Notas iniciais
Oi, um texto que eu escrevi, curtinho mas que eu amo muito mesmo.
Beijos.

Meu olhar desvocalizado mira as luzes da cidade através da parede de vidro na entrada do café. Ao fundo, o som da batida hipnótica da música eletrônica que vem do bar no outro lado da rua e as buzinas e freadas do transito caótico de Nova York, mesmo a essa hora da noite. O sino da porta toca, avisando a chegada de um novo cliente.

Minha visão se desloca preguiçosamente do fundo do estabelecimento, onde me sento na mesma mesa do canto, como sempre, com a minha caneca de café e o bloco de notas, até pousar minha vista nele.

Parado a frente do balcão encarando o cardápio na parede com um olhar distraído e cansado, aquele rapaz me chama atenção. Me debruço sobre a mesa, ignorando o bloco ainda em branco, e simplesmente observo. Não o vi antes, nunca passou no café a essa hora. As olheiras fundas, o cabelo bagunçado e a barba por fazer me levam a pensar que trabalha muito, mas pelas roupas e gestos sei que não é recluso ou antissocial. Me pergunto por um minuto o que ele faz e quem é.

Inclino a cabeça, mudando levemente meu ângulo de visão. Talvez lecione, ou quem sabe seja jornalista. Deitando a cabeça para trás imagino que seja um médico que acaba de sair do plantão. Possivelmente um residente.

Ele escolhe apenas um café preto e enche de açúcar. Se lhe fosse nomear, escolheria um nome forte. Richard. Richard King. Sorrio. A senhora King tem muita sorte. Não que seja excepcionalmente bonito, mas quem não se apaixonaria por um belo cardiologista amável e galanteador como Richard King?

Penso em quando for a senhora King. Contarei aos nossos vários filhos sobre o dia em que seu pai me pediu em casamento, aqui, na nossa mesa de sempre, no canto de um pequeno café no centro de Nova York.

Ele paga pelo café e sai em um passo cansado e corrido, soltando a porta atrás de si e mais uma vez ouço o sino bater enquanto o perco de vista nas ruas mal iluminadas e coloridas. Suspiro e fito o bloco em branco mais uma vez. O café esfriou e tudo que sobrou foi o barulho abafado da cidade e um pequeno filme em minha cabeça sobre um total estranho.