Cold Heart
1 Capítulo Único
Notas iniciais
É engraçado o como coisas simplórias ás vezes se tornam tão vitais.
Ambos estavam sentados num amplo morro que dava, ao sopé, direto para o deslumbrante e antigo palácio de gelo que ela construíra tempos antes.
Ela, rainha de todo um reino, não entendia como aquele serzinho magricelo, que tinha os mesmos poderes que um dia aterrorizaram seus súditos, era adorado por todos, especialmente pelas crianças, que diziam seu nome com uma reverência encantada nas noites de inverno.
Ele, guardião da infância do mundo, não conseguia, ao olhar para a jovem mortal que governava uma província inteira, compreender como uma criatura tão bela e encantadora podia ter causado temor á alguém.
- Como está sua irmã? – ele murmurou, com um delicado e inusitado rubor manchando-lhe o rosto pálido.
- Bem... – ela o encarou, rindo-se mentalmente quando notou a timidez do garoto.
Ele balançou o bastão em sua mão, cutucando distraidamente a ponta, como se tentasse desviar sua cabeça de seus pensamentos soturnos.
- Pare com isso, Jack.
A voz dela soou em tom de censura, mas era impossível não perceber o divertimento em seu rosto.
Jack sorriu, batendo de leve com a ponta do bastão na grama coalhada de neve.
Uma nuvenzinha gelada brotou dali, se erguendo no ar etereamente até tomar a forma de um ursinho de pelúcia.
A risada dela chacoalhou os sentidos de Jack.
- Muito fofo...
- Está zombando de mim, Elsa.
- Não estou não... – Elsa se ergueu, esfregando as mãos, animada – minha vez.
Ele admirou, encantado, Elsa produzir um grande tobogã de gelo, estendido desde onde estavam até a base do morro.
- Eu não vou escorregar aí. Nem pensar.
- Ah, Frost...
Jack olhou para ela. Parecia uma garotinha outra vez, extasiada para uma brincadeira emocionante.
Como recusar?
Jack se jogou dentro do tobogã, rindo. Elsa o seguiu, tomando o cuidado de dobrar seu vestido para que o gelo não o rasgasse.
Mas quis o destino, ou talvez a ingenuidade de Jack, que ele calculasse mal a distância. Faltando apenas alguns centímetros para o grande escorregador congelado acabar, o guardião derrapou numa cambalhota, estirando-se de modo cômico na neve que afundou com seu peso. Elsa também cometeu o mesmo erro, tropeçando em sua capa e caindo ao lado de Jack.
A rainha se levantou rapidamente, assustada ao ver Jack sem reagir, e, finalmente, ficando aliviada ao vê-lo chacoalhar-se na neve, gargalhando.
- Que susto, Jack...
O garoto se arrepiou. Ela havia sussurrado a frase como uma carícia preocupada.
- O que foi? Ficou com medo que eu congelasse? – ele piscou, sarcástico.
- Claro que não – Elsa fungou, sorrindo.
- Pois foi erro seu. Eu já congelei.
A rainha franziu o cenho, confusa e ligeiramente tensa ao ver os olhos claros do guardião encarando-a, dissolvendo-se nos seus.
Elsa se aproximou, capengando na neve como um patinho, até ficar ao lado de Jack.
- Explique esse congelamento repentino, moço – ela brincou.
- Foi aqui... olha.
Jack segurou a delicada mão da rainha, e, para o espanto de Elsa, levou-a ao seu peito.
Elsa corou, parecendo surpresa e ainda mais desorientada.
O que determina as reações do ser humano, afinal?
Pois, quando Elsa se inclinou para plantar um beijinho brincalhão na bochecha de Jack, algo inesperado aconteceu.
Por que Jack não conseguiu explicar a repentina necessidade de virar o rosto mais alguns centímetros.
Por que ele não entendeu o que aconteceria até ser tarde demais.
Por que nem conseguiu pensar quando os lábios surpreendentemente quentes da rainha pousaram delicadamente em seus próprios lábios gélidos.
Elsa se afastou, espantada e ainda mais ruborizada.
O guardião parecia alarmado.
- Elsa... eu... eu... desculpe... eu não devia...
Jack nem conseguiu terminar a frase.
Pois as mãos de Elsa abarcaram seu rosto, frias como o mármore, mas delicadas como a seda. Jack simplesmente só pode encarar, hipnotizado, o rosto da rainha, enquanto ela o beijava... agora, de verdade.
O que era aquela vibração congelante ao redor? Parecia que a própria neve se erguia, tentando encobrir aquela delicada e furtiva demonstração de carinho.
O bastão de Jack se soltou de sua mão, afundando na neve, enquanto os braços do guardião se entrelaçavam na cintura de Elsa, aproximando-a de seu corpo.
Jack sentia algo engraçado no peito. Um tipo de queimação gelada, que dominava por completo seu interior. Estava tão perto da rainha, que podia sentir, em sua pele, as batidas aceleradas do coração de Elsa.
E ela também se admirou, sentindo aquele beijo adoravelmente frio, com a pulsação rápida que vinha do guardião.
Tudo foi tão inusitado que, quando finalmente se separaram, mal conseguiram articular palavra.
Jack parecia envergonhado, agarrando de volta o bastão que deixara cair. Elsa abraçou o próprio corpo, apenas observando-o, muda.
Mas, no fundo do olhar dele, estavam todas as palavras não ditas.
E, no mar dos olhos dela, ele pôde ver a resposta.
Ambos agora começariam a aprender...
Aprender que, uma vez que o coração é congelado nas muralhas do amor, é quase impossível derretê-la.
Um simples beijo. Com mais sentimentos do que se poderia dizer com palavras.
É engraçado o como coisas simplórias ás vezes se tornam tão vitais..
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"As mais lindas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar."
(Leonardo da Vinci)
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