Coletânea de Fics: Desafio de OCs.
2 Infância: Cartas Obscuras
Notas iniciais
Uma garota observava da janela deitada o entardecer tão lindo, parecendo-se com um quadro que se encaixava bem em seu quarto. O cômodo era simples, de paredes pretas mas carregados de pôsteres de bandas, seriados e alguns ainda de seres mitológicos. Em frente à cama havia uma pequena mesa para computador, onde deixava seu notebook, uma agenda para anotações e dentro das gavetas, várias e várias cartas.
A garota era Korina Rimogard, uma típica pessoa do leste europeu que deu uma pausa em sua personalidade inquieta para deixar aquelas cores do céu lhe invadir a mente. Amava a mitologia de modo geral, sempre preferindo os elementos mais obscuros. Seu cabelo preto, longo e liso tornava esta preferência um tanto fácil de identificar.
Suspirou, devaneando com seu passado. Felizmente, nada tivera que fosse considerado “traumático” – Tornara o escuro seu amigo, então os momentos de tormenta nada eram-lhe um incômodo, apenas um ensinamento a mais. Sorriu. Havia toda uma densidade em sua alma, mas que era apagada por sua personalidade assustadora na visão de outros alunos; Riu.
Mas uma coisa retomou em seus pensamentos e a deixou com um sentimento de nostalgia forte. Sim, tão forte que para sacia-lo resolveu abrir uma das gavetinhas da mesa de computador e pegar as pilhas de cartas de tinha. Quando era apenas uma criança, trocava cartas com provavelmente um garoto, um pouco mais novo e em inglês por serem de países diferentes.
Disse “provavelmente”, porque jamais perguntara essas coisas diretamente. Tudo que sabia era seu nome e antigo endereço, em Sardenha.
― Eric... ― Seus lábios se moveram inconsciente ao tentar lembrar seu nome.
Abriu uma das cartas. E não pôde conter o riso ao ver a escrita espalhafatosa e carregada de erros. Tão ao ponto de seu correspondente sempre responder corrigindo-os. O Assunto era óbvio: Seres imaginários, comida, brinquedos e tudo que uma criança de sete anos poderia conversar. Era interessante também pelo fato de Eric ser um prodígio, tendo encontrado seu endereço ironicamente em uma revista demasiadamente infantil. Se sentiu a pessoa mais sortuda do mundo ao constatar isso.
No caso de mitologia, o outro levava aquilo como mera imaginação da jovem. Mas pouco se irritava – Pelo contrário – Achava-o bem melhor que todos os seus colegas de escola. Lembrava da ansiedade que sentia a cada dia que não chegava uma dessas cartas. E enquanto isso, planejava mentalmente o que poderia falar de seu dia para ele. Foram momentos dóceis em que experimentava o “protótipo” das relações de internet que tem hoje em dia, em que não se enxerga o rosto, o sexo, os aspectos físicos, nada além de letras que transmitiam um sentimento para cada usuário.
Mas depois de um tempo, a nostalgia se acompanhou de certa melancolia. Na última carta que trocaram, Eric avisava que iria se mudar e depois enviaria uma carta já com o novo endereço.
Esperou.
E até hoje nada. Sentia falta. Lembrou-se como sua ansiedade por uma carta nova foi gradual e dolorosamente se acalmando. Algumas horas se perguntava se ele havia morrido, ou se na verdade Eric nunca gostou dela e só era seu correspondente por questão de educação. E se reprovava por não ter informações mais concretas sobre ele – Mas o que poderia fazer? Nesta época – Agora com 12 anos e ele talvez 11 – Celular ainda era algo pouco comum; E-mail também, e não pensou em momento algum pedir seu telefone fixo... Mas pensando agora, também seria inútil pois haveria a possibilidade de até isso ter mudado.
Sendo assim, cresceu com esta lacuna, que foi se preenchendo pouco a pouco. Por mais que fosse desconfortável, isso é algo que acontece todo dia. Pessoas somem de nossas vidas toda hora, às vezes por 10 segundos ou para sempre; Pode ir começando pela voz ou aquela característica que você achava marcante, até ficar só uma montagem do que você acha que era a pessoa. Ou não, mas você acha melhor se induzir a isso para não trazer sensações ruins à tona.
Logo a leitura se dificultou. Não percebeu que aquele pôr do Sol abandonou seu quarto. Meio a contragosto Korina levantou da cama, ligando a luz e indo para a cozinha, retornando poucos minutos depois com seu lanche favorito, resolvendo passar o resto do tempo com seu Notebook.
Mas esse período que mais pareceu um transe do que uma releitura permanecia. Era como se houvesse mais para ser explorado, incitando-a a ir atrás do paradeiro de seu antigo amigo. Fez em sua opinião a coisa mais idiota para isso: Jogou o nome que conhecia na internet, mas as informações eram escassas.
Criou aleatoriamente contas em algumas redes sociais menos visíveis para acha-lo, e nada. Era um sentimento de frustração que crescia junto com sua raiva de ter uma internet tão lenta, incapaz de seguir seus impulsos não só nessa mas diversas vezes.
Até que quando achou alguma informação relevante, seu navegador fechou sozinho. Espantou-se. Tentava encontrar uma explicação plausível, chegando à falsa conclusão que apertou algum atalho sem querer. Bufou e resolveu dormir – Afinal, aquilo aconteceu por volta das duas da manhã. Já estava mais que na hora.
Acordou para a escola sofridamente por ter dormido pouco. Se arrumou como de praxe e pegou o ônibus. Seu dia poderia até ser normal, mas desta vez sentiu-se observada constantemente. Mas Korina não sabia que era uma sensação real, apenas se dando conta quando voltou para casa, cumprimentando os pais e indo para o quarto.
Os primeiros passos foram interrompidos pelo seu celular tocando. Atendeu sem preocupação alguma, respondeu com um “Oi”.
― Boa Tarde, Korina Rimegard ― Estremeceu. Era uma voz desconhecida falando em inglês. Jovem e masculina, com um leve sotaque francês.
― Co... Como sabe meu nome?!
― Você me procurou não? O Seu amigo de cartas obscuras. ― Embora não pudesse ver, a pessoa do outro lado estava sorrindo. Um sorriso que não sabia se era dócil ou irônico.
― Eric... ― Seus olhos semicerravam em um misto de conforto e estranheza pelo reencontro incomum.
― Peço que me chame pelo meu nickname Lessur. E guarde meu nome para si. – Riu – E já te adicionei em suas principais redes sociais. Não tinha necessidade de criar tantas contas em menos de 24 horas e tampouco colocar meu verdadeiro nome em todos os campos de buscas possíveis, mas tudo bem, entendo esse desespero. Espero que seja fluente em inglês agora, corrigir seus erros nas cartas já bastou para mim. ― Tornou a rir novamente.
― Tudo bem... Obrigada...
― Eu jamais poderia esquecer minha amiga de infância. Eu que agradeço.
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