Colecionadora de Universos
15 Crash
Me lembro de olhar para minha mãe com um misto de inveja e admiração. No início de meus anos de adolescente desengonçada, ela era minha principal modelo. Ainda é fresca em minha memória a imagem dela com os cabelos escuros caindo em ondas pesadas até logo abaixo dos seios, com os vestidos românticos e as camisolas elegantes. Eu queria ser como ela. E ela me dizia para ter paciência.
Aos domingos, sempre fazíamos bolo. Desde muito pequena, ela sempre me levou para a cozinha. Deixava que eu misturasse os ingredientes e não se importava se o chão fosse recoberto por uma camada de farinha. Conforme minhas irmãs foram nascendo, mamãe começou a criar um batalhão de confeiteiras. Lembro-me do cheiro de bolo, da luz do fim de tarde entrando pela janela e de meu pai a girando pelo ar e a cobrindo de beijos. Papai sempre estava em casa aos domingos.
Meus pais pareciam tirados de um filme de romance. Sempre que estavam juntos, estavam próximos. Abraçados, de mãos dadas, afagando os cabelos um do outro. Eu pedia incontáveis vezes para que me contassem a história de quando haviam se conhecido, e eles me contavam. Quando criança, pensava que mamãe era uma princesa e papai um príncipe.
Eu era a mais velha de três irmãs e faltava apenas uma semana para meu aniversário de quinze anos quando aconteceu. Às sete da manhã, fui andando para o colégio, que ficava a três quadras de casa, e mamãe levou minhas irmãs para a escola que ficava em outro bairro. Era segunda-feira, e eu não via papai desde a última sexta. Viagem de trabalho de última hora, mamãe disse.
O sol ardia sobre minha cabeça quando cheguei em casa para o almoço e o ar quente de fevereiro era sufocante. Interfonei e ninguém atendeu. O carro de mamãe estava na garagem. Vasculhei minha mochila atrás do molho de chaves que raramente usava. Quando entrei pelo portão, tudo parecia estranho. A porta estava fechada e eu não ouvia as vozezinhas de minhas irmãs, a casa parecia vazia.
Destranquei a porta da sala e meu mundo parou.
Senti toda a pressão da atmosfera me comprimindo, meu coração disparando e meus músculos sendo paralisados. Não sei quanto tempo passei ali, entre o batente da porta. Olhando.
Mamãe estava caída. Os olhos encaravam o teto, a boca entreaberta parecia ter parado em meio a um grito. Um filete de sangue havia escorrido de seu nariz deixando um rastro seco.
Quando finalmente consegui me mexer, liguei para o papai. Vinte e seis chamadas perdidas. Estava viajando a trabalho.
Meus avós me buscaram, cuidaram das burocracias, do velório, do depoimento que tive que prestar. Eles se sentiam culpados, mas a culpa não era deles.
Das coisas que herdei de mamãe, fiquei com o caderno de receitas e os diários. Eu li, não me importei de invadir sua privacidade. Essa não tinha sido a primeira vez, mas foi a única com o fim de uma vida. Quinze anos antes, mamãe também tivera vinte e seis ligações perdidas. Ligações rejeitadas. A euforia foi seguida pelo crash, e dessa vez eles estavam frente a frente.
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