Coletando Lembranças...
19 O passado de Layla
Notas iniciais
Boa leitura! o/
Ao sentir aquela mão pesada no seu ombro, Lucy soltou um gritinho agudo que era até cômico.
—Sou eu Lucy.—Disse Cacius rindo do susto da loira.
—Que lugar é esse?—Indagou a Heartfilia.
—Fique tranqüila, você está comigo. —Respondeu o loiro, dirigindo á garota, uma piscadela galante.—Mas enfim, eu vim aqui para finalmente te contar o seu verdadeiro passado, explicar o presente e construir seu futuro.
De súbito o ambiente ao redor deles brilhou intensamente e a maga se viu obrigada a ter que fechar seus olhos. O ambiente mudou e o que era uma imensidão negra e sem fim deu lugar a um salão luxuoso e bem iluminado. O salão estava cheio de pessoas, em uma visível festança. Os convidados riam, conversavam, e se divertiam com suas taças cheias de bebida. O som da música se espalhava pelo salão e fazia com que até o mais chato convidado se sentir tentado a bater o pé no ritmo da música.
Em meio aquela multidão, estava Cacius e Lucy, que tentou se desviar de uma garota que dançava, mas a dançarina a atravessou, como se a loira fosse imaterial.
—O que...—Balbuciou, perplexa.
—Não se preocupe.—A voz do loiro se fez presente. — Eles não te ouvem, não te vêem e não te sentem.
—Eu... Sou um fantasma?—Sussurrou a Heartfilia olhando para suas próprias mãos, buscando algum sinal de sua inexistência.
—Não é você que não existe.—Completou.—Eles é que não existem.—Disse apontando para as pessoas alegres da festa.—Isso é só uma “representação temporal”...
A Heartfilia ainda encarava aquele baile e em meio aquele mar de gente, a garota reconheceu Aquarius gargalhando, visivelmente alterada pela bebida em sua mão. Em um canto oposto e quase tão invisível quanto Lucy, estava Áries, observando tudo como se fosse uma penetra, mas logo Leo chegou e sem hesitar, a puxou para a pista de dança consigo. Atrás de Lucy, ouviram-se uns gritinhos agudos e irritantes, de mulheres que viam os inúmeros músculos de Taurus que “quase” não gostava de se exibir para o sexo oposto.
Virgo ajudava a servir as taças de bebida; Gemini conversavam animadamente com Câncer. Enfim, todos os espíritos celestiais estavam presentes, todos se divertiam ao máximo. E ao vê-los ali, todos juntos e felizes, uma pontinha de tristeza e saudade invadiu o coração de Lucy, mas a mesma logo fez questão de não dar corda a tal sentimento... Não ali, não com Cacius ali....
—Este... É o mundo dos espíritos?—Perguntou a loira.
—Sim.—Respondeu Cacius, seu tom de voz era neutro, como se fosse algo comum visitar o mundo dos espíritos.
—Eu não me lembro de uma festa assim...—Murmurou um pouco emburrada por não ter sido nem convidada para uma festança como aquela.
—É natural que você nem se lembre, afinal, você nem era nascida...—Respondeu o loiro, se divertindo com a ingenuidade de Lucy.
—Que festa é essa?—Perguntou a loira, pensando que aquilo se tratava de algum festival.
—É... Uma comemoração.—Respondeu o homem, tomando cuidado para escolher as suas próximas palavras.
—Um aniversário?—Questionou Lucy, procurando algum bolo de aniversário ou algo do gênero.
—Um nascimento.—Mal Cacius havia acabado de falar e os convidados gritaram e levantaram suas taças, alguns até chegaram a derramar suas bebidas de tanto entusiasmo ao verem o Rei dos espíritos adentrar no salão.
Ao contrário de quando Lucy o vira, o soberano distribuía sorrisos, acenos e cumprimentava a todos que o saudavam. Atrás dele vinha uma mulher baixinha e com olhos castanhos amáveis. Ela era visivelmente tímida, e cumprimentava a todos com gestos sutis e suaves. Mesmo com toda aquela timidez, ela era sem dúvida, a mulher mais linda naquele salão, suas vestes não eram cheias de ornamentos, mas eram delicadas e femininas, assim como o véu que cobria seu cabelo, não deixando que a Heartfilia visse a cor do mesmo.
Ela carregava algo que estava envolto de um tecido vermelho com detalhes em dourado, a mulher carregava aquilo com cuidado e carinho, como se sua vida dependesse daquilo. De súbito, Scorpio surgiu ao lado da morena e disse exibindo um sorriso de orelha a orelha:
—Parabéns, Ismália-sama! Ah deixe-me ver o rostinho dessa princesinha...
Ismália assentiu e sorriu, naquele momento a surpresa atingiu a Heartfilia como um soco.
Aquele sorriso... Era como se a loira visse o caloroso sorriso de sua mãe novamente. O sangue corria cada vez mais rápido no corpo da garota, seus ouvidos zuniam e enquanto sua mente pensava em algo impossível o espírito celestial falou:
—Ela puxou os seus olhos, Ismália-sama...—Disse brincando com a gordinha bebê no colo da mãe.—Qual o nome dela, mesmo?
Ao ouvir aquilo, o Rei dos espíritos voltou até sua esposa e pegou o bebê em suas grandiosas mãos e a levantou para que todos os presentes vissem sua amada filha.
—Seu nome é Layla, Layla Heartfilia!—Exclamou e as pessoas brindaram a vinda da “Princesa dos Espíritos”.
Lucy cambaleou e acabou esbarrando em Cacius, mas nem se importou com isso.
—Ela... Essa... A bebê... Mamãe... O... Rei.—Balbuciou a loira, preplexa.
—Sim, aquele bebê é a sua mãe. Eu disse, isso é apenas uma “projeção” do passado.
—Mas assim... O Rei dos Espíritos é o...
—Seu vovô.—Completou como se estivesse impaciente, fazendo pouco caso do “choque” de sua subordinada.—E Ismália era a sua vovó.
—Era?—Sussurrou, sem desviar seus olhos da criança risonha, que insistia em tentar falar com as pessoas, soltando sons incompreensíveis e igualmente fofos.
—Ismália já morreu.—Respodeu o loiro, também encarando a bebê.
—Espíritos não morrem.—Retruquei, quase que automaticamente, afinal, era uma das coisas básicas que todo mago celestial deveria saber.
—Enfim — Disse Cacius, não querendo se aprofundar no assunto de mortalidade dos espíritos. —essa é a sua família, Layla foi a unigênita do casal.
De repente o ambiente mudou novamente, e toda aquela festança desapareceu dando lugar a um belo jardim florido, onde um riso infantil ecoava pelo ar, vindo de uma criança que parecia ter seus dois anos e que Lucy facilmente reconheceu como sendo Layla, sua mãe, que brincava de colocar flores nos longos cabelos loiros de Ismália.
—Sua família é literalmente divina, seu dom: Atherion, veio daqui, da junção de dois clãs altamente poderosos.
—Mas... Isso quer dizer que a minha mãe era um espírito?
—Sim, Layla representava a Roda da fortuna, um símbolo bem poderoso, combinava com ela, a “Princesa dos Espíritos Celestiais”.
—Ela parecia feliz aqui, o que aconteceu para que ela escondesse todo esse passado de mim?—Indagou, não imaginando o que levaria a sua mãe a fazer algo tão... Radical
—Seu pai.— Retrucou Cacius, sua voz era fria como o gelo e cortante como uma navalha.
—Como assim?—Perguntou a Heartfilia, tentando entender como seu pai se envolveria nesta história, mas agora, depois de descobrir tudo isso, a loira realmente não duvidava de mais nada.
O loiro estalou os dedos e o ambiente ao redor mudou novamente, se tornando um quarto tão luxuoso quanto o salão de antes e cheio de flores como no jardim. Sentada na frente de uma penteadeira, Layla trançava seu longo cabelo loiro com habilidade, mas seus olhos, mesmo focados no reflexo que o espelho exibia, pareciam enevoados, longe dali...
—Ela tinha mais de 300 anos quando conheceu Jude, mas continuava com a aparência de 17... —Disse o homem. —Ele se conheceram de forma clichê, ela o salvou o blá-blá-blá, mas foi amor a primeira vista...
—Mas porque ela parece estar tão triste, se está tão apaixonada?
—Ele era um simples humano e ela era a Princesa dos Espíritos, é proibido qualquer relacionamento assim, principalmente para ela, que já tinha um noivo...
—Um noivo?!—Exclamou Lucy.
—Sim, mas nós não vamos nos adentrar nessa parte.—Cortou o rapaz, seu tom de voz era rígido e não deixava espaço para que a loira questionasse mais.
—Mesmo assim, sua mãe foi uma tola irresponsável e logo engravidou daquele homem.—Disse em tom de desprezo, a Heartfilia quis defender seus pais, mas não ousou falar porque finalmente, seu mestre falava sobre o assunto.
—E então, o que aconteceu?
A garota nem se surpreendeu quando o ambiente mudou novamente voltando ao salão inicial, mas agora não havia nenhuma festa, nenhuma alegria... Diferente de antes, o salão tinha tronos, 14 no total em forma de “O” todos estava ocupados, exceto um. Em cada trono, estava os espíritos celestiais. Se antes na festa, eles riam, bebiam e dançavam alegre e divertidamente, agora eles pareciam igualmente tensos e desconfortáveis. “Isso não me é estranho...” pensou Lucy, se sentido como se estivesse presa em um deja-vú.
Como na primeira vez em que viu aquela cena, os espíritos nem notaram a presença de Lucy, mantendo suas atenções fixas em uma figura que usava um manto cor de terra e maltratado pelo tempo.Cacius passou pela loira e a segurou pelo braço, a arrastando para mais perto da pessoa que usava o manto. Dentro da Heartfilia, havia um turbilhão de sentimentos, como receio e curiosidade, batalhando para assumir o controle do corpo da garota.
—Ainda não acredito que você, sangue do meu sangue, carne de minha carne pôde me trair de tal forma!—Esbravejou o Rei dos Espíritos, sua voz grave ecoando por todo salão e fazendo com que a maga fraquejasse, mas o grito angustiado a fez continuar:
—Mas... Papai!
Nesse momento, Lucy viu o rosto do desconhecido e apertou o passo para se aproximar. Por um momento, era como se a loira visse seu próprio reflexo em um espelho, mas era só a sua mãe, que diferente de quando ela se arrumava em frente a uma penteadeira. Agora tinha os cabelos rebeldes e a face suja de terra, como se ela tivesse dormido em qualquer lugar durante dias...
—Não me chame de pai!—Esbravejou o rei, seu tom de voz fez com que ambas as Heartfilias encolhessem os ombros. —Você me traiu com aquele... “Humano”. —O soberano disse a ultima palavra com desdém.
—Eu me apaixonei!—Gritou a mulher, seus olhos se encheram de lágrimas e uma solitária escorreu por sua face.
Ao ver aquilo, a garota estendeu a mão para colher aquela lágrima, mas a sua mão atravessou o rosto de sua mãe e Lucy voltou a se lembrar que ali, ela era imaterial... De repente algo se moveu debaixo do manto de Layla e logo o choro doloroso e agudo de um bebê foi ouvido. Ignorando a todos ali, a loira tirou a criança que estava quase escondida debaixo daquele manto. Ao contrário da mãe, a menininha usava um vestidinho branco com rendinhas infantis, assim como sapatinhos adoráveis.
Os poucos fios de cabelo dourados estavam presos com um lacinho cor de rosa. O quanto ela tinha de linda, tinha de chorona. Seu rostinho rechonchudo estava vermelho e lágrimas minúsculas escapavam de seus olhos.
—Você a fez chorar... —Murmurou a mulher.
Apesar das lágrimas que escorriam por seus olhos, Layla olhava para a filha como se ela fosse um pedaço do paraíso, um anjo, que com sua áurea divina a fazia se sentir melhor.
Lucy encarou aquela cena sem saber como descrever o que sentiu. Ela queria abraçar a mãe, e ao mesmo tempo sentia que isso não era necessário, ela era capaz de sentir o amor que sua mãe sentia ali, só olhando.
—Ela não é minha neta; assim como você não é mais minha filha.—Retrucou o Rei, sua voz era fria e não demonstrava sinais de hesitação.
Por alguns instantes, Lucy temeu, na primeira vez em que e a maga tivera aquela “lembrança” era ali que ela acabava e por isso a garota ficou com medo de que tudo se desintegrasse em dunas e mais dunas de areia... Mas para a felicidade dela, não acabou por ali.
Ao ouvir aquilo, Layla respirou profundamente, seus olhos já não suplicavam mais por misericórdia, sua decisão já estava tomada.
—Renego o sangue que carrego de você...—Rosnou a loira, aumentando a ira do Rei dos Espíritos que com um urro de ódio, fez surgir um raio em suas mãos, como se ele fosse uma espécie de deus grego.
—Eu a condeno ao exílio.—Disse ele por fim, e naquele momento, os espíritos que antes estavam em silencio, se manifestaram, perplexos e horrorizados. —Silêncio!—Berrou fazendo com que seu “cetro elétrico” brilhasse de forma, no mínimo, ameaçadora. —Você, Layla Heartfilia, se arrependerá amargamente por ter ousado desonrar sua família e seu povo. Já que gosta tanto dos humanos, que viva entre eles...
O raio nas mãos do Rei dos Espíritos brilhou intensamente e Lucy se viu obrigada a fechar seus olhos novamente, e o que a fez abri-los novamente foi o som retumbante de um trovão. Agora, Lucy e Cacius estavam em meio de uma tempestade feroz, mas quem sofria mesmo com aquela chuva era Layla que com o manto, tentava proteger a si mesma e a filha. Ao avistar uma casa, a loira apertou o passo até lá, e sem demora, se pôs a bater na porta que logo foi atendida.
—Asaey?!—Exclamou Lucy, vendo a simpática mulher a ajudara naquele dia chuvoso, atender a porta.
Asaey estava bem mais nova, seu cabelo loiro ia até suas costas, e as poucas rugas que tinha no rosto, não existiam mais. A mulher parecia desconfiada e pensava seriamente em fechar a porta, mas o olhar suplicante de Layla a impediu de fazê-lo.
—Por favor... Por favor... —Sussurrou a Heartfilia, sua voz saía baixa de trêmula por entre seus lábios arroxeados. —Preciso de abrigo, tenho uma criança comigo...
Layla puxou o manto, mostrando a criança que dormia tranqüila no colo da mãe, que ao contrário da mesma, estava seca e saudável.—Eu também tenho jóias e...
Antes mesmo que ela concluísse sua frase, Asaey deu passagem, sem dizer nada. —Muito obrigada, muito obrigada...—Murmurou a loira entrando na casa. —Qual é o seu nome?
—Asaey, e você é...?
—Sou Layla Heartfilia.—Respondeu sorrindo, mesmo que seus lábios doessem quando ela o fazia.
—É um belo nome...—Elogiou a outra. —Venha, você precisa tirar essa roupa molhada ou vai acabar adoecendo...
A loira assentiu e tirou o manto que de tão molhado, formava pequenas poças de água no chão. Layla tomou um banho quente e vestiu roupas secas e confortáveis, nunca se sentira tão bem depois de cinco dias vagando sem rumo. Quando voltou a sala, encontrou Asaey brincando com a pequena Lucy que ria de modo contagiante.
—Qual o nome dela?—Indagou Asaey entregando a criança para a mãe.
—É Lucy.—Respondeu vendo a filha babar na própria mão.
—Lucy Heartfilia, vai ficar um nome muito bonito também.—Respondeu a loira e ambas sorriram.
Apesar de Cacius e Lucy estarem absortos em um mundo de memórias até então desconhecidas por Lucy, o mundo físico continuava a milhão e naquela mesma hora, Rei corria como um felino por entre os corredores, até alcançar o quarto de seu mestre. Ao chegar lá, a morena se conteve, hesitante, já que lá havia uma Lucy desacordada e Cacius estava sentando na poltrona, olhando fixamente para a mesma, mas ao mesmo tempo, seu olhar parecia distante.
Rei nunca o vira assim tão concentrado, a não ser na vez em que os gêmeos acabaram se descontrolando e... Bem, aí já é outra história. Mesmo com a hesitação pulsando em suas veias, a garota se aproximou do loiro e o tocou, mas nada aconteceu, então ela se viu obrigada a ter que sacudi-lo e foi o que ela fez. Quando Cacius virou suas orbes verdes para ela, Rei por alguns instantes desejou que fosse invisível.
—O que você quer?—Indagou o loiro, sua voz não escondia a ira que sentia.
—Desculpe Cacius.—Disse Rei.—É que... Estamos numa emergência.
—Diga logo o que você quer!—Vociferou o rapaz, jogando o copo de vidro no chão, como se fosse uma demonstração de que se a garota o irritasse muito, seu fim seria bem semelhante.
—Ele tem cabelos cor de rosa bagunçados e usa magia de fogo que lembra a de um dragão. Usa roupas escuras e um cachecol branco, tem a língua maior que a boca e muita afiada, ou seja, é um idiota.—Repetiu Rei, usando a mesma frase que havia usado há alguns dias.—Ou seja, nós estamos sendo atacados e aquele idiota trouxe amiguinhos...
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