Colhedores

7 Capítulo 1 - Os Colhedores


Notas iniciais
Olá, decidi reescrever essa história, concluir ela de uma maneira melhor, mudar algumas coisas, eu espero que gostem! Nem sei se alguém vai ler, né? Mas vai que.

Sim, eu sabia que nunca poderia fazer isto, fui avisado, de todas as formas possíveis, se descobrissem, provavelmente eu seria morto, mas era ela, o meu pequeno raio de sol, minha gota de esperança, sempre lá, todas às vezes, antes de Cristo, em 1513, 1856, 1965 e agora novamente em 2015, ela sempre estava lá e sempre me notava.

Não me lembro de já ter visto alma mais bonita em todas as minhas passagens pela Terra, agora como Helena, ela continuava bonita como sempre foi – uma curiosidade interessante sobre humanos reencarnando, assim como os animais, quando retornam a Terra, não mudam muito a aparência, talvez a cor do cabelo, a dos olhos, mas sempre os mesmos trejeitos, a forma de andar, uma personalidade que muda minimamente ao chegar na fase adulta da vida, eles mudavam de sexo, mas isso quase não fazia diferença – Helena hoje tinha os cabelos castanhos escuros, assim como seus olhos, tinha cerca de 1,60m dessa vez, um sorriso impecável, com os dois dentes que sempre a faziam ser apelidada de coelhinha. Suas bochechas sempre a entregavam em uma mentira, por isto ela as evitava a todo custo, sua risada poderia ser escutada a quadras de distância, ela nunca se preocupou com ela, não era vergonha ser feliz, mas sempre era criticada por isso, não tinha muito o que fazer, ela era muito expressiva, seja em bons ou maus momentos.

Eu tinha a honra de ser seu Colhedor, em todas as vidas. Em geral, nós sempre ficamos com as mesmas almas e eu sempre gostei da minha, era bom existir ao seu lado, em todos os momentos. A acompanhei em várias reencarnações, como Katherine, Martha, Levi, Juliet, entre tantos outros nomes e formas que ela reencarnou, a acompanhei por vidas inteiras, agora em 2015, infringi a maior regra dos Colhedores, eu me apaixonei por ela.

Helena morava em uma cidade no centro-oeste do Brasil agora. Sua vida toda me foi entregue em um livro no início de uma nova vida pelo Conselho, havia no total 27375 páginas, uma folha para cada dia de sua vida, claro que ao decorrer dela, as folhas poderiam aumentar ou diminuir, mas o ideal para ela eram exatos setenta e cinco anos, todas as páginas vinham em branco, porque era o dever de cada colhedor detalhar o que aconteceria em cada dia da sua vida.

Sabe quando de repente você se lembra de um evento que faz anos e anos que já aconteceu? Somos nós voltando em uma certa página que gostamos, mas não precisa ser necessariamente um evento, pode ser também um cheiro, um sentimento, algo que nos intrigue.

Eu era um Colhedor, cada um de nós é encarregado de uma alma, que reencarna várias vezes, nós existimos para olhar pelos humanos, para cuidar que cada detalhe de suas vidas seja realizado, para que tudo permaneça em ordem. Para que existimos? Para cuidar e zelar, como os famosos anjos da guarda, somos colhedores de sentimentos, de informações, de emoções.

Depois de a teoria sobre o universo ter sido descoberta, nós passamos a existir, não se sabe como, onde ou quem, criados a partir do nada em lugar nenhum, nós não temos sexo, nomes ou idade, existimos para os humanos e eles existem por nossa causa. Não sabemos a causa da nossa existência, ou porque imos e voltamos, mas sinceramente? Ninguém nunca parou para se questionar sobre isto, nossa existência é quase toda em prol dos humanos.

Não se sabe quando a teoria do universo foi descoberta, existimos em uma realidade paralela a dos humanos.

Posso estar agora bem ao seu lado, mas ao mesmo tempo posso estar ao lado de um soldado americano em uma trincheira na segunda guerra mundial, nenhuma lei humana se aplica aos colhedores, assim como seus sentimentos.

Os primeiros Colhedores compõem agora o Conselho, a grande questão é que não se faz ideia de quando os primeiros de nós surgiram, podem ter sido criados amanhã e já terem mudado o futuro ontem, aqui o tempo não faz sentido algum, é importante lembrar disto, mas apesar de regras humanas não se aplicarem a nós, temos três regras fundamentais:

– Nunca, em nenhuma hipótese, tente se comunicar com humanos, não seja visto, não deixe rastro, eles não devem saber de nós, não compreenderiam. A pena de para tal ato é a morte. – Mas pensem, o conceito de morte não existe para os coletores, então o que seria? Um cessamento imediato de consciência?

– Não se apaixonar – A regra é boba, quase impossível, nunca houve ou haverá, no futuro, passado ou presente qualquer Colhedor que se envolva com humanos – Mas há uma pena para o ato, independente de haver registro ou não, se um Colhedor se apaixona, a pena para o ato é existir ao lado desta alma, sem qualquer meio de se comunicar com ela.

– Isto não é uma regra, não é um crime também, pois é impossível de se violar, mas o passado fica no passado, mesmo que você volte nele, você não o modifica, apenas consegue mudar o futuro.

Helena estava agora com dezessete anos, dois dias e quatorze horas e há cerca de 15 horas atrás teve seu coração partido, claro que eu tive de cuidar para que isto acontecesse, todas as decisões que levaram isto a acontecer, mas é assim que acontece, não porque sou mau, mas porque deve acontecer.

Acontece que aquele livro que recebemos em branco amanhece todos os dias com uma rotina escrita em palavras douradas, tudo o que deve acontecer naquele dia e nós, Colhedores, devemos detalhar, fazendo com que tudo aconteça, então não há muito o que fazer, não é como se tivéssemos qualquer poder para escolher o destino dos nossos humanos.

O fato é que nunca entendi o porquê de o Conselho bagunçar tanto a cabeça dos humanos, eles sofriam mais do que eram felizes, tristeza era um sentimento horrível. Ser um Colhedor era sentir tudo o que os humanos sentiam também, tudo o que fazíamos acontecer com eles acabava caindo nos nossos próprios ombros, por isso quase todos de nós éramos ocos, porque sofrer todas essas vidas sem um fim certo era difícil, nenhum sofrimento de fato acabava, então era melhor não sentir mais.

Helena estava debruçada sob sua cama, chorando baixinho para não incomodar o pai que estava na sala e ficaria preocupado se escutasse, tudo que ela menos queria era explicar a ele o motivo de tanto choro. Eu podia escutar o que ela pensava naquele momento.

– Foram três meses com ele, tudo isso para ele nem sequer me dar um motivo, eu nunca mais vou me apaixonar – É claro que ela iria, não tardaria muito, daqui há sete meses e três dias ela conheceria o Henrique, por quem se apaixonaria perdidamente e sentiria desesperadamente o amor juvenil. – O que eu fiz de errado? Eu tentei não rir alto, não falar alto...

Ah Helena, se você soubesse que quando ri consegue alegrar cada átomo do meu ser, se soubesse como me alegra te ouvir rindo, jamais se sentiria envergonhada por sua risada escandalosa, que o mundo possa escutar este riso frouxo que sai por quase nada. Eu me contorcia para não a responder, gostaria de saber como quebrar as regras, mas eu ficava mais perto e as vezes, com sorte, ela parava de chorar um pouco e se distraía com a brisa que eu causava pela proximidade.

Naquele dia Helena foi para a escola, ela estava no último ano do ensino médio em 2015, era uma aluna mediana, não era a mais dedicada, mas era difícil naquela escola, não havia incentivo para outras habilidades. Ela era uma escritora incrível, por isso talvez sua melhor matéria fosse literatura, onde era realmente incentivada pelos professores.

Era intervalo e ela preferiu ficar na sala, estava introvertida e preferia não conversar naquele intervalo, estava rabiscando uma frase ou outra na mesa cinza que sentava todos os dias ao lado do janelão. As amigas resolveram ir até ela, como eu, ninguém suportava ficar sem escutar sua risada, era um antidepressivo – Pelo menos é o que eu penso, minha leitura mental é limitada apenas a minha humana.

– O que houve Lena? Está toda borocoxô.

Carol perguntou.

– Nada – Respondeu Helena.

– Escuta, não dá pra mentir pra gente garota, te conhecemos desde o maternal.

Disse Maria Luísa a abraçando por trás e dando um beijo em sua bochecha. A Malu era sua melhor amiga, as duas eram unha e carne, óbvio que se conheciam de outras vidas, eu e seu Coletor ficávamos juntos frequentemente enquanto as duas fofocavam, ele era muito extrovertido, isso refletia em sua humana.

As meninas conversaram até o intervalo acabar e confortaram Helena.

Havia outros dois coletores na sala naquele momento, não era uma visão muito acolhedora, éramos quatro seres vestidos com ternos pretos e branco bem polidos, ao lado de cada uma de suas humanas. O meu terno não era lá bem arrumado, meu blazer sempre ficava aberto, com a gravata preta indo de um lado para o outro, mas eu não via muita graça em me arrumar para outro Colhedores, não tinha muita coisa diferente para fazer com os nossos visuais, éramos bem semelhantes aos humanos.

Nem sempre os colhedores são agradáveis, normalmente detestam seus trabalhos, não há afeto pelas almas que cuidam, é apenas um trabalho, um trabalho infinito, por isso muitos deles evitam conversar e se concentram apenas no seu próprio humano, acho que é daí que vem o egoísmo, eles apostam que se os humanos tivessem consciência de que estão encarnando, não ficariam tão animados com isto, mas é claro que tem Colhedores como eu, que são curiosos, que gostam do que fazem e gostam dos humanos, estes Colhedores são poucos, apesar de nunca ter conhecido nenhum que partilhasse a ideia de amar como eu.

Existe um Colhedor que é bem parecido comigo, o Maçaneta. Nós não temos nomes, mas quando fazíamos amizades era bom ter como chamar um pelos outros, então tomávamos a liberdade de escolher os nossos próprios nomes, mas nem sempre eram nomes, eram palavras que achávamos legais, o Maçaneta era hoje o Colhedor do pai de Helena, mas ele já foi irmão, uma tia, seu filho e já foi sua melhor amiga, eles acabavam sempre conectados, apesar de isto não ser uma regra, acontece quando essas almas tem uma ligação única, elas sempre acabavam se esbarrando de uma forma amistosa.

Eu sempre gostei de conversar com o Maçaneta, tinha que gostar, ficávamos por muito tempo juntos, eu sempre tinha um pouco mais de liberdade com ele, apesar de precisar me conter, há coisas que nenhum Coletor poderia entender e resultaria em uma denúncia para o Conselho dos Coletores.

Naquele dia mais tarde, o pai de Helena a chamou para cozinhar com ele, era sempre muito divertido, ao som de músicas dos anos 90 ele se divertia, dançava e alegrava a filha, sempre fazendo truques jogando as comidas para o alto, na tentativa quase sempre infalível de fazer a filha sorrir.

Enquanto eles tinham aqueles momentos divertidos, eu e Maçaneta conversávamos enquanto observávamos.

– Helena terminou com aquele pilantrinha. – Eu disse.

– Finalmente! Nós o detestávamos, era sempre muito folgado.

Tentei esboçar o que eu imaginava ser um riso, sentimentos humanos eram muito difíceis para a gente.

– É, mas agora Lena está triste...

— Lena? Você a deu um apelido? – Me interrompeu.

Como deixei isso escapar? Que idiotice.

— Sim, mas não é nada demais, qual o problema?

— Isso é um comportamento humano, você não deve repetir Bugiganga.

Ah sim, eu adorava a palavra Bugiganga, então sempre pedi para Maçaneta me chamar assim. Chateado por não poder dividir certos sentimentos com ele, decidi apenas acatar o que disse.

— Certo.

Continuamos olhando para a cozinha cheia de alegria humana.

— Você já se questionou quem nos colocou aqui? Para cuidar deles? – Continuei.

— O Conselho nos colocou aqui. – Naquele ponto eu já devia saber que estava sendo idiota em tentar continuar com a conversa.

— Sim, mas o que colocou o Conselho?

— Bugiganga, certas curiosidades são aceitas pelo Grande Conselho, mas não todas.

— Você não acha que tem algo que nos colocou aqui? Nunca se perguntou sobre isso Maçaneta?

— Escute, eu sei o que está acontecendo aqui, eu já passei por isso, quanto antes você entender que este amor é impossível, melhor pra você.

– Mas quem falou de amor? Eu estou falando sobre a nossa existência...

– Eu já estive em mais vidas que você, eu sei o que está acontecendo – Me interrompeu – Os sentimentos humanos começam a aparecer devagar, de repente você está questionando o Conselho e é punido, amigo, você não quer ir por este lado. Pegue a “Lena” e vá para o quarto, vão fazer algo enquanto colocamos isso no forno, por favor, esqueça essas ideias, o final não é legal.

Sem saber expressar indignação, se esse fosse o sentimento correto após a gesticulação das aspas para se referir ao apelido de Helena, apenas o olhei, com mais questionamentos em mente, direcionei minha humana para o quarto, onde ficamos por meia hora ou mais escrevendo, ela sobre a confusão do amor, mas eu... Sobre toda a confusão que eu sentia no momento.

Naquela noite após Helena jantar e ir dormir, folheei o livro de Helena e notei que o nome do rapaz que partiu seu coração reapareceria, ele a ligaria amanhã, como ele ousa? Terminando com ela no dia seguinte ao seu aniversário? O pior, ela aceitaria o convite dele para conversar, porque assim no livro estava.

Aquilo me dava um embrulho no peito, o que os humanos chamariam de angústia, não era justo, mas eu tinha que cooperar para que aquilo acontecesse e Helena partisse seu coração novamente pouco mais de uma semana depois.

E assim foi, no dia seguinte me vi obrigado a aceitar a ligação do tal Joaquim, mas não a deixei aceitar, assim ela não receberia o convite, certo? Mas o Colhedor dele era realmente um seguidor fiel do livro e voltou a ligar – Com certeza irritado, pois não era programado – Enfim atendemos.

– Ei Lelê – Que tipo de apelido era Lelê? Ninguém a chamava assim, como ela poderia gostar disso? – Tudo bem?

– Oi Joaquim, o que foi? – Isso Lena, não dá brecha pra ele, corta ele – Olha eu não estou com vontade de conversar.

– Ah Helena, calma! Eu só quero me explicar... É difícil por telefone, eu sei que fui um idiota, mas eu preciso de você, podemos conversar depois da aula?

“Preciso de você”? Sério? Você tem dezessete anos, não precisa de ninguém além dos seus pais. Os humanos adolescentes têm um melodrama implausível, mas acontece que Helena também era uma adolescente, assim que escutou as palavras dele seu coração se aqueceu.

Estranhamente, eu não senti a mesma coisa que ela, o que normalmente acontecia, nós não deveríamos ter sentimentos independentes dos humanos, mas não vou negar que não me importei naquele momento, era bom não ser ludibriado por um adolescente mais uma vez, mas mesmo assim eu precisava a fazer aceitar, pois assim determinava o livro, porém, naquele dia eu não me senti mais sujeito a isto.

– Diga não Lena.

E ela me obedeceu.

– Diga que tem algo mais importante para fazer.

– Escuta Jô, eu tenho umas coisas pra resolver, mais importantes.

Ao mesmo tempo me vi em um dilema moral, relembrando as palavras de Bugiganga, mas também percebi que mudar pequenas coisinhas ou modificar, pelo menos um pouquinho, não fazia muita confusão no decorrer do livro.

Joaquim insistiu, depois de um tempo ela aceitou.

Novamente me vi com um sentimento humano, um que eu não me orgulho, mas eu tive ciúmes, mesmo sabendo que isso terminaria novamente em pouco tempo, me feriu. Isso me fez perceber que todas as vezes que Helena se apaixonava, em qualquer uma de suas vidas, eu sentia uma furadinha no peito, por quê?

Naquele dia eu tive a primeira sensação de estar apaixonado por Helena, na verdade foi a primeira vez que percebi que isto estava acontecendo, acontece que a cada vida que passava, os sentimentos aumentavam, sempre, toda vez.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.