QUARTA-FEIRA

FINN

A tarde já estava acabando, quando Finn pulou na água, junto com Max. A superfície do lago tremeu quando os corpos dos dois garotos se chocaram com ela.

Eles eram melhores amigos desde... Sempre.

Suas mães se conheceram muito antes de eles nascerem, na faculdade. As duas cursaram administração. Eram melhores amigas também. Engravidaram no mesmo mês. Era uma coisa muito esquisita. Max nasceu dois dias antes de Finn, e se gabava por isso.

Finn emergiu da água, sacudindo a cabeça para tirar o excesso do líquido de seus cabelos loiros.

Max já tinha se sentado em uma pedra no lago, esticando as pernas, alongando-se. Finn encarou o amigo.

Analisou todo o corpo dele, como sempre fazia quando tinha a oportunidade.

Secretamente, Finn era apaixonado por Max. Ninguém além dele mesmo sabia disso. Se algum dia alguém desconfiasse, seria o apocalipse para ele.

Gostava do melhor amigo desde que tinham quinze anos, que foi quando os corpos deles começaram a mudar.

Sete anos se passaram e ele nunca admitiu isso para o amigo. E nunca admitiria. Continuaria sendo seu maior segredo.

– Você tá pensando em quê? – perguntou Max.

Finn se assustou. Estava olhando para o amigo sem camisa. Corou.

– Nada. Quer dizer... Em nada mesmo. –mentiu.

– Aham. Tá bom. – Max se levantou e pulou na água de novo, espirrando-a em Finn. – Você sempre se perde nos seus pensamentos. Eu daria qualquer coisa pra saber no quê você pensa.

Finn pensou no que responder.

– Não. Você não gostaria de saber no que eu penso.

Max riu.

– Você é meu melhor amigo. Claro que eu gostaria de saber.

O garoto revirou os olhos.

– Tanto faz. – foi até a pedra e sentou-se ao lado de Max, tomando cuidado para que não ficasse muito perto do amigo e seus hormônios acordarem.

Max ficou em pé e olhou para a água. Estava quieto, provavelmente ainda pensando em como convencer o amigo a falar no que estava pensando.

– Vamos voltar? – perguntou, mudando totalmente de assunto. – Está quase na hora da fogueira.

Finn ficou aliviado pelo amigo ter trocado o rumo da conversa. Mas, também ficou chateado, porque não ficaria ali observando o amigo sem camisa. Os dois estavam no mesmo chalé, então isso não era uma das maiores preocupações de Finn no momento.

– Claro. – e ele se levantou também. – Vamos ver quem chega mais rápido.

E os dois pularam na água, apostando corrida, como faziam quando tinha doze anos.

***

NATHAN

Nathan estacionou o carro.

– Você tem certeza de que quer fazer isso? – perguntou.

Hester pareceu examinar a pergunta.

– Tenho. – respondeu, depois de pensar por alguns segundos.

Saltaram do carro, Nathan indo até a porta de trás, para pegar Maggie, que estava no banco traseiro.

Pegou-a no colo.

– Você sabe que não precisa fazer isso né?

Hester, que estava de costas para ele, respondeu:

– Ela é filha da minha melhor amiga. Merece um futuro digno. Não merece ficar em um acampamento que tem um serial killer à solta.

Maggie estava que dormindo, suspirou.

Nathan concordou.

Os dois andaram até a porta do orfanato, que ficava a duas horas do acampamento. Bateram à porta.

Escutaram passos vindos em direção a eles. Uma mulher loira, vestida toda de azul abriu a porta.

– Em que posso ajudar? – perguntou.

Hester tentou sorrir.

– Ham... Nós queríamos deixar uma criança aqui... A mãe dela morreu e...

A atendente ficava olhando fixamente para a orelha faltando de Hester.

– Não é muito educado ficar olhando para as orelhas dos outros, senhora. – disse Nathan um pouco irritado.

– Ah sim. – a moça ficou envergonhada. – Sim, sim. Entrem.

Os três entraram.

Crianças corriam por toda a sala. Eram cinco ao todo. Três meninos e duas meninas. Eles pareciam tão felizes.

Por um minuto, Hester vacilou em sua decisão de entregar a filha de Chanel #2 para uma estranha qualquer em um orfanato qualquer.

Na verdade, eles tinham pesquisado muitos orfanatos mais perto, para que pudessem visitá-la todos os finais de semana, mas o orfanato mais perto era aquele. A duas horas de viagem.

– Posso pegá-la? – perguntou a atendente.

– Claro. – Nathan entregou Maggie para ela, um pouco relutante. Os dois tinham se apegado a bebê.

A moça colocou-a em um berço, para que pudesse dormir em paz.

– Ela vai estranhar quando acordar, mas logo vai se acostumar. –comentou. – Mas, enfim. Vamos preencher a papelada. Sigam-me.

Hester e Nathan, que estavam observando Maggie dormir, seguiram a moça.

– Vou sentir saudades dela. – disse a garota.

***

CHANEL

Chanel ajeitou o rabo de cavalo loiro em cima de sua cabeça. Estava cansada de ficar caminhando pelo acampamento, procurando lenha para a fogueira daquela noite. Suspirou e bufou, quando viu que Alec a tinha abandonado sozinha. Revirou os olhos.

Estava em uma parte muito densa da floresta. E estava sozinha. Era uma cena perfeita para um serial killer matá-la.

Andou até uma clareira, onde encontrou uma mulher sentada na grama. Ela era totalmente familiar para Chanel.

Aquela mulher era Helena, a bruxa imortal que a tinha ressuscitado.

Ela não perderia a chance de provocá-la.

– Não sabia que piranhas sobreviviam fora d’água. – disse.

Helena virou-se, os cabelos castanhos caindo sobre os ombros.

– E nem eu sabia que vacas pastavam nas florestas.

Chanel revirou os olhos.

– Achei que você estivesse aprisionada.

– Eu estava. Até a sua antiga amiguinha, a projeto de piranha #2 morrer. O colar foi quebrado e agora estou aqui. Não estava pronta para sair.

Chanel bufou mais uma vez.

– Pelo amor de Deus! Para de babaquice! Essa história de “ai, não estou pronta! Me aprisiona em uma concha para a eternidade?” já encheu meu saco! E olha que eu nem tenho um! Quer dizer... Já encheu minha paciência! Se orienta, mulher!

Helena ficou olhando para Chanel, sem nenhuma emoção.

– Não sei se você se lembra, mas, quem tem poderes aqui e quem pode acabar com sua vida em um estalar de dedos sou eu.

Ela se levantou da pedra em que estava sentada.

Chanel engoliu em seco.

– Agora, Chanel... – ela foi se aproximando da garota. – Pare de ser essa menina fútil que você é! Ninguém gosta de você porque você é uma ridícula, que só pensa em acabar com a vida dos doutros para obter sua própria felicidade!

– Você não entende...

Helena gargalhou.

– Claro que entendo! Seus pais te abandonaram naquela universidade. Não se importaram quando você morreu. E o mais importante: eles não te amam!

Aquelas palavras atingiram Chanel como um tapa.

– E ainda por cima – continuou Helena – está apaixonada pela Hester e não cria coragem para dizer nada para ela!

Aquela foi a gota d’água para Chanel. Ela levantou a mão e bateu na cara de Helena. O impacto fez com que a morena perdesse o equilíbrio e caísse no chão.

Chanel suspirou.

Helena se levantou, morrendo de raiva.

– Seus dias estão contados, Oberlin. Um dia eu ainda te mato!

E então, a bruxa desapareceu.

A loira suspirou, cansada. As palavras de Helena ecoavam em sua mente. Helena estava certa sobre tudo o que disse. Mas, ela ainda não entendia como ela sabia sobre Hester.

Só chegou a uma conclusão: Helena tinha lido sua mente.

– Vadia! – gritou Chanel, deitando-se na grama. – Um dia você me paga!

***

QUINTA-FEIRA

ARIANE

Era a hora da fogueira. Ariane estava morrendo de fome, mas não poderia sair do escritório de Mr. Joseph. Estava proibida. Tinha sido acusada de um crime que ela não cometera. Estava exausta. Passara o dia inteiro respondendo perguntas e sendo arrasada pelo mestre do acampamento.

Olhava pela janela a fogueira. Ficava um pouco longe do escritório, mas dava para ver um ponto laranja, que era a fogueira.

Seu estômago roncou. A essa hora, era pra ela estar em seu chalé, alisando sua coleção de colheres e pedindo o jantar pelo telefone, alegando que sua alergia (que não existia) estava atacando.

Suspirou.

Sentou-se na poltrona de couro, esperando alguém chegar. O quê não aconteceu.

Com o tédio, acabou dormindo.

***

Quando acordou, viu que o chão estava um pouco distante dela. Isso foi a primeira coisa que ela notou. A segunda foi que ela não estava mais no escritório de Mr. Joseph. E a terceira... Bem... Ela estava sendo carregada.

Ela não sabia por quem. Apenas viu um vislumbre de uma roupa vermelha. A pessoa poderia ser um funcionário do acampamento a levando para comer. Seu nariz coçou. Ela foi levantar o braço para coçá-lo e percebeu que estava amarrada. Bem, aquilo não era uma missão de resgate. O desespero começou a crescer em seu peito. Ela não tinha ideia do que estava acontecendo... Ou o que estava prestes a acontecer. Fechou os olhos, com medo.

Quando abriu, ela tinha sido colocada amarrada em um tronco de árvore cortado. A terra embaixo dela estava incinerada, com cinzas de madeira.

Ela estava em cima da fogueira, que tinha sido apagada. Olhou em volta. Tudo estava apagado. Ninguém estava lá fora. O toque de recolher já deveria ter tocado. Ariane chutou que deveriam ser umas duas horas da manhã de quinta-feira. Tentou se mexer. Os nós estavam muito fortes.

Ela desistiu quando sentiu as cordas cortarem a pele de seus braços. Pensou em gritar, mas já estavam todos dormindo. Ninguém a escutaria.

Decidiu ficar calma. Isso com certeza era uma brincadeira feita por alguém, para assustá-la.

Ouviu um barulho. Eram passos. Eles vinham de trás dela.

Ariane tentou se virar, mas não conseguiu. A pessoa provavelmente já a tinha visto, porque os passos estavam ficando mais próximos. Quando sentiu alguém parar atrás de suas costas, disse:

– Ainda bem que você veio. Estou amarrada aqui tem algumas hor...

Ela parou de falar quando sentiu um líquido escorrer por sua pele. Ariane reconheceu o cheiro imediatamente...

...Era gasolina.

– Olha... – ela tentou se virar, desesperada. – Eu não sei que tipo de brincadeira é essa, mas ME DEIXA SAIR! –Ela gritou as três últimas palavras, para dar mais ênfase.

A pessoa misteriosa não disse uma única palavra. A gasolina continuava caindo sobre ela, encharcando suas roupas, cabelo e pele.

Ela iria à cabine de Mr. Joseph no dia seguinte e pediria para expulsar do acampamento o engraçadinho que estava fazendo isso com ela.

Um pano foi colocado em cima de sua boca, como uma mordaça. Foi amarrado em sua nuca, impossibilitando-a de falar qualquer coisa.

Quando a gasolina finalmente parou de cair, ela achou que tudo tinha acabado. Mas, ela estava errada.

O vulto foi para sua frente e, mesmo na escuridão da noite, ela notou que era uma pessoa fantasiada...

...De Demônio Vermelho.

Essa era a pessoa que deveria ser punida. E não ela. A pessoa que tinha matado a tal de Chanel #2 no dia anterior estava na sua frente! Ela com certeza ia denunciá-lo quando saísse dali.

Estava radiante com a hipótese de não ser mais culpada, que não notou quando o demônio puxou um isqueiro do bolso da capa.

De repente, o Demônio Vermelho tirou sua mordaça. Ela não perdeu a chance de dizer:

– O quê você vai fazer com isso? – ela perguntou, tentando segurar o terror em sua voz.

De repente, as peças se encaixaram em sua mente.

Local da fogueira.

Gasolina.

Fogo.

Demônio Vermelho.

Assassinato.

Ela seria assassinada! Seria queimada viva! O desespero cresceu em sua garganta, impossibilitando-a de falar. Ela apenas chorava. Chorava feito um bebê. Fechou os olhos. Queria que aquilo fosse só um sonho.

Era só um sonho. Ela acordaria bem na poltrona do escritório de Mr. Joseph. Seu coração batia forte em seu peito.

Escutou algo cair no chão. Não arriscou olhar o que era. Mas, ela sabia, de qualquer maneira.

Suas suspeitas se concretizaram quando ela sentiu o calor. Começou em seus pés, e foi se espalhando por todo o corpo. No início, era como estar tomando banho de sol em uma praia. Mas, em seguida, veio a dor. Sua pele estava adquirindo um tom avermelhado. Ela gritou de dor. Abriu os olhos e viu o Red Devil correndo para longe dela.

Gritava e gritava, seus gritos preenchendo a noite.

Ninguém veio socorrê-la.

Seus cabelos estavam em chamas.

Sua pele não tinha mais a cor de pêssego de sempre.

Ela era uma tocha humana.

E estava morrendo.

Notas finais
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