Coletânea De Rabiscos
6 Família
Notas iniciais
Mais um...
Esse é um filminho meu, um lugar bom para o qual eu fujo quando o presente não está bom...
Me obrigo a abrir os olhos, mesmo que meu corpo me implore para que não o faça. O sol brilha muito forte, iluminando todo o quarto mesmo por trás da cortina bege translucida, dando vida a essa manha de verão.
Respiro fundo e me reviro na cama, me afundando cada vez mais nos travesseiros. Um sorriso bobo e sonolento se apossa do meu rosto, seguido por um longo bocejo que me traz pálpebras pesadas. Ele está deitado bem ali, deitado de bruços ao meu lado, com os braços e as pernas esparramados pelo colchão, a coberta se amontoando ao meu lado. Contenho um risinho, pois não quero acorda-lo, mas naquele silencio adormecido praticamente ouço sua voz. Você é a única pessoa que consegue dormir com um cobertor em um calor desses! Os cabelos dele parecem ainda mais loiros sob o brilho dourado, e talvez estejam um pouco queimados pelo sol. Alguns fios mais novos grudaram na testa com o suor. Ele tem a boca entreaberta, respirando serenamente.
Olho-o atentamente, guardando a imagem cuidadosamente em minha mente, com o máximo de detalhes que consigo me ater. Os dentes brancos e alinhados, a pequena cicatriz no nariz, a tatuagem no braço, os cílios claros, a marca de nascença na base da coluna. Cada pequeno detalhe dele. Cada pequeno detalhe meu.
A porta é aberta com um estrondo e risadas infantis inundam o quarto. Antes que eu possa protestar um leve peso se lança em cima de mim e somos os dois derrubados. Agarro Dario e o encho de cocegas, ouvindo sua risada aumentar cada vez mais enquanto meu corpo se contorce. Ouço alguns protestos sonolentos vindos da minha direita, e me viro a tempo de ver minha filha bagunçando os cabelos de Evan e pulando em suas costas enquanto ele tenta, inutilmente, esconder a cabeça em baixo dos travesseiros para garantir alguns minutinhos a mais de sono.
Também me assusto quando, de repente, meu marido se senta na cama, segura Ariela pela cintura e a joga para cima varias vezes, fazendo com que gritinhos de felicidade saiam da garganta da menina. Logo Dario se joga sobre o pai, exigindo o mesmo tratamento, e apenas observo extasiada enquanto Evan levanta da cama com nossos filhos no colo, jogando-os para cima, voando com os dois nos braços pelo quarto.
Dario já está crescendo, e em pouco tempo não poderá mais andar em nosso colo. Em seu sorriso falta um dente, que caiu a alguns dias atrás, enquanto ele jogava algum jogo de bola com a irmã. Enquanto Evan o tem nos braços não posso evitar ficar assombrada em como parece o pai. Até as covinhas do rosto são compartilhadas.
Ariela se gruda a perna do pai, puxando incessantemente seu calção e pulando para alcançar seus braços enquanto balbucia algumas palavras indistintas. Minha filha ainda está na fase em que os familiares são os únicos que entendem suas tagarelagens que sessam apenas quando ela dorme. Os cachos de bebê já estão deixando seu cabelo, que gradativamente fica liso como o meu, e, por mais que Evan insista em dizer que ela se parece mais comigo, todas vez que a vejo lembro de meu marido.
E é exatamente nesse momento, sentada na cama bagunçada do meu quarto, com meus cabelos amassados e usando uma camiseta velha de Evan como pijama, bem assim, olhando meus filhos correrem pelo quarto, esbarrando e derrubando algumas coisas da penteadeira, e meu marido tentando, sem muito sucesso, conte-los, pois no final ri quase tanto quanto os dois, dentro desse quarto quente e luminoso, vendo minha família sob o brilho quase mágico do sol de verão, que me sinto feliz.
E por um segundo me pergunto se é real. Essa leveza, esse brilho, essa magia, essa felicidade. E então ele vira o rosto para mim, um sorriso enorme corando seu rosto, um sorriso que ele dedica só pra mim, e sei que é real. Sei que é meu. Que toda essa alegria é minha. É nossa.
Me levanto em um pulo, e corro para me juntar a eles, a minha família.
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