Colecionadores De Segredos.
25 Capítulo 23
Notas iniciais
“–Quem você pensa que é?
–Alguém que não se dá ao trabalho de esmurrar a porta dos outros para fazer uma pergunta estúpida.
–Chega de cinismo, Sasuke! – vociferou.
Estava uma fera. Estava farta. Estava cansada. Estava a ponto de explodir. E ele parecia estar apenas querendo atirar mais brasas à fogueira. Ela começava a odiar aquele rosto sem expressão que ele tinha. Aquela arrogância descomunal.
–Não fui eu que invadi uma ala proibida para fazer alguma idiotice. – refutou ainda suavemente atônito.
–Eu cansei da sua pretensão, Sasuke! – ela recomeçou – Dessa sua indolência arrogante e cínica. Quem você pensa que é para me chamar de covarde?! Você não sabe de nada!
E diante daqueles olhos, Sasuke não conseguia evitar lembrar.”
Capítulo 23
Naquela fatídica noite o Uchiha agradeceu pela porta não estar trancada e por não haver empregados ou qualquer outro ser humano vivo naquele recinto. Com ela ainda em seu colo ele vagueou pelo grande apartamento até encontrar as escadas, o que foi bem rápido. Apesar da coisa mais racional a se fazer fosse acender as luzes, ele optou por deixar o lógico de lado naquele momento por motivos que seriam mais explorados minutos depois.
O incômodo de carrega-la degraus a cima recomeçou a aflorar pela feição contorcida que seu rosto lenta e levemente adquiria. Ela o puxava para baixo com seus braços envolvendo seu pescoço como se quisesse derruba-lo. Ele parou no meio do caminho e se pegou olhando-a por entre seu nariz. Ela parecia se divertir com aquilo, mesmo inconsciente. E apesar da displicência em seu rosto ser palpável, ele se perguntava como uma pessoa poderia ser irritante até mesmo desmaiada – ou dormindo, no caso era uma mistura dos dois. Lembrou-se de Naruto. Apesar das diferenças entre eles, Sakura e o amigo eram parecidos. “Talvez por isso se deem tão bem.” Concluiu. Todavia, seus olhos se dispuseram a contemplar ligeiramente mais o corpo que ele segurava. Apesar de tudo, o delicado rosto afunilado que ela tinha não esboçava mudança alguma. Ela continuava ressonando ternamente pela boca entreaberta, baforando camadas cálidas de ar contra seu pescoço alvo. Ela ainda o enlaçava com seus braços, roçando o ouvido em seu peito, o abrigando naquele lugar escuro, naquela escada pela metade, naquela corrente de ar gélida, transportando seu calor brando para corpo rochoso e vão de uma maneira terna, sutil e acalentadora.
Não sentiu quando a ponta de seus dedos a apertou delicadamente
Perdeu-se em sua visão.
Perdeu-se.
Então levantou os olhos e o pé esquerdo jogando-o mais um degrau acima.
Não faltava muito para atingir o segundo andar.
–------------- xx --------------
Em sua vasta gama de experiências Sasuke sabia o útil e o agradável para ao menos imaginar como as plantas das casas ricas eram. Contudo, se deu o desplante de examinar minuciosamente cada cômodo que corria por seu olhar oblíquo, sem se desviar do caminho reto do corredor.
Uma decoração de bom gosto, afirmou. Clássica e moderna. Admiravelmente notória.
Um pouco mais a frente avistou alguns quartos. A maioria de portas fechadas, exceto o dela. Adentrou três passos sem pestanejar e esquadrinhou rapidamente. Nada de muito luxo, como uma vez pensara que teria. As cores eram delicadas, claras e límpidas – exceto pelo lençol púrpura avermelhado que quebrava aquela monotonia – Os móveis de madeira maciça eram de requinte e singelos. Encontrou duas portas que julgou corretamente serem o closet e o banheiro. Algumas fotos esparramadas pelas paredes e pelos aparadores – algumas com moldura, outras não.
E ele parou ali, naquele escuro caridoso.
Encontrava-se inerte àqueles três passos do batente. Pelo enorme vitral a luz da lua transpassava e resplandecia, acolhendo-os numa penumbra sigilosa. As cortinas brancas estavam presas.
O delicioso e embriagante cheiro de lavanda e cereja era abruptamente invadido e guerrilhava com o cheiro desagradável que ela mantinha. A disputa de odores trincava suas narinas, mas ele não dava a mínima. Apenas e unicamente fitava com certa fixação a cama king size de pés baixos, parecendo um futon acolchoado.
Mais uma vez, sem total consciência, a ponta de seus dedos firmaram-se na cintura fina da garota e em sua nuca, sutil e cuidadosamente aproximando-a mais de seu corpo delgado, reafirmando a segurança com que ele a carregava durante toda aquela hora.
Ele não queria soltá-la.
Não queria deixar de sentir o toque macio que ela tinha.
Não queria deixar aquele choque e sabor nostálgico que tilintava em um formigamento em seu peito após sentir o calor que ela lhe emanava.
Não queria deixar que aquela paz e serenidade se esvaíssem.
Porque era tão acolhedor.
Tão agradável e reconfortante que seu corpo movia-se deliberadamente, independente de sua personalidade.
Até que seu celular vibrou no bolso da calça e o arrastou a força até a cama, pé ante pé. Enquanto deslizava por seus braços o corpo franzino de Sakura, seguindo os movimentos de seu peito atentamente com os pálidos olhos ônix, ele confirmava aquilo que premeditou com a plena certeza. Sua paz de espírito se obliteraria à medida que os braços dela deixassem seu pescoço e aquele prazer cálido se rompesse, deixando-o só consigo mesmo, em sua pele marmórea e em seu frio habitual.
Ajeitou-a no colchão, correndo seus olhos pelo corpo atraente até parar em seu rosto. Ela remexeu em suas mãos que ainda a seguravam pela cintura, onde olhou de relance rapidamente. Então voltou ao ponto inicial.
Aquele rosto avermelhado estava perigosamente perto de seus olhos.
Ele a fitou por um tempo, escondendo as perguntas que recomeçava a angustia-lo em um martírio constante. Queria apenas ter aquela sensação de serenidade tácita por mais um pouco, seria pedir muito?
Sim, era quase uma extorsão. E ele sabia muito bem. Nunca quis tanto atender ao seu egocentrismo gritante, porém sempre soube que querer era praticamente um delírio em relação a poder.
Então retirou suas mãos dela subitamente e deu as costas, cortando impetuosamente aquela invisível corda tênue que o segurava a ela, caminhando para fora do quarto. Pegou o celular, instantaneamente rolou os olhos pela mensagem e se direcionou à porta de entrada.
Permitiu-se escorrer os dedos pelo cabelo liso e ofegar. Contorceu a boca reprovando-se.
O que estava fazendo?
Era a única pergunta que pungia sadicamente em sua mente. Não a respeito apenas ao seu comportamento inusitado em relação à rosada. Aparentemente seu autocontrole primordial decidira sair de férias.
Era um assassino.
Era um assassino.
Era um assassino.
Repetia consecutivamente para seus ouvidos.
Era um assassino.
Aposentado.
Que, no entanto, perdeu as estribeiras ao ver que estava novamente sobre o poder limiar da vida ou morte daquele garoto no bar. Gostava do poder, mesmo que fosse algo obscuro que reprimia pelo bem da profissionalidade. O mesmo poder que assistira o imundo asqueroso homem demonstrar quando matou sua família. O mesmo poder que ensanguentou macabramente suas mãos e seu pequeno sorriso sádico quando dilacerou, cegou e perfurou o rim do mesmo homem imundo no ápice de sua vingança, matando-o lentamente em sua própria casa, em sua própria sala. Como ele um dia fizera com seu pai, sua mãe e seu irmão.
Ele é um assassino especialista, frio, calculista, solitário e completamente indolente.
Ao menos era o que sabia até sair do submundo funesto onde alguém indigno de ser atendido por ser humano trazia crianças órfãs para um algor atroz dos piores pesadelos. Mais conhecido por chefe.
Essa era sua natureza adquirida pelo trauma.
Agora, repentinamente deveria se misturar e adaptar a sociedade do mundo branco.
Não contava que fosse assim, turbulento. Muito menos que uma garota traria tanta contraditoriedade e questionamentos, coisas inovadoras e sentimentos assustadores. Claro, ela não era totalmente culpada. Tinha sua tacha de 40% – apesar de ser mais do que o suficiente. A compressão que sentia era a maior vilã.
Então a resposta que ele se dera fora: “É uma mera questão de choque de adaptação e costumes. Se acalme e com o tempo vai estar tudo resolvido.”.
No fundo ele sabia que aquela desculpa esfarrapada e medíocre logo seria desmantelada pela verdade que pinicaria. Mas por hora bastava.
Antes de levar os dedos compridos e ágeis até a dura maçaneta ele notou as luzes apagadas e se deu conta.
Não era pelo fato de que já se acostumara à ausência de luzes. Era porque ele se identificava. E sabia duma maneira que gostaria de não saber que, se houvesse luzes acesas, então a penumbra amigável que o envolvia iria desvanecer.
Seus dedos, ainda formigando pelo calor recente, sentiram o choque ao se encostarem ao metal frio.
No fundo era nítido como o prateado clarão pálido da lua naquele céu. A tranquilidade que ele sentia através dela nada mais era que seu lado humano sendo cutucado à vara curta pela garota de cabelos róseos. Entretanto, como o óbvio aponta veemente, seu orgulho ainda não tomara nota e nem iria.
Escondeu a profunda tragada de ar que deu.
Quando abriu a porta e deu de cara com duas figuras afoitas e loiras ele estabeleceu a regra.
“Fique longe dela e estará bem. É só se controlar.”
–-Teme, você cuidou direitinho dela, não foi? – Naruto rosnou preocupado.
–-Eu não quero nem saber. – Ino não deu chance de resposta e adentrou abruptamente – Eu tenho que vê-la com meus próprios olhos.
Os dois a perseguiram com o olhar até que ela sumiu nas escadas escuras. Não acendeu as luzes por escolha como Sasuke, mais por esquecimento e afã.
–-Não respondeu minha pergunta – o loiro se voltou preocupado para o amigo.
–-Sinceramente – começou displicente – minha vontade era de larga-la no táxi – notou o olhar reprovador o fuzilar – mas fiz exatamente o que me pediu.
–-Onde ela está?
–-Na própria cama.
–-Não fez nada, certo? – embora a voz se mantivesse calma, havia uma ponta de desconfiança.
–-Apesar da vontade de rasgar a roupa dela ao meio e senti-la em mim eu fui um bom cãozinho obediente. – não segurou a risada debochada interna e muito menos o olhar cretino.
–-Teme... – Naruto rangeu os dentes e cerrou levemente os punhos, ainda ameaçador – Não tô pra suas brincadeiras irônicas idiotas hoje, Sasuke. É melhor calar essa boca.
–-Não seja patético, Dobe. Nunca me ocorreria a ideia insana de tocá-la, principalmente depois de hoje. Praticamente decretou que ela é sua e de mais ninguém. – “Mais um pouco e urinaria nela.” Completou mentalmente.
Naruto franziu o cenho um pouco irritado com a provocação. Não era exatamente assim. Apenas queria protegê-la, por um motivo meio vago que ainda não era totalmente esclarecido. Mas eram amigos. E como disse, amigos deviam se proteger. Claro, ainda havia aquela estranha sensação que cutucava seu peito e o dela, embora não tenha notado perfeitamente. Enfim, ele a protegeria, cuidaria, perderia o controle e surraria quem quer que fosse que a ameaçasse. Sem precisar de uma explicação plausível. Apenas isso e ponto.
Contudo, mesmo com a declaração um tanto quanto aliviante de Sasuke a tensão de Naruto não relaxou.
–-Eu vou vê-la. – declarou impetuosamente.
Sasuke o impediu pelo braço.
–-Não seja premeditado, idiota. A amiga dela está cuidando dela agora. Muito provavelmente lhe dando um banho. – acertou.
Naruto ponderou com uma sobrancelha erguida e chegou à conclusão que ele estava certo – como sempre. Bufou se livrando do amigo e do crispo em sua própria testa.
–-Então eu vou sentar e esperar.
–-Naruto, você não está em um hospital esperando pelo horário de visita. Já é tarde, vamos. – admoestou inutilmente. O loiro já se sentara na poltrona mais próxima. Teimoso como sempre.
–-Não quero saber. Só saio depois de vê-la.
Sasuke o fitou com os olhos frios. Era sua vez de ponderar. Sabia – e como sabia – que quando o amigo pentelho e teimoso feito uma mula enfiava alguma coisa na cabeça dura e loira estava tudo perdido.
“Debaixo daqueles tufos de cabelo amarelo deve ter um enorme espaço vão.” Disse mentalmente enquanto cerrava os olhos, relaxava os ombros, massageava a têmpora e suspirava profundamente. Tudo simultaneamente.
–-Tudo bem então – começou a caminhar até as escadas.
–-O-Oye! – o loiro acompanhou o amigo se afastar – Aonde tá indo?
–-Me distrair. – respondeu já de longe.
“Já que é para esperar.” Completou para si. Minutos mais cedo, enquanto procurava o quarto dela, avistara algo peculiar e resolveu sanar sua curiosidade.
Naruto olhava para escadas, confuso.
Na sala escura duas amostras do céu resplandeciam hipnotizantemente solitárias.
–------------- xx --------------
Primeiro as pernas, manteve-a de pé, depois o quadril no fundo da porcelana, os pelos rosados se eriçaram instantaneamente com o choque, então ajeitou os braços e a nuca. A banheira cheia e quente quase transbordou quando a colocou. “Saco! Enchi demais.” Repreendeu-se mentalmente, olhando a garota parcialmente imersa de um ângulo um pouco afastado, com ambas as mãos na cintura. Fitava atenciosamente, principalmente o rosto. Teve todo o cuidado minimalista de apoiar a cabeça suavemente para o lado – se ela vomitasse durante o banho, pelo menos não engasgaria. Nunca se sabe.
Algumas poças pequenas de água espalharam-se pelo chão.
“Ah, Sakura” exasperou com um olhar pesado e um lábio levemente torto “Olha como você tá agora. Cada vez que te vejo tá de um jeito pior que o outro. Ou com pesadelos ou com qualquer que seja o raio de motivo pelo qual ficou daquele jeito.” A imagem da amiga naquele mesmo apartamento horas antes caminhava sádica com dedinhos rodopiantes de volta para sua mente. Ino tratou de pugna-la logo.
Porém, não era apenas o rosto da loira que estava visivelmente cansado. Sakura também. No entanto, não era algo pragmático como o que fazia Ino suspirar. Sakura estava cansada de estar cansada. Cansada de si e suas palavras. Aquilo estava a matando e seu corpo apenas reagia transbordando como a banheira pelo semblante exaurido a que os traços delicados se submeteram.
Ino continuou a fita-la com um olhar pesado, tombado e complacente. Sentia o cheiro do cansaço exalado. Estava espalhado e quase impregnava – claro, junto com o cheiro de bebida nas roupas que deixara num canto.
Suspirou novamente e aliviou o semblante. Tirou suas mãos da cintura à medida que se aproximava da banheira e se sentou sobre seus joelhos, sobre seus jeans sujos e agora úmidos. Afastou os cabelos para trás e pegou a bucha mais próxima. Delicadamente pegou um dos braços do corpo nu de Sakura e começou a esfregar.
Não fora tão difícil carrega-la. Apesar do estado mórbido, Sakura já não estava mais completamente inconsciente e ajudou, por reflexo, a se equilibrar sobre o corpo da amiga.
–-Hey, testuda – começou branda, com um sorriso implicante e gentil escapulindo pelos lábios – a coisa tá feia, hein?! Nem provou cerveja direito e já achou que podia sair catando toda a garrafa que encontrasse? – falava baixinho, apenas para as duas – E aqueles dois? Está mais rápida que eu. Mas tudo bem.
Tudo bem.
–-Você é minha melhor amiga. Você pode me contar as coisas, não precisa ter medo ou esconder, não seja a durona. Não está sozinha.
Não estava sozinha...
–-Sabe, você quase me matou de preocupação. – parou de esfregar. Apenas a fitou. – E está me matando agora. Por favor, Sakura, no que está se metendo?
Os segundos pareciam despencar e tornar-se inteiramente inertes.
–-Qualquer que seja a bagunça que esteja fazendo, eu vou te ajudar a limpar. Eu vou estar aqui testuda, mas não vou ver você se destruir. – sentiu uma pontada no estômago. Recomeçou a esfrega-la. – Não como eu me destruí.
A espuma macia e branquinha envolvia sua mão com inocência à medida que ela limpava o braço adormecido da rosada.
Ao redor de Ino, ao redor de seus jeans úmidos e do prelúdio de sua agonia, as pequenas poças reluziam com a lâmpada.
E aquelas poças no chão eram apenas pequenas transbordadas poças de Sakura.
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Durante aproximadamente meia hora Ino esteve com Sakura, lavando, vestindo e limpando o banheiro. Claro, durante esse tempo Naruto permaneceu estático na poltrona. Atento e de prontidão para qualquer coisa que fosse preciso e para qualquer momento que pudesse subir para vê-la.
Sasuke se recostou à banqueta macia, naquela saleta que encontrou pelos corredores, junto ao piano. Ele não resistira. Não se aguentou e roçou os dedos pelos dentes cândidos. Afagou a borda de madeira e sentiu a textura lisa e escorregadia. Deliciosa.
Não era porque eram assassinos que eram seres grotescos, brutos e ignorantes. Sumariamente, tinham mais classe, requinte e conhecimento que a maioria de seus colegas. Aparentemente, seu chefe era alguém notoriamente infame que se dava ao gosto de ensinar as proezas e artes do mundo para seus empregados. Uma delas – que tanto Sasuke quanto Naruto aprenderam – foi o piano. Sabia tocar perfeitamente bem. Melhor que muitos pianistas de sucesso.
Porém, estava destreinado. Há um bom tempo não tocava. Então quando viu o instrumento a deriva não resistiu.
A melodia se compunha tacitamente pelo ambiente.
E com esta melodia, ainda não atingida por seus ouvidos, que Ino sentiu o celular vibrar no bolso. Estava vestindo a mórbida amiga em cima da cama. Procurou pelo aparelho com uma mão enquanto a outra equilibrava Sakura e, com o rosto franzido pela dificuldade, levou o aparelho ao ouvido.
Nem ao menos se dera ao trabalho para olhar o nome na tela. Seu rosto dispersou os vincos para substituí-los por imóveis tentativas de protestos, em lábios contorcidos e indignações gritantes presas em sua garganta a cada palavra ouvida e assimilada. Porém, não conseguiu dizer uma mínima vogal.
Não tinha espaços para vogais.
Quando a linha caiu, do outro lado, ela quis atirar o telefone para longe. Queria gritar e expelir os xingamentos embargados.
Tampouco espaços para xingamentos.
Levou a mão aos cabelos e se contorceu, se segurou, tentou conter – inutilmente – a tribulação lasciva que nascia na boca de seu estômago. Levou os pés de um lado ao outro euforicamente e forçou-se a pensar.
Mal havia espaços para ideias.
Porém, ela conseguiu encontrar um viés. Seu único viés de escapatória naquela linda roupa que se ia tecendo pela noite. E ele era loiro de olhos azuis tanto quanto ela. Seu rosto se iluminou diante de seus lábios entreabertos e trêmulos como sua respiração descontrolada. Ela não queria aquela opção, mas não teve escolha. A imagem assustadora do bar volvia, entretanto, ela a exilou para que sua consciência a acusasse depois. Puxou o máximo de ar que conseguiu e tentou mediocremente se acalmar. Saiu apressada do quarto e correu pelas escadas, sobressaltando o loiro, fazendo-o se levantar num instante. “O que foi?” foram as palavras preocupadas que os lábios finos dele articularam. Então ela explicou tudo da maneira mais prática que encontrou. E ele assentiu sério, com o peso da responsabilidade em suas mãos – e claro, todas as ameaças. Ao menos esperou que ela saísse pela porta para marchar para o quarto. Contraditoriamente ela o fitou – em um deslumbre por cima do ombro – subir afoito, não pode evitar. A mão entre a porta e o batente. Estava desconfiada, lógico. Eram dois completos estranhos que demonstraram sua força bruta, apesar de ter sido a favor de Sakura. Ainda assim, parecia que estava entregando o carneiro adormecido aos lobos famintos.
O olhar receoso entortou seus lábios mais uma vez e crispou seu cenho. Uma sobrancelha arqueada, outra franzida em sua ponderação.
Sem saber exatamente o motivo, confiava em Naruto. Ele emanava esse ar simpático de uma confiança segura. Talvez pelo seu jeito bobo. Então ela só podia confiar nele. O lobo “menos mau”. Em Sasuke, seu pé se mantinha exageradamente atrás do que o necessário. Ele era completamente indiferente. Intensamente misterioso... Vago. Oblíquo. O que era seu charme era seu maior defeito – ao menos naquela ocasião.
Seu momento de reflexão não durou muito tempo. Apenas até seu celular tremer em sua mão. Olhou a tela de relance e o nome mãe brilhava no escuro. “Já deve estar lá em baixo, me esperando.” Concluiu.
A apreensibilidade e depois desistência. Foi o que agora era refletido nos orbes azuis celestes.
Relaxou em um arquejo e puxou a porta com seu corpo para fora.
Deveria, tinha e só podia confiar no loiro. Deixaria Sakura a seus cuidados e confiava que ele não iria deixar Sasuke fazer algo errado.
Apesar de não sentir suas mãos lavadas, apenas preocupações, bateu a porta sem fazer barulho.
Não havia espaços para palavras, vozes, xingamentos, barulhos ou ideias. Apenas para a confortável melodia que se arrastava afavelmente pelo lugar. Ela era grande o suficiente.
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