Colhedores
1 Colhedor
Notas iniciais
Sim, eles me disseram que estava errado, que eu não poderia ter feito isso, eu sei que se eles descobrirem provavelmente serei morto, mas como eu não faria? Ela estava em todos os lugares, ela sempre me notava! Ela estava em 1200, em 1445, em 1812, em 1915 e em 2015!
Não me lembro de ter visto moça mais bonita, mais pura, mais... Ela. Antes de Cristo, mas sei que em todas as outras as datas, eu tinha a honra de tê-la observado. Tive a honra de ser seu Colhedor.
Eu a acompanhei todas as encarnações de Kate, July, Daniele, entre tantos outros nomes e jeitos como o qual ela reencarnou, a acompanhei por quatro vidas inteiras e agora, em 2015, eu infringi a maior regra das viagens no tempo, eu me apaixonei por ela.
Agora com o nome de Elizabeth, ela reencarnou numa cidade pequena da Inglaterra.
O Conselho principal preparou toda a sua vida e me entregou tudo escrito, uma página para cada dia, as dela eram exatas 30295 páginas, não haviam detalhes, o papel dos Colhedores era exatamente esse, detalhar.
E eu era um Colhedor, nós somos cada um encarregados de um humano, nós recebemos um livro dourado com todos os dias listados, que diz o que deve acontecer todos os dias e nós fazemos acontecer, para que tudo fique em ordem.
Um Colhedor é simplesmente um colhedor, colhedor de informações, colhedor de conhecimento, colhedor de sonhos.
Depois de a teoria do Universo ter sido descoberta, algo maior nos colocou num lugar tão escondido quanto o Éden, nós fomos criados a partir do nada. Nós não temos sexo, não temos nomes, não temos sequer idade.
Não sabemos quando descobriram a teoria do Universo, temos o nosso próprio Universo dentro do dos humanos, então não sabemos quando fomos criados, porque imos e voltamos no tempo há todo momento.
Vou dar um exemplo simples: Posso estar agora bem ao seu lado e ao mesmo tempo posso estar ao lado de um soldado japonês na Segunda Guerra, as leis da física não se aplicam aos coletores, nem ao conselho.
Os primeiros Colhedores, são os que agora compõe o Conselho, a questão é que ninguém faz ideia de quando os primeiros colhedores surgiram. Eles podem ter sido criados amanhã e já ter mudado o futuro ontem, o tempo não faz tanto sentido para nós quanto para os humanos.
A únicas regras importantes que nos ensinaram foram:
– NUNCA, em nenhuma hipótese, fale com alguém, não seja visto, não deixe rastros, eles não devem saber da existência dos coletores – A pena para isso era a morte.
– Não se apaixone – Alguns acham a regra boba “quem se apaixonaria por um humano?”, a pena para isso, era simplesmente ter que conseguir viver com a dor de nunca poder falar com ele. Ter sentimentos era quase inaceitável para o Conselho, a pena era simplesmente a dor de suportar isso.
– O passado fica no passado, ele não pode ser alterado. Mesmo que volte para o passado, você só e apenas conseguirá mudar o futuro – Não era um crime. Era impossível.
Ela estava agora com dezesseis anos, três meses, dois dias e algumas horas. Sempre foi a mesma garota, difícil de conquistar, ela sempre achava estar certa no começo, mas acabava percebendo os seus erros.
Ontem ela teve seu coração partido.
Tive que cuidar para que isso acontecesse – Nunca entendi porque o conselho bagunçava tanto a cabeça dos humanos, eles sofriam, dor era um sentimento terrível.
A pior parte de ser um Colhedor, era que sentíamos dor com eles. Tudo que fazíamos acontecer, acabava nos fazendo sentir – Ela estava debruçada sobre a mesa, eu podia ouvi-la pensando.
– Foram três meses com ele. Nunca mais vou me apaixonar – É claro que iria, daqui há seis meses e três dias, mas é claro que ela não sabia, humanos eram tão bobos, condenados a viver e reviver os erros que juram para sempre nunca mais cometer – O que eu faço de errado? Eu fui divertida, até comecei a sair com a galera dele! Eu fiz de tudo para agradar a ele.
Eu me contorcia para não responde-la, ás vezes eu quase quebrava as regras.
Naquele dia, ela ficou na sala de aula durante o intervalo, as amigas foram até ela.
– Por que você está triste?
Charlotte perguntou a ela:
– Nada.
Ela respondeu:
– Effy, você não pode mentir para nós. Somos suas amigas.
Emma disse colocando as mãos nos ombros dela.
Enquanto isso acontecia, três Colhedores estavam na sala. Era uma visão assustadora, três seres semelhantes aos humanos, vestidos com um terno preto, observando três garotinhas numa sala de aula.
Não conversávamos muito. Nem sempre os colhedores são agradáveis, eles normalmente detestam seus trabalhos, não sentiam amor algum pelos humanos que eles cuidavam, nem curiosidade sobre os sentimentos deles.
Alguns Colhedores, como eu, gostam e são curiosos como eu e acabam gostando, pegando carinho, porém, estes são poucos, além do mais eles mesmo gostando muito dos humanos, achavam a ideia de amar fútil. O único que eu conheci foi o Maçaneta.
Nós não temos nomes, mas se fizéssemos amizades, era legal ser chamado de algo que não seja Colhedor, então nós escolhíamos os nossos próprios nomes, eles nem sempre eram realmente nomes, ás vezes eram apenas palavras, que julgávamos gostar.
O Maçaneta era o Colhedor do pai de Elizabeth.
Eu gostava de conversar com ele, afinal, ficávamos por muito tempo juntos, mas sempre tinha que me conter um pouco, porque ele não pensaria duas vezes em me entregar para o Conselho.
Nós três nos entreolhávamos enquanto esperávamos as meninas terminarem de conversar.
– O James terminou comigo.
Elizabeth confessou quase chorando.
– Sério? Por causa de um garoto?
Emma perguntou.
– Se não quiser me ajudar não pergunta o que eu tenho Emma.
Effy retrucou a fazendo se calar.
Nenhuma das três falou nada. Só deram colo para Elizabeth chorar.
Aquilo era tão lindo, eu queria que elas me vissem.
Eu mesmo daria colo para Beth.
Mais tarde naquele dia, o pai de Elizabeth e ela estavam cozinhando juntos na cozinha.
Eu e Maçaneta ficamos os observando.
– Beth está mal por causa do término.
– Beth? Você a deu um apelido?
– Por que não dar?
– Porque ela é uma humana. Ela tem o par dela. O quanto antes aceitar isso, melhor.
Eu suspirei, triste por não ter com quem compartilhar:
– Certo.
– Não faça mais isso.
– Isso o que?
– Suspirar.
– Por que?
– Porque você parece humano quando faz isso.
Eu o olhei friamente, mas isso era de costume para os Colhedores. Depois de um tempo o perguntei:
– Você já se questionou quem nos colocou aqui? Para cuidar deles?
– O Conselho nos colocou aqui.
– Sim, mas o que colocou o Conselho?
– Colhedor, você está curioso, pare.
– Você não acha que tem algo que nos colocou aqui? Nunca se perguntou sobre isso Maçaneta?
– Não. Nós nos colocamos aqui Colhedor. Pegue sua humana e vá para o quarto, pare de pensar, só faça as coisas que estão no livro.
Eu quis expressar raiva, mas ainda não tinha entendido como fazer isso, então o obedeci.
Naquela noite, eu vi que no dia seguinte, ela receberia uma ligação de James e aceitaria um pedido para saírem juntos.
Aquilo estava errado, folheei mais um pouco o seu livro e descobri que logo ela partiria seu coração novamente. Não era justo, eu tinha que cooperar para que isso acontecesse.
E no dia seguinte, ele ligou, então me vi obrigado a aceitar a ligação, mas não aceitamos, portanto ela não receberia o convite. Então ele ligou de novo, atendemos:
– James!
– Hey Effy, eu acho que mandei mal terminando com você. Não foi justo... Podemos nos encontrar no final da aula para acertarmos isso amanhã?
Me vi novamente obrigado a aceitar, mas eu estava disposto a quebrar um pouco as regras:
– Diga não Beth.
Eu disse e ela obedeceu:
– Não James.
– Diga que tem algo mais importante para fazer.
– Tenho coisas importantes demais para fazer.
Obedeceu de novo.
Naquele momento, achei que mudar um pouco as coisas não mudariam muita coisa. Eu me vi apaixonado por essa humana, por essa alma, por ela, que eu cuidei por tantos anos.
Eu já estava apaixonado por ela há anos, só... Não tinha percebido isso. Era um sentimento, eu podia sentir!
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