido pra ela que não ia investiga-la mais, eu merecia uma explicação. Não ia repreende-la, só que eu precisava saber. Se não era trabalho digno, não era digno usufruir da colheita dele. Eu sabia que não era um exemplo de pessoa, mas eu tinha meus motivos. Eu me preocupava com ela e não queria que ela se submetesse a coisas absurdas. Eu tinha minhas suspeitas, mas me custava a acreditar.
Quando ela acordou, permaneci imóvel esperando apenas ouvir o barulho da porta. Demorou um pouco, mas logo ela saiu. Desci as escadas devagar, já que eram velhas e barulhentas. Se Maggie me descobrisse, faria um escândalo.
Ela fez uma caminho que eu não conhecia, mas mesmo assim a segui. Era uma parte da cidade que somente os civis eram permitidos e foi aí que fiquei surpreso. Ao invés de espanca-la, como era o costume com as pessoas do segundo estado que invadiam seu território, eles a cumprimentavam e paravam para conversar.
Não era possível. Ou eu estava ficando louco ou enxergando coisas. Nunca na minha vida vi os civis com amizade para cima de nós e eu não conseguia entender o motivo de gostarem da Maggie.
Um homem branco, alto, fardado, com cabelos claros e corpo forte se aproximou dela e deu algumas moedas. Minha vontade era de ir la e tirar satisfação mas provavelmente ela inventaria alguma desculpa e me convenceria de que ela estava certa. Esperaria para ter todas as informações que eu queria.
Maggie, não faça o que estou pensando.
Ela deu um beijo no rosto do homem fardado e ele apertou a bunda dela. Eu já sabia como ela ganhava toda aquela grana e eu estava com nojo dela. Nunca pensei que a única menina que eu considerava descente e tinha admiração fez isso comigo.
Fiz força para engolir o choro. Segurei a tristeza dentro do meu peito e fingi que nada estava acontecendo. Mas estava. Minha irmãera tão pobre de espírito que eu não pude imaginar como eu nunca desconfiei de nada.
Não sabia que reação ter. Não sabia se deveria falar com ela ou correr e contar para a mãe dela. Com certeza seria uma decepção enorme para a coitada. Eu esperaria. Não devia me meter nos assuntos da família dela, mas meu assunto com ela sim. Esperei quase meia hora até que ela saiu de novo, mas dessa vez desacompanhada. Parecia triste, nem parecia a mesma Maggie que eu conhecia.
– O que você veio fazer aqui, garota?
Ela me olhou com espanto e não respondeu nada. Depois de alguns segundos sem reação ela novamente se fingiu de nervosa para jogar a situação contra mim.
– Que horas você chegou aqui?
– Na mesma hora que você.
Ela ficou quieta e olhou para o chão, sem reação. Ela não tinha porque negar o que eu já tinha visto.
– E então, o que vai ser? — Ela disse com os olhos cheios de lágrimas.
Cheguei perto dela e fiz questão de olhar bem nos seus olhos para que ela soubesse que aquilo não era brincadeira.
– Eu tenho nojo de você. — eu disse cuspindo as palavras. — Você não precisava de nada disso. Nem posso imaginar com quantos homens você já ficou.
Eu estava ofegante. A raiva me dominava e eu estava segurando as palavras. Eu tinha muito mais pra falar, mas ela já parecia arrasada o suficiente.
– Josh, eu... — Ela disse limpando as lágrimas — Eu tenho minha irmã, minha mãe...
– Isso não é desculpa. A sua vida inteira você usou sua família para resolver seus problemas. Não é assim que as coisas funcionam.
– Não é só a minha família, Josh. Elas não são o mais importante.
Segurei o queixo dela para que ela me olhasse.
– Então o que é o mais importante?
– Você.
Soltei e engoli a resposta em seco. Como assim eu? Eu sabia que de certa forma fazia parte da família, mas aquilo soou como um sentimento diferente.
– Viu? Você tenta fugir das coisas. Quer que eu fale a verdade mas não aceita a resposta. Se eu tivesse falado que eu fico com os civis, você aceitaria? Claro que não. — ela estava aos prantos e aquelas palavras me machucavam. — Assim como a vida toda eu tentava te mostrar que eu gostava de você e você se fingia de desentendido. Eu não te enxergo como meu irmão, Josh.
Eu já havia esquecido o motivo pelo qual eu estava nervoso. Eu só estava triste. Triste porque ela tinha razão. Eu tentava evitar o sentimento dela negando para mim mesmo que aquilo era de verdade.
– Eu não sei o que dizer. — foi tudo o que eu disse.
– Então não diga.
Ela se aproximou de mim tão rápido que não tive tempo de dizer uma só palavra. Ela colou sua testa na minha e nossos lábios ficaram tão próximos que eu senti vontade de beija-la. Ela deu um leve sorriso quando percebeu que eu estava ofegante, sabia que eu queria. Queria experimentar beijar uma garota de verdade, afinal, não pode se considerar um beijo as 11 anos. Ela colocou a mão na minha nuca e eu a beijei. Pra falar a verdade, foi uma sensação incrível. Foi como se o mundo tivesse parado e só existisse ela. Não queria parar, porque quanto mais nos beijávamos, mais eu tinha desejo.
O som do sino me tirou do transe e acho que isso irritou um pouco a Maggie. Não sabíamos o que o sino significava mas o que nos assustou foram os civis correndo para fora das cabanas e levando todas as pessoas para o centro, inclusive nós dois.
– Você sabe o que significa isso? — perguntei, nervoso — Será que é mais algum discurso?
– Quando tem discurso não é o sino que toca, e sim o sinal. E temos algum tempo para nos arrumar.
– Então o que pode ser?
Ela fez cara de desentendida e se virou para observar o que os civis estavam fazendo no palanque. Ficamos esperando por dez minutos para saber do que se tratava e cada vez eu ficava mais apreensivo.
– Silêncio. — ordenou o civil e todos se calaram em um segundo. — Bom dia. O governador Richard Melbourne morreu e até ser eleito um novo governante, nós manteremos a ordem aqui no seguindo estado. Em breve daremos mais informações. Obrigado.
– Nossa, grande coisa aquele imprestável morrer. — eu disse e Maggie me olhou com espanto.
– Você sabe muito bem que ele foi nosso melhor governante. E se agora entrar alguém pior que ele?
– Rá. Não pode ficar pior.
– Não brinque com fogo, Josh. Já viu a filha dele? Acho que é ela quem vai assumir o governo.
– Duvido que uma garotinha como ela pode ser cruel. Tudo bem, ela parece ter personalidade forte mas ela é só uma adolescente.
– Esses adolescentes estudam desde pequenos como maltratar a gente. Aprendem desde criança a prosseguir com as crueldades dos pais.
– Ta, mas agora temos que nos preocupar com os civis. Eles são nosso maior problema.
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